O clarão se apagou, e os quatro caíram no chão de madeira com um baque seco.

O ar cheirava a ferro e óleo, e havia o som constante de ferramentas metálicas batendo umas contra as outras.

Kaelvor se levantou primeiro, ainda atordoado.

Olhou ao redor: estavam em um sótão abarrotado de ferramentas e equipamentos. Espadas inacabadas, engrenagens de ferro, peças de armaduras espalhadas por mesas de trabalho.

— Onde é que viemos parar agora? — resmungou, coçando a cabeça.

Antes que alguém respondesse, ouviram passos pesados.

Uma sombra enorme surgiu na escada.

Era uma garota alta, musculosa, de tranças longas, com braços cobertos de fuligem e suor. Em suas costas, presa por uma correia, havia uma chave colossal de ferro, maior que o próprio tronco dela. Vários chaveiros com chaves menores tilintavam em sua cintura, como sinos ameaçadores.

Ao ver os estranhos, seus olhos se arregalaram.

— Quem diabos são vocês?! Invasores?!

Sem esperar resposta, ela avançou.

Com uma mão, agarrou a chave gigante e a girou como se fosse uma maça.

O chão tremeu quando ela a bateu no chão, rachando as tábuas.

Kaelvor ergueu os punhos, inflamando-os em brasas.

Tiberan se colocou ao lado, já chamando vinhas espinhosas que brotavam pelas frestas do assoalho.

Mas antes que a luta começasse, Nymira se colocou entre eles, erguendo as mãos.

— Esperem! Não lutem! — tossiu, mas não recuou. — Precisamos conversar primeiro.

A garota estranhou, franzindo o cenho.

— Conversar? Depois de invadirem o meu sótão?

Nesse momento, um som cortou a tensão:

GRRRRRRRRRRRR…

Todos olharam para Kaelvor, que ficou vermelho quando o estômago roncou alto.

— O que foi? Faz dois dias que eu não como direito!

A garota soltou uma gargalhada, relaxando a chave sobre o ombro.

— Vocês não parecem tão perigosos assim… Só esfomeados.

Com um gesto, ela os levou para fora do sótão.

Desceram por escadas estreitas até um pomar nos fundos da casa. Árvores carregadas de frutas cintilavam sob a luz da manhã.

Kaelvor não esperou convite: correu até o primeiro pé e começou a devorar maçãs com voracidade.

— Isso aqui é o paraíso!

Enquanto ele se empanturrava, Tiberan, Nymira e a garota se sentaram em bancos improvisados.

Tiberan foi quem quebrou o silêncio.

— Nós viemos de muito longe. Estamos fugindo de algo maior do que pode imaginar.

Nymira assentiu, os olhos ainda cheios de dor.

— Perdemos uma cidade inteira.

A garota os observava em silêncio, até soltar um suspiro.

— Sou Soraja, filha da família dos Porteiros.

Ela deu um tapinha na chave gigante em suas costas.

— Nosso poder é manipular o aço. Mas, diferente dos outros Valerions de Velaskian, nós não criamos armas ou armaduras. Só conseguimos… criar portas.

Nymira piscou, confusa.

— Portas?

— É. — Soraja riu, um pouco amarga. — Portas que levam a lugares desconhecidos. Às vezes um jardim bonito, às vezes um abismo mortal. A gente nunca sabe o destino.

Ela levantou uma chave pequena do cinto, balançando-a.

— Não podemos nem criar as chaves que abrem as portas. Então, na prática… não passamos de curiosidades.

Tiberan a observava com calma, enquanto Kaelvor, ainda mastigando uma fruta, murmurou:

— Eu não sei vocês, mas me parece incrível.

Soraja arqueou a sobrancelha.

— Incrível? Para quê? Minha família sempre foi vista como inútil. Porteiros que não protegem nada. Servimos de guardas de portão ou de serventes nos palácios.

Nymira, porém, se inclinou para frente.

— Mas… você já pensou no que pode encontrar, criando uma porta no tronco de Yggdrasil?

O olhar de Soraja brilhou. Por um instante, o peso desapareceu, e apenas o sonho falou mais alto.

— Esse é o meu maior desejo. Abrir uma porta na Árvore Lendária… e ver para onde ela leva.

O grupo ficou em silêncio.

O destino começava a alinhá-los, mesmo que nenhum tivesse percebido completamente.

Notas finais
Os "porteiros" são geralmente trabalhadores das cidades. Apesar de conseguirem controlar o aço, eles só conseguem o moldar em formatos muito específico: retângulos. Mas, diferente dos outros controladores de aço, esses retângulos de aço possuem algo dentro: uma espécie de portal. Por isso, foram designados como "porteiros". Eles literalmente criam apenas portas, mas é bem mais complexo que isso.