Valentia e Doçura
6 Incertezas rotineiras
Notas iniciais

P.O.V. Murilo
Noite passada eu fiquei até tarde trabalhando na loja, havia chegado mercadoria e fiquei organizando o estoque. Finalmente eu teria uma folga, estava completamente moído. Acordei com lambidas do Koda no meu rosto.
— Bom dia garotão — dei-lhe um beijo no alto da cabeça.
Eram 10h, fiz minha higiene matinal e tomei café. Era um lindo sábado ensolarado, a luz do sol forte atravessava as persianas da sala. Lembrei-me que havia marcado um almoço com Alice e com meu melhor amigo Caio.
— Mãe, a senhora vai fazer o que de almoço ?
— Vou fazer frango assado, o que acha ?
— Legal mãe, precisa de alguma coisa ?
— Hummm... passa lá no mercado e traz 2kg de batatas, 2 lata de ervilhas e um sabão em pedra, vai estar R$2,99 hoje.
— Certo. Estou indo. Tchau mãe.
Calcei um tênis e fui. O mercado não estava muito movimentado e as filas estavam curtas, em cerca de vinte minutos depois eu estava em casa e minha mãe começou a fazer o almoço. Meu celular apitou e fui conferir se era algo importante.
✉ 1 nova mensagem.
De: Alice
10h57 PM
— Que horas posso ir ai ?
Respondi sua mensagem:
" Minha mae ta preparando o almoço ainda, mas vc pode vir a hora que quiser ;D "
Uns 2 minutos depois, eis que meu celular apita novamente:
" Ok daqui a pouco eu toco sua campainha ^^ "
A campainha tocou, " que rápida" pensei, porém ao abrir a porta, me deparo com a figura de Caio, com os cabelos encaracolados desgrenhados, os pequenos olhos azuis e o nariz largo (de porco) sorrindo para mim. Assim que entrou começou a falar de como Amanda era maravilhosa na cama e de como ele estava apaixonado por ela. Meu estômago se revirou.
— Você está usando proteção ?
— Lógico, não quero ter filhos tão cedo — disse ele risonho.
— Claro, sei disso, e nem doenças.
— Eu confio nela cara, eu gosto dela pra porra — ele agora parecia mais um retardado do que um homem apaixonado.
— Minha amiga Alice vai vir almoçar com a gente, enquanto ela não chega, quer jogar videogame ?
— Demorou.
Depois de duas partidas do jogo, a campainha tocou. Abri a porta e lá estava ela, usando uma camiseta preta, um shorts jeans, que dava à visão das lindas e femininas pernas que ela tinha, e um tênis florido. Ela me cumprimentou na ponta dos pés, era tão pequenina. Eu quis mordê-la naquele momento, mas não o fiz. Apresentei minha mãe e o Caio à ela, depois ela se sentou no sofá e Koda veio saltitando ao seu encontro. Alice era uma garota realmente apaixonante, por isso eu não questionei Koda. Desde que a conheci, sempre me pegava pensando nos detalhes de seu rosto, nas curvas de seu corpo e no som de sua risada. Ah, aquela risada era incrível. Toda noite ao deitar, torcia baixinho para que ela também pensasse em mim, do jeito que eu pensava nela.
Almoçamos ao delicioso sabor do tempero de minha mãe, depois Caio retomou a conversa sobre Amanda. Chamei Alice e Caio para meu quarto.
— Poxa, que quarto daora Murilo! — exclamou Alice, enquanto passava os olhos por minha "decoração".
— O-obrigado — foi tudo que consegui dizer.
Depois disso, caio me olhou como quem diz " Por que nos chamou aqui ? ". Reuni toda ( e pouca) coragem que havia e mim e soltei:
— Amanda é uma vadia!
— O QUÊ ?!
— Senta aí cara — Empurrei-o em cima de minha cama e puxei Alice delicadamente para meu lado.
— Vou te explicar. Só quero que você ouça. É importante. — eu declarei e Caio assentiu, desconfiado.
— Então... — comecei — quando conheci a Alice, fomos na João Ice, sabe ?
— Claro, a Amanda trabalhou lá.
— Ela não trabalha mais ? — Alice indagou.
— Não, ela só estava precisando de dinheiro, ela nunca gostou de trabalhar e eu também nunca gostei que ela trabalhasse, quero poder sustentá-la com meu próprio dinheiro.
Fiquei calado por um instante. Alice também permaneceu calada. Caio prosseguiu.
— Eu quero entender o porquê de você, meu melhor amigo, chamar a garota que eu amo de vadia.
— Calma, Caio — eu disse pacientemente, enquanto Caio me fuzilava com os olhos. — Eu e Alice fomos na João Ice, na época a Amanda ainda trabalhava lá.
— Então vocês tiveram um encontro ? — Caio sorriu maliciosamente enquanto Alice ruborizava.
— O Q da questão não é esse, c-caham — limpei a garganta e reuni palavras cuidadosas — Acontece que... as pessoas geralmente podem não ser tudo que idealizamos delas.
— O que quer dizer com isso ?
— Amanda não é tão...
— Tão o quê ?! — Caio alterou o tom de voz.
— Tão fiel quanto você pensa — Parei novamente quando senti a delicada mão de Alice pousar em meu ombro, olhei em seus lindos olhos verdes, cheios de incentivo, era a força que eu precisava.
— Amanda deu em cima de mim, Alice estava comigo, ela também viu.
Caio ficou calado, sua expressão era indecifrável. Apenas fitava o vazio. Em seguida, ele levantou o olhar, com autêntica repugnância sobre minhas palavras. Alice ficou entre nós dois, como uma barreira pacificadora.
— Olha, Caio, Murilo é seu amigo, ele com certeza já deve ter provado que é alguém em quem você pode confiar, se não ele não seria seu amigo. Mas se não pode acreditar no seu melhor amigo, acredite em uma desconhecida, que viu tudo. Amanda realmente deu em cima de Murilo, ela piscou pra ele, o olhou com malícia.
— Não posso acreditar — Caio fitava o vazio novamente, sentei ao seu lado.
— Eu sei que você gosta dela pra cacete, eu nunca faria uma afirmação dessas pra te magoar, eu sou teu amigo, poxa. Só que Amanda deu em cima de mim eu queria te alertar, sobre ela.
— Vocês têm certeza disso ? — Caio indagou, relutante.
— Sim — Alice e eu respondemos em uníssono.
— Eu tenho 21 anos e já fui corno 2 vezes, se essa realmente for a terceira, vou desistir desse lance do amor. Eu pensei que tava dando certo... mulheres são más — ele suspirou e olhou de relance para Alice — Nem todas, claro, apenas as que aparecem na minha vida. Mas eu tenho uma certeza.
— Qual ? — indaguei.
— Se eu for corno novamente, como nas últimas 2 vezes, você vai me pagar uma boa dose de bebidas e vai me convidar pra jogar GTA não vai ? — ele perguntou sorrindo.
— Com certeza — dei lhe um soquinho.
Então, por fim, Alice despediu-se de Caio com um aceno, de Koda com um cafuné e de mim com um abraço, que fiz questão de tornar o mais demorado possível. Eu não queria me apaixonar por ela, mas parecia inevitável, ou talvez fossem meus hormônios me pregando uma peça por ela ser linda demais.
Caio desabafou um pouco enquanto ele e eu jogávamos mais um pouco, até que ele decidiu ir até a casa de Amanda. Dei-lhe um tapinha nas costas e desejei secretamente muita sorte a ele. Fui até a cozinha e peguei a última coxa do frango, enquanto me deliciava com o sabor temperado dele, eu me deliciava também imaginando qual seria o gosto de Alice, incerto se algum dia seria privilegiado de tamanha forma.
P.O.V. Alice
Quando fui almoçar com Murilo e Caio, fui temerosa. Queria muito que Caio acreditasse, mas não queria que ele se magoasse. Me coloquei no lugar de Murilo, e vi que era difícil pra ele ver o amigo se iludir daquela maneira. Nunca tive amigos, mas entendi naquela tarde como é ter. Caio e Murilo tinham uma parceria bonita, e invejável para mim. Será que algum dia eu teria algo parecido ? Eu queria muito ter. Em menos de um mês eu estaria na faculdade, e minhas expectativas estavam incontroláveis.
Após quase duas semanas, o buffet na qual eu fazia alguns bicos de garçonete finalmente voltou a me chamar. Eles não estavam tendo eventos grandiosos durante esse período, e eu só era escalada quando realmente precisam de toda mão de obra possível. Felizmente, eles tinham tido uma onda de sorte e me chamaram para ir trabalhar. Eu não estava necessitada de dinheiro, mas queria guardar o quanto pudesse, afinal logo teria que pagar a faculdade. Eu havia tirado uma ótima nota no Enem, e consegui uma bolsa com desconto de 30% na mensalidade de todo o curso, ainda assim eu não queria relaxar.
Eu sempre fora, digamos que bem responsável, careta até, sempre quis me adiantar e prevenir, pois podemos ter imprevistos, e nunca sabemos o dia de amanhã. Portanto, sempre tentei me manter preparada. Muitas vezes falhei, porque ao mesmo tempo que tento colocar os pés no chão, minha cabeça está nas nuvens, sonhando.
Depois que sai da casa de Murilo, fiquei em casa vendo filmes até dar 16h45. Eu teria de chegar ao buffet às 18h pois iríamos de carro para um aniversário ás 20h em uma cidade um pouco longe.
Tomei um banho rápido e lavei os cabelos, vesti meu "uniforme" ; calça social preta, camisa de botão branca e sapatilhas pretas. O buffet ordenava que estivéssemos sempre impecáveis. Nos acessórios coloquei apenas um pequeno brinco dourado com pedrinha azul. Na maquiagem passei um pouco de pó compacto ( na esperança falha de cobrir minhas sardas ), uma sombra clarinha nas pálpebras, um delineado grosso de gatinho e batidinhas de um batom vinho nos lábios, apenas para dar uma " corzinha" pois eu odiava passar maquiagem, principalmente forte porque eu me sentia uma verdadeira palhaça. Penteei os cabelos e fiz o máximo que consegui de um coque, já que meus cabelos curtos me impossibilitavam de fazer penteados elaborados, e coloquei o laço com rendinha. Joguei meu avental, batom, garrafinha d'água, celular e as chaves de casa em minha bolsa, despedi-me de meus pais e saí.
O buffet onde eu trabalhava tinha 3 unidades no RJ, uma em Nova Friburgo, uma em Campo dos Goytacazes e uma em Duque de Caxias. Por mais que seja coincidência, só descobri depois que me mudei. Quando me mudei, pensei que teria que abandonar o buffet, mas eles me transferiram para a unidade de Duque de Caxias. Quando saí de casa peguei um ônibus e desci em uma rua próxima do buffet. Adentrei e apresentei minha carteirinha, e me direcionaram até os carros com os garçons e cozinheiros. Não demorou muito para que chegássemos no local da festa.
Fizemos os últimos retoques na decoração e então os convidados começaram a chegar e nós, a servir. Era uma festa de 15 anos de uma garota esnobe chamada Layla. "Nome de cachorro", pensei comigo mesma, quando vi os cartazes com seu nome e a cara feia estampados em todo canto. Quando fui servir-lhe, perguntei se ela estava se divertindo, e ela disse cruelmente:
— Não fale comigo dessa maneira, sou a dona da festa e você é uma pobre coitada.
Apenas sorri, afinal eu estava fazendo meu trabalho. Era completamente normal encontrar pessoas assim quando se trabalha com o público, no começo foi difícil, mas eu consegui me acostumar. No final foi uma festa tranquila, não houveram reclamações e nenhum fuzuê. Recebi um pagamento gordinho, mais até do eu esperava. Uma colega do buffet me deu uma carona e me deixou em casa, cheguei às 3h. Tirei a roupa toda, ficando apenas de calcinha e vesti uma de minhas camisetas-camisolas-gigantes, escovei os dentes, me joguei na cama e adormeci.
O domingo foi tranquilo, eu e meus pais fomos a Igreja e almoçamos fora. Ao chegar em casa, necessitei de um cochilo por conta da noite mal dormida. Acordei ao final da tarde, renovada. Prometi a mim mesma ir no dia seguinte comprar meus materiais da faculdade com o dinheiro que havia recebido. Faltavam apenas três semanas para eu começar a faculdade, e toda noite me pegava imaginando como seria, inserta sobre o que o futuro próximo me reservara.
" Ansiedade é a irmã histérica da esperança. "
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