Valentine Hunters
6 Travel
Notas iniciais
— 6 –
JARETH! JARETH!
“Quem está me chamando? Me deixa dormir mais um pouco...”
“Até quando vai negar o que você é?”
“O que... eu sou?”
“Não há mais tempo para indecisão”
“Me deixe em paz...”
“Você irá morrer se não abraçar esse poder!”
“Eu sou um humano! Um autêntico humano!”
“Jareth!”
O rapaz acorda gritando até perceber que estava deitado em uma cama, mas na verdade era o caixão de Rose. Entende que apenas havia tido um sonho estranho, mas que vinha se tornando cada vez mais frequente com o passar dos dias; ele procura se acalmar, abaixando a cabeça e olhando o ambiente com mais calma até encontrar Angelita, encolhida perto da estante e com o semblante assustado.
— A-Angelita?!
— Que bom que acordou Jareth – diz a menina tímida, se levantando e evitando ao máximo o olhar direto. – Sinto muito! Isso tudo foi culpa minha!
Jareth não entendia nada e seus pensamentos ainda estavam mais bagunçados que a loja antes da chegada de Jin. O rapaz procurou se recompor primeiro, baixando a cabeça, respirando fundo e tapeando o rosto. A jovem vampira retraída se senta ao seu lado, ainda com os olhos fundos, implorando por seu perdão.
– Não se preocupe Angelita. Fico feliz que esteja tudo bem! – responde o rapaz com um sorriso.
A expressão ardente e viva de Jareth fez a menina corar, sentindo coisas que não sabia como explicar.
– Mas eu... machuquei você...
– Não era você! Era alguém usando você...
– Na verdade, era ela mesmo! – interrompeu Rose, surgindo das sombras e assustando o rapaz, que pulou da cama. – Até quando você vai se assustar com essas coisas, Jareth baby?
– Não saia das paredes assim, sua... – Jareth parou no seco, dando uma boa mirada em Rose, da cabeça aos pés. Ela estava mais linda e radiante do que nunca, trajando um vestido vermelho médio e com seus cabelos negros amarrados por um rabo de cavalo. – Você... está bem!
A vampira pareceu não entender as palavras de Jareth, mas começa a rir sem jeito com a reação inesperada do rapaz.
– Claro que estou. Porque eu não estaria?
Ele chacoalhou a cabeça, tentando refrescar a memória.
– Naquela hora... você estava...
Ela soltou uma gargalhada, se jogando em cima da cama.
– Que fofo sua preocupação comigo, mas não precisa esquentar com aquilo. – diz Rose, deslizando seus dedos pelo rosto de Jareth até chegar a ponta de seu queixo. – Precisa de muito mais que aquilo para me matar!
Angelita se afasta um pouco, apertando as mãos contra o peito e franzindo o rosto.
– Sinto muito por tudo que causei! – exclamou a menina.
– Bem... já que você destruiu uma boa parte do meu quarto e da vizinhança, vai ter que ralar para conseguir o meu perdão! – diz Rose de forma seca.
– Como pode dizer isso?! Ela é só uma criança! – protesta Jareth.
– Crianças vampiros são uma ótima mão de obra – interpelou. – Geralmente manifestam seus poderes cedo e com um bom treinamento e a motivação certa, vai ser muito útil para mim!
– Sempre pensando em você, não é?
– Na verdade, nesse momento, eu estou pensando em você. – disse Rose com um olhar malicioso.
Jareth corou, virando o rosto e Angelita faz o mesmo.
– Não diga essas coisas assim de repente! Não é nada engraçado brincar com essas coisas! – repreende ele.
– Quem sabe se estou brincando? – provoca Rose. – Além disso, é engraçado e fofo ver você desse jeito!
– Você é a pessoa mais estranha que já tive o desprazer de conhecer!
A vampira gargalha novamente e se levanta, voltando sua atenção para Angelita.
– E então garotinha? Duvido muito que você tenha uma casa ou algum lugar para ficar. Vai querer ficar conosco ou vai voltar para o fundo daquela floresta? – questionou Rose, colocando a mão sobre a cabeça dela.
– Não tenho mesmo... nenhum lugar para ir. – murmura Angelita, baixando a cabeça.
Rose afagou sua cabeça, sorrindo.
– Então, seja bem-vinda a Loja de Variedades e Serviços Valentine! A partir de hoje você será minha funcionária e vai responder apenas a mim, ficou claro?
Os olhos da menina brilharam como não acontecia há muito tempo.
– Está bem! Vou me esforçar para... ser útil em algo. – responde, acanhada, mas feliz pela proposta.
Jareth também não pode conter o sorriso, sem saber que ele duraria pouco.
– Já que esse idiota quase morreu para te salvar, ele que vai ficar encarregado de cuidar de você! – diz Rose, apontando para ele.
O rapaz engasgou com o anuncio repentino.
– Está me tirando! Porque ela tem que ficar comigo?!
– Eu acabei de dizer o motivo, além de que, aqui não tem espaço para ela ficar e nem que seja um lugar adequado para nossa nova funcionária. Você é burro ou só finge que é?
– Mas que merda... – resmunga Jareth com a cara trancada.
Angelita esboça um sorriso fino e inocente.
– Eu... não me importo de morar com o Jareth... Até porque eu devo muito á ele! – diz ela enrubescida.
– Angelita...
– Que ótimo! Nos poupa do trabalho de arranjar um lugar para você ficar – Rose empurra a menina para Jareth. – Só tome cuidado com ele! Geralmente jovens da idade dele estão com os instintos a flor da pele, e não sabemos o que esse tarado pode fazer com você!
– Quer dar um tempo, caramba?! – explodiu o rapaz, socando o ar.
– Mas você sabe que eu gosto de você mesmo assim! – completa a vampira, gargalhando. – E até porque é o mínimo que pode fazer, já que salvei sua vida.
– Salvou... a minha vida?
Rose se recostou na porta, cruzando os braços.
– Você ainda nem tem controle dos seus poderes de lobisomem e com os ferimentos que tinha, com certeza iria morrer – informou ela, mostrando seus caninos. – Eu injetei um pouco do meu sangue em você para que pudesse se curar, mas não se acostume com isso, está ouvindo?! – As mudanças de humor instantâneas de sua chefe eram assustadoras para o rapaz.
– Então... obrigado, eu acho...
– Só fiz isso porque não quero problemas com seus tios ainda – explicou Rose, se retirando do quarto. – Agora trate de recuperar as forças para voltar ao trabalho! Eu já recebi uma ligação da sua tia doida, perguntando se você não iria voltar para casa.
– Tia Abigail? – Jareth se levanta pulando da cama, novo em folha.
Ele já começava a se sentir culpado por deixar seus tios preocupados, pensando no interrogatório que fariam quando chegasse em casa, principalmente por ir acompanhado de Angelita. Tudo em sua vida ficava cada vez mais estranho e sua mente e consciência não conseguiam acompanhar as bruscas mudanças – as vezes se pegava tentando acordar de um sonho maluco, ainda na casa dos pais de Dean com a mãe dele mostrando falsos sorrisos para passar uma impressão de pessoa simpática; sua vida era aborrecida, porém mais normal.
O dia se segue normalmente para Jareth e Angelita, que ajudavam Jin nas tarefas diárias da loja. Não que ele quisesse fazê-las para Rose, mas apenas para não ficar no ócio e no tédio. Ao final do dia, antes de ir para casa, Rose chama os dois até o seu quarto e eles sem entenderem, apenas vão sem questionarem.
– O que você quer agora? Nem pense que vou fazer hora extra...
– Escute com atenção – cortou com a voz séria. – Não conte nada do que aconteceu aqui para seus tios.
Jareth não entende o sentido por trás do pedido da moça.
– Por que está me pedindo isso?
– É algo muito sério e que não posso te falar muito agora. – diz Rose. – Espero que possa entender isso.
Ele franziu a testa.
– Está bem então. Até porque ninguém iria acreditar se eu contasse mesmo... – Jareth se retira emburrado e Angelita o segue.
– Cuide bem da pirralha! Estou de olho em vocês dois! – avisa Rose.
Jareth e Angelita saem da loja e sobem a rua até chegarem na praça onde o motorista dos Wolfgang aguardava por ele. O rapaz acha estranho a princípio, mas resolve aceitar a carona, já que havia passado o dia inteiro trabalhando pesado no comércio. O motorista estranhou que havia uma garotinha desconhecida com o rapaz e quando ela tenta subir no carro, é duramente barrada.
– Está tudo bem. Ela está comigo! – explica ele.
O motorista acata e deixa a menina subir. Assim, eles partem.
Depois de alguns minutos, chegam até a mansão onde Abigail e Edgar os aguardavam na entrada, preocupados. Eles percebem que seu sobrinho estava acompanhado de uma menininha franzina e desengonçada e que julgaram estar sobre seus cuidados.
– Tia Abigail! Tio Edgar! Desculpem por preocupar vocês! – Jareth os cumprimenta, já se desculpando.
Abigail andou até ele e o abraçou forte como um urso, quase como se fosse quebrar suas costas.
– Que bom que está bem! Estávamos preocupados com você rapazinho! – diz Abigail, aliviada.
– Quem é essa jovem com você, Jareth? – pergunta Edgar apontando para a criança vampira.
– Essa é a Angelita! Angelita, esses são meus tios, Abigail e Edgar! – Jareth os apresentou, meio desconcertado.
A menina tímida baixou a cabeça e falou bem baixinho.
– É... um prazer...
– Jareth. Porque você trouxe essa menina para cá? Não me diga que...
– Eu a encontrei perdida e ela estava sozinha, com frio e com fome. Eu não podia abandoná-la! – Angelita corou ao ouvir aquelas palavras.
– Não sei se é uma boa ideia, meu sobrinho... – Edgar se aproxima da menina, que se esconde atrás do rapaz, assustada. Ele parece perceber algo e coração de Jareth já acelera. – Querida... olha o que temos aqui...
“Droga! Será que ele descobriu que ela é uma vampira?! Tomara que não! Tomara que não!”, Jareth torcia mentalmente para não ser aquilo.
— O que foi querido?
– Essa garota – Edgar fez uma pausa, dando uma outra boa mirada nela. – Ela não é de Starry Sky, não é?
O rapaz suspira aliviado, deixando o suor frio escorrer da testa.
– Ah! Você me pegou tio! Ela é... de uma cidade vizinha! – diz Jareth rindo de forma bucólica.
– Entendi... de qualquer forma, você devia ter nos consultado antes! – repreendeu Abigail.
– Sinto muito tia! Não vai acontecer de novo! – repete o pedido de desculpas.
– Você já a trouxe até aqui e não podemos manda-la embora assim, então seja bem-vinda pequena...
– Angelita... Angelita Ortega... – completou a menina com a voz retraída.
– Seja bem-vinda Angelita. – diz Edgar também e no mesmo momento, James vinha quase como um vulto preto, atender ao pedido dele. – James! Arrume os aposentos da nossa nova hóspede!
– Como quiser, meu senhor! – diz o mordomo se retirando.
Depois do breve reencontro, já era quase a hora do jantar. James se encarrega de mostrar para Angelita sua nova casa temporária e seu quarto, que ficava à duas portas do quarto de Jareth. Mesmo com o jeito frio e melancólico da menina, ela estava muito animada com a ideia de poder morar em um casarão – e ainda fazer parte de uma família tão influente como os Wolfgang. Sem dúvidas, era a primeira vez que se via a menina tão feliz e sorridente.
Na hora do jantar, todos se sentaram para comer e a menina se senta ao lado de Jareth, acanhada. Não sabia como se comportar ou o que fazer sentada à mesa, então apenas procurou pegar a comida com suas mãos. Abigail a repreende de imediato.
– Não! Não é assim que pessoas civilizadas fazem suas refeições! – diz a condessa, tapeando a mão da menina. – Na mansão dos Wolfgang, ninguém vai comer com as mãos!
– Relaxe querida – Edgar a acalmou, soltando uma risada constrangida. – Não seja tão dura com nossa hóspede. Ela não deve estar acostumada a comer como nós.
Abigail suspirou, recompondo a postura. Angelita recuou a mão se encolheu na cadeira.
– Sim. Evidente que deve ser isso. Mas se vai comeres com nós, é desejável que aprenda a se portar e a ter boas maneiras, entendeu mocinha?
– Sim senhora... – responde a garota, baixinho.
– James! Preparastes as coisas para a viagem? – pergunta a condessa.
– Já está tudo nos conformes, minha senhora. – responde o mordomo.
– Viagem? Que viagem tia? – pergunta Jareth, curioso. Ela ainda não havia falado daquilo com ele.
Edgar engasga um pouco após a pergunta.
– Nós íamos falar com você justamente sobre isso, Jareth.
– Vamos viajar no fim de semana querido. – diz Abigail com um gole de água.
– Ah, que legal! Para onde vamos? Eu queria tanto...
– Nós vamos! Você vai ficar. – cortou ela. Jareth fechou a cara.
– Por que eu não posso ir?! É algum tipo de “passeio secreto de lobisomens” ou algo assim?! – questiona o rapaz, irritado.
– Não, meu amor. Só que viajaremos à negócios e não seria algo interessante para você, por isso optamos por deixa-lo aqui.
– Além disso, você agora tem o seu emprego e não pode ficar faltando, não é? – completa Edgar pegando um guardanapo.
– Que saco – resmunga Jareth, enchendo as bochechas.
– James irá tomar conta de vocês dois na nossa ausência, então comportem-se! – diz Abigail se levantando da mesa junto de Edgar. – Não tardaremos a nossa volta.
– Sim senhora.
Assim que terminaram a refeição, cada um deles foi para o seu quarto. Jareth se deita na cama, soltando um suspiro de alívio depois de mais um longo dia. Pensou em inúmeras formas de dizer a verdade sobre Angelita – não gostava de esconder nada de seus tios e sentia-se mal quando o fazia, mas talvez fosse a decisão certa esconder aquilo deles.
“Não conte nada do que aconteceu aqui para os seus tios, entendeu?”, as palavras de Rose vieram na cabeça.
— Eu ainda vou descobrir... o que você está tramando. – balbuciou para si.
Após dizer isso, uma risada grave e medonha o surpreende, vindo debaixo de sua cama. Jareth se assusta e se encolhe no meio da cama, olhando para os lados e se tremendo.
– Vai descobrir quem está tramando o que? – pergunta a voz. Era Nekogal, que saía debaixo de sua cama.
– Ah! Não me assuste desse jeito, bola de pelos!
– E é culpa minha que você é assombrado com tudo? – inquiriu o felino, áspero. – Vai descobrir o que afinal?
Jareth engoliu em seco com a pergunta. Rose havia lhe instruído para não contar nada para seus tios, mas para o gato falante deles contava?
– Não é nada – responde Jareth, revirando os olhos. – Só estava pensando alto.
– Mentiroso. – Acusa. – Eu já lhe disse que sei de muitas coisas, não é?
– É, eu sei... você já me falou, senhor sabichão! – bufou Jareth, se deitando novamente.
– Estaria se perguntando, por acaso, se não contaria a verdade para os seus tios sobre a sua amiguinha? – Naquele momento, Jareth pulou da cama, exaltado.
– Como você...?!
– Eu já disse que sei de muitas coisas, moleque! – retruca, ranzinza. Nekogal pula para a janela e começa a lamber as patas enquanto continuava. – Se quer mesmo um conselho, siga o que sua chefe disse. Seus tios podem não ingerir muito bem a ideia e eles não são muito tolerantes com vampiros.
Jareth baixou a cabeça, temendo por Angelita.
– Espera aí! Então você não vai contar nada para eles? – pergunta o rapaz.
O bichano enguiça os pelos.
– E que beneficio isso me traria? Além do mais, gostei da menina. Parece alguém legal, diferente de você. – alfinetou ele.
Jareth franziu o rosto.
“Porque eu não estou surpreso?”, pensou Jareth, desabando na cama de novo. Por outro lado, estava aliviado que a identidade de Angelita estava segura por enquanto. Antes do felino se retirar, Jareth se levanta rapidamente e o chama.
— Ei! Poderia me responder uma coisa, já que você sabe de tudo?
– Está me achando com cara de bola de cristal, por acaso? – rebateu, seco.
Uma veia estoura na testa do rapaz.
– Santa ignorância! É só uma dúvida...
– Eu poderia estar em muitos outros lugares agora, mas estou aqui dialogando com você – Nekogal se vira para o rapaz e se senta, suspirando. – O que você quer que eu responda moleque?
– Que viagem é essa que meus tios vão fazer? Por que eu não posso ir?
Ele lambeu as patas antes de responder.
– Eles não te explicaram já? Porque você quer que eu te responda algo que já foi respondido?
Jareth fica um tempo em silêncio.
– Imagino que você desconfie que eles estão escondendo algo de você, sim?
Para o rapaz era ridículo que um gato falante e vidente pudesse existir.
– Sim. Acertou de novo. – confirma ele, cabisbaixo.
– E de fato, eles estão. – revela Nekogal. – Mas não é nada que você deva se preocupar.
– Entendo... – Jareth suspira.
– Isso é tudo? Tenho assuntos pendentes a tratar e você está me atrasando fedelho! – Após isso, o felino salta para os telhados e desaparece no meio da cidade noturna.
Enquanto isso, Jareth pensava. Teria uma noite inteira para pensar. Talvez não dormisse de novo.
Viagens e viagens
Sexta-feira finalmente chegou e o dia já amanheceu acelerado na mansão Wolfgang. James cuidava dos últimos preparativos para a viagem de Abigail e Edgar, que passariam o fim de semana fora. Jareth e Angelita ajudavam a carregar o carro luxuoso da família, junto do mordomo. Era meio-dia quando terminaram de arrumar tudo.
– Está tudo certo, minha senhora! – informa James, se curvando.
– Excelente James. Nós iremos partir imediatamente. – diz Edgar, já entrando no carro.
Antes de entrar no carro, Abigail se dirige até onde Jareth e Angelita estavam e o beija em sua fronte, fazendo o mesmo depois com a menina.
– Se cuidem. Voltaremos em breve! – diz a condessa se dirigindo para o carro também.
Angelita corou e baixou a cabeça, desconcertada. Os dois acenam para o carro luxuoso que ia saindo da mansão, mas não ficaram ali por muito tempo. Ainda teriam que trabalhar. James cuidou de deixar a mansão em ordem antes da saída de Jareth, deixando claro que não permitiria que o rapaz fizesse algo perigoso na ausência dos seus tios.
– Estamos indo, James! – avisa Jareth, saindo.
– Se cuide, jovem mestre. Se precisar de mim, use isso – O mordomo entrega uma espécie de caixa contendo um interruptor na extremidade. – Assim que pressionar esse botão, eu irei imediatamente ao seu encontro, jovem mestre.
O rapaz estupefato, fica em silêncio, encarando a caixinha por alguns segundos antes de sair.
– Está bem... obrigado, James. – Ele agradece e os dois se vão.
Ao chegarem na loja, Richard já estava lá, acompanhado de uma senhora loira de aparentes sessenta anos de idade, trajando um vestido preto simples. Eles estavam sentados em frente ao birô de Rose, que já se encontrava em sua poltrona com Jin de pé ao seu lado, parecendo seu guarda-costas pessoal.
– Jareth baby! Angelita! Chegaram bem na hora! – diz a vampira, cruzando os dedos.
Ele estranhou a empolgação, mas preferiu não perguntar. Apenas se juntou a reunião. Angelita o segue, também em silêncio e com vergonha das visitas.
– Agora que todos estão reunidos, poderia dar sua resposta, Valentine? – diz Richard, exigindo alguma reação dela.
– Por favor... eu imploro! Nossa cidade já não aguenta mais tanto terror... – suplica a senhora.
– O que está acontecendo? – pergunta Jareth, curioso.
Rose sorri de forma maliciosa.
– Jareth baby... irá fazer algo nesse fim de semana? – indaga ela.
Sem entender, ele responde.
– Nada de tão importante, eu acho...
– Ótimo! Era tudo o que eu queria ouvir. – Rose faz uma pausa, estalando os dedos. – Se prepare que nós iremos viajar esse fim de semana!
Naquele momento, o rapaz engasgou com a sentença de sua chefe.
– O que?! Quando foi que...
– Então está decidido! – Richard coloca uma maleta de couro em cima da mesa. – Aqui está a entrada da senhora Hamilton. O resto será entregue depois que vocês completarem o serviço.
Rose contorce a boca em um sorriso de deleite.
– Não se preocupe. Eles estarão todos enterrados antes mesmo que consiga contar a segunda metade.
– Assim espero, Valentine. – O velho se levanta junto da senhora, que parecia bem mais aliviada depois daquele breve encontro. Jareth ainda estava perdido e ansioso com o que Rose havia lhe dito.
Jin os acompanhou até a entrada da loja, abrindo a porta para eles com extremo cavalheirismo. Já do lado de fora, Richard mirou a vampira, que ainda se deleitava com a maleta recheada de dinheiro.
“O inimigo dessa vez é algo um pouco... diferente. Tenha cuidado, Valentine.”, era quase como se estivesse em uma espécie de contato telepático, onde Rose sabia exatamente o que ele queria lhe dizer.
“Não importa. Quem tiver o azar de ser o meu alvo, irá amargar o peso de suas próprias correntes se arrastando no limbo!”, rebateu Rose em pensamento, de forma diabólica.
Richard sorri e logo após vai embora com a mulher.
Rose demorou algum tempo para voltar a si, frente a frente com todo aquele dinheiro.
– Muito bem, minhas crianças! Depois de ver toda essa graninha, eu estou empolgada para nosso próximo trabalho! – diz Rose, se levantando da poltrona com um pulo.
– Por que você me inclui nessas coisas sem me consultar?! – reclamou Jareth.
Rose gargalha.
– Por que seu eu querer que você vá, você irá e fim de conversa. – responde a vampira, seca. – Inclusive, vamos nos aprontar imediatamente. Partiremos ao cair da tarde.
– Espere! Você não explicou merda nenhuma ainda! – protesta o rapaz.
Jin esconde uma risada, recompondo-se logo em seguida.
– O trabalho que a senhorita Rose recebeu do senhor Richard foi para investigarmos um possível monstro que anda assustando os moradores de Florença. Tememos que os ataques estejam ligados ao grupo de cardeais de uma catedral católica situada na cidade. – explica Jin.
– Faz muito tempo desde que fui dar uma voltinha na igreja – diz a vampira com ironia. – Já devem estar com saudades de mim!
Jareth arqueou a sobrancelha.
– Espera... você disse Florença?! – inquiriu ele, reconhecendo a cidade.
– Exatamente, meu caro companheiro. Nosso trabalho será na cidade de Florença, na Itália.
Jareth sentiu vontade de desmaiar de emoção ao ouvir para onde iriam. Ficaria ainda mais empolgado com a ideia se não soubesse que iria para lá para caçar monstros e tivesse o consentimento de seus tios. Com certeza se tardasse para retornar, o mordomo dos Wolfgang sairia em sua procura.
– Só tem uma coisa... meus tios viajaram e quem está tomando conta de nós é o mordomo deles. – diz Jareth, com a voz seca.
– Acho que a senhora Abigail... vai ficar chateada se sairmos... sem avisar. – completa Angelita, com a voz baixa e rouca.
Rose torce a boca, dando de ombros.
– Quem se importa com isso? Ele não pode te impedir de fazer seus ofícios no trabalho, Jareth baby.
– Além disso, nossa viagem será apenas para descobrimos quem está por trás dos ataques em Florença...
– E comprar doces! – irrompeu Rose, salivando. – Ouvir dizer que os doces italianos são bem famosos. Estou louca para pôr minhas mãos neles!
Jareth suspira, desviando o olhar.
– Ainda assim, meus tios estão viajando e duvido que James irá concordar... – Jareth é cortado por um soco da vampira em uma das paredes da loja, fazendo toda a estrutura do pequeno prédio estremecer. No lugar do soco havia ficado um enorme buraco.
– Não quero mais ouvir desculpas, entendeu, Jareth baby?! – diz ela com um sorriso macabro e distorcido no rosto. – Se seu “mordomozinho” de merda se intrometer nos meus negócios, irá levar um tiro no meio da testa de presente, assim como os outros!
Jareth, assustado, cai sentado no chão, apenas concordando com um aceno de cabeça. Rose junta as mãos e volta ao seu estado animado de antes, o que era algo, no mínimo, bizarro para ele.
– Muito bem! Vamos nos aprontar então, meus lindos! E dê um jeito nesse buraco para mim Jareth. – ordena a vampira, deixando um estrago e tanto na parede.
“As vezes, eu queria nunca ter saído da América.”, reflete ele, baixando a cabeça com raiva.
Todos começaram a se organizar para a viagem. Enquanto isso, Rose se senta em seu caixão, refletindo.
“Então eles já foram para a reunião. Não perdem tempo esses miseráveis da Irmandade!”, refletiu Rose, perturbada com o que Jareth havia dito outrora.
Algumas horas depois, na orla do crepúsculo, Rose e seus três funcionários deixam a loja e partem para uma região isolada da cidade de Starry Sky, ficando próxima à uma larga planície e onde jazia vários galpões abandonados. O lugar era deserto, sendo possível ouvir apenas a areia sendo carregada pelas rajadas de vento e colidindo com o metal das grades e dos galpões. Lá, para a surpresa de Jareth e dos outros, um avião médio de carga já estava aquecendo seu motor, aguardando por eles.
Próximo ao avião, um senhor barrigudo e peludo de 46 anos de idade, roupas sujas de um mecânico e um bigode grosso enfeitando sua face dura e mal-encarada, estava recostado aos pneus da máquina. Ao ver Rose, ele abriu um largo sorriso.
– Você demorou mais do que eu previ, senhorita Valentine. – diz o barrigudo beijando a mão de Rose, cordialmente.
Ela solta uma gargalhada de satisfação, para a irritação de Jareth que não suportava ver alguém puxando o saco de sua chefe.
– Sabe como é. As viagens noturnas me agradam mais.
– Como eu pensei. Podem pôr suas bagagens para dentro que partiremos imediatamente! – diz ele mostrando a entrada para a aeronave.
Assim eles colocam tudo que tinham para carregar a bordo e embarcam na micro aeronave, em uma decolagem turbulenta. O motor do avião era antigo e estimava-se que não era operado há mais de 4 anos. A arrancada fez a estrutura interna da aeronave tremular e reproduzindo barulhos terríveis, como se todo o avião fosse explodir em um segundo assim que estivesse no ar, mas o senhor que pilotava não estava nem um pouco preocupado com aquilo. Jareth se agarrou nas poltronas duras e mofadas do avião com toda a força que tinha e sentindo fortes náuseas por conta da turbulência, Jin permanece em seu estado inabalável e sorridente e Angelita estava assustada com a sequência de sons perturbadores que todo o avião produzia durante o voo.
– Quanto tempo que nós não viajávamos de avião? – inquiriu Rose, deslumbrada com a visão do céu noturno e ignorando toda a tremedeira e a barulheira dos motores relinchando suas pás dentro das turbinas.
Ele começa a rir.
– Faz muitos anos – O homem relembra, nostálgico. – Na época, quase ninguém podia, pelo menos sonhar com algo assim.
– Do que vocês estão falando?! – gritou Jareth, pregado em sua poltrona como um gato escaldado.
Rose solta uma risadinha.
– Está curtindo a viagem, Jareth baby? Pensei que você já tinha costume de viajar.
– Mas nunca viajei em um avião caindo aos pedaços como esse! – retruca com a voz chorosa.
– Nós vamos morrer... – balbuciou Angelita, temerosa.
– Fique calma que logo, logo chegaremos. – disse Jin rindo.
– Essa sensação é tão boa! Essa liberdade – Rose fez uma pausa, respirando fundo e abrindo os braços. – Não tem preço!
– Vocês são funcionários da senhorita Valentine? – pergunta o senhor.
– Infelizmente sim – responde Jareth com ironia.
– Muito prazer. Pode me chamar de Robert. Sou um servo da família Valentine há gerações! – Ele estendeu a mão, mas Jareth não responde seu cumprimento.
– Prazer, Jareth! Não é por mal, mas poderia sempre manter as duas mãos nessa coisa?! Vai que nós todos caímos e morremos...
Robert solta uma gargalhada.
– Não se preocupe rapaz. Já pilotei coisas piores do que esse avião cansado. – gabou-se.
– Imagino que sim...
Rose riu, apertando as bochechas de Jareth.
– Sabe que você me deixa doidinha quando você mostra essa sua expressão de medo e desespero? – diz ela em um tom meio sádico.
Jareth torceu o rosto.
– Isso não tem graça! – grita o rapaz.
Após o que pareceu uma eternidade apavorante dentro de um avião prestes a cair, eles entram no espaço aéreo da Itália, sobrevoando o Mar Adriático e avistando a costa. Várias horas se passaram e já era dia claro, com o sol raiando forte por cima da camada de nuvens límpidas. Mais uma ou duas horas, eles estariam sobrevoando os céus de Florença, até que um ruído ainda mais estranho e notório se faz ouvir, vindo da turbina esquerda.
– Opa! Isso não é nada bom... – gaguejou Robert.
– O que não é nada bom?! – pergunta Jareth, apavorado.
– Esqueci de abastecer o avião antes de sairmos. O combustível já está no fim. – responde ele, de forma até tranquila.
– Está de sacanagem com a gente, né?! – berrou o rapaz, tendo mini enfartos naquele momento.
– Vou ter que deixar vocês sobre Florença antes que o avião caia. – replicou o mecânico.
Rose cruzou os braços.
– Acha que consegue sobrevoar a cidade sem detonar esse trambolho? – pergunta a vampira.
– Sim, mas vocês vão ter que descer nos próximos 15 minutos.
– Como assim, seu doente?! – grasnou Jareth
– Eu vou deixar vocês em Florença e vou dar meia volta com o avião.
Santa Maria Novella
– O que?! Você vai largar a gente na cidade, é isso?! – gritou Jareth, tão pasmo quanto assustado.
– À Leste daqui, há um pequeno aeroporto rural onde eu posso pousar o avião, mas desviaria da rota de vocês. A única opção é vocês pularem agora do avião e caírem direto na cidade.
– Que ideia de jerico!
– Acho que vamos morrer... – repete Angelita, se agarrando na poltrona também.
– Mantenha a calma. – conforta Jin, sorridente.
– Gostei da ideia – diz Rose, se levantando do resto de poltrona com um salto. – Temos que pular agora Robert?
– Rose! Você não pode estar falando sério, não é?! – indagou o rapaz, descrente com a decisão de sua chefe. – Fala sério! Nem você é tão maluca a esse ponto!
– Me pareceu algo bem divertido! – rebateu ela, sorrindo. – Além do mais, não tem outro jeito, não é Robert?
– Até o momento não, senhorita. – confirma ele, para o desespero de Jareth.
– Lá vamos nós de novo. – comentou Jin com um suspiro, enquanto se levantava.
– Saltos de aviões sem paraquedas são assustadores! – falou Angelita, acompanhando o faxineiro.
Todos já estavam com seus pertences e parados na comporta traseira da aeronave, prontos para se jogarem do avião, menos Jareth que ainda estava grudado em sua poltrona.
– Jareth baby, vamos! Temos que pular agora!
– Não vou pular desse avião nem ferrando!
Rose suspirou.
– Então que seja! Fique aqui e caia junto com esse avião! – Quando eles já iam pular, Jareth em um rompante de loucura, se joga na frente deles em uma queda livre de mais de 11.000 metros de altura até o chão. Rose fica boquiaberta com a reação dele e começa a sorrir automaticamente.
“Esse filho da mãe...”
Assim Rose, Jin e Angelita saltam logo depois dele. Jareth sentia seu corpo sendo esmagado devido à despressurização extrema e repentina, perdendo a consciência por alguns momentos – era como se seu corpo fosse uma folha ao vento, apenas deixando a gravidade puxá-lo cada vez mais rápido até o chão. Quando se dá conta, acorda nos braços de Rose, acompanhada de Jin e Angelita, segurando-se em seus ombros enquanto todos caiam.
De repente, uma explosão dourada acontece no céu; algo como vários pilares de energia radiante se espalham pelas costas de Rose, formando uma espécie de casulo em volta deles.
“Rose...?”
“Enquanto eu estiver aqui, nada vai acontecer a você.”, Jareth ouvia a voz dela sussurrar ao seu ouvido, mesmo sem vê-la ou tocá-la. Ele sentia que ela estava lá.
O casulo de energia dourada caiu em um prédio abandonado no bairro de Coverciano, destruindo boa parte da construção e criando uma nuvem de detritos que subiu por mais de 5 metros. Os moradores da região se assustaram com o estrondo de algo pesado, caindo a uma velocidade surpreendente e vindo do céu – alguns até pensando que fosse algum tipo de OVNI.
Alguns momentos depois, o prédio desaba e espalha uma nuvem de poeira que tomou todo o quarteirão. Todas as pessoas que passavam nas calçadas próximas foram atingidas por escombros e pelos detritos, alguns morrendo na hora, esmagados por pedregulhos gigantes, e outros não chegaram a falecer no local, mas estavam com ferimentos graves e corriam risco de morte. O restante dos que fugiram, não conseguiam ver o que havia caído no meio daquela confusão.
No meio dos escombros do prédio, Rose desfaz o seu casulo de energia e retira os pedregulhos e lajes de cima de seus funcionários como se fossem feitos de papelão. Todos ainda estavam meio atordoados com o impacto da queda, mas nada que não passasse de simples arranhões. Rose solta um grito primal no meio das pedras, saltitando no meio delas.
– Uau! Isso foi demais! Temos que fazer isso mais vezes!
Jareth se levanta, cambaleando com as fortes tonturas. Jin protege Angelita, retalhando várias pedras com seus fios.
– Você... vai acabar matando a gente! – resmunga Jareth se escorando em uma laje próxima.
– Eu... estou vendo estrelas! Estrelas são assustadoras... – diz Angelita, tropicando.
– Senhorita Rose, suponho que devemos aproveitar o tumulto causado pelo desabamento desse edifício para sairmos daqui sem sermos pegos. – instruiu o faxineiro recolhendo seus fios.
– Nem precisa falar. Vamos dar o fora daqui! – Rose abriu caminho pelas ruínas do edifício com sua Red Javelin, dando em uma sequência de becos que saiam em uma avenida movimentada próxima dali.
A avenida estava em completo caos; vários carros parados e alguns esmagados com pedras caídas do prédio, pessoas apavoradas correndo para todos os lados e os bombeiros e autoridades locais tentando conter o tumulto gerado pelo desabamento. Rose não podia conter a animação de estar perto de tantas pessoas desesperadas ao mesmo tempo – para ela, era como estar no céu.
Após escaparem da confusão por pouco, Rose e seus funcionários chegam à um hotel para se hospedarem. A recepcionista estranhou o aspecto deles a princípio; um grupo de jovens com suas roupas sujas e rasgadas, cabelos desgrenhados e cobertos de poeira e terra era algo que não se via todos os dias por lá.
– Posso ajuda-los? – pergunta a recepcionista, ainda meio desconfiada.
– Queremos fazer o check-in – Rose começa a encarar a moça com seus olhos dourados e vampíricos. – Você poderia nos disponibilizar alguns quartos?
– Mas é claro! Aqui estão as chaves dos quartos de vocês – ela pega um molho de chaves enumeradas na gaveta do balcão e entrega para a vampira. – Tenham uma ótima estadia!
Jareth percebe que a recepcionista estava estranha e seus olhos estavam fundos, como se estivesse em algum tipo de transe. Eles não iriam pagar um centavo para se hospedarem em um bom hotel, então já eram várias dores de cabeça a menos. Rose escolhe o maior quarto onde todos pudessem se acomodar, uma suíte suntuosa, decorada com carpete e tapetes finíssimos, possuindo um banheiro e um lustre espelhado no teto. Ao entrar no quarto, a vampira se joga em cima da cama luxuosa e macia.
– Olha essa cama! Parece que estou deitada nas nuvens! – exclamou ela.
– De fato, é um quarto digno de seu calibre, senhorita Rose. – Jin se senta em uma cadeira acolchoada ao lado da cama.
– Não precisa chegar destruindo o quarto, sabia? – repreende Jareth fazendo bico.
Rose se virou, rolando na cama e fazendo um gesto convidativo com o dedo para ele.
– Vem deitar comigo aqui, Jareth baby! É tão macia... – chamou a vampira com a voz melosa e provocante.
O rapaz corou e a garganta trava bruscamente.
– E-e-eu não posso me deitar em uma cama todo sujo! Você também não deveria!
– Deixa de ser chato! Vou comprar uma cama dessa para ser o nosso ninho de amor.
Jareth sentia que seu coração sairia pela boca.
– Você não deveria fazer essas brincadeiras na frente dos seus funcionários, principalmente da Angelita! – censura o rapaz.
A menina tapo o rosto com as mãos, enrubescida.
– Ninho de amor... isso parece assustador. – diz ela, constrangida.
Rose riu.
– Chega de enrolação – diz enquanto se senta na cama, cruzando as pernas. – Nós estamos em Florença agora, mas não somos turistas! Lembrem-se de que estamos aqui para fazer um trabalho, nada mais... – Ela fez uma pausa, colocando o dedo no queixo. – Ah! E comprar doces! Doces italianos!
– Já imaginava... – murmurou Jareth, suspirando.
– Segundo os relatos que me foram passados, os ataques estão acontecendo em suma, aos arredores da Basílica de Santa Maria Novella.
– Santa Maria Novella? – inquiriu Angelita.
– A Basílica é a principal igreja dominicana da cidade e foi, cronologicamente, a primeira de Florença. Projetada por dois frades dominicanos, Sisto Fiorentino e Ristoro da Campi, é bem famosa por sua arquitetura gótica e renascentista. – explica Jin, quase dando uma aula de história para eles. Jareth e Angelita ficam encantados com a explanação.
– Os italianos realmente sabem fazer uma bela decoração – comenta Rose, se referindo à Basílica. – Vamos até lá como visitantes para procurarmos o engraçadinho que está brincando de matar pessoas, damos um jeito nele, compramos doces e voltamos para casa para recebermos a outra metade do pagamento. – diz Rose, objetiva.
– Será que alguém lá vai mexer com a gente? – questiona Jareth, preocupado.
– Se eles forem inteligentes, não mexerão conosco – responde a vampira, tocando em suas Balarraia. – Frades dominicanos são bem tranquilos. Poucos deles conhecem técnicas de exorcismo ou são treinados para combater vampiros. Não temos com o que nos preocupar. – garantiu ela.
Jareth suspirou, pensando nas possibilidades.
“Espero que esteja certa.”, refletiu.
Enquanto isso, a alguns quarteirões de Santa Maria Novella...
— Ah! Eu não aguento mais andar! Quando vamos chegar, vovô?
— A resposta é a mesma das ultimas vinte e quatro vezes que você me perguntou, Linne! Estamos quase chegando! – respondeu o senhor, emburricado.
— Esse “estamos quase chegando”, parece que nunca chega! – reclamou a jovem novamente.
— Ali está ela! A Basílica de Santa Maria Novella! É bem mais bonita do que me contaram. – Comtemplou o majestoso lugar, deslumbrado.
— Realmente é bem bonita vovô – concordou Linne. – Como um lugar tão bonito e sagrado desses pode ter vampiros?
O velho demora algum tempo para responder, enquanto anotava algumas coisas em um bloquinho de notas que tira de seu largo casaco de couro.
— Vampiros e lobisomens se escondem em todos os lugares hoje em dia, minha neta! Fique sempre atenta a isso! – admoestou.
A menina soltou um aceno de cabeça e logo depois, avistou um grupo de homens medianos, vestidos com roupas clericais e que julgaram ser membros da Basílica. Os dois se dirigiram ao pequeno grupo e eles reagiram de forma indiferente a dupla de viajantes, mostrando-se um pouco ariscos.
– O que desejam viajantes? – pergunta um dos frades.
– Queremos falar com o bispo, por gentileza.
Eles cochicham entre si e o do meio responde.
– Infelizmente o bispo encontra-se muito ocupado ultimamente e não pode falar com os fiéis. – informa o frade mais velho. – Volte outro dia.
O homem suspira, retirando um documento do bolso. Eles se assustam ao mirarem o símbolo vermelho que lacrava a carta.
– Creio que não poderei fazer isso – ele mostra o documento para os frades. – Estou aqui sob ordens do próprio Vaticano. Se quiserem contestar...
Boquiabertos e temerosos, eles voltam atrás em sua palavra.
– Acho que fomos um pouco... precipitados demais. Você quer ter uma audiência com o bispo, é isso? – Ele faz a pergunta novamente.
– Sim. Tenho assuntos de urgência a tratar com ele. – informa, passando por eles e se dirigindo para o interior da igreja. – Vamos, Linne!
– Certo vovô! – A jovem o segue correndo.
– Quem são vocês? O que vieram fazer em Santa Maria Novella?
– Sou apenas um padre viajante acompanhado de minha neta – Ele fez uma pausa, revelando duas baionetas de cabo laqueado. – E estou aqui para dar um fim em alguns vampiros.
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