Notas iniciais
Espero que gostem.

19/02/2021

Sexta-feira

10:00

Giovana

Os pedidos estavam atrasados, Alecsandra disse que ia mandar alguns vestidos e agora nem respondendo as mensagens ela estava. Luiza, a outra funcionária do ateliê, avisou que iria ficar mais um dia com o pai que estava doente. Fiquei o dia inteiro me desculpando com clientes.

"Cadê você???" Mandei para ela. Uma hora depois recebi uma resposta.

"Fiquei tão focada aqui que esqueci de mandar os vestidos, pode vir buscar?"

"Não sei onde fica, manda a localização."

Ela mandou, a fazenda de Alecsandra não era uma fazenda normal, ficava dentro de um grande condomínio, mas eles tinham árvores no lugar de casas iguais.

"Como te acho aí?" Perguntei.

"Pede para o Marcelo vir com você, preciso falar com ele e ele sabe onde fica."

"Tudo bem, quando estiver indo mando mensagem."

10:43

Marcelo

A equipe de som que contratei para arrumar o som da palestra que iria ministrar na escola, não apareceu. O pagamento foi antecipado, eles não atendiam o telefone.

— Porra! — Falei e alguns alunos me encararam. — Já escutei vocês falando coisas piores. Fui em direção ao portão.

Meu celular vibrou, era Mariana.

"Como está indo aí?"

"Não poderia estar pior."

"O que aconteceu?"

"Equipe de som não apareceu."

"Notícias ruins aqui também, os panfletos para entregar se perderam no caminho."

"Merda, vou resolver isso aqui e depois vou aí."

Antes de guardar o celular no bolso, outra mensagem chegou. Era Giovana, estranho.

"Oi, preciso de ajuda, Alecsandra esqueceu de mandar uns vestidos e pediu para ir buscar, você é o único que sabe onde fica e ela falou que precisa conversar com você."

"Tenho que resolver alguns problemas, pode ser mais tarde?"

"Pode."

Pelo menos iria encontrar Alecsandra hoje, talvez esse dia poderia melhorar.

11:03

Mateus

Alguém tocou a campainha, não iria atender, mas a pessoa claramente não iria desistir, me levantei do sofá, em algum momento durante a noite, vomitei, minha cabeça estava martelando, assim que abri o portão desejei ter ficado no sofá, era Rosa, a responsável pelo grupo de alcoólatras e estava cheirando a álcool. A expressão dela era de decepção.

— Mateus. — Foi tudo o que ela falou.

— Rosa, eu posso explicar.

— Quem é? — Alan perguntou enquanto aparecia na porta.

— Não quero nenhum dos dois nas reuniões. — Ela começou a ir embora.

— Rosa! Por favor, você sabe como é difícil para mim.

— Mateus, você está se destruindo, sei que mente sobre seu tempo sóbrio e está levando Alan junto com você.

— Nunca obriguei ele a beber.

— Mas não impediu também, não é pior.

Não tinha resposta para aquilo, era a verdade, talvez ter Alan ali justificava o fato que não conseguia lidar com os problemas sóbrio.

— Podemos achar outro grupo. — Alan falou.

— Chega de grupos para mim.

11:35

Lucas

— O que é isso? — Perguntei.

— É o novo roteiro. — Victor respondeu.

— Eu quis dizer que esse novo roteiro é horrível, porque mudaram?

— Algo sobre pesquisa de público.

— Cadê o diretor?

— No trailer dele, provavelmente.

Fui em direção ao trailer dele, aquilo era inacreditável, como alguém poderia jogar um roteiro bom fora? Ninguém respeita qualidade? Abri a porta sem anunciar, ele estava sentado bebendo café, com o susto, derramou na camisa e rosto dele.

— Que merda é essa? — Perguntei.

— O novo roteiro.

— É uma merda.

— Meus roteiristas pensam o contrário.

— Seus roteiristas também são uma merda se acham que isso é bom.

— Lucas… — Victor tentou entrar na conversa, mas se calou quando olhei para ele irritado.

— Deixa eu lembrar algo aqui. — Ele se levantou. — Seu trabalho aqui é consultor, não roteiristas, sabe o que isso significa? Que você não tem direito de reclamar sobre o roteiro.

— Você sabe que estou certo.

— Se não gosta das mudanças, pode ir embora.

— Ótimo.

Saí do trailer, Victor me seguindo, não iria ficar alí, aquele comportamento era inaceitável, os primeiros anos todos me escutavam e até podia mudar o roteiro caso achasse alguma coisa ruim, mas já se passaram cinco anos, as pessoas não estavam mais interessadas no assassino.

— Vai mesmo? — Victor perguntou.

— Vou, se deixar isso passar, ninguém vai me respeitar.

12:15

Mariana

— Então, o que podemos fazer? — Perguntei para Natália, a outra funcionária da ONG.

— Sabe em qual correio os panfletos sumiram?

— Um segundo. — Olhei no site do correio. — Achei, não é muito longe.

— Ótimo, vamos até lá pessoalmente.

Pegamos meu carro, o correio ficava a trinta minutos da ONG.

— Desculpa não ter conseguido ir na festa ontem, problemas familiares. — Natália falou.

— Tudo bem, sei como família é importante.

— Foi divertido?

— Foi, os amigos de Marcelo são muito legais.

— Algum interessante?

— Sabe que não estou procurando um namorado.

— Quem falou namorado? Uma noite e pronto ainda é uma opção.

— Não, estudos primeiro.

— Viagem depois, já sei suas metas.

— Ótimo.

Conversamos sobre coisas aleatórias e cantamos algumas músicas até chegarmos no correio. Assim que entramos encontramos um atendente mal humorado.

— Boa tarde. — Falei.

— Boa tarde, vão enviar pacote ou carta? — Ele perguntou.

— Na verdade estamos procurando um pacote que foi perdido aqui.

— Tem o código de rastreamento?

— Sim, entreguei a folha que imprimi para ele.

Ele examinou a folha como se nunca tivesse visto papel antes e digitou o número no computador.

— Esse pacote não está aqui. — Devolveu o papel.

— Claro que está. — Mostrei o celular para ele.

— Isso acontece as vezes, eles perdem na estrada e falam que ficou preso na filial mais próxima.

— Perdem? — Natália perguntou.

— Roubo, colocaram no caminhão errado.

— Obrigado por nada. — Natália respondeu e saiu do prédio, segui ela.

— E agora? — Perguntei.

— Não podemos fazer nada.

13:29

Igor

— Merda, merda, merda! — Bati na mesa do computador.

Meu trabalho de psicologia não estava abrindo, nem direto no computador ou na nuvem, liguei para Roberto.

— Oi. — Ele falou.

— Preciso da sua ajuda!

— Calma, o que aconteceu?

— Onde você está?!

— Na faculdade, mas estou indo para o estágio.

— Não, venha até os laboratórios. Meu trabalho não está abrindo!

— Já tentou outro computador?

— Já! Vem aqui logo!

— Tudo bem, estou indo.

Roberto chegou dez minutos depois, calmo, como se minha vida acadêmica não estivesse desmoronando diante dos meus olhos.

— Deixa eu dar uma olhada. — Ele se sentou na cadeira e começou a olhar os arquivos e algumas coisas que nem sabia onde ficava.

— E aí?

— Hmm. — Foi tudo o que ele falou.

— Hmm? Roberto, mais informações.

— Alguém apagou seu trabalho.

— Eu sei disso!

— Não, quero dizer que apagou todos os rastros, é como se o seu trabalho nunca tivesse existido.

— Como isso é possível?

— Onde você abriu esse arquivo?

— Em casa, no laboratório da faculdade.

— A rede aqui é compartilhada então alguém pode ter apagado se estiver aqui, a boa notícia é que o arquivo na sua casa está seguro.

— Não. — Bati a mão na testa. — Porra!

— Você não tem uma versão na sua casa?

— Não, eu coloquei na nuvem e recortei para o pendrive hoje de manhã, ia imprimir aqui.

— Merda… e agora?

— Agora eu não sei.

Uma notificação de mensagem apareceu na tela do computador.

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"Espero que aprenda a não deixar arquivos aqui :)"

— Que merda é essa? — Me aproximei do computador.

— A pessoa que apagou seu arquivo, ele é bom.

— Não vamos elogiar o inimigo aqui, certo?

— Desculpa.

— Tanto faz, preciso ir falar com a professora. — Peguei a mochila e comecei a ir embora.

— Você pode falar que seu cachorro comeu! — Roberto gritou e eu mostrei o dedo para ele.

15:07

Kauan

— Não quero três aprendizes. — Falei para delegado.

— Você é nosso melhor detetive e esses são os três melhores policiais desta turma, vai ser bom eles terem essa experiência e talvez virem detetives.

Sabia que o título de melhor detetive era por causa dos assassinatos, tentei não levar a fama, a verdade era que não consegui resolver nada e então era tarde demais, mas a corporação não iria deixar essa oportunidade passar.

— Tenho certeza que existem pessoas melhores para o serviço.

— Kauan, você sabe que não é um pedido, certo?

— Dois dias, é isso que vou aturar.

— Três é o mínimo que consigo.

— Certo.

— Vou buscar eles.

Alguns minutos depois os três apareceram na minha sala, o delegado estava quase pulando de alegria. Antes que pudesse falar qualquer coisa, os três bateram continência.

— Policial, Jonas, Senhor! — O primeiro falou.

— Policial, Gabriel, Senhor!

— Policial, Jean, Senhor!

— Primeiro. — Levantei da minha cadeira. — Sem continências, nunca mais e não me chamem de senhor.

— Como devemos chamá-lo, senhor? — Jonas perguntou.

— Detetive.

— Sim, Detetive! — Os três falaram.

Agora seria uma ótima hora para começar a fumar.

18:33

Marcelo

Mesmo sem o microfone, consegui fazer a apresentação, não foi o que eu queria, mas consegui resolver, por outro lado, os panfletos não foram recuperados e resolvemos não encomendar outros, estava indo buscar Giovana, ela estava esperando na frente do ateliê, com uma mochila nas costas.

— Oi. — Ela falou.

— Oi. — Ela se sentou no banco do motorista.

Conhecia Giovana, sabia que era amiga da Mariana, ela parecia uma pessoa legal, mas nunca ficamos sozinhos.

— Alecsandra mandou alguma mensagem? — Giovana perguntou.

— Não, mandei algumas para ela, sem resposta.

— Eu também.

— Deve estar focada nas roupas. — Saí com o carro. — Sabe como ela fica.

— Eu sei. — Ela riu.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas a música do rádio tocando.

— Quanto tempo até lá?

— Uns cinquenta minutos, uma hora, dependendo da situação da estrada.

— Tudo bem se fizer alguns desenhos até lá?

— Fique a vontade. — Giovana pegou um caderno na bolsa e começou a desenhar vestidos.

19:40

A rodovia que dava acesso às fazendas estava lenta, um acidente envolvendo dois carros deixaram uma via bloqueada, quando chegamos na portaria, entregamos os documentos para o porteiro que anotou e ligou para a fazenda de Alecsandra, que liberou nossa entrada. Da entrada até a fazenda de Alecsandra eram mais vinte minutos, ela escolheu uma das últimas, perto do lago e da zona mais fechada de árvores. Estava animado para encontrar Alecsandra.

— Estranho. — Giovana falou.

— O que? — Perguntei.

— Na mensagem, Alecsandra falou que você sabia o caminho, mas o porteiro deu instruções claras.

— Ela falou que queria conversar comigo, certo? Talvez achou que só acompanharia você se fosse para guiar o caminho.

— Pode ser.

Vi o carro dela estacionado assim que chegamos na entrada da fazenda, estacionei atrás do carro dela, descemos e fomos em direção a casa, notei que todas as luzes estavam desligadas.

— Hmm. — Falei.

Chegamos na porta, tentei abrir, trancada. Algo estava errado.

— Alecsandra? — Giovana chamou e bateu na porta.

— Vamos até o ateliê dela. — Falei.

Demos a volta na casa, todas as janelas estavam fechadas, coloquei a mão no bolso para garantir que o canivete estava alí. Quando chegamos no ateliê, a porta estava aberta e as luzes também estavam desligadas.

— O que está acontecendo? — Giovana perguntou.

— Não sei.

Caminhei em direção a entrada, antes mesmo de entrar senti o cheiro, todo meu corpo se arrepiou. Sangue. Corri para dentro e no fundo do cômodo lá estava, caída no chão, Alecsandra, me aproximei então vi a poça de sangue, várias tesouras, agulhas e outros objetos estavam enfiados no corpo dela. Não conseguia acreditar, me apoiei na mesa para não cair. Giovana gritou.

— Alecsandra!

— Temos que ir. — Falei.

Mas Giovana ficou parada no lugar, chorando.

— Giovana. — Peguei no braço dela. — Vamos.

— Temos que ajudá-la. — Ela falou entre lágrimas.

— Ela está morta. Não podemos fazer nada.

— Não pode ser. Porque alguém faria isso.

— Isso não importa agora, vamos sair daqui e ligar para o Detetive Kauan.

— Espera. — Ela falou.

— O que? Vamos logo.

— O porteiro ligou e alguém atendeu. Tem mais alguém na casa.

Ela tinha razão, não havia pensado nisso, merda, tirei o canivete do bolso.

— O que é Isso?

— Precaução. Vamos correr até o carro, sem olhar para trás, apenas corra.

— Tudo bem. — Ela estava tremendo.

Saímos do ateliê e então tudo me atingiu de uma vez, o que mais temia estava acontecendo outra vez, mais pessoas iriam morrer por minha causa, desta vez eu não sabia quem seriam os alvos, tirando os meninos, quem mais se encaixava no perfil, estava tão focado nos meus pensamentos que não percebi que chegamos no carro.

— Marcelo! Marcelo! — Giovana gritou, claramente estava fazendo isso a algum tempo.

— A porta!

— Desculpa. — Abri a porta, entramos no carro e acelerei sem olhar para trás, não parei nem na entrada para pegarmos os CPFs de volta. Mal conseguia pensar, estava ultrapassando carros, obviamente acima da velocidade permitida, comecei a sentir falta de ar. Joguei o carro no acostamento.

— O que foi? — Giovana perguntou.

— Preciso de um segundo…. Detetive, tenho que ligar para ele.

Peguei o celular, na pressa não percebi que estava no mesmo bolso que em algum momento coloquei o canivete e acabei cortando o dedo na lâmina. Peguei o celular e liguei para o contato do Detetive.

— Sua mão está sangrando!

— Não é nada.

O celular tocou três vezes e Detetive atendeu.

— Alecsandra está morta. — Falei antes mesmo dele falar alô. — Outro assassino apareceu.