Valentine
1 Capítulo um
Notas iniciais
espero que alguém goste disso aqui ♥
LIVRO UM
"Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo." – Pitágoras
Narrado por Valentine
22 de outubro
Ouço o meu nome ser chamado e suspiro. Me levanto rapidamente da cama e, ao tocar meus pés no chão, sinto um ardor incômodo – culpa das bolhas nos pés. Saio do quarto apressada, assim como ando pelo corredor minúsculo e escuro. Não sei se é noite ou dia, a mansão é sempre escura e quieta, além de que eu nunca saio dela.
Quando chego na sala, o vejo sentado no sofá olhando os seus pés descalços. A televisão está ligada em um canal qualquer e está num dos volumes mais baixos.
— Sim? – o chamo. Ele ergue o seu olhar lentamente e passa uma mão no cabelo.
— Sabe qual a origem do nome Valentine?
Há um livro velho em seu quarto, e ele me disse para lê-lo há muito tempo, desde então o leio sempre que posso. Harry sempre teve uma certa fissura por significados de nomes e suas origens e talvez, infelizmente, me contagiou com essa paixão estranha.
— Sim, eu sei.
— É a versão francesa de Valentina, que surgiu do nome do latim Valentinus. Sabe o que ele significa? – levanta a cabeça e me olha nos olhos. Os seus olhos refletem dor como sempre, só que agora ele parece também sentir muita, muita raiva.
— Forte, valente. – engulo em seco e esfrego as mãos na minha camisa.
— Acha que esse nome combina com você? Cuidado para não errar a resposta. – ameaça e se levanta. Ele se aproxima até que fiquemos frente a frente, a minha cabeça abaixada a fitar os nossos pés perto um do outro.
— Não? – não devia soar como uma pergunta.
— Está me perguntando?
— Não. Ele não combina comigo. – torço o nariz e aceno negativamente, sentindo uma lágrima salgada molhar os meus lábios e a minha bochecha. Eu não sei se o que me incomoda é raiva ou tristeza.
— Por quê? – arfo. Levo alguns segundos para conseguir responder, mas ele não se importa.
— Porque sou fraca. Eu sou fraca e covarde.
— Exatamente! – ele força um riso que sai seco – Pelo menos burra você não é. Arrume toda a casa. Isso aqui está uma sujeira.
Calça os seus tênis e se dirige à porta, consigo ver a rua atrás dela por um segundo – céu claro, rua deserta e nenhum barulho de carro. Então Harry a tranca e me deixa sozinha em casa.
Ouço-o sair com a sua moto e imediatamente corro para o banheiro. Preciso de um banho e tenho vergonha de lembrar que a última vez que tomei um foi dois dias atrás. Pego uma escova de dentes velha que escondo embaixo da pia do banheiro e escovo os meus dentes ao mesmo tempo em que tremo de frio.
A água quente faz meus poucos machucados arderem, eu deixo que as minhas lágrimas se juntem com a água do chuveiro e percebo que ultimamente tenho chorado muito.
— Tudo bem. É tomar um quente e sentir dor, ou tomar um banho frio, gripar e sentir mais frio ainda. – digo para a parede branca.
Passo a mão molhada pelo meu cabelo e o sinto sujo. Enfio a minha cabeça debaixo da água e logo lavo-o.
Quando esfrego o meu corpo, a água ganha uma cor estranha e me faz rir. Eu estou imunda.
Lavo os meus pés e finalmente fecho o chuveiro, me enrolo na toalha preta e corro de vou para a suíte onde o banheiro fica. Visto a mesma roupa que vestia antes, e depois paro em frente ao espelho que enfeita o quarto e toco os meus ossos, que são bem visíveis.
Não sou magra desta forma porque ele me faz passar fome, mas sim porque é raro quando tenho vontade de comer.
O meu cabelo é castanho claro, mas a sujeira e a falta de cuidados fazem com que a sua cor se assemelhe, na maioria do tempo, à de areia molhada. Arrumo o banheiro e seco o meu cabelo o máximo que consigo com a toalha. Ele é maior do que eu gostaria que fosse, mas o lado bom é que às vezes posso passar o tempo criando penteados em mim mesma.
As minhas unhas também são maiores do que deveriam e cortadas raramente, e por isso o meu corpo todo é marcado por arranhões que quase nunca sei como consegui.
Calço as minhas meias enquanto me mexo para ajeitar a camisa no meu corpo. Eu tenho muitas meias, sempre que Harry se livra de uma das suas, eu pego para mim. Podem ser muito úteis – eu já cheguei a pensar que ele as jogava fora intencionalmente, justo para que eu as pegue, mas sei que ele é orgulhoso demais para me dar algo –, como a mansão sempre é fria, eu uso-as não só nos pés, mas também nas mãos.
Com as roupas ele é mais severo, tenho algumas camisas velhas suas e roupas de amigas que esqueceram aqui quando vieram o visitar, como o meu (único) vestido. Eu também tenho um par de tênis velho que me traz calos, mas consegue proteger do frio e que tem muita utilidade na maioria do tempo.
O meu quarto fica perto da cozinha, os dois são separados por um corredor sem iluminação e com nenhum cômodo além do meu quarto. Ele é pequeno e iluminado por uma lâmpada que sempre teima em falhar, nele há uma cama de solteiro de madeira velha, que dá conforto não só a mim, como também a alguns cupins, um armário que guarda apenas o último presente da minha mãe, as minhas poucas roupas e alguns livros antigos que ele não reclamou que eu pegasse.
Perto de uma pequena janela que é alta demais para mim, eu guardo um banquinho que uso para me apoiar e olhar o que existe do outro lado da rua e de fora da casa.
Depois de arrumar todos os cômodos do segundo andar – biblioteca, quartos, escritório e banheiros –, eu desço para o primeiro. Por algum motivo eu olho para a televisão ligada e vejo que passa um filme de drama. O protagonista está com câncer e a sua mãe chorava junto dele.
A minha mãe chorou assim por mim?
Me sinto mal ao pensar que muitas pessoas podem estar em situações piores do que a minha, e me arrependo de ter tantas vezes reclamado dela. É tudo tão horrível que não desejo tanto sofrimento nem para o culpado disso tudo; Harry.
— Eu vou orar por vocês. – sussurro quando desligo a televisão.
Agradeço mentalmente, com um pouco de receio, pela vida que tenho. Talvez ele tenha razão quando diz que tenho que agradecer por estar viva.
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