O céu sobre Velaskia estava carregado de nuvens cinzentas quando Soraja atravessou as ruas vazias da cidade. Não havia sinal de Kaelvor ou dos outros; apenas um vento pesado soprava poeira contra os muros de pedra. Ela havia aprendido a lidar com a solidão desde que se separaram, mas agora, pela primeira vez, sentia o peso de estar completamente sozinha. Seu coração batia rápido, não pelo medo, mas pela expectativa. Sabia que, em algum ponto, os Valetes viriam atrás dela. E quando a tempestade começou a se formar, com trovões que cortavam o céu como lâminas, ela percebeu que sua espera havia terminado.

Das nuvens, desceu Gallia da Tempestade, envolta em relâmpagos que dançavam em volta de sua armadura azul-escura. Os olhos da Valete brilhavam como raios contidos.

— Então você é a porteira que ousa desafiar os deuses — disse Gallia, a voz ecoando como trovão. — Está sozinha, sem chave, sem aliados. Não passa de uma sombra frágil.

Soraja respirou fundo, os dedos roçando nas maçanetas douradas que trazia presas na cintura. Anorith havia lhe ensinado muito. Talvez tivesse roubado sua chave, mas ele a fizera despertar para novas possibilidades. Agora era a hora de provar que não precisava mais se apoiar em ninguém para abrir caminho.

Gallia ergueu a mão e uma lança feita de raios tomou forma, tilintando no ar como uma tempestade prestes a explodir. Ela lançou a arma com força devastadora. Soraja ergueu uma porta pesada à sua frente, de madeira maciça e ferragens douradas. Por um instante, pensou que não conseguiria sustentar. Mas sentiu seus músculos se tensionarem, o suor descer pela testa, e a porta se abriu sob sua força. Um clarão atravessou, mas foi absorvido pelo peso colossal da madeira, que resistiu.

— Consegui… — murmurou Soraja, firme.

Gallia franziu o cenho. — Interessante. Parece que não é tão inútil quanto eu esperava.

Soraja não respondeu. No instante seguinte, arrancou a maçaneta da porta com um estalo metálico, fechando o punho em torno dela. Transformada em uma espécie de soco-inglês, a peça dourada brilhou com a energia que ela canalizava. Soraja avançou, girando o corpo com precisão, e acertou Gallia no peito. O impacto soou como um trovão contido, arremessando a Valete alguns metros para trás.

Gallia sorriu, e o ar vibrou em relâmpagos. — Você aprendeu a usar lixo como arma. Ainda assim, lixo será.

— Não — respondeu Soraja, erguendo a mão. — Eu aprendi a abrir caminhos.

Com um gesto firme, uma nova porta se abriu no ar, pequena e brilhante. Não era como as de antes. Esta não conduzia a um destino caótico e imprevisível: ela sabia exatamente onde terminava. Do outro lado, a imagem de um beco estreito, a cem pés dali. Gallia, surpreendida, avançou contra Soraja, mas quando ergueu a lança, foi sugada pela porta curta e reapareceu exatamente no beco que Soraja havia previsto.

Gallia rugiu de fúria, raios explodindo ao redor. — Insolente!

Soraja respirava ofegante. A cada porta, drenava mais de si mesma, mas estava feliz. Não era mais a menina que abria passagens sem controle. Não precisava de uma chave para lutar. Estava forjando o próprio estilo, duro e imprevisível.

A tempestade rugiu mais alto. Gallia voou de volta para a praça, relâmpagos envolvendo sua lança. Um golpe certeiro atravessou a defesa de Soraja, arremessando-a contra o muro. Sangue escorreu por sua testa. Ela tentou levantar, mas seus joelhos falharam. Gallia se aproximou, passo a passo.

— Você até resistiu mais do que pensei. Mas no fim, continua sendo apenas uma aprendiz — disse a Valete, erguendo a lança.

De repente, um raio diferente cortou o céu. Mas não era da tempestade. Anorith surgiu na praça, mancando, os olhos queimando em esforço. O último chaveiro, o traidor, o ambíguo, reaparecia.

— Pare, Gallia! — gritou ele, tossindo sangue. — Essa garota ainda tem muito mais para mostrar!

Gallia girou a lança, e um relâmpago atravessou o corpo de Anorith. Ele caiu de joelhos, tossindo mais sangue, mas segurando firme uma chave dourada reluzente. Com a última de suas forças, estendeu o objeto em direção a Soraja.

— Você já não precisa de mim. Mas talvez… ainda precise disso. — Ele sorriu, fraco. — Agora, abra portas para o futuro.

Soraja arregalou os olhos, lágrimas se misturando ao sangue. Ela se arrastou, pegou a chave e a sentiu vibrar em suas mãos. Gallia avançou de novo, pronta para o golpe final, mas Soraja enfiou a chave na fechadura de uma das portas pesadas que havia invocado. A madeira tremeu, e quando a porta se abriu, um clarão dourado surgiu.

De repente, duas portas se ergueram, paralelas, conectadas entre si como espelhos. Gallia, atônita, foi sugada pelo fluxo entre elas, atravessando infinitamente o mesmo espaço. Um looping sem fim.

— Não…! — gritou a Valete, a voz ecoando cada vez mais fraca.

Soraja fechou uma das portas com força. A outra se fechou em seguida. Do batente escorreu sangue escuro, respingando na pedra. Gallia da Tempestade havia sido esmagada entre as passagens.

Soraja caiu de joelhos, respirando pesadamente, com a chave ainda em mãos. O corpo de Anorith jazia imóvel, mas em seu rosto permanecia um sorriso tranquilo. Soraja, com lágrimas silenciosas, ergueu os olhos para o céu cinzento.

— Eu prometo… abrirei as portas que você não pôde abrir.

A chave brilhou em sua mão, e pela primeira vez, Soraja sentiu que podia escolher não apenas o destino de uma passagem, mas também o seu próprio.