Valeran - A Ascensão dos Reis
13 O Fantasma do Passado
Notas iniciais
Soren, emanando uma aura sombria e com um círculo escarlate contornando as íris, olhava friamente para o Mago Dourado Alastair, que estava inegavelmente relaxado.
O mago das trevas disparou um [Dardo Místico], imbuído de magia sombria, que também foi dissipado pelo escudo mágico de Alastair.
Soren incendiou a mão com chamas espectrais e correu na direção do Mago Dourado, começando a atacá-lo furiosamente, mas Alastair apenas esquivava-se ou defendia-se com sua [Barreira Arcana].
Alastair disparou uma esfera de Mana contra Soren, mas a aura negra pareceu absorver o feitiço. Alastair sorriu.
— Este sim é um bom feitiço, carniceiro. Protege-te de feitiços mais fracos e ainda utiliza-os para reabastecer seu estoque de Mana.
Soren ignorou e atacou o Mago Dourado novamente, porém quando atingiu o mago, este sumiu em uma névoa prateada.
O mago das trevas olhou ao redor e, por fim, encontrou Alastair a cinco metros dele. O mago mental deu risada.
— Você me achou.
Soren olhou com raiva para o mago. Alastair parou de sorrir (embora Soren não pudesse ver isso) e ergueu a mão acima da cabeça. O solo começou a tremer e grandes rochas desprenderam-se dele, flutuando acima de Alastair.
— Agora, te mostrarei a diferença entre um mestre em magia e uma criança atormentada.
Disparou os pedregulhos contra Soren, e estes o atingiram, um após o outro. O garoto afundou no chão sentindo o peso das rochas que esmagavam-no.
Alastair aproximava-se, olhando com desprezo para Soren. Parou a dois passos de distância do buraco preenchido pelo corpo do jovem.
Estendeu a mão em sua direção.
— [Drasuro]! — anunciou o Mago Dourado.
Subitamente, Soren começou a sentir uma dor insuportável, e começou a gritar. Era como se seus músculos se contraíssem e sua pele fosse rasgada em pedaços.
— Você vê, Soren Heirdarus? Você não passa de um pequeno inseto neste mundo. Um filhote de pássaro que foi jogado no mundo com as asas arrancadas. Meu desejo, meu jovem, é que você recupere essas asas.
Soren agonizava no chão, com os olhos lacrimejando e berrando. Então olhou para a sua irmã, olhando para ele com o corpo paralisado. Sabia que ela deveria estar assustada. Deveria ter dito que era um mago das trevas muito tempo antes.
Soren então encarou Alastair e, ainda sentindo aquela dor terrível, conjurou seu feitiço.
— [Zttu onla Laz].
Logo, todo o local foi coberto por uma esfera de escuridão. No interior dele, apenas Soren ainda enxergava normalmente.
Apesar da escuridão profunda, Alastair não pareceu muito intimidado. Pelo contrário, ele sorria satisfeito por baixo do elmo.
— Ótimo, pequeno corvo. Recupere suas asas!
— [Adtudaz Onla Shai'nur]!
Quatro tentáculos de escuridão irromperam de bolhas cinzentas e atacaram Alastair. O Mago Dourado saltou para trás, desviando dos ataques, mas logo os tentáculos tornaram a investir contra ele.
Alastair tornou-se vários com um feitiço de ilusão, mas os tentáculos destruíram todos os magos ilusórios em segundos. Alastair então arrancou pedregulhos do chão e disparou contra os tentáculos, que recuaram, mas não foram destruídos.
Soren surgiu com a mão coberta de chamas verdes e atacou junto dos tentáculos de trevas. Alastair desviava ou criava ilusões, o que era extremamente irritante.
Finalmente, os quatro tentáculos juntos alcançaram o Mago Dourado. Porém, quando estavam chegando até ele, Alastair estalou os dedos, e uma [Barreira Arcana] fora criada ao redor de seu corpo. E, para uma surpresa ainda maior de Soren, as Mãos de Shai'nur, feitiço de 3° círculo, fora parada pela barreira de magia básica.
— C-como…?
— É simples — explicou Alastair, como um professor ensina um aluno abaixo da média. — Seu feitiço é do terceiro círculo, naturalmente muito mais poderoso que o meu. Entretanto, a minha Mana é maior, mais poderosa e mais refinada que a sua, o que faz todos os meus feitiços básicos serem muito superiores à sua magia. Agora, eu estou realmente curioso, Soren Heirdarus. Responda-me: como é a sensação de saber que, aqui nesta luta, as suas chances de vitória são abaixo de zero?
Alastair não permitiu que Soren respondesse. Olhou nos olhos do garoto e ordenou:
— Ajoelhe-se.
E os joelhos de Soren foram para o chão.
Alastair ficou diante do mago das trevas. Então, chutou Soren, e o garoto caiu no chão.
— Agora, espero que tenha entendido o seu lugar, garoto.
Soren deu risada. Então, levantou-se com dificuldade.
— Sinto muito, senhor Alastair, mas sou um pouco teimoso.
— Não faz mal. Uma boa disciplina pode resolver a falta de respeito.
Alastair então disparou um raio de energia psíquica em Soren, arremessando-o para trás. Quando o mago das trevas olhou para Alastair, via um oponente que não poderia ser derrotado.
*
Herys e Tio Sid carregavam Killian e Artariel pela extensa ponte de terra em direção ao local do combate entre Soren e Alastair. Herys sabia que Soren já havia utilizado sua magia sombria, o que provavelmente significava que estava com problemas.
Enquanto atravessavam a ponte, Herys percebia a iluminação das chamas esverdeadas de Soren e os pedregulhos e ilusões criadas pelo Mago Dourado.
“Aguente aí, Soren. Estamos chegando.”
*
Soren e Alastair disparavam feitiços um contra o outro, e Alastair parecia divertir-se com as tentativas falhas de Soren de machucá-lo.
— E pensar que eu tive alguma esperança de que você seria um oponente digno. Que tolice.
Um pulso mandou Soren arrastado até a beira do precipício. Olhou assustado para a escuridão absoluta lá em baixo. E finalmente percebera que havia algo errado com aquele buraco. Era de uma escuridão sobrenatural, maligna, e parecia produzir sons estranhos. Como vozes que sussurravam terrores.
— Finalmente percebeu, é? — zombou Alastair. — Sim. Isso é uma Fenda do Abismo. Não um abismo comum, mas o Abismo, uma passagem para o Plano das Sombras, Apokris. Estou pensando em jogar a Lira lá dentro. O que você acha?
Então, Alastair ergueu a, ainda paralisada, nobre, e guiou-a até que seu corpo estivesse no meio do vazio. Lira ficou ali, flutuando, com a Fenda do Abismo sob seus pés.
— Solte ela! — gritou Soren.
Alastair gargalhou.
— Tem certeza?
Soren pensou melhor. Realmente, fora uma péssima escolha de palavras.
Alastair suspirou.
— Heirdarus. Ajude-me, e Lira von Dartã não precisará ir até Apokris.
Um longo e cruel silêncio seguiu-se à proposta do poderoso mago. Então, Soren ajoelhou-se, de cabeça baixa.
Alastair sorriu satisfeito, e o corpo de Lira foi arremessado ao lado de Soren. Ele segurou a irmã, e percebera que o coração da garota batia muito mais forte. Enquanto Soren olhava preocupado para Lira, o Mago Dourado aproximava-se.
— Ótimo, Soren Heirdarus. Agora, o que você fará? É bem simples. Você…
— Eu… matarei você.
Soren já estava com a mão flamejante agarrando o elmo de Alastair.
— Para ser sincero — confessou o mago mental —, eu já esperava isso.
E então, a máscara de Alastair, o Mago Dourado, decaiu e se partiu.
*
Herys, Tio Sid, Artariel e Killian chegaram ao fim da ponte. Os dois últimos ainda não conseguiam andar sozinhos. Killian também teve certeza de que, por ter usado magia para regenerar seus ossos, era possível que suas reações com a mão esquerda jamais fossem as mesmas.
Assim que tocaram naquele espaço de terra, sentiram os resquícios de magia das trevas. Exceto por Herys, que já sabia qual era o tipo de magia de Soren — e agora de Lira, que havia visto seu irmão utilizá-la —, nenhum dos demais ligou a magia sombria a Soren. Isto poderia ser facilmente entendido pelo fato de estarem a apenas alguns metros acima de um portal para o próprio submundo.
Localizar Soren, Lira e Alastair naquele espaço quase vazio de terra não foi difícil. Assim que correram até o trio, Tio Sid tirou o kopesh, agora sem as chamas, da bainha. Herys apontou a mão para o Mago Dourado.
Alastair estava de costas para eles. Porém, assim que sua máscara se partiu, viram Soren arregalar os olhos.
— M… m-mestre Luk…?
Os longos cabelos dourados do homem esvoaçavam devido ao vento produzido pela pressão emanada do cristal amarelo relativamente próximo a eles. O mestre de magia mental da Academia Greyhorn sorriu.
— Vamos, não era tão difícil adivinhar. Eu prometi que encontraria vocês nas Ruínas de Ggtole. Cumpri a promessa.
O choque de Soren fez com que não reagisse quando o jovem e belo homem caminhou lentamente em direção ao cristal amarelo. Agora, os seis “invasores” formavam um arco na frente do Mago Dourado.
— Estou sinceramente impressionado. Não pensei que Adrian e Isnar deixariam vocês passarem — elogiou Luk. — Agora, imagino que queiram… explicações? Ah, Lira, perdão. Você deve querer se mexer.
Lira livrou-se da paralisia. Então levantou-se apressadamente e olhou espantada para seu professor.
— Como… Por quê?! A-apenas me diga o porquê!!!
— O motivo de eu estar fazendo isso… Eu diria que descrença, decepção e desapontamento. Um pouco de desprezo.
— O que quer dizer, Luk? — perguntou Tio Sid, que conhecia o homem há muito tempo.
Antes que o mago respondesse, um bater de asas foi ouvido. Logo, surgira Isnar, com um par de asas de dragão projetando-se de suas costas. Segurava Adrian pelo braço.
Jogou o mercenário como se fosse um saco de batata e colocou-se ao lado de Luk.
— Yo, irmãozinhos — murmurou Adrian, com dificuldade.
— Não apenas eu — justificou Luk, pacientemente, ignorando a chegada de seus dois aliados. — Milhares, talvez até milhões de pessoas, foram prejudicadas direta ou indiretamente por Casymir. Adrian perdeu o cargo que deu a vida para conseguir e, mesmo após lutar tanto pelo rei de Valeran, foi descartado. Isnar era um inumano, e foi descartado ainda mais cedo. Todo o seu clã foi simplesmente massacrado pelo exército real. Quanto a mim? Nem tanto. Perdi meus pais cedo, porém ninguém tem nada a ver com isso. Ficaram doentes, e faleceram. Lorde Tulin me ajudou a sobreviver, mas desde àquela época eu já estava desapontado com tudo… isso.
— A que você se refere, vira-casaca maldito?
— A tudo. Estou desapontado com este mundo. No fim, não existe ninguém que nunca perdeu nada. O jovem Soren já pensou isso tantas vezes em minha presença... Mas você é o maior exemplo do que eu falei, não é mesmo… Soren Heirdarus, descendente dos Heirdarus von Astar, de Illuminis.
As guerras por conquista eram recentes. Todos conheciam o Massacre de Illuminis. E aquilo fora o suficiente para que todos olhassem para Soren. Seus olhares eram um misto de medo, insegurança, surpresa e até… pena.
O mago das trevas não dignou-se a responder. Seu rosto queimava e ele não tinha forças para sustentar o olhar de seus amigos… Pelo menos, esperava que ainda o fossem. Nenhum reino era tão difamado em Valeran quanto Illuminis.
— Você sabia, Soren, que eu estou procurando há anos? — perguntou Luk.
— P-procurando pelo quê?
— Por um sobrevivente. Mas não existem. O ataque de Casymir foi súbito. Após os massacres realizados, ainda organizou uma caçada. Você entende o que eu digo, Soren Heirdarus? Você é a última pena deste corvo que era Illuminis. É o último sobrevivente. Todos os demais, menos de um milhar, que conseguiram fugir deste reino, foram mortos pelo rei de Valeran. Agora mesmo, na verdade, nós lutamos logo abaixo da terra que um dia foi seu lar.
— Cale-se! — rosnou Soren, em uma vã tentativa de não permitir que aquelas palavras o afetassem.
— Você perdeu tudo por Valeran, Soren.
— Mas também ganhei! — retrucou Soren. — Ganhei Roderik e Ethel. Ganhei Lira. Ganhei Vaas, e Lill, e Kon, escudeiros de Dartã. Ganhei Kil, Arty e até mesmo o Tio Sid. G-ganhei Herys. Valeran não está completamente podre, mestre Luk!
Herys olhou para Soren. Refletia sobre tudo o que descobrira. Então fora aquilo a que Soren se referia naquele morro, em Feradöhr. “Você tem razão, Soren. Se eu soubesse em detalhes o que você passou, talvez eu partisse no meio”, pensou ela.
— Mas isso não é importante para mim — completou, em voz alta. — O que importa se você é de um país diferente?! Arty também é. Na verdade, você teria muito mais motivos para nos odiar do que nós temos para odiá-lo! Se você… S-se você ficou em silêncio até hoje pensando que eu iria te abandonar ao saber de onde você vem, pode acreditar que isso não me importa nem um pouco!
Antes que Soren respondesse, Luk gargalhou e bateu palmas.
— Ótimo, Herys. Fico feliz com você. Talvez tenha razão, Soren. Valeran não está completamente podre. Mas… os galhos saudáveis desta árvore será consumidos pelos galhos decompostos. Herys, Lira, Roderik, Ethel e todos os outros. Ninguém sobreviverá a Casymir. Aqueles que são diferentes serão silenciados. A própria Herys disse isso a você.
— Como sabe de todas essas coisas?!
— Eu sempre te disse que o poder da escuridão era seu para comandar — explicou ele, deleitando-se com o medo crescente das pessoas à sua frente. — Te observo desde que entrou na academia… Não. Desde que chegou em Feradöhr. Digamos que você praticar magia das trevas foi perfeito Soren. E quando Herys revelou-se, na seleção das turmas… Foi perfeito!
— Do que você está falando, mestre Luk? — perguntou Lira, assustada.
— Um mago com o poder das veias de Shai'nur e uma maga portando o poder das veias de Mystrin'naryhn. Foi um golpe do destino para acelerar meus planos.
— Fale com mais clareza, traidor!
— Simples. Necessito de vocês dois, Soren e Herys. O fato de vocês terem se tornado amigos foi a ideia perfeita, pois isso facilitou as coisas ainda mais. — Vendo os olhares confusos e aflitos das pessoas à sua frente, Luk continuou. — Vocês dois são uma peça chave do ritual que estamos realizando. Claro, além da localização, nas Ruínas de Ggtole, e das gemas mágicas que venho procurando e coletando há cinco anos.
O mestre de magia ficou um segundo em silêncio, para então prosseguir.
— Primeiro, influenciei vocês a irem para o lado da cidade em que Adrian e seus mercenários iriam se encontrar — explicou, vendo o espanto no rosto de todos. — Ordenei que deixassem o mapa e a carta explicando tudo com Banner e então eu sabia que vocês acabariam chegando até eles. Afinal, Herys possui uma ligação com o ovo de wyvern que eu mesmo implantei na cidade de Feradöhr dois anos atrás esperando por este momento. Perdemos o ovo, mas é temporário. Isnar deseja proteger aquele filhote, e eu sempre me lembro dos desejos de meus amigos.
Aos poucos, todos já entendiam que Luk manipulara cada passo que deram desde que tocaram na academia.
— Vocês entenderam sobre o local do ritual, e eu mandei Isnar escrever a carta de um modo que desse a entender falsamente que era um ritual de destruição — revelou Luk. — Também induzi vocês, tanto natural quanto magicamente, a pensar que deveriam ir sem alertar aos professores. Sinceramente, eu nunca pensei que fossem pensar nisso, mas vocês foram procurar professores. Por sorte, eu estava vigiando e organizei tudo para que fosse eu quem te encontrasse, Soren. Aí, tudo estava pronto. Vocês viriam para Ggtole sem avisar ninguém. Ah, não se culpem. Meu feitiço de indução é especialmente eficiente, e como essa ideia já estava na mente de vocês, eu apenas a fortaleci.
Esperou que alguém comentasse algo. Como ninguém o fez, talvez por conta do espanto e da raiva de terem sido manipulados desde o início, Luk continuou.
— Dei o mapa a vocês que evitasse completamente as minhas tropas, e vocês finalmente chegaram. Deixei até a corda na descida até aqui, na ruína. Também deixei evidente a cabeça destruída do golem para facilitar o raciocínio de vocês. Podem dizer que foi um mero capricho.
O mago então apontou ambas as mãos para a frente, uma para Soren e uma para Herys.
— Vocês são a luz da nova era. Então… Perdoem-me, mas irá doer. Irá doer muito. Mas acaba rápido.
Fios de Mana estouraram das mãos do Mago Dourado, conectando-se a Soren e Herys. Os dois sentiram uma dor enorme, como se milhares de agulhas despedaçassem seus ossos. Logo, os fios ligados a Herys assumiam uma coloração branco-azulada e emanavam uma energia fria. Aqueles ligados a Soren tomaram uma coloração negra como carvão.
— Se o fato deste garoto ser de Illuminis não foi o suficiente para abandonarem-no, deixe-me tentar uma última carta: Soren Heirdarus é um mago das trevas.
A surpresa e o medo foram tantos que atrasaram as reações de todos. Tio Sid e Lira foram os primeiros a recuperarem-se, e atacaram Luk. O mestre de magia sequer moveu as mãos, e um pulso psíquico arremessou os dois para trás.
Logo, os fios desprenderam-se de Soren e Herys. Seguiram para a palma da mão de Luk, ou Alastair, e concentraram-se, formando um par de esferas, uma negra e uma branco-azulada.
Soren e Herys estavam ofegantes. Aos poucos, o fato de Soren ser um mago das trevas parecia uma preocupação secundária, pois algo estava para acontecer.
Alastair concentrou ambas as esferas e elas uniram-se em uma só, com um poder cinzento e assustadoramente caótico.
— O poder de duas raças superiores — recitou Luk —, unidos em um só. Chegou a hora da mudança. Chegou a hora do retorno. Chegou o Tempo do Fim.
Isnar, que mal havia sido machucado pelo combate contra Herys e Killian, protegia Alastair de qualquer possível ataque dos seis inimigos, porém Soren, Herys e Killian não estavam em condições de atacar, Artariel, Sid e Lira hesitavam.
— Aquele que originou. Aquele que traiu — recitava o Mago Dourado. — Aquele que entrou no sono eterno. Aquele que foi traído. Que se decepcionou. O primeiro. Agora, deverá levantar-se mais uma vez! Assim foi previsto por Iwe, a Criança da Sabedoria Presente no Destino! Acorde… e impere!
A esfera caótica entre as mãos de Luk foi disparada no formato de um raio contínuo em direção ao cristal amarelo. Lentamente, ele ia adquirindo outra cor, tornando-se de um tom vermelho-sangue.
E então, uma explosão.
*
A explosão de tom negro-avermelhado cobriu todo o espaço até metade da ponte que levava ao local em que estavam. O cheiro de ozônio daquela explosão era fortíssimo.
Seguido a essa explosão que, estranhamente, não danificou literalmente nada, houve uma fumaça densa. Aos poucos, esta fumaça sumia, e todos tentavam ver algo.
Finalmente, a fumaça sumiu completamente. Além do fato do cristal vermelho estar partido ao meio, outra coisa chamava a atenção. Atrás de Luk, Isnar e Adrian, havia agora outra figura.
Tratava-se de um homem belo e esbelto, alto, com a pele livre de imperfeições e de um tom cinzento. Não usava nenhuma roupa acima da cintura, porém a parte inferior do corpo estava coberta por um tipo de saia negra adornada com runas em uma língua há muito esquecida.
Élfico-arcano arcaico.
O belo homem era um elfo, e isso era evidenciado por suas orelhas pontudas. Seus cabelos eram longos e cacheados, de um tom branco como a neve, e chegavam à metade das costas. Não possuía barba, e seu rosto parecia jovem, com menos de trinta anos.
Tratando-se de um elfo, ele tanto podia ter trinta como trezentos.
Quando abriu os olhos e olhou os demais presentes, todos viram seus olhos em um tom púrpura.
— Càit a bheil mi? Dè thachair? Cò th 'annad? Dè a ’bhliadhna anns a bheil e?
A voz do elfo escuro era bela e melodiosa, mas parecia confusa. Artariel e Luk foram os únicos dois que entenderam o que ele perguntou, pois falara em língua élfica.
Luk deu um passo à frente. Quando o estranho elfo o encarou, ajoelhou-se em absoluta submissão. Com este gesto, o elfo permitiu que o Mago Dourado se aproximasse.
Ninguém ousou impedir. Na verdade, ninguém mal ousava respirar. A pressão causada pelo Mana do elfo era inigualável. Superior a tudo que qualquer um naquela sala já havia sentido. Uma pressão tão esmagadora que, mesmo que o elfo estivesse claramente calmo e reprimindo a aura, parecia engolir tudo ao redor.
Luk, lentamente, colocou a mão nas têmporas do alto elfo, e luz começou a emanar delas. Todos entendiam que Alastair estava transferindo conhecimento para o elfo.
Após acabar, recuou até onde estava inicialmente e ajoelhou-se. Isnar fez o mesmo.
— Esta língua — murmurou o elfo, e todos entenderam que Luk havia transferido o conhecimento sobre a linguagem humana para ele. — É bem diferente de tudo o que já entendi. Não é dracônico, nem élfico. Parece a linguagem humana, porém extremamente diferente…
— Se me permite, é isso que acontece quando séculos se passam — informou Luk, humildemente.
— Séculos? Em que ano estamos?
— Mil cento e quinze desde a chegada dos renegados ao continente de Visten.
O elfo pareceu surpreso.
— Que estranho. A minha última lembrança consta do ano setenta…
Todos ficaram surpresos, com exceção de Alastair e Isnar, que sabiam quem era o elfo.
— Então aquele cron ort do Kelluim realmente se uniu ao irmão. Humano patético. — O elfo respirou profundamente. — Isso significa que estou inativo há mais de mil e cem anos? Mas que surpresa.
— Q-quem é você…? — perguntou Artariel, com uma assustadora suspeita crescendo dentro dele.
Ao ver Artariel, o rosto do misterioso elfo pareceu iluminar-se.
— Que incrível. E pensar que encontraria um parente de sangue nesta… ruína.
— Parente?! — repetiu Lira. — Arty, conhece esse homem?!
— Todos conhecem — interveio Luk. — Eu até te falei sobre ele em uma aula, Lira. Chega a ser desrespeitoso não se ajoelhar perante aquele que criou a magia elemental.
E as suspeitas de Artariel se confirmaram.
— Você é Valadan Woodalind, o Primeiro Arquimago — murmurou o elfo, trêmulo.
— Oh, então surgiram outros depois de mim?
— Vossa Onipotência, obviamente nenhum outro Arquimago jamais conseguiu alcançá-lo. O senhor é o maior de todos os magos.
— Que pena — lamentou Valadan, o Príncipe Esquecido. — Mas, pelo menos, encontrei um parente. Qual o seu nome, filho?
— A-Artariel.
— Artariel Woodalind. Pelo seu Mana, entendo que ainda não se tornou o Senhor da Floresta, mas sinto a energia de Elderin em você. Você deve ser um filho dos Senhores da Floresta.
Se a magia de Soren fora uma revelação surpreendente, o fato de Artariel ser, na verdade, o príncipe élfico, foi muito mais surpreendente.
Valadan aproximou-se alguns passos, e ninguém ousava fazer nada.
— Sabe, eu também já fui o príncipe de Elderin. Obviamente, não me chamam de Príncipe Esquecido sem motivo — contou Valadan, parecendo feliz em poder conversar com alguém após mais de um milênio. — Sou o primeiro elfo negro, culpa de uma traição que meu pai, o primeiro Senhor da Floresta, cometeu. A amante tola dele amaldiçoou-me a não receber a bênção da natureza que todos os Woodalind possuem. Basicamente? Meu pai resolveu que ter um filho maculado pela sua própria traição era desonroso, então me baniu. Resumindo tudo, conheci o distinto Heylluim e o admirável Kelluim, e trabalhamos juntos por décadas. E, veja só. Acabamos como inimigos. Mas isso não importa. Estou feliz em ter um membro da família aqui.
Então, o mais poderoso mago que já pisou no planeta de Kadriin parou de falar e olhou para Soren, sorrindo de canto.
— Um mago das trevas. Sabe, eu sempre me senti fascinado por essa magia tão única. Conheci o primeiro mago das trevas. Sim. Apenas o fato de você possuir uma parcela deste poder originado por Shai'nur já é o suficiente para que eu te ache interessante, criança humana. Diga-me seu nome.
— S-Soren… Soren Heirdarus.
— Heirdarus? Vocês ainda existem? — indagou Valadan, levemente surpreso. — Admirável. Então seu sangue também é muito antigo, garoto. Você certamente é alguém que eu desejaria saber mais. Entretanto, receio que eu precise entender melhor o que levou esse homem a me acordar após tanto tempo.
Antes que Valadan abandonasse a conversa, no entanto, parou e olhou para Herys de olhos arregalados.
— De todas as surpresas que tive esta noite, você certamente é a maior, mulher humana — murmurou Valadan. — Como é possível? Algo está muito errado… Que seja. Passe bem, minha doce irmã.
Ninguém entendera realmente aquela afirmação. Não havia como Herys ter sangue dos Senhores da Floresta. Consequentemente, como seria irmã de Valadan?
O Primeiro Arquimago, entretanto, voltou-se novamente para as seis pessoas diante dele.
— Explique-me o que ocorreu aqui, humano de cabelos de ouro — ordenou Valadan, e Luk assim o fez, o mais resumidamente que conseguiu.
— Eu estou com outro problema — finalmente anunciou o elfo escuro. — Pelo que entendi, vocês vieram até aqui para impedir que eu acordasse. Não posso simplesmente ignorar isso. Na verdade, o fato de vocês humanos estarem andando ao lado de minha irmã já é uma blasfêmia imperdoável. Sinto que talvez haja um conflito de interesses entre mim e vocês.
— O que quer dizer com isso?!
— Que não mexo meu corpo a mais de um milênio. Perdoem-me desde já, pois eu talvez seja um pouco injusto… Terei de enfrentar vocês, mas não será rápido. Não quero matá-los, pois matar crianças não está entre meus costumes. E quanto a você, mulher humana… Enfrente-me, para que eu saiba se sua luz é forte o suficiente.
Novamente, ninguém, nem mesmo Luk e Isnar, entendeu o que o mago dos Tempos Antigos quis dizer. Mas todos entenderam que ele iria começar a lutar.
Tio Sid e Killian apontaram as armas para Valadan Woodalind. O Primeiro Arquimago sorriu. E então seus olhos púrpuras brilharam em dourado.
Valadan não pareceu se mexer, e os dois guerreiros caíram desmaiados no chão. Tio Sid estava com o kopesh na barriga, enquanto Killian estava com a espada quebrada e com um enorme corte na perna.
Lira entendeu.
— Valadan Woodalind… Isso foi um feitiço temporal.
Olharam espantados para o elfo. Magia temporal era lendária até mesmo nos Tempos Antigos.
Artariel invocou um lobo, e Valadan sorriu ainda mais. Uma longa lança feita puramente de fogo surgiu em sua mão.
Artariel atacou, e Valadan ergueu a mão que não segurava nada. Subitamente, toda a poeira no campo de batalha ergueu-se, criando uma densa fumaça que impediu a visão do jovem parente de Valadan e o fez ter um acesso de tosse.
O Primeiro Arquimago surgiu à sua frente, e a presença do homem criou um buraco na poeira, afastando-a. Valadan, o Traidor, então girou a lança de chamas, eliminando o lobo de Arty e logo em seguida dando um soco no jovem príncipe, fazendo com que o garoto desmaiasse na hora.
Lira disparou um pulso psíquico em Valadan, mas o Arquimago apenas olhou para o feitiço, e ele foi lançado contra a maga mental com o dobro de força.
A jovem cambaleou, e tentou criar clones ilusórios, o que só fez Valadan sorrir com gentileza.
— Tome cuidado. Ilusões não funcionam em seres como eu.
Surgiu à frente da garota, apontando a lança de fogo para ela.
— Deixe-a em paz! — rosnou Herys, disparando um relâmpago em Valadan.
O elfo negro segurou o feitiço com a mão nua e ficou admirando a concentração de eletricidade. Então, olhou para Herys.
— Utilizar o feitiço que eu mesmo criei contra mim é muito arrogante. Mas, agora… isto lhe pertence.
Arremessou o relâmpago contra Herys, que criou uma barreira entre ela e o raio. A barreira estilhaçou-se, porém Herys saiu ilesa. Mesmo assim, ainda estava cambaleante pela drenagem de energia que Luk havia acabado de realizar.
— Não quero matá-la, garota humana. Mas se não fizer o que eu desejo, terei que matar algumas destas outras crianças.
— O que você quer?!
— Quero que me mostre aquilo que te torna minha irmã. Talvez você ainda não saiba fazê-lo, então irei te ajudar.
Herys começou a disparar feitiços de raio e gelo contra Valadan, mas o Primeiro Arquimago aproximava-se com calma, dissipando os feitiços inimigos com um balançar da lança feita de fogo.
Valadan então chegou até Herys, golpeando-a com a lança. A maga elemental fora arremessada contra o cristal vermelho partido ao meio, batendo em uma das partes do cristal e caindo no chão, vomitando sangue.
Valadan aproximava-se dela com a mão estendida para o lado segurando a lança, e a sua imagem era assustadoramente intimidadora.
Antes que o primeiro mago elemental alcançasse a sua “irmã”, Soren colocou-se entre a garota e o elfo.
— Saia de perto dela!
— Verme. Você é quem deveria afastar-se de minha irmã, pois sua mácula pode corrompê-la.
Soren conjurou as Mãos de Shai'nur, mas Valadan girou a lança acima da cabeça e um aro de chamas varreu tudo três metros acima do solo (Isnar teve que se agachar). Os tentáculos conjurados por Soren sumiram.
Lira correu até o irmão, arrancando um pedaço de pedra do chão e disparando contra Valadan, que pulverizou a pedra com a lança de fogo. Logo em seguida, viu a lança sumir.
— Opa — murmurou Valadan. — Acabou o tempo. Mas não faz mal.
Conjurou outro feitiço, e seu corpo foi revestido por raios que criaram um sobretudo trovejante.
— Vejo que este mundo está perdido. Se o tempo não acabasse, um grupo de quatro magos teria sido derrotado por um único feitiço.
Um relâmpago saiu da capa da tempestade de Valadan e atingiu Lira, mandando-a para longe. O feitiço era muito mais poderoso que o raio mágico de Herys.
Valadan nem se mexia. Um relâmpago atingiu Soren e ele fora mandado para junto de Herys. A garota segurou sua mão.
— Soren, calma. E-eu cuido dele.
— Cuida, Herys? — zombou Soren, com dificuldade. — Não vou te deixar bater nele sozinha.
— Errado — anunciou Valadan, olhando para os dois magos. — Você deixará. Agora, “Herys”… Acorde.
Valadan apontou o dedo para Herys e murmurou algo em uma língua que apenas Luk, Isnar e Herys reconheceram: dracônico.
Herys sentiu uma pontada na barriga. Soren olhou preocupado para a garota, que caiu de joelhos no chão, ofegante, começando a suar e a se retrair. O mago das trevas colocou a mão na garota.
— H-Herys! O que foi?
Ela não respondeu. Continuou a se contorcer e a gritar de dor. Aos poucos, o seu braço direito, onde estava o anel misterioso, começou a ser completamente revestido pela mesma energia branco-azulada que Luk retirou dela momentos atrás.
Soren finalmente entendeu o que era aquela energia poderosa e caótica.
— I-isso é Mana dracônico…
Herys gritou novamente, e Soren viu suas presas sobressalentes. Os olhos da garota adquiriram pupilas em fenda e começaram a brilhar em um tom azul celeste. Quando a luz que cobria seu braço se dissipou, já não era um braço humano. Era robusto e mais longo que o normal, com escamas brancas e garras negras, com espinhos no ombro. Seu corpo emanava Mana dracônica que parecia uma chama azulada que queimava tudo que se aproximava.
Soren afastou-se, assustado e impressionado, mas Valadan Woodalind sorriu.
— Finalmente. É por isso que você é a minha querida irmãzinha. Só fico pensando se a Amara está feliz com tudo isso… Bem, não importa — monologava o mais poderoso dos seres vivos. — Venha. Descarregue toda essa fúria bestial em mim. Se conseguir.
Herys, se ainda fosse ela, avançou. Em um piscar de olhos, já estava contra o mago ancestral, acertando-lhe um soco no rosto que mandou-o voando para o outro lado da ponte com tanta força que, quando ele atingiu a parede de terra, uma onda de choque rachou todo o local.
Herys pulou em sua direção, mas Valadan levantou-se sorrindo.
Um relâmpago atingiu Herys, afastando-a, mas ela apenas balançou a cabeça e tornou a atacar. A garota, em fúria bestial, atacava e era rebatida sem que Valadan sequer se mexesse, e mesmo assim ela não recuava, atacando assustadoramente rápido. Para olhos desatentos, não havia intervalos entre o momento em que era rebatida por um raio e o momento em que contra-atacava.
Valadan sorria sereno.
— Não importa o que faça, é ilusória a ideia de que render-se a suas emoções te permitem derrotar um oponente superior. Que seja. Estou realmente satisfeito.
Herys surgiu atrás dele e socou-o com o braço dracônico, e o Primeiro Arquimago foi arremessado para o outro lado da ponte, como estava antes.
Valadan levantou-se. Estendeu a mão para a frente, e a sua [Capa da Tempestade] começou a concentrar-se toda à frente da sua mão, sendo substituída por uma [Esfera de Tormenta].
Soren assustou-se. “Ele conseguiu transformar um feitiço em outro feitiço sem realizar uma fórmula mágica?!”
A esfera foi disparada contra Herys. Quando atingiu-a, uma explosão de luz eletrizante varreu toda a ponte de pedra e cegou todos os presentes. A concentração de Mana daquele feitiço era surreal.
Quando a luz desapareceu, Soren teve uma surpresa ainda maior. Herys não fora danificada. Estava em pleno ar, parada com o braço de dragão estendido à frente do corpo.
A garota abriu a boca, e uma esfera branco-azulada começou a concentrar-se no centro dela. Valadan sorriu de canto.
— Faça.
O Sopro Dracônico varreu o ar, uma rajada de gelo que cortava tudo no caminho em direção a Valadan. O mais poderoso mago que já existiu sorriu, invocando uma espada feita de chamas.
Os dois golpes originados por magia encontraram-se. O Sopro Dracônico de Herys devia ter o poder de um feitiço do 5° ou 6° círculo, mas Valadan, com um movimento vertical da espada de fogo, cortou o sopro ao meio. À esquerda e à direita de Valadan, solo se partiu e pessoas pularam para fugir dos efeitos do sopro. Porém o Arquimago não fora atingido.
Herys, como por teleporte, surgiu à frente de Valadan. Os olhos do Primeiro Arquimago brilharam em dourado, e uma onda de choque varreu todo o solo. Tudo dentro de cinquenta metros de raio parou no tempo, à exceção de Valadan.
O elfo acariciou os cabelos da paralisada garota descontrolada.
— Amara, minha querida irmã… Perdoe-me. Sabe, quando tudo acabar, eu prometo que te tiro desse lugar. Viveremos juntos em Elderin, ou em Tharaved, ou em qualquer lugar que você deseje. Eu prometo, viverá sem precisar temer os humanos nunca mais.
Neste momento, Herys olhou para ele. E, para a surpresa de Valadan, começou a se mexer.
Tentou atacar o Arquimago Original, mas este apenas segurou seu punho.
— Meladrafet — ordenou, e todo o poder dracônico de Herys voltou para dentro do anel, transformando-a novamente e fazendo-a voltar ao normal.
Herys caiu no chão, sem nenhum pingo de Mana no corpo e sentindo dores em todos os locais. Valadan sorriu com compaixão.
— Não se preocupe. Quanto mais você entrar em Sincronia Perfeita com minha irmã, menor serão as dores e o gasto de Mana. Até lá, irá sentir dor.
Soren levantou-se, tremendo. Olhou ao redor. Luk, Isnar e Adrian continuavam ajoelhados para Valadan. Do outro lado, Tio Sid e Killian haviam acabado de acordar. Artariel estava ajoelhado, olhando com temor para seu ancestral. Lira olhava para Valadan, também com medo, mas preparada.
O Primeiro Arquimago sorriu.
— Qual a sua relação com essa garota, distinto herdeiro Heirdarus?
— É a irmã dele — informou Luk. — Pelo menos, depois que Illuminis foi extinta.
— Na minha época — comentou Valadan —, irmãos eram apenas os parentes de sangue. Mas não importa. Eu já despertei a minha doce irmã. Se eu, por motivos maiores, tiver que matar a garota, posso despertar a essência sombria do mago das trevas?
— Não — murmurou Soren, correndo na direção de Lira. — Não toque nela!
Valadan saltou na direção de Lira, mirando um [Dardo Místico] na garota, porém a Mana naquela esfera era tamanha que parecia um feitiço de dois círculos superior.
Disparou e, no mesmo instante, Soren saltou para a frente de Lira criando uma [Barreira Arcana] com toda a Mana que lhe restava. O disparo de Valadan perfurou a barreira como um tiro perfura uma bexiga, atingindo Soren que sentiu como se um martelo destroçasse sua barriga.
Além do dano, Soren fora arremessado para trás, e tanto ele quanto Lira foram jogados para fora do precipício, em direção à Fenda do Abismo. Os dois irmãos deram as mãos.
Soren sentiu sua outra mão ser segurada. Quando olhou para cima, viu Herys, esforçando-se para não deixar que os dois irmãos caíssem.
Valadan aproximou-se, gargalhando.
— Que surpresa. Parabéns, garota. Você conseguiu segurá-los, mas… quem vai segurar você?
O elfo então foi para trás de Herys, agarrou-a pelos cabelos com suas mãos que pareciam feitas de aço e arremessou-a, junto de Soren e Lira, em direção a Apokris.
Os gritos de Tio Sid, Artariel e Killian cortaram o duro silêncio, mas Valadan apenas ignorou-os e caminhou em direção àqueles que ajudaram em sua ressurreição.
— Eu sempre ajudo aqueles que me ajudam — anunciou ele. — Este mundo passará por uma grande mudança, pois este é o desejo de Shai'nur. Eu declaro agora iniciada uma Nova Era, uma era que precederá a paz e o equilíbrio da balança celestial. Declaro iniciada, aqui e agora, uma última Grande Guerra.
Com essas palavras, Valadan Woodalind murmurou uma fórmula mágica e, antes que seus novos aliados pudessem dizer algo, foram levados pela esfera negra de Valadan e teletransportados.
*
A milhas de distância das Ruínas de Ggtole, em um grande palácio que antigamente pertencia ao rei Gilgamesh, monarca de Illuminis, uma mulher belíssima, de longos cabelos de um tom azul-escuro e olhos cor de um azul semelhante ao gelo, com um vestido azul cobalto, suspirou cansada, sentada no trono do falecido rei.
— Krofannyr, você finalmente voltou — constatou ela, sentindo a Mana de seus irmãos ao longe. — Muito bem. Significa que as engrenagens do destino começarão a se mover em breve. Significa que você virá até mim. Meu irmão, eu estarei pronta.
Fale com o autor