Valentine Hunters

1 Change your mind


Notas iniciais
Olá para vocês! Tudo aqui e muito novo para mim ainda, mas vou tentar fazer o meu melhor! Espero que gostem. ^^ Vou tentar regular um prazo para postar. Esses tempos tem sido difíceis, mas vai dar certo. Boa leitura!

— 1 –

HÁ muito tempo, quando os grandes castelos ainda eram recentes, existiam criaturas que transcendiam as fronteiras do mundo real e do fantástico. Criaturas da noite, e na noite faziam sua festa profana, suas batalhas secretas e suas guerras silenciosas.


Tudo começou na Romênia antiga, com o conde Drácula e sua lendária batalha contra seu irmão, Radu, o Belo, transformado com a maldição do lobisomem. Esse evento foi conhecido por ser o estopim da primeira grande guerra entre vampiros e lobisomens marcada na história, e, posteriormente, seus descendentes também iriam se digladiar.

Dessas duas figuras lendárias, surgiram várias linhagens que se enfrentaram ao longo dos séculos. As mais famosas linhagens de vampiros foram os Valentine e os Salazar. Contudo, a segunda família sofreu severas perdas com desentendimentos com a Igreja e com a família rival, culminando em seu desaparecimento. Os Valentine se tornaram a família dominante, possuindo vampiros temíveis e respeitados em toda a Transilvânia. Contudo, isso não durou muito.

A família Salazar se dividiu em duas famílias menores: os Scarlet e os Dellacroix, os quais fizeram frente à poderosa família Valentine, e que se viu sendo obrigada a guerrear em múltiplas frentes. Além disso, o irmão do Conde também havia deixado sua linhagem de lobisomens, as famílias Wolfgang, Silverfang e Bellador, que também continuaram a guerra perpétua de seus antecessores. Com todos esses ocorridos, a poderosa família Valentine foi aos poucos se desmembrando e perdendo seus maiores guerreiros, até que a Igreja interviu na guerra sangrenta dessas criaturas da noite, chamada de “Primeira Cruzada”.

Após uma sangrenta guerra e pesadas perdas para os três lados, fora criado um pacto entre as partes para impedir que uma nova guerra eclodisse no futuro, chamada de “Irmandade Diamantina”. A ideia seria criar um acordo de paz entre todas as famílias, as quais seriam representadas por um membro de cada. Mesmo depois da primeira Cruzada, a antipatia pela família Valentine permaneceu e ela fora excluída do tratado de paz.

Alguns anos mais tarde, as famílias Scarlet e Dellacroix tramaram contra os Valentine novamente, alegando que eles estariam maquinando contra a Irmandade Diamantina e contra a paz instável que se instalara na Transilvânia. Com isso, o Papa realiza novamente uma caçada desenfreada contra os “traidores da união”, episódio que fora chamado de “A Segunda Cruzada”, terminando com o fim trágico dos Valentine e seu desaparecimento. Com isso, as duas famílias restantes tinham consumado sua tão sonhada vingança contra seu inimigo em comum, colocando suas diferenças de lado e acabando com aqueles que haviam dizimado os Salazar no passado.

Assim, com a destruição dos Valentine, a paz volta a reinar no estado da Transilvânia e a Irmandade Diamantina volta a fiscalizar todo o tipo de supostas ameaças à trégua que fora imposta entre as raças. Os Scarlet e os Dellacroix continuaram a resolver suas pendências restantes e as próximas gerações vieram mais brandas – todos tomaram uma vida normal e sem ter que se preocupar com seus extintos rivais.

Pelo menos... era o que se pensava...

Nova York, Estados Unidos. Dias atuais...

O dia amanhece com o despertador tocando. Aquele ruído irritante e insuportável cessa com uma tapa de Jareth. Uma senhora abriu a porta do quarto de hóspedes onde ele dormia, acordando-o com um susto. Já não bastava o despertador e a senhora Olivia ainda tratava de completar o serviço. O rapaz se levanta desajeitadamente, quase caindo da cama e tropicando pela cabeceira enquanto procurava seu par de chinelos. A senhora Olivia era uma mulher madura em idade, mas ainda era bem enérgica, ainda mais que Jareth se bobeasse.

– Acorde, meu filho! Hoje o dia está lindo! – Diz ela com ânimo.

Jareth rastejou até o banheiro, bocejando. Mal conseguia tratar da própria higiene de manhã, preferindo acordar com o banho gelado no corpo, embora odiasse fazer isso. Quando sai do quarto, todos já estão aguardando na mesa, mas aquele dia era um dia diferente para ele – um dia singular e Jareth sabia. Seria naquele dia que iria embora daquela casa de vez.

Na mesa, Jareth encarava os outros de forma indiferente. Atualmente, já se fazia quase dois anos que morava na casa de seu melhor amigo Dean, por um favor que ele lhe fez quando Jareth ficou órfão.

– Então... você vai embora hoje? – pergunta Dean, cabisbaixo.

Jareth desvia o olhar, focando na comida.

– Parece que sim... – Ele fez uma pausa, arrancando uma mordida de pão. – Vou morar com minha tia a partir de hoje.

– Que bom que alguém da sua família apareceu para cuidar de você – a senhora Olivia logo corta suas palavras, se retratando rapidamente. – Quero dizer... não que nós tivéssemos algo contra você ficar aqui.

Eles não diziam, mas Jareth sabia que no fundo ele era um estorvo para aquela família e que não poderia mais permanecer ali. Estava mais do que na hora de mudar de ares. Começar uma nova vida.

Desde que sua mãe faleceu, Jareth teve sua casa e tudo que lhe pertencia tomado e vendido em leilão público. Desde esse dia, ele vive com seu amigo Dean em sua casa e prometeu para sua mãe, a senhora Olivia, que quando completasse 20 anos iria arrumar um emprego e arcar com suas próprias despesas, algo que não aconteceu assim que atingiu a maioridade. Sua tão sonhada faculdade foi interrompida porque a família de Dean não iria custear seus estudos, e Jareth não viu outra alternativa a não ser trancá-la.

Há alguns meses, Jareth recebeu uma carta misteriosa e que vinha da cidade de Starry Sky, capital da Transilvânia. Ao ler a carta, releu e releu novamente, não acreditando no que estava escrito nela:

Querido Jareth,

Eu soube do que aconteceu com a Charlotte e sinto muito por sua perda.

Espero que você possa aceitar meu convite e vir morar conosco aqui em Starry Sky.

As passagens, eu mandarei no dia em que quiser vir para cá.

Estaremos te esperando, querido!

Abigail e Edgar Wolfgang.”

Jareth sentiu uma profunda alegria nesse dia, quando soube que ainda existia um lugar onde poderia ir, sem precisar depender do favor de ninguém. Um lugar onde pudesse chamar de “lar”. Naquela noite, o rapaz não dormiu; continuou a ler a carta várias vezes enquanto imaginava como seriam seus tios distantes. Mas com a empolgação veio também o medo e a incerteza: Será que conseguiria se adaptar a outro ambiente? Eles realmente estariam dispostos a acolhê-lo? O que lhe esperaria daquele lado do mundo?

Todas aquelas duvidas lhe tiravam o sono.

— Então, Jareth... já arrumou suas malas? – pergunta a senhora Olivia.

— Ainda irei arrumar – responde, seco. – Prometo que partirei antes do anoitecer.

A senhora tomou sua xícara de café e continuou seu discurso.

— Jareth... você passou muito tempo aqui com a gente. Embora não seja, eu o considero como um filho e me parte o coração saber que você vai embora...

Mesmo que dissesse aquilo, Jareth sabia que ela só estava fingindo. Ele tinha naturalmente o dom de saber quando as pessoas estavam falando a verdade ou não e é algo que trazia desde pequeno. Dona Olívia, e seu marido, Carlos, só o abrigaram ali por causa de seu filho Dean. Ele realmente estava triste pela partida de Jareth e, por ele, o levava consigo.

Quando c, ou simplesmente uma piada de mal gosto. E acontecesse o que acontecesse, não poderia mais contar com a família de Dean desde que tomou a decisão de morar com seus tios – era um caminho sem volta. Aquela cena ainda estava fresca em sua cabeça:

­– “Tem certeza disso, Jareth?” — questiona novamente a dona Olívia.

“Sim!” — Respondeu convicto.

A senhora quase solta um sorriso involuntário, tapando a boca e virando o rosto rapidamente.

“Se é o que você quer, não iremos contestar sua decisão. Acho bom mesmo que você vá morar com quem realmente é da sua família!”— Olívia parecia dizer aquilo com certo asco na voz.

Dean estava calado e calado permaneceu, com o semblante abatido.

“Comece logo a preparar suas coisas, porque você irá logo embora daqui!” — O pai de Dean deixava claro sua repulsa por Jareth, diferente de sua esposa que ainda tentava disfarçar inutilmente.

O rapaz abaixa a cabeça, em um gesto formal e triste ao mesmo tempo.

“Obrigado... pelo que fizeram por mim...”

Jareth não leva muitas coisas consigo; apenas uma mochila modesta que usava na faculdade; alguns livros que Dean o presenteou, suas roupas e sua escova de dentes. Ele não tinha nada, apenas levava consigo sua coragem e as cartas de seus supostos tios em mãos. Enquanto andava pela praça do aeroporto, se lembrava da sua despedida de Dean. Naqueles quase dois anos, eles passaram por muitas coisas juntos. Compartilharam segredos e Jareth o via como um porto seguro. Alguém com quem ele poderia compartilhar tudo e iriam continuar a manter o contato, mesmo de longe.

— Promete que não vai arranjar encrenca? – Dean deu uma tapinha no ombro do amigo.

— Não posso prometer nada... – responde Jareth, rindo. – Obrigado por tudo, camarada! Nunca vou esquecer do que fez por mim.

Dean sorriu, apertando os lábios.

— E faria de novo, parceiro! – Eles se abraçam calorosamente.

— Se cuida, cara! Não esquece de escrever, viu?

— Não vou esquecer! Algum dia eu venho lhe visitar! – responde Jareth dando um cascudo no amigo.

— Se cuide, querido e faça boa viagem! – Diz a senhora Olívia, mas o rapaz a ignora.

Jareth pôde ver pelo canto do olho, antes de entrar no táxi, que Dean estava com olhos brilhando, como se quisesse chorar. Realmente era duro para ele ver seu amigo partir e talvez cogitasse em ficar só por causa de Dean. A cena rebobinava em sua mente enquanto ele caminhava, até que ele acorda esbarrando em um senhor que estava pela frente.

— Nossa! Desculpe, senhor! Não fiz por mal! – o rapaz prontamente se desculpa.

Ele se vira, mostrando um aspecto frio, mas ao mesmo tempo não demonstrava ser alguém perigoso. Tinha a cabeleira branca, presa por um rabo de cavalo, trajava um terno fino e elegante, como se fosse para uma festa de gala, e era alto, com um porte atlético. Suas feições eram duras como a de um lutador de WWE e tinha a pele escura, combinando com seus olhos castanhos claros. Sua barba corria rala pelo rosto e parecia estar esperando por alguém, visto o modo que estava parado no meio da multidão.

Ele o olhou, analisando o rapaz dos pés à cabeça.

— Você não seria o senhor Jareth Wolfgang, seria? – pergunta ele, educadamente.

Jareth ainda estava intimidado com o porte do homem à sua frente e só responde que sim com a cabeça, sem reação.

— Finalmente. – O senhor se inclina em reverência. – Meu nome é James Baskerville. Sou o mordomo dos Wolfgang e estou aqui para levá-lo em segurança para Starry Sky, jovem mestre!

Jareth sentia que iria ter um infarto. “Minha família tem um mordomo? Será que sou sobrinho de alguma rica mulher de negócios”? Questionava-se mentalmente, empolgado com a ideia ter uma vida digna e luxuosa a qual nunca havia experimentado antes. O rapaz entrega sua mochila para o mordomo e os dois partem para seu voo que sairia em dez minutos. Como dizia na carta, sua tia Abigail havia deixado tudo pronto e encaminhado para a viagem deles.

Enquanto esperavam no guichê, Jareth cutuca o mordomo.

— Você... é mesmo o mordomo dos meus tios? – pergunta, acabrunhado.

— Sim, jovem mestre. Sou o mordomo dos Wolfgang há mais de duas gerações. Inclusive fui designado pela mestra Abigail para ser seu guardião pessoal. – Algo na frase de James chamou a atenção de Jareth; “o que ele quis dizer com “há mais de duas gerações”?” Jareth, porém, estava tão entretido e animado com a ideia que não parou para julgar a sentença.

— Wolfgang? – Pergunta ele curioso. – Mas... eu não tenho “Wolfgang” no nome.

— É claro que tem, jovem mestre! O sangue dos Wolfgang corre em suas veias. Eu sinto olhando para você.

— Não, não! Meu nome é Jareth Collins! Não tenho Wolfgang no nome – insiste o rapaz.

— Tudo será elucidado quando chegarmos à mansão – responde o mordomo, sereno.

Jareth assentiu, mesmo estando confuso sobre várias coisas. Mesmo assim, não perguntou mais nada durante o resto da viagem, embora tivesse mil e uma perguntas para fazer ao mordomo, e mil e duas perguntas sem respostas. Jareth e James embarcam no avião às 5h da tarde, muito mais tarde que o previsto, devido aos atrasos do próprio voo. Eram 2h da manhã quando o avião pousou no aeroporto de Transilvânia. Enquanto pousava o avião, Jareth notou algo atípico pela janela e coça os olhos para ver se não estava vendo coisas, mas ele jurava que havia visto uma silhueta humana, agachada em cima do telhado do aeroporto. Olhou novamente, mas ela havia sumido. Talvez só estivesse vendo coisas mesmo...

— Chegamos ao aeroporto de Starry Sky City! Que Deus tenha piedade de vossas almas! – Diz o copiloto como se estivesse com medo.

Assim que desembarcou, James e Jareth seguiram para um carro luxuoso e de um modelo antigo da região e seguiram em uma viagem pela cidade iluminada e quieta, até o centro de Starry Sky City. Sendo a capital da Transilvânia, uma cidade velha, então muitas casas ainda tinham seu design antigo, baseado nas antigas moradias da idade média. Jareth estava encantado com a beleza rústica arquitetônica da cidade e a viagem pareceu perdurar mais tempo por causa de sua fascinação. Ao chegarem ao endereço indicado por James, o jovem se depara com uma mansão imensa, cercada por um jardim que se assemelhava à uma floresta, delimitada por grandes muros de pedra. O carro estaciona em frente a um chafariz gigante, em frente à casa a qual havia uma placa de recepção com o nome “Wolfgang” talhado nela.

— Chegamos à sua mansão, jovem mestre! – James se curva novamente em uma reverência e dando passagem para ele.

— Minha... mansão...?

Sem ter como reagir, Jareth pega sua mochila e caminha em direção à entrada, engolindo em seco e parando na porta antes de entrar. Ele olhava a maçaneta com sua mão tremendo, seu coração palpitando e o suor descendo frio pela testa. Era a hora de ele finalmente conhecer sua família desconhecida.

Lentamente o rapaz abre a porta e se depara com um salão suntuoso e enorme, iluminado por grandes lustres pendurados no topo da enorme construção. O chão era um azulejo xadrez, coberto ao centro por um tapete vermelho que levava a uma escadaria no centro do cômodo, onde um casal aguardava. Os olhos de Jareth estavam estáticos, olhando para os dois senhores de pé e que pareciam emocionados com sua chegada. A senhora vestia um grande vestido engomado e preto, lembrando os vestidos da era vitoriana. Tinha seus cabelos grisalhos amarrados por um coque e estava acompanhada de um senhor, que trajava um fino paletó com um relógio de bolso em seu peito.

— Não acredito! Finalmente chegastes, meu querido sobrinho! – diz a senhora com os olhos brilhando e o rosto vermelho.

Ela correu em direção a Jareth e o abraça calorosamente, afagando sua cabeça. Ele apenas fica paralisado, sem saber o que pensar ou o como reagir.

— Que bom que chegastes bem! Como crescestes, meu querido Jareth!

— E-então... você é minha tia Abigail? – pergunta o rapaz com a voz trêmula.

— Sim! Sou Abigail e aquele é vosso tio Edgar – responde, apresentando o senhor que vinha andando com um sorriso largo no rosto.

— Há quanto tempo Jareth! Realmente, você se tornou um jovem bonito e saudável! Charlotte cuidou bem de você...

Jareth baixou a cabeça por um instante, fechando seu semblante.

— Sim... a mamãe... – Jareth cobre o rosto com o braço, chorando baixinho. – A mamãe cuidou bem de mim...

Abigail o abraça novamente, dessa vez com Edgar.

— Sinto muito pelo que acontecestes a ela... eu também não acreditei quando tomei conhecimento de que ela havia falecido. Ficamos muito abalados...

— Mas agora você está aqui conosco – consola Edgar. – Tenho certeza que vai ser muito feliz aqui!

Depois da reunião em família, Abigail limpou seu rosto e retomou sua postura. James vinha logo atrás, trazendo a bagagem de Jareth.

— James! Podia, por gentileza, deixar os aposentos de Jareth pronto enquanto mostramos a mansão? – Pediu.

— Como quiser, minha mestra! – Ele prontamente obedece e se retira, subindo as escadas.

— Então Jareth... conte-me qual é vossa época preferida para caçar.

Um nó se formou na mente dele, que demorou algum tempo para interpretar a pergunta.

— Caçar? Como assim, tia? – pergunta Jareth, confuso com a pergunta.

Abigail parecia não entender a reação do sobrinho.

— Creio que Charlotte não chegou a ensinar a ele como caçar – sugere Edgar. – Portanto, poderíamos cuidar dessa parte para ela.

Jareth apressa o passo e para na frente deles, com o semblante desconfiado.

— Já chega, vocês dois! Dá para me explicar do que vocês estão falando?!

— Como assim, querido? Você não sabe que todos os lobisomens caçam em certas épocas...

Jareth empalideceu.

— E-espera... o que você disse?! – diz ele com a voz trêmula.

— Lobisomens...

— Lobisomens?! – Os olhos dele quase pularam de seu rosto.

— Sim, querido. Somos lobisomens – Abigail estende o braço e sua mão se transforma em uma pata com garras afiadas. Jareth petrificou ao ver aquela cena surreal perante seus olhos. – Iguais à sua mãe. Ela nunca te contou?

Jareth responde que não com a cabeça. Ainda estava sem voz com o que acabara de ver.

— Não é surpresa que tenhas ficado impressionado. – Abigail puxa o sobrinho pelo braço, entusiasmada. – Agora... vamos ao tour pela mansão!

Antes que pudesse dar um passo, Jareth desaba para trás, inconsciente.

— Querido! Você está bem?! – Grita a mulher acudindo seu sobrinho, desesperada.

Ele desmaiara com tamanho choque.

Wolfgang

Jareth acorda com um copo de água molhando seu rosto e pula do sofá onde o colocaram, apavorado. Estava agitado, olhando para os lados, balançando os braços freneticamente e gritando como uma harpia louca, enquanto seus tios tentavam acalma-lo.

– Jareth! Querido! Se acalme! – Pediu ela, preocupada com a sanidade mental dele, ou o que restou dela.

– Ah! Você! Sua mão! Virou uma pata de cachorro! – Grita enquanto se afastava de seus tios. – Pessoas normais não fazem isso! Mas o que diabos são vocês?!

Eles estavam ainda mais confusos do que o próprio Jareth.

– Como assim, querido? Somos lobisomens! – Repete.

– Isso... isso é sério?! – Jareth se estapeou para ter certeza de que não se tratava de um sonho ou uma alucinação; era tudo verdade. – Vocês... vocês... são... lobisomens...

Abigail pareceu sentida com a reação do sobrinho. Edgar se aproxima lentamente do rapaz acuado no canto da parede e estende a mão para ele, com um sorriso amigável.

– Entendo que para alguém que foi criado como um humano, seja um choque muito grande saber disso, mas não somos como malvados e nem queremos lhe fazer mal, garoto!

– Por favor, acredite em nós querido! Não queremos que penses coisas erradas sobre nós... – Conclui Abigail.

Jareth levou algum tempo para se recompor do trauma que havia sofrido, com o susto e o pânico de parecer trancado em um filme de terror, ou em um pesadelo. Pelo modo como dialogavam, realmente não queriam lhe fazer mal, mas não amenizava o fato de sua única família no mundo serem lobisomens. Isso ele ainda iria levar algum tempo para engolir.

Seguiu seus tios “lobisomens” pelo casarão luxuoso, ainda em choque com aquela cena surreal. Nunca imaginara, em sua vida, que poderia existir aqueles monstros que ouvia das histórias de ninar ou de contos de fadas.

Subindo as escadarias eles chegam a um grande corredor entupido de quadros nas duas paredes.

– Aqui, meu querido, jaz a galeria de quadros da família! – apresenta Abigail, mostrando os quadros enquanto andavam lentamente, comtemplando um por um. – Todos estes quadros são retratos de todas as gerações passadas em momentos marcantes da história da família Wolfgang em toda a sua glória.

Eles andam até pararem no corredor onde estava destacado, no meio da parede esquerda, um quadro maior e mais trabalhado, com um homem de cabelos longos e castanhos, rosto fino e elegante e vestindo trajes medievais, cobertos por uma armadura reluzente. Abigail chamou a atenção de Jareth para aquele quadro em especifico.

– Esse aqui, querido, é nosso antecessor mais importante e o que deu origem à toda nossa nobre linhagem: Radu, o Belo! – diz Abigail com orgulho.

Radu... esse nome não me é estranho...

Depois que passaram do corredor, os três viraram à esquerda e chegaram à biblioteca da família, uma sala imensa e vasta em livros e estantes. Só possuía duas janelas para o tamanho do lugar, o que fazia de lá um local naturalmente escondido na penumbra.

– Aqui é nossa biblioteca! Há vários livros antigos, tomos, relatos e grimórios raríssimos, adquiridos ao decorrer das eras. Sinta-se à vontade para pesquisar algo aqui quando quiser! – diz Edgar, convidativo.

Ainda depois eles visitam o aviário, a sala de jogos, e chegam aos quartos que ficavam seguindo outro corredor depois de se pegar uma escadaria no fim da sala de jogos. Ficava em uma das torres da mansão, se assemelhando a um castelo. O seu quarto era espaçoso e iluminado, com um janelão enorme com vista privilegiada para os vastos e verdejantes jardins de seus tios. O quarto era comparável a sala de estar da residência de seu amigo Dean em tamanho e tinha um banheiro, um armário embutido próprio e uma escrivaninha. Em cima da cama que já estava cuidadosamente preparada por James, jazia sua mochila com suas coisas para serem arrumadas.

– Aqui é seus aposentos querido! Tem um banheiro, armário, escrivaninha e uma janela com uma vista linda para os jardins! – informa Abigail desfraldando as cortinas da janela.

– Nossa... – Jareth estava boquiaberto com tamanho espaço que nunca sequer sonhou em ter para si.

– Vamos deixar você aqui para arrumar suas coisas. O jantar fica pronto em dez minutos! – diz ela já se retirando do quarto.

Jareth fica sozinho em seu novo quarto, se deitando em sua nova cama e sem saber como reagir diante daquela situação. Pensava no que sua tia havia dito com relação a sua mãe; ela era realmente uma lobisomem? Porque sua mãe nunca havia contado a ele sobre isso? Será que ele também era algum tipo de monstro? Jareth rolou na cama sentindo como se sua cabeça fosse estourar com tantos questionamentos. Depois de alguns minutos, Ele escuta um sino soar na parte debaixo da mansão.

O jantar já estava servido.

Ao chegar na sala de jantar, Abigail e Edgar lhe esperavam animados. A comida era uma carne estranha, quase crua e com alguns fluídos que se assemelhavam a ácidos estomacais – também não tinha um cheiro tão bom.

– Querido! Venha comer! Edgar caprichou na comida de hoje!

Ao se sentar, Jareth sentia náuseas com o cheiro daquela comida entrando em suas narinas e rapidamente tapou a boca.

– Acho... que vou para o meu quarto, tia! Com licença... – Jareth se levanta rapidamente da cadeira e sobe as escadas correndo.

– Querido! Você está bem?

– Abigail! Deixe-o. Ele só deve estar cansado da viagem ainda! – diz Edgar com uma mordida feroz na carne.

– Espero... você fez o jantar hoje com tanto esmero, querido.

– Está tudo bem, querida. Creio que Jareth só está cansando, só isso – consola ele novamente.

No quarto, Jareth fecha a porta em um supetão e se deita na cama enjoado. Depois de um tempo deitado, quase pegando no sono, se levanta assustado ao ouvir um barulho vindo da janela, mas era apenas um gato preto; ele suspira aliviado e se deita novamente com a mão na testa.

– Você é novo aqui, não é? Quem é você? – Uma voz grave falou com ele e Jareth novamente se levanta da cama assustado, olhando para os lados. – Ei! Eu estou falando com você!

Jareth mirou o gato na janela e eis que a voz vinha dele. O gato estava falando com ele.

– Você... você... falou... comigo?! – pergunta o rapaz com a voz trêmula.

O gato desce da janela e caminha lentamente em direção a ele, que se afasta do felino, apavorado.

– É claro que eu falei com você, seu paspalho! Quem é você que eu nunca havia visto aqui? – repete a pergunta.

– Eu... eu... sou... Jareth... – Ele se esforça para responder, mas seu corpo não parava de tremer enquanto encarava os olhos brilhantes do bichano.

– Jareth? Você é o sobrinho da Condessa? – Ele se referia a sua tia Abigail.

– Sim... eu... eu... me mudei... hoje para cá!

– Pare de se tremer e fale comigo direito, seu mongoloide! – retruca o felino irritado. – Eu não vou fazer nada com você!

Jareth respirou fundo e se levanta do canto da porta, voltando para cama onde o gato jazia sentado.

– Melhor assim, não é? Meu nome é Nekogal. – Ele estende a pata para Jareth.

— Prazer...

— Sugiro que você tome cuidado Jareth – Ele pula novamente para a janela. – Coisas estranhas acontecem nessa cidade a todo instante.

— Coisas... estranhas? – Pergunta Jareth, confuso.

— Se for sair por aí, cuidado com eles – adverte Nekogal.areth respirou fundo e se levanta do canto da porta, voltando para cama onde o gato jazia sentado.

— Ei! Espera aí! “Eles” quem? – pergunta o rapaz tentando pegá-lo, mas o gato salta para o telhado.

— Qualquer coisa... pergunte à Condessa! Ela lhe explicará tudo. Até breve! – Nekogal desaparece em meio às arvores frondosas do jardim.

Jareth para no seco, assustado e pensativo com suas palavras. O que quer que tenha significado aquela frase, estava claro o aviso...

“Cuidado redobrado daqui para a frente...”

A sombra que move o destino

Não muito longe dali, em uma região calma e deserta do centro de Starry Sky, uma batalha frenética se iniciava entre monstros eternos inimigos e premeditados pelo destino – lobisomens e vampiros se enfrentam em batalhas sangrentas e secretas há gerações. Outros monstros são incapazes de mediar essas guerras das trevas e que sempre culminam em morte e destruição.

De longe, uma sombra observa tudo no silêncio da escuridão. Coberta por um capuz negro, ela se esconde na penumbra e apenas assiste atenta ao desenlaçar do combate. Dois monstros se enfrentam em uma das ruas desertas da cidade e o combate estava equilibrado, com ambos se deleitando ao máximo de cada momento do embate.

O lobisomem começa com uma investida veloz contra o vampiro, que responde com uma onda de energia que despedaça toda a rua na direção dele. O lobo desvia com um salto acrobático no ar, ao mesmo tempo que preparava um golpe brutal para esmagar o crânio do seu inimigo. Ele erra, mas continua com uma sequência de golpes rápidos que deixam o vampiro acuado – ele, por sua vez, prepara um ataque surpresa para o momento em que achasse uma brecha no ataque do lobisomem, que não dava espaço para o vampiro sequer respirar.

Antes que pudesse desferir seu ataque contra o lobisomem, uma explosão acomete no local onde ele jazia, tangendo-o para longe. Quando a poeira baixa, eis que o lobo estava em sua forma humana, transpassado em seu abdômen por uma lâmina negra que parecia queimar sua carne enquanto fincada no seu corpo. Alguns momentos depois, ele perde a consciência.

Seu corpo inerte é arremessado à vários metros de distância, e a sombra que assistia a tudo, quieta e paciente, se mostra recolhendo sua lâmina de energia. O vampiro assistiu tudo boquiaberto, sem saber o que deveria fazer.

– Então... você também é um vampiro como eu? – pergunta ofegante.

Nada é respondido e isso significava que ela também não seria amigável com ele também.

– Ora! Você já acabou com o odioso inimigo! Por que ainda está atrás de mim?! Nós não somos da mesma espécie?! Nós não somos irmãos de raça?!

No momento em que termina sua frase, uma pressão perpassa o corpo calejado do vampiro, arrancando seu braço esquerdo. Ele paralisou por alguns momentos, não sentindo mais seu braço e parece estar à beira da insanidade.

– Como quiser, então... – Ele começa a rir, extasiado com a energia daquele ser misterioso. – Fazia muito tempo que eu não sentia minha espinha gelar! Quem é você afinal?!

O vampiro ataca imprudentemente seu adversário, cego pelo medo e pelo fascínio da batalha. Ele o acerta em cheio, passando como um vulto pelo corpo do encapuzado.

– Está acabado! – anuncia ele de forma insana.

– Tem certeza disso? – Uma voz feminina e levemente diabólica reboou no ambiente.

Ao se dar conta, ele tem seu outro braço estraçalhado em vários pedaços. O vampiro cambaleia em direção a parede mais próxima, atordoado com o golpe invisível que levou.

– Mas... como... como que... quando?! Eu nem o vi se mexer! Como ele...?! – se questiona, atemorizado com o que acabara de acontecer. – Não... não! Não! Não posso aceitar isso!

Sem seus braços para atacar, o vampiro salta desferindo um chute martelo poderoso que esmigalha o solo, formando uma cratera profunda no lugar em que sofreu o impacto. O encapuzado se esquiva do ataque e permanece no ar, suspenso por três colunas pontiagudas de energia que brotavam de suas costas, lembrando asas reluzentes.

Em meio aos destroços, o vampiro desmembrado salta novamente com um chute frontal, mirando o corpo do sujeito misterioso. Um dos focos de energia que ele usava em sua levitação se converte em uma mão espectral que agarra o tornozelo do vampiro.

– Droga! Ele usou sua energia materializada... para agarrar minha perna! Não tenho como me soltar... essa energia... é forte demais!

– Já pode voltar para o chão! – diz a sombra, arremessando o vampiro de volta na rua, especificamente no centro da cratera formada pelo seu ataque anterior.

Os dias em Starry Sky são assim: uma guerra milenar incessante pelo domínio, pela soberania das espécies, por territórios e entre as criaturas que dominam e residem na noite. Nekogal, de um telhado longínquo ao norte dali, assistia as guerras noturnas em seus muitos passeios casuais pelas ruas adormecidas de Starry Sky. O vampiro que estava afundado na cratera se depara com um monstro gigantesco que tomou a forma do fundo do buraco onde fora jogado. Essa criatura horrenda e abominável possuía uma infinidade de olhos diabólicos e bocas com dentes pontiagudos e era composta por uma massa rubro negra que parecia vim do próprio Sheol.

Antes que ele pudesse fazer algo, a criatura toma a forma de uma grande centopeia e devora vivo o vampiro, sem chance de reação.

– Acho que me exaltei um pouco... esse fim acabou sendo mais do que você merecia.

A sombra que flutuava sobre os telhados quietos da cidade pousa lentamente no chão tomado pela massa sombria de olhos e bocas, e que aos poucos ia se recolhendo ao corpo de seu mestre.

– Não importa... não precisamos de mais lixo poluindo essa cidade! – conclui enquanto ria.

De longe, Nekogal continua seu rumo como se não houvesse visto nada e a sombra permanece parada, olhando fixamente para ele.

– Sempre como um espectador... não é? – pergunta o encapuzado.

– Nunca precisei me meter nesses assuntos. – responde, arrogante. – A tarefa de jogar o lixo fora é sua desde que você voltou dos mortos... Valentine!

A sombra soltou uma risada como se estivesse curtindo uma piada.

– Sou apenas uma sombra... a sombra que move o destino! – retruca enquanto seu corpo ia se esvaindo lentamente com o vento.

– Hum... Até quando... você será apenas uma sombra?

Notas finais
Espero que tenham gostado! Espero voltar a postar logo. Até a próxima. :D