Valdelair - Nicolas

3 Nicolas - O compositor


Notas iniciais
Pvo do Nicolas.

Olhei as duas dormindo.
Uma estava viva enquanto a outra já havia morrido.

Entrei no café e a olhei de costas. Parecia a mesma das últimas semanas.
Clarisse caminhou em minha direção e sequer me reconheceu quando passou pela porta. Não disse uma palavra ou emitiu qualquer som de respiração enquanto se afastava pela calçada olhando para o chão. Bati a porta e a segui.
Eu sabia que Alexia, a garota bonitinha que trabalhava com ela no período da tarde, estava na aula e que Clarisse abria o sebo sozinha. Poucos passos depois ela já estava tirando a chave da bota para abrir a porta. Parei na esquina fumar um cigarro enquanto ela tentava me analisar sem sucesso com a visão periférica. Eu estava longe do seu alcance de olhar. Era apenas um estranho qualquer fumando cigarro e olhando fixamente para a porta como um viciado olha para a droga.
Após alguns segundos e várias derrubadas de chave no chão, ela finalmente conseguiu abrir a porta e entrar. Meu cigarro já havia recem acabado e pensei em visitar alguns livros velhos.
Cruzei a rua vazia e entrei. De costas para a porta, Clarisse não teve nem o mínimo trabalho de se virar para ver quem era. Metodicamente ela empilhava e jogava, empilhava e jogava, empilhava e jogava.
– Posso ajuda-lo? — Empilhava e jogava, empilhava e jogava, empilhava e...
– Não, acho que não pode Clarisse. — Ela parou de empilhar e jogar. Comecei a rir e ela continuou de costas. — Será possível que você não tenha crescido nada?
– Alguns centímetros. — Ela se virou rapidamente como se temesse ser uma alucinação. — O que você faz aqui? Eu achei que nunca mais fosse vê-lo.
– Oh, fui pego. Vim com intenções malignas senhorita. — Sorri vasculhando os bolsos e tirando um papel retangular vermelho sangue. Coloquei sobre o balcão de vidro e observei a cabeça dela virar como a de um gato para tentar ler algo. — Tenho ingressos, na verdade um ingresso. Se você não for mocinha eu vou especialmente a sua casa te arrastar.
– Ah por favor. — Ela puxou o ingresso para ler — Não vá la em casa. Ual, show internacional! Fazendo sucesso em.
– Não posso negar. — Sorri e ela sorriu de volta. Não parecia tão animada quanto as outras garotas ficavam quando sabiam que estavam conversando com alguem mais famoso do que elas. — As garotas devoram sua fama e vomitam luxúria em cima de você.
– E os garotos?
– Tem inveja, raiva e ganância. Querem roubar suas garotas e adorariam estar onde você está mas não fazem sacrifícios para isso.
– Você fez algum sacrifício?
– Não! — Comecei a rir. Da onde ela tinha tirado isso? Minha vida toda tinha sido abençoada pelo cara lá de cima. Sempre apareciam oportunidades tentadoras e eu conseguia todas. — Pra mim foi fácil, falo dos inuteis que me perseguem. É um mundo cruel e eles precisam aceitar isso.
– Eu vou no show se você tocar a música que fez pra mim há quatro ou cinco anos.
Abri um sorriso. É de praxe que compositores e garotos de banda escrevam musicas para suas garotas. Eu escrevia músicas quando sentia que aquela garota valia uma musica de três minutos e aquela fama das letras. Mas as que eu escrevia eram confusas na maioria do tempo, dificilmente uma descobria se eu não dedicasse antes. Não seria diferente com Clarisse só porque ela tinha aquele olhar dos pintores loucos.
– Qual seria sua música? — Apoiei meus braços no balcão me inclinando para frente. Ela não recuou, apenas ficou parada onde estava.
Eu duvidava das capacidades dela e achava que ela nunca acertaria. Pelo menos era o que eu achava até que ela começasse a cantar uma parte.
– Aquela que me ama. — Clarisse cantou doce com a voz rouca. Se eu estivesse bêbado seria a voz mais linda de todos os tempos. Mas eu estava sóbrio e me parecia que ela não tinha futuro nos palcos a menos que mostrasse os peitos ou xingasse alguem. Encarei os lábios roxos do frio enquanto ela continuava — Porém ama mais te torturar. Porque as vezes...
– Bate as seis e... — Comecei a cantar junto. Um belo dueto de duas almas roucas — Ela vai me procurar. E eu não estou lá. Porque demoro a chegar.
Sorte de principiante, pensei enquanto o sorriso dela aumentava. Talvez fosse atenta as datas. As datas nunca mentiram.
Normalmente eu só fazia músicas para as garotas cujo eu desejava olhar mais de perto o meio das pernas. Sim, sou um maníaco obcecado por joelhos crianças!
– Eu canto se me acompanhar em uma bebedeira sem sentido antes do meio dia para todos nos chamarem de viciados sem futuro.
– Só espera eu fechar. — Clarisse abriu a gaveta do caixa e olhou lá dentro em um misto de decepção e medo pela aranha ao lado a observando
– Eu pago essa.
– Oba!
– Se me fizer um favor.
– Droga! — Ela empurrou a gaveta fazendo mais barulho do que o necessário. — Porque eles sempre pagam a bebida com segundas intenções?
– Quer seguidores de Jesus vá na igreja. — Abracei o ombro dela e caminhamos pelas estantes velhas e escuras onde todos os livros pareciam nos observar e lembrar de algo — Você só precisa me contar, apresentar e prometer algo.
– Nem chegou na cidade e já está trabalhando na mafia? Alias, se quer ouvir a verdade deveriame deixar bêbada antes.
Ela abriu a porta e eu a larguei para que a fechasse. O vento cortante me lembrava que estavamos no inverno. Clarisse abraçou os braços com frio.
Parei em frente a minha moto vermelha e sorri ao constatar que ela ainda se atrapalhava muito com as chaves.
– Você mente muito quando esta bêbada. — comentei.
Ela trancou a porta e me estendeu a chave.
– Guarda pra mim? Estou sem bolsos e eu notei que você tem muitos. — Peguei a chave e guardei. Ela me olhou com os olhos apertados devido a claridade do sol que passava entre as nuvens de um dia nublado. — Como sabe disso? Nunca me viu bêbada. Se quer conversamos por telefone. Como diabos...
Dei de ombros e subi na moto. Eu apenas sabia das coisas. Poderia ter contado a ela que talvez fosse porque eu havia passado os últimos três meses analisando o movimento da cidade. Mas não contei pois não era a hora.
– Vamos para?
Clarisse subiu na moto e eu já sabia o lugar antes mesmo que ela falasse.
– O bar do moto clube na saída da cidade. — Ela disse deitada com a cabeça no meu ombro. Parecia uma boneca de pano. — Conhece ?
– Já ouvi falar.
Clarisse frequenta esse lugar a bastante tempo pelo que pudd perceber naqueles poucos meses. Talvez mais até do que a garota das bebidas que vive fugindo para se encontrar com o namorado nos fundos. Eu conhecia os motivos dela mas mesmo assim ficava em desordem.
– Vai muito lá Lessie?
– Na verdade não.
Liguei a moto e sai.
Porque esta mentindo pra mim Lessie? O que tem naquele lugar que você esta escondendo?

****

Assim que abriu a porta ela andou até sua mesa de estimação e se jogou nela. Uma boa escolha pois permitia ver todos os pontos importantes do lugar, menos é claro o banheiro que ficava escondido nos fundos. O que mais me chamou a atenção foi que ela estava para frente da junkebox e não para frente do bar como eu faria.
– Para quem eu aponto minha arma se quiser uma bebida nesse lugar?
– Você geralmente vai lá e pede sem matar ninguém. — Clarisse olhou envolta e constatou como eu que o lugar estava vazio. Não passava das onze e a garota das bebidas fumava um cigarro preguiçosamente olhando para fora. — Eu vou lá, você quer o que?
– Vodka pura.
– Tá que seja. — Clarusse disse desinteressada caminhando até o bar preguiçosa como tudo por ali.
Olhei em volta de novo e fitei o único homem fora eu naquele lugar. Ele comia um x tudo e tomava uma cerveja. Pela primeira vez na vida eu desejei que ele acabasse logo com o sofrimento daquele sanduíche.
Após tratar de frivolidades com a garota das bebidas, Clarisse voltou com dois copos e um guardanapo rabiscado. Como sempre ela pediu uma cuba com um guarda chuva desnecessário e brega.
– Parabéns, ganhou um número de telefone e a possibilidade de uma aids.
– Eu não pego aids. — Sorri guardando o numero e olhando para a garota atrás do balcão que passava um pano desnecessário nele.
– Haha isso é o que todos dizem mas a camisinha sempre... Você sabe.
– Eu realmente não pego.
– Tá, que seja. — Ela tomou um grande gole e continuou — Me conte o que quer de mim.
– Conhece uma tal de Marjorie?
Clarisse fechou a expressão e me encarou tentando me analisar.
– O que você quer com ela?
– Não respondeu minha pergunta docinho. — Falei calmamente sem intenção alguma de responder a dela. — Até parece que esta escondendo algo.
– Não estou escondendo nada. — Ela acendeu o cigarro e eu tomei um gole da minha vodka — Você conhece ela?
– Foi justamente isso que eu perguntei. Veja que engraçado. — Dei risada enquanto observava o semblante sério da garota meio pálida como se estivesse passando mal. — Pode ao menos me apresentar a ela? É muito importante e eu agradeceria se pudesse fazer esse favor.
– Eu não sei se devo...
– Qual é, eu sei que ela mora aqui perto e sei também que ela disse para você que não queria me ver. Estou certo? Não quero brigar com ela, precisamos se acertar. Ela vai fazer você parar de me ver, sabe disso.
– Ela vem almoçar aquu as vezes, se você esperar talvez ela apareça.
– Ótimo! — A expressão dela se suavizou e eu virei o copo. — Então me conte o que aconteceu com todos da nossa turma.
O sorriso se abriu no rosto dela e eu desejei que ela se esquecesse daquele assunto pelo menos até quando Marjorie aparecesse na porta com aqueles saltos altos dela.
Eu sabia que Clarisse não se negaria a me fazer um favor. Ninguém se negava. Todos faziam o que eu queria quando eu queria. Vocês acham que eu me canso disso? Nunca!

Notas finais
Então o que vocês acharam... Já descobriram o segredo mortal?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.