V E N U S - Origin
6 1.5 Adeus

— Quem você pensa que é? – vociferou a jovem. – Ultrapassou os limites do ridículo, Howard!
— Não permito que fique aqui, isso é uma missão suicida! – retrucou no mesmo tom. – Não foi isso que combinamos.
Os dois discutiam frente ao Tenente e auxiliares médicos, dentro da tenda que Malcon os ofereceu assim que percebeu o temperamento de ambos assim que se encontraram.
— Quer que eu fique presa dentro de um laboratório, retraindo o meu talento, escondendo-me das multidões pelo único fato de eu ser mulher e ainda assim ser bem melhor que você!
Howard esbugalhou os olhos, ferido.
— Como pode pensar uma coisa dessas? – indagou com a voz retraída. – Como pode sequer imaginar na possibilidade de eu querer esconder você?
— Porque é isso o que faz, desde quando eu nasci! – respondeu com a voz engasgada e olhos molhados. – Admita, odeia o fato de eu ser melhor que você.
— Sim, você é muito melhor que eu! – anunciou abertamente – Você é um gênio, com uma inteligência sobrenatural que ultrapassa as maiores mentes que já existiu. Além disso, tem um grande coração e é justa, sempre opta pelo certo porque é o melhor a se fazer. – ela sentiu uma lagrima escorrer por sua bochecha – Eu não odeio este fato, pelo contrário, me orgulho muito dele.
Harriet secou as lágrimas rapidamente.
— Não tento te esconder, eu tento te proteger. Sabe quantos assassinos vieram atrás de mim todos esses anos só por eu ser quem eu sou? Quantos engenheiros já não foram mortos por serem bons no que fazem? Se já tentam comigo por saberem do que eu sou capaz, imagina o que fariam se soubessem do que você é capaz.
Howard se aproximou da irmã, estudando seus movimentos com cuidado para não afugenta-la.
— Eu não sobreviveria se alguma coisa acontecesse á você, Harrie. – admitiu convicto. – Você é a única família que eu tenho. Te amo mais do que amo a mim mesmo.
Quando finalmente conseguiu alcança-la agarrou-a forte, afagando o seu choro sentido. Os espectadores decidiram deixa-los em seu momento intimo, visto que já não corriam o risco de se machucarem fisicamente.
— Sinto muito por ter dado a impressão errada, — murmurou por entre os cabelos da jovem – você merece todo o reconhecimento do mundo.
— Me desculpe, — soprou ela. – Eu fui muito egoísta.
— Tudo bem, — disse ele, acariciando seus cabelos. – Isso que dá ter o ego de um Stark.
Ambos riram.
— Se não quisesse que eu me arriscasse poderia ter me incentivado à outro tipo de trabalho. – Ela sorriu afrontosa.
— Sim, — concordou. – Talvez uma balconista, vendedora ou até como uma chapeleira. – Os irmãos riram novamente, pensando nas possibilidades. – Mas aí, não seria você. Seria qualquer outra pessoa menos Harriet Stark.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Howard se certificou que a irmã estaria realmente protegida e que estaria de volta á casa dali quinze dias.
Ela deu a sua palavra.
Então era isto, teriam que correr com o trabalho.
—x-
— Não sabia que eram permitidas bebidas alcóolicas nas bagagens dos soldados – provocou Harriet, sorrindo travessa ao se deparar com Barnes sentado escorado em uma árvore, afastado do campo concentrado, com uma garrafa pequena nas mãos.
— Podemos abrir uma exceção á regra. – sorriu charmoso, indicando a garrafa á médica. – Servida?
— Eu passo, obrigada. – respondeu sentando-se ao seu lado.
Depois de um silêncio constrangedor, Banes decidiu quebra-lo.
— Entende de estrelas, doutora? – indagou de repente, pegando-a desprevenida.
— Não... exatamente? – respondeu duvidosa, arrancando risadas do rapaz.
— Aqui no meio da floresta é mais fácil de localiza-las, veja. – apontou ao céu, mostrando-a as mais famosas formas. — Aquela é a Ursa maior, e aquela a ursa menor.
— Eu nunca tinha reparado nisso. — riu, admirada. — Você estudou sobre astrologia ou algo relacionado?
Barnes riu alto.
— Não, — soltou divertido — eu costumava me deitar sob o gramado no fundo do quintal, com minha mãe – sorriu recordando-se — e ela me contava histórias sobre as estrelas e as constelações. Em Nova York não dá para vê-las tão claramente quanto aqui, então ela juntou dinheiro por cinco meses para me dar um telescópio e assim poder vê-las melhor.
— Parece ser ter sido encantador. – declarou somente.
Dado o silêncio que crescia por sua demonstração de desinteresse, decidiu comentar:
— Meu pai, quando estava em casa, lia livros de químicos famosos para eu e meu irmão. — o sargento fez uma careta imediata, desgostosa. Ela riu. — Eu sei, parece completamente entediante, mas era a forma dele de nos contar histórias. E, naquela época, eu ficava tão fascinada quanto ficaria com as histórias sobre as estrelas.
— Menos mal. – ele admitiu, sorrindo.
— Quando ele faleceu, — ela engoliu em seco – Howard tentou continuar com a tradição. Mas não era a mesma coisa.
Barnes mirou-a com pesar. Não se atentou que ela era órfã.
— Sinto muito, não deveria ter falado de minha mãe...
— Imagina. – cortou-o delicadamente, sorrindo. – É bom lembrar-me dele de vez em quando. Sinto tanta sua falta. – admitiu mirando as estrelas. – Mas Howee tenta compensar de todas as formas possíveis. Têm feito um bom trabalho desde então.
Barnes não conseguiu não imaginar duas crianças, por volta de seus sete anos de idade, sozinhos em lares adotivos. Com o medo constante da adoção de um e não do outro. A solidão era dura nesses lares, ele supunha.
Droga.
Havia a julgado tão mal.
Inicialmente o sargento pensou quão detestável seria a tarefa de ser babá de uma garota metida a cientista, contudo, com o passar do tempo, viu o quão boa ela era e o quão corajosa havia demonstrado ser.
— Sobre aquele dia... – ele limpou a garganta, para ganhar tempo. – não tive a oportunidade de agradecê-la corretamente.
— Não é necessário, Sargento...
— Oh! Então tá bom. – adiantou-se ele, dando de ombros e segurando o riso. Ele esperou que a jovem se pronunciasse, mas ela abria e fechava a boca por diversas vezes, sem saber o que falar. Finalmente riu e a informou – Estou brincando.
— Céus, por um segundo tive certeza que realmente era o idiota que pensei que fosse. – zombou ela.
Ambos riram.
— De verdade, — afirmou ele, agora mais sério. – eu quero agradecer. – Mirou diretamente em seus olhos. – Foi muito corajosa. Patrick não estaria vivo se não fosse por você. Seu pai estaria muito orgulhoso agora.
— Eu que agradeço, — respondeu sorrindo – me carregar por trinta quilômetros não deve ter sido uma tarefa fácil.
— O que? – ele riu – Peso pena.
Harriet não pôde deixar de rir. Quando o clima pesado se dissipou, ela se permitiu perguntar:
— Qual é a sua história com Patrick?
— Patrick é um amigo antigo da família. – revelou – Ele... Foi quem salvou meu pai quando serviam juntos na última guerra.
— Mas ele...
— Está vivo, sim. – informou sorrindo, antes de se retrair – Só não é o mesmo de antes. Foi um dos 20 mil soldados que teve o rosto destroçado por estilhaços.
— Eu sinto muito. – disse verdadeira.
— Eu havia dito para Patrick que ele já havia feito o bastante pelo país, mas o velho é teimoso. – mordeu o lábio inferior. – Como estava completamente saudável disse que era sua obrigação batalhar quantas vezes fosse preciso por seu país.
— Muito valente!
— Ele é, — concordou. – uma das minhas referências e inspirações como pessoa.
— Veja, sargento. – ela sorriu – É a única pessoa para quem eu falei o que sinto sobre meu pai. Portanto não se reprima em compartilhar o que quiser comigo. É bom conversar em situações como estas.
Barnes sorriu de volta, selando ali o contrato de que seriam mais decente um com o outro. Até porque, não tinham razão para não ser.
No dia seguinte, Harriet acompanhou aqueles que foram suas cobaias no dia anterior. Assegurando-se que nenhum deles tivesse algum tipo de efeito colateral da anestesia ou alguma parte cerebral prejudicada.
Fez testes de aptidão, inteligência e força, o que tomou todo o seu dia e o dia seguinte.
De fato era de extrema importância que se assegurasse que todos eles estivessem seguros dos experimentos feitos e saudáveis o suficiente mesmo após o bombardeio.
A tensão do dia, agitação e esforço que fazia deixou-a aflita e inquieta. O que não passou despercebido pelos olhos do Sargento, novamente.
— Cansada, Harrie?
— Não, — negou rapidamente – é só as minhas costas. O colchonete não é lá dos mais confortáveis.
— Acredito que nenhum seja. – zombou Alex.
— Terminamos por hoje? – indagou Richard.
Harriet pegou a prancheta em mãos antes de responder: — Acredito que sim.
— Perfeito. – disse Barnes. – Assim podemos nos permitir uma folga e beber um pouco. O que acham?
— Uma bebida não cairia mal agora. – disse Alex, contente.
— Fiquem á vontade, eu passo. – disse a jovem.
— A Srta. não bebe? – questionou o Sargento.
— Contraditório seria se dissesse que não bebe. — Heicht se manifestou tímido, arrancando uma risada de Wilson e uma carranca nervosa de Stark.
— Richard! — Vociferou a mulher, com as bochechas ruborizadas.
— Não, por favor, conte mais. — Pediu Barnes sorrindo.
— Foi uma situação adversa e é passado. — Mirou-o com um sorriso travesso sob os lábios. – Não interfere no agora.
— O passado é a nossa história, contribuiu para o que somos agora. – Retrucou.
— Garanto que algumas noites de bebedeira não influenciam em meu caráter.
Barnes sorriu.
— Só denuncia que você é humana e sede à alguns males. É bom saber disso.
Harriet riu anasalado.
— Ela é muito tensa. Não concorda, doutor? — Barnes indagou para Wilson, que já havia sessado as risadas.
— Desde quando se deu por gente, sargento.
— Você também, Alex? — Ela indagou, enquanto lacrava as caixas térmicas para entregá-la nas mãos do mesmo, solicitando: — Deixe-as na refrigeração, as moléculas devem estar intactas para a análise no laboratório. Em seguida, permita-se descansar. Você merece.
— É pra já, doutora — respondeu gentil, se retirando logo em seguida.
— Também está dispensado, soldado. — anunciou à Heicht, que riu- vá tomar um pouco de ar puro.
O ruivo assentiu, recolheu suas coisas e se esvaiu pela saída da cabana. Harriet trajou seu casaco, higienizou as mãos e deixou o local, com o Barnes em seu encalço.
— O que faremos agora? — ele perguntou — Almoço? Um cochilo, talvez?
— Me ver livre de você é uma opção? — indagou risonha.
— Não vai se ver livre de mim tão cedo.
Os dois tiveram muitas divergências nos primeiros dias, repudiando a forma como se tratavam. Ela muito fechada, ele invasivo demais. Alfinetavam-se constantemente. Contudo, depois do episódio do bombardeio que levaram os dois ao limite, permitiram-se conhecer um ao outro.
Apesar das convergências de personalidades, neste tempo o sargento conseguiu observá-la ainda mais de perto, da mesma forma que ela , agora, o analisava.
Ele achava curiosa a maneira como a mulher pensava, a forma como rapidamente dúzias de soluções e argumentos eram calculados em milésimos de segundos em sua cabeça; Passou a admirar também o quanto ela é sensata, perspicaz, além de corajosa – obviamente – e como seu coração era bondoso, por mais que quisesse esconder este fato.
Ela apreciava a forma como ele era respeitado por todos; como era gentil ao se reportar desde ao tenente como aos soldados; como repudiava a injustiça; como via o mundo de uma forma que ela jamais havia visto e como ele conseguia a fazer rir, por mais irritada que estivesse.
Outro quesito o qual ele não podia ignorar também era o quão ela era atraente. Apesar de uma beleza jovial, a mulher não precisava se produzir para encantar a todos por onde passasse. Já estava dando o que falar por entre os soldados, coisa que o enfureceu certo dia.
— Está terminado, senhor Hampks — disse a jovem educadamente, assim que retirou a agulha delicadamente do braço do soldado. — Você se saiu muito bem.
— Isso porque não me viu na cama. Te domo em um piscar de olhos, princesa. — piscou atrevido.
Mal tivera tempo de processar o que acabara de acontecer, Harriet viu o homem ser jogado no chão. Barnes havia se atirado em cima do soldado, socando-o no rosto sem dificuldades.
Logo a tenda se tornou pequena, pelo acúmulo de pessoas que tentavam separar o sargento do soldado.
— Nunca... mais — cuspiu Barnes, ofegante — ouse direcionar...uma palavra sequer... à ela.
— Sim, sargento. — murmurou o outro, de cabeça baixa.
— Peça perdão. — esbravejou o superior.
— Perdão, doutora Stark. — grunhiu o soldado — Fui desrespeitoso e inconsequente.
Harriet, ainda sem falas, apenas assentiu.
Com a aproximação, ele não deixava de segui-la em quaisquer lugares. Parte porque apreciava sua companhia, e parte porque adorava provoca-la.
— Que diabos, Barnes, não acredito que pensa que minha segurança será comprometida até aqui. — reclamou, assim que o encontrou de prontidão ao lado de fora da cabana exclusa á necessidades fisiológicas.
— Os lugares mais propensos a acontecer fatalidades são aqueles que menos desconfiamos.
— O banheiro é um deles? — indagou arqueando a sobrancelha — É perturbador imaginar que alguém possa me atacar enquanto faço minhas necessidades.
— Nunca se sabe. — deu de ombros aos risos, acompanhando-a pelo caminho de volta ao ponto de atendimento médico.
— Em uma base militar cercada de soldados americanos treinados? — instigou. – Desconfio que ousem se infiltrar aqui depois de que ouvi falar que a Divisão 109º exterminou os malditos daquele dia.
— Os alemães não tem escrúpulos, Harriet. Você mesma viu.
— Você que tem muita imaginação, James. — frisou o nome intencionalmente.
— Ah não, James não. — rejeitou o sargento, envergonhado. — Odeio que me chamem assim.
— Eu sei. — sorriu satisfeita.
—x-
Depois do último plantão completo com sucesso, Harriet encontrava-se sentada numa banqueta observando o treino dos soldados àquela tarde quando o sargento se juntou a ela.
— Alex e Richard pediram para dizer que já recolheram todos os suprimentos necessários e já os lacraram.
— Ah sim, — murmurou distraída — Obrigada.
— São figuras e tanto, não?! — incitou — Alex e Richard.
— São sim. — soprou sem tirar os olhos do treinamento.
— Harriet? — Barnes chamou-lhe a atenção.
— Oi, perdão. — disse, finalmente intencionada ao sargento. — São, são sim figuras e tanto. Pessoas maravilhosas, posso afirmar.
— Conhece-os há quanto tempo?
— A uns cinco anos, da universidade de medicina. — respondeu, tornando a fitar os homens à frente.
— Quantos cursos você fez? — indagou curioso — Cada vez que procuro saber, mais perdido fico.
Harriet riu ante de responder:
— Já fiz física, física quântica, engenharia, química e, por último, medicina.
— Uau — soltou espantado — Quantos anos você têm mesmo, 40?
— Entrei cedo na escola, da mesma forma que também saí cedo. — explicou em tom levemente tristonho. — Daí então, avancei alguns anos por conta da leitura. Algumas matérias eu nem precisava estar presente, já sabia antes mesmo de serem dadas.
— O que tanto tem de interessante lá? — perguntou, indicando os soldados, ao mudar de assunto. — Algum te chama à atenção?
— Não — ela riu — Não é isso.
— O que? — provocou — Eles não são bons o suficiente para você?
— Primeiramente, patentes e nomenclaturas não definem uma pessoa. Um sujeito sem educação alguma pode ser o mais sábio de todos. Experiências são os aprendizados mais concretos possíveis.
— Sim, — concordou, para em seguida alfineta-la — da mesma forma que sábios homens podem também ser desde um milionário engenheiro à um simples sargento militar.
Harriet riu.
— Me perdoe se magoei-o de alguma forma. Minha intenção era unicamente a humilhação momentânea. — descontraiu com sutileza, sorrindo graciosamente. – Eu mudei muito desde que vim para cá, agreguei muitos valores que universidade alguma pôde me oferecer. Uma delas é não julgar alguém antes de conhecê-lo, — sorriu mirando o rapaz – ele pode ser a pessoa mais maravilhosa que pode existir e não sabe.
— Claro que sim. — Barnes riu, enfeitiçado.
Harriet voltou os olhos ao treino, constrangida. Assim, ele permitiu-se observa-la em silêncio.
A ruga equivocada no meio da testa, que sempre dava o ar de sua graça quando a mulher se concentrava em algo, contradizia aos seus demais traços belos e delicados. A boca carnuda sendo mordida impiedosamente queria dizer que ela estava desconfortável com algo.
A jovem se sentiu observada e virou-se para o sargento sorrindo, até perceber sua expressão frustrada.
— Algum problema? — indagou levemente preocupada.
— Não, — murmurou desconcertado, coçando o maxilar — só estou... Enfim. Não é nada.
Harriet encarou-o nos olhos, profundamente azuis. Descobriu há alguns dias, ser esta a sua cor favorita. Contudo, um leve problema a intrigava, as orbes azuis não estavam alegres e divertidas como constantemente estavam, estas assumiram tons escuros e duvidosos.
Não se podia dizer o que se passava pela cabeça daquele homem e Harriet hesitou em pergunta-lo sobre.
— Vai mesmo embora hoje? — soltou rouco, o sargento.
— Sim, — sorriu triste — eu já deveria ter ido há dois dias. Tenho que analisar as amostras e só posso fazer isso com o maquinário adequado. Além do fato de que se eu não for meu irmão vem novamente e me arrasta pelos cabelos de volta para casa.
Barnes mordeu os lábios, inquieto, desviando os olhos dos de Harriet.
— O tenente comentou sobre uma provável volta, na semana que vem...
— Não será necessária, — a mulher fez uma pausa dramática antes de continuar: — já extraímos fluidos de todos os componentes desta divisão. E, pela quantidade, acredito que não têm por que extrair mais.
O sargento grunhiu insatisfeito.
— Bom, — riu contragosto — ao menos nos veremos livres um do outro.
A jovem sentiu-se estranha com tal fala, como se aquelas palavras fossem completamente erradas, principalmente por ter como portador tal indivíduo. Quis negar. Contudo, ao invés disso, murmurou:
— Sim, privacidade finalmente.
— É. — concordou descontente.
Naquele mesmo dia, à noite, o grupo de médicos acomodavam as bagagens na traseira do carro moderno enquanto o sargento e o tenente apenas assistiam.
Ao terminarem, eles se direcionaram aos anfitriões para a despedida.
Barnes fitou a moça delicadamente despedindo-se do seu Tenente e engoliu em seco, da mesma forma que ela fez quando se deparou com a hora de despedir-se do mesmo.
Ela se aproximou vagarosamente e passou os braços envolvendo o pescoço do rapaz, em um pedido silencioso, tendo que ficar nas pontas dos pés para selar o gesto. Barnes foi pego de surpresa, porém, instantaneamente retribuiu-o com extrema intensidade.
O abraço era caloroso, trazendo conforto, segurança, acalento e paz.
Ficaram na mesma posição por longos segundos, que pareceram horas. Inspiraram os aromas, para guardar como lembrança e se afastaram, lentamente.
Tanto o que falar e, no entanto, nada completamente concreto.
Barnes sabia que nunca iria encontrar mulher como Harriet no resto de sua vida, e que, apesar do pouco tempo que passaram juntos, ela já era capaz de desperta-lo e fazê-lo se sentir confiante o suficiente para fazer tudo que quisesse; permitiu-o sonhar e planejar futuros por mais improváveis que fosse; o compreendia, e ao mesmo tempo, não o fazia; sutilmente divertia-o por mais drástico que fosse o assunto... E permitia-o sentir-se vivo.
Contudo, depois de tudo o que ela deixou explícito dês do começo, não tinha coragem de investir ainda mais para acabar frustrado. Já haviam avançado mais do que o esperado.
Já Stark, sabia de tudo e ao mesmo tempo nada. Tanto que tentou, tanto que se policiou, simplesmente não compreendia como acabara por gostar de alguém que a contrariava, a provocava e, também, tanto a fazia sorrir e fez-a sentir-se viva pela primeira vez em anos.
Não só falando de projetos ou a solução de doenças, sobre o futuro e as decisões que a aprisionaram pelo resto da vida, mas sobre a vida em si, sobre pessoas, histórias e problemas reais.
Tanto que conversaram, tanto que discordavam e concordavam que não perceberam que estavam se conhecendo.
Mas nada disso importava agora. O que passou, ficaria no passado e ambos, calados, seguiriam caminhos diferentes porque eles já tinham destinos definidos antes mesmo de se conhecerem.
Os olhos de Harriet deixaram os de Barnes ao se virar e dar as costas para o sargento, para sempre.
Nada mais foi dito, o silêncio sempre fora o protagonista da cena.
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