Valdelair - Nicolas

1 I - Clarisse e seus sonhos ruins


Notas iniciais
Comentários, críticas e sugestões são bem vindas. Obrigada e espero que gostem.

Dez minutos contados no relógio para conseguir alguns muffins velhos. Isso sim é o fundo do poço. Ainda se fosse gostosos, mas são horríveis. Parecem pedaços de borracha com aspecto de comida. Lembram vagamente algo comestível.

Caminhei até o caixa com o pacote nas mãos. A velha por trás dele parecia ter morrido e sido solidificada naquele lugar. Talvez fosse sua punição eterna do inferno. Ter que aguentar clientes e distribuir balas de hortelã da segunda guerra. Estendi o dinheiro a ela e apreciei seus olhos sorrirem ao ver que eu não tinha moedas.

— Tem quinze centavos querida? — ela sorriu como se já soubesse que o destino das balas seria meus bolsos.

— Me dê logo as balas.

De repente o mundo pareceu pesado e eu precisei me segurar no balcão para não cair. Ouvi a sineta na porta indicando que alguem havia entrado na loja e esperei a minha pressão voltar ao normal. Há meses que eu me sentia assim. Talvez fosse câncer... haha ok. Não era câncer, se fosse câncer era só arranca-lo fora boneca!

Ouvi barulhos irritados e vi as mãos enrrugadas da velha estendidas com uma porção de balas verdes embrulhadas em plástico transparente. As coloquei no bolso e olhei irritada para a fila que se formava nas minhas costas.

— Agora vocês estão com pressa em?

Caminhei ainda meio tonta tentando não debulhar como uma rosa no meio do café. Um jovem segurou a porta com a sineta para que eu passasse. Ameacei desabar nessa hora e ele me segurou.

— Desculpe. — Murmurei irritada o afastando. Só o que me faltava era cair ali no único café decente da cidade onde todas as boas almas frequentavam. Falariam por meses e me acusariam de drogada. Eu ouviria pedidos e mais pedidos de drogas dos universitários tolos e não aguentaria nem metade. — Estou bem, me solte!

Ele me soltou e eu voltei minhas forças para caminhar pelo chão e não rastejar por ele.

Andei pela calçada cuspida e com chicletes tendo consciência de que o estranho ainda me olhava. Quem ele achava que era? Não se salva ninguém nos dias de hoje, na certa ele pegou minha...

Puta que pariu! Cadê a merda da minha carteira? Ah filho da puta bonitão cleptomaníaco gentil. Você me paga.

Subitamente me sentindo uma nova mulher sem mal estar algum, voltei correndo até a esquina da cafeteria e olhei a encruzilhada deserta. As luzes dos interiores estavam apagadas e nada parecia respirar ou conter algo vivo. Eu conseguia apenas ver as luzes laranjas dos postes públicos que piscavam violentamente.

Fui até o meio da rua e olhei o sinaleiro com a luz laranja piscando. Olhei para todos os lados e não vi nada. Até que tive a sensação ruim de ter alguem nas minhas costas. Eis que de repente me viro e constato que de fato havia alguem atrás de mim, porem esta longe demais para me preocupar.

De longe apenas vi alguem vestido de branco se aproximando em uma velocidade alarmante ja que eu mesma não conseguia me mover. Uma garota, uma não, a garota vestida de branco. A mesma de todos os meus pesadelos, a infernal garota cujo o raio de destruição sempre me incluiu dentro. Ah eu estava fodida pois ficaria presa no sonho até que ela me pegasse. Tentei em vão acordar, mas uma parte do meu cérebro dizia que aquilo era real.

Ela se aproximava com os pés no chão, as vezes rápida, as vezes lenta, as vezes com a cabeça pendendo para um lado e as vezes com a cabeça alta. Os braços quietos e imóveis e as vezes incontroláveis. Notei que era conforme meu desespero e minha vontade de acordar. Caso fosse muita ela ficava cada vez mais parada. Pelo menos a assombração seguia uma logica.

Agora ela estava perto o suficiente para que eu visse seus olhos azuis assim como os meus e os cabelos escuros assim como os meus. Sim, minha irmã mais velha estava vindo me buscar para passear no inferno. Ela estava ali, gargalhando sem som como uma condenada e perto o suficiente para me agarrar pelo pescoço e me sufocar ate a morte. Como se estivesse lendo meus pensamentos foi exatamente isso que ela fez. Eu tentava tirar as mãos dela mas era impossível. Eu podia sentir minha cabeça a ponto de explodir.

Acordei sentada no meio da cama arfando com as mãos envolta do meu próprio pescoço. Por algum motivo estranho meu rosto doía devido a um sorriso aberto que eu mostrava. Apenas larguei meu pescoço e desmanchei o sorriso idiota do rosto. Bom, eu estava viva, mas a estranha sensação de estar sendo observada ainda estava comigo. O celular marcava a hora exata dos demônios. Não, não é algo com seis seis seis. O mundo parecia ter parado para ouvir minha respiração e ouvir meus pensamentos. Lá fora tudo estava quieto assim como aqui dentro. Todos estavam quietos, então porque minha mente parecia gritar de desespero?

O problema era que Melissa, a tal garota de branco no sonho, estava cada vez mais presente nos meus sonhos bons e ruins ultimamente e isso não é um bom sinal. Mortos precisam estar mortos e vivos precisam ficar vivos, essa é a configuração normal do mundo. O fato é que algo realmente grave vai acontecer, eu tenho essa sensação como Orion sente quando a tempestade esta próxima. Ele se senta aos pés da janela e olha para fora como se a cultuasse.

Acendi um cigarro e levantei da cama. É inverno e o apartamento no sexto andar se mantem sólido e escuro como sempre. Depois que mamãe entrou em depressão ele se assemelhou cada vez mais a uma cripta mesmo nos dias com sol. Não era bem uma depressão, mas foi o que os doutores disseram. Eu conheci pessoas com depressão e estavam longe de me causar tantos calafrios e pena como aquela mulher causou antes de se matar. Ainda que Nicolas parecia piorar seu estado. Até hoje não entendo isso muito bem e espero que eu não chegue a entender. Existem alguns misterios que devem ser mantidos assim para o bem geral.

Fitei a rua deserta e molhada. Já fazia algum tempo que eu não via aquele garoto pálido e magricela. Talvez não estivesse tão magro assim e tivesse crescido um pouco mais, o fato é que eu não tinha como saber. Ele se mudou para capital afim de finalmente virar um musico de sucesso que pudesse cair no seu próprio vomito em paz, palavras dele.

Ocasionalmente aparecia em minha porta ou no sebo um cd branco com algum título psicodélico sem sentido. As vezes eu conseguia entender, mas na maioria das vezes eram piadas internas que eu já nao fazia mais parte. Esse era o único modo que ele achava para trocar notícias, ao que parece ele nunca teve a idéia brilhante de me dar seu número ou o buraco que se escondia todas as manhãs.

Honestamente, eu não sentia falta dele. Nicolas sempre teve uma presença forte mas nunca foi bom em deixar lembranças e momentos felizes. Ele era apenas momentâneo. Como uma droga viciante. Você precisava mante-lo no seu sangue se quisesse sentir algo por ele.

Sendo assim a única coisa que me fazia lembrar eram os cd's amadores de alguem cujo o nome completo ninguém se atrevia a falar ou lembrar.

O cigarro acabou e o sono voltou. Ouso dizer que essa é a melhor noite de sono sóbria nos meus últimos cinco anos.

Notas finais
O próximo é PVO da Alex.