Vítimas

4 Capítulo 3


Notas iniciais
Oi, oi, gente! *incorporei a Kéfera* Espero que estejam gostando mesmo. >< Seus comentários me deixam muito feliz. Aliás, obigada, Luciana Fray Rangel, pelo seu comentário lindo e divo. *----*

Foi em uma terça-feira. Como eu já havia contado, minha mãe estava indo em direção ao mercado para comprar ingredientes para o meu pai após um dia normal de trabalho. Ela ainda falava com meu pai ao telefone, quando, de repente, no meio da conversa, a ligação cai. Só deu para ouvir uns barulhos esquisitos antes de a ligação silenciar. Meu pai ficou preocupado e tentou ligar mais vezes. Sem resultado.

Mais tarde no mesmo dia, lá pelas 4h, mamãe chegou em casa junto com uma equipe de socorro médico.

Minha mãe atravessou a rua e um motorista desgovernado a atropelou. Ela ficou bem após o acidente, só teve alguns cortes. Porém, devido a um trauma, ela teve um pouco de amnésia, que diziam ser temporária. Logo ela iria se recordar de tudo, só estava um pouco confusa. Até aí tudo bem, ela só estava um pouco confusa. Iríamos cuidar dela direitinho.

Entretanto, no meio da noite, meu pai e eu acordamos com alguns barulhos. Meu pai viu que não tinha mais ninguém ao seu lado na cama e saiu correndo pela casa para procurar por nossa mãe.

A última vez que ele a viu foi quando ela estava correndo em direção ao elevador. Depois disso, ninguém nunca mais a viu.

Minha mãe saiu no meio da noite e acabou sendo raptada.

Minha mãe se tornou uma Vítima.

*****

Acordo suando frio. Mais um pesadelo. Na versão de hoje, o Controlador que sequestrou minha mãe a jogou em um buraco escuro, junto com vários outros corpos. Essa é uma questão que sempre me incomodou: o que acontece com as Vítimas. A verdade é que ninguém sabe se são mortas ou não – ou até mesmo coisa pior. Ouvi falar que tem um grupo especializado em investigar isso, mas não sei de mais nada sobre o assunto.

Olho para meu despertador digital no criado-mudo ao lado de minha cama. 11h. Sorrio. Adoro as férias, principalmente porque podemos acordar bem tarde. Afinal, não temos motivo para acordar cedo.

Ah, hoje é quinta. Dia de me encontrar com Dylan. Mesmo horário de sempre. O que eu devo vestir? Abro meu guarda-roupa. Por ordem do Governo, todos os Estudantes devem usar lilás, para fácil reconhecimento. Mas existem peças diferentes, só que da mesma cor.

Acabo ficando com um vestido rodado de algum material desconhecido, mas macio. Este vestido acompanha um laço para se usar como cinto. É a minha roupa predileta.

Como meu almoço (já que se passou o horário do café da manhã) e dou meu relatório para meu pai: geralmente gosto de lasanhas de molho vermelho, mas esta estava ótima. Nota: 7,5. Sou meio rígida com a pontuação. Acho que eu só dei apenas um 10 – e olhe lá.

Dou um beijo e papai e saio de casa, feliz. Já se passou uma semana desde a última vez que vi Dylan, e já estava começando a sentir sua falta. Nós sempre nos encontrávamos na escola, mas, desde que ele se formou, definimos um dia e um horário para que nos víssemos.

Chego ao ponto de encontro trinta minutos mais cedo que o horário combinado. Eu sempre chego mais cedo, só que normalmente são só uns dez minutos, não meia hora. Para minha surpresa, Dylan já senta no banco. Geralmente sou eu quem espera no banco. E então é aí que eu vejo.

Dylan não está sozinho. Seu braço está em volta de uma pessoa de cabelos longos e ruivos, todo enrolado.

Ele está com uma garota.

Abro a boca, surpresa. Será uma namorada? E por que ela está no nosso banco, pouco antes de nos encontrarmos?

Ando até eles, determinada a saber o que tudo aquilo significa. A menina de cabelos laranja ri de algo que Dylan disse. Isso só me faz andar mais rápido. Chego por trás deles. Nem me notam.

– Oi? – pergunto, um tom acima do normal. Eles se viram e Dylan quase fica paralisado de surpresa. A ruiva apenas sorri. – Não vai me apresentar sua amiga?

Ele arregala um pouco os olhos. Não esperava que eu chegasse tão cedo. A ruiva continua a sorrir, demonstrando só um pouco de confusão.

– Amiga? – pergunta ela, arqueando as sobrancelhas. – Não, não sou amiga de Dylan. Estamos namorando há mais de três meses. Certo, amor? Daqui duas semanas é o nosso aniversário.

Não há uma só palavra para descrever o que eu sentia. Raiva? Ciúme? Decepção? Choque? Várias memórias voavam pela minha cabeça, como um flashback. Dylan e eu conversando. Dylan e eu rindo. Dylan e eu nos abraçando.

E só agora percebo: eu gosto dele. Mas não como um amigo. Como algo maior. Isso explica todo o ciúme e decepção que estou sentindo.

– Sim – Dylan gagueja um pouco, me trazendo de volta ao mundo real. – Eu iria apresenta-la… um dia. Ahn, Sky, esta daqui é Pillow. Pillow Ravenwall. Ela é uma Professora de Matemática. Também tem dezoito anos.

Espere. Pillow? Eu conheço esse nome. Como ignorar alguém que se chama, literalmente, “travesseiro”? Ah, sim. Ela estudou na escola com Dylan. Mas ela está tão diferente, mais bonita. Emagreceu, tirou os óculos e ajustou os dentes. Por isso mal a reconheci.

– Estudamos na mesma escola – diz Pillow, me encarando com seus olhos castanhos. – Talvez você não se lembre de mim… Eu mudei tanto de lá para cá.

– Desculpe, eu não me lembro – minto, abanando a cabeça, como se tentasse buscar no fundo de minhas lembranças.

Dylan estava claramente desconfortável com a situação atual. Ele suava e não parava de olhar para mim, para Pillow, para mim e para Pillow novamente. Ficamos por um tempinho em um silêncio constrangedor. Até que ela disse que tinha um compromisso e disse que Dylan não precisava leva-la para casa hoje. Eles se despediram com um beijo e a ruiva foi embora.

Então era por isso que Dylan sempre chegava no horário, não antes. Ele sempre a levava de volta para casa e depois voltava aqui, para sentar no mesmo banco, mas com outra garota.

Lágrimas de raiva inundaram meus olhos. Como ele pôde me enganar desse jeito? Aposto que ele soube de meus sentimentos antes que eu, mas ele me deixou ter esses sentimentos, só para me ver sofrer mais tarde. Como eu fui burra! Iludida dessa forma. Tudo bem, talvez eu esteja reagindo de forma um tanto absurda, mas eu não ligo. Dylan me magoou e meu coração estava partido.

– Oi, Sky – ele falou, sorrindo envergonhado. – Eles finalmente selecionaram um cargo para mim, acredita?

Naquele momento eu não queria saber. Não queria mais ouvir nada sobre Dylan, muito menos vindo dele. Um ódio profundo crescia dentro de mim. Nem esperei ele dizer e saí correndo, chorando.

Um tempo depois, a raiva passou, sendo substituída por uma depressão profunda. Lágrimas não paravam de cair e eu não sabia o que fazer e nem para onde ir. Resolvi andar até o único lugar em que eu me sentia confortável: a biblioteca.

*****

Minha mãe gritava por socorro sem parar. Gritava meu nome. Gritava o nome do marido. Eu queria ajudar, mas não sabia de onde vinham os gritos. Parecia que vinham de todos os lados.

– Mamãe? Mamãe! – gritei de volta. – Onde você está? É só me dizer que eu te procuro. Eu te acho. Mamãe!

Parecia que a voz nem havia escutado. Só continuou gritando. Depois, a voz ganiu, provavelmente de dor. Entrei em desespero. Quem estava machucando minha mãe, quem? Seja lá quem for, é um covarde. Minha mãe é uma pessoa tão dócil, tão gentil. Como alguém seria capaz de fazê-la gritar de dor?

Corro pelo escuro, sem ter ideia para que direção esteja indo. Não há vento aqui. Meu cabelo não voa e não o sinto pelo meu corpo. O que está acontecendo? Então ouço uma voz.

– Está na hora – ela diz. – Vamos, acorde. Já está na hora.

Fico confusa. O que aquilo deveria dizer?

*****

– Ei, acorde.

Acordo. Onde estou? Abro os olhos e fico em pé rapidamente. A biblioteca? Quando e como que eu vim parar aqui? Por quê…? Oh. Dylan. Pillow.

– Moça?

Olho para o lado, de onde vem a voz. Um rapaz, mais ou menos da minha idade, se não mais velho, está ao meu lado. Ele tem cabelos loiros e olhos escuros. Um olhar gentil. Quando vê que estou desperta, sorri.

– Você tem um baita sono pesado. – Ele ri. – Estou tentando te acordar há uns minutos. Você ficava murmurando palavras. Meu nome é Thomas. Qual seu nome?

Demoro um pouco para responder, tentando raciocinar o que aconteceu. Cheguei à biblioteca e fui procurar pelo livro de mamãe. Comecei a ler e… pouco depois dormi. É claro. O garoto ainda olhava para mim.

– Ah, tá. Meu nome é Sky. Por que me acordou?

– É que nós fechamos em quinze minutos. Ahn, eu trabalho na biblioteca, sou neto da bibliotecária. Mas normalmente só fico no depósito.

Ele disse que iriam fechar em quinze minutos? Mas que horas seriam? Olho o relógio. 6h15. Oh, não. Já me atrasei na sexta-feira passada. Se me atrasasse de novo, meu pai nunca mais me deixaria sair.

– Ah, não – digo, interrompendo Thomas, que ainda estava falando. – Ah, não. Estou atrasada. Muito atrasada. Tenho que ir. Valeu por me acordar.

Thomas ficou surpreso pela interrupção, mas pareceu entender. Deu espaço para eu sair e assim o fiz, correndo. Correndo como se a minha vida dependesse disso.

Porque dependia.

Notas finais
Espero que gostem! E espero que não tenha ficado longo demais... Era até para ser maior, mas acabei dividindo em mais capítulos. XD Comentem o que acham!