Vagalumes Cegos
9 Entretanto a dúvida
Notas iniciais
Não havia palavra no dicionário capaz de descrever o que Reo estava sentindo.
Agora, simplificando, sentado na beira da cama com cara de desolação, ele sentia que tudo parecia estar dentro de uma bolha. O mundo parecia injusto. O barulho tosco do ventilador de teto o aborrecia. E Chihiro encarando-o não ajudava em nada.
— Será que dá pra parar com isso?
— Isso o quê?
— De me olhar assim!
Mayuzumi deu aquela risadinha misteriosa, de lábios bem fechados, um sorriso indecifrável e quase invisível no canto da boca.
— Não desconta em mim, se você está frustrado.
— Não estou!
— Ah, claro que não! Que grosseria a minha! — Ironizou, antes de olhar para o celular. — Tsk, o Akashi me mandou uma mensagem.
— O Sei-chan? Mesmo? O que ele disse? Disse pra onde foi?
Só foi preciso uma olhadinha de lado, e Reo quis se enterrar no buraco mais fundo e isolado da terra. Droga, por que ele soou tão ansioso?! Mayuzumi ergueu as sobrancelhas, fazendo aquela expressão de quem tem razão e sabe disso. Reo espalmou uma mão na testa.
— Tá bom! É frustrante. Satisfeito?
— Quase — Chihiro responde. Parece até que está se divertindo. — Foi ruim?
Que.
— O que foi ruim?
— Toda aquela merda que aconteceu — Ele levanta as sobrancelhas, inclinando a cabeça um pouco para o lado, todo sério. — Foi?
— Foi esquisito.
— Você faria de novo?
Reo abriu a boca, e hesitou por um instante — só por um instante, mas —, o que foi suficiente para Mayuzumi perceber.
— Não.
— Pensa melhor. É uma coisa que você faria de novo se pudesse?
— Realmente, aonde você quer chegar?
Eles se encaram. Por algum tempo, até Mayuzumi suspirar, irritado, e fechar os olhos como quem pede paciência.
— Vocês são tão óbvios e densos que eu sinto vergonha — Resmungou.
— Você usou “densos” de novo. Estou começando a achar que isso é pessoal? — Reo deu um sorrisinho. Argh. Já não bastava toda a comoção depois de acordar, agora, mais essa.
— Não quis ofender — Tinha alguma coisa na ladainha casual-nem-tão-casual dele que Reo não conseguia identificar; sério, desde quando Mayuzumi Chihiro tenta se comunicar com os outros? Ainda mais como se estivesse tentando ajudar?! — Tá, quis, mas olha só: até entendo que você não tenha notado o Akashi, apesar de ele não ser nem um pouco sutil (o que comprova minha teoria de que vocês são imensamente lerdos), mas você mesmo não notar o que sente... isso me surpreende. Sem querer dizer nada, de todos eles, eu achei que você fosse o mais sensível à esse tipo de coisa!
Reo não estava entendendo muito bem — a conversa toda não fazia o mínimo sentido. Acordar com Akashi deitado em seu peito foi a coisa mais estranha que já aconteceu na vida dele; e ele não acha que “estranho” seja o único adjetivo que exista para definir a situação. Ugh! Reo continua querendo se trancar em algum lugar escuro e nunca mais sair de lá. É tão horrível que ele quase sente pena de si mesmo. Ele está confuso; talvez não tenha odiado acordar daquele jeito tanto quanto deveria ter. Eles são dois caras, mas também, quem se importa? Eles são amigos! Amigos. Não parece ser a solução do problema. Amigos também não apreciariam muito acordar nos braços um do outro. Reo franziu a testa. Mayuzumi só observava. Nada fazia sentido, agora. Será... Será que...
Não!
Uh...
Ele já teria percebido isso antes, é claro!
Com certeza...
... ou não...?
— “O que eu sinto”? — Indagou, lentamente.
— É. Em relação ao Akashi. Normalmente, quando dois amigos acordam enroscados um no outro, as reações mais comuns são pular fora, talvez brincar sobre isso; pular fora, ficar puto, praguejar um pouco, talvez fazer uma cena; tirar sarro, pular fora, talvez nunca mais tocar no assunto; pular fora, resmungar sobre o que aconte—
— Sua experiência de vida é realmente magnífica! — Reo interrompe.
— É senso comum, Mibuchi. Você pulou fora, ficou constrangido pra cacete, e não conseguia nem formar uma frase!
— Eu fiquei em choque!
— Não pelos motivos que você acha que ficou!
Ok. Ele tem certeza de duas coisas agora. Uma é que falta muito pouco para Mayuzumi levar um soco. Outra, é que ele acha que está entendendo.
Mas não tem certeza absoluta sobre a última, ahém!
— Então você está insinuando...
— Não estou insinuando nada. É óbvio. Tão óbvio quanto o Hayama e aquele cara da Shutoku, tão óbvio quanto o número 11 da Seirin e o número 10! É patético que vocês não percebam nada um no outro!
Reo ignora o fato de que talvez não seja tão óbvio, e que Mayuzumi apenas não tem nada melhor para fazer do que cuidar da vida dos outros:
— Chihiro, olha, será que você se importa de realmente me dizer o que você está tentando me dizer? Não acha que fica muito mais simples?!
— Por isso vocês são densos! Tsk, tenho que mastigar tudo pra vocês. Deveriam se ajoelhar aos meus pés, me chamar de senpai e ainda amarrar meus cadarços!
— Chihiro.
O terceiranista o observou por alguns segundos, antes de revirar os olhos.
— Você gosta dele.
—... — Era isso? Reo franze as sobrancelhas. Ele abre a boca para falar alguma coisa, mas a situação é tão idiota que não sai nada. Ele olha para o lado, pensativo, antes de fitar Mayuzumi com um olhar cínico. — Não me diga.
— Há-há — O outro faz, mais cínico ainda. — Você sabe do que eu estou falando.
— Se eu soubesse não estava falando com você há tanto tempo, não acha?
Mayuzumi abre um sorriso. É maldoso, e ácido, e Reo de repente vê que as coisas fazem sentido, sim.
— Você está gostando dele — Chihiro diz, bem devagar, como se estivesse falando com uma criança —, e sabe o que é o máximo?
Ele está apaixonado por você também.
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