Vínculo Mágico
5 Zamúria
Notas iniciais
Capítulo V — Zamúria
Branco. Tal era a cor que dominava aquele corredor.
Branco doentio.
Tão doentio que, as vezes, as pessoas que circulavam por ali se sentiam doentes também.
Essa era a cor que tinha marcado a infância do minúsculo homem que caminhava lentamente por ali. A infância dele e de seu irmão.
Talvez fosse essa a razão que o motivava a ostentar trajes tão peculiares: Uma bandana verde fluorescente, mantinha parte dos vastos cabelos loiros e crespos domados. O paletó roxo estampado com bolinhas amarelas parecia travar uma guerra sangrenta com a camisa azul turquesa e a gravata cor de rosa. A figura do sujeito se destacava-se de tal forma ante a coloração alva do ambiente, que chegava a ferir os olhos.
Ocasionalmente, um grito ou um gemido agonizado escapava por de trás de uma das inúmeras — e brancas! — portas do corredor. Entretanto, o estranho homem não esboçava reação alguma. Aqueles ruídos não o incomodaram quando criança, e não incomodariam agora, na vida adulta.
Conforme o indivíduo se aproximava do fim do vasto corredor, onde o espaço se dividia em forma de “T”, a porta de um elevador, camuflada pela idêntica coloração da parede, gradualmente tornava-se visível.
No instante em que a alcançou, tocou com as costas das mãos — local onde uma estranha marca formada por um símbolo matemático infinito sendo segurado por uma mão esquelética estava gravada — em uma lacrima embutida na parede. Imediatamente, a porta se abriu.
O homem entrou e aguardou os rápidos segundos que o aparelho demorou para transportá-lo ao andar inferior. Ali, havia apenas uma porta, que foi aberta sem demoras com o mesmo método usado para o elevador.
— Tadaima! — Falou em tom monótono, enquanto adentrava o ambiente.
— Okaeri, Onii-San! — Foi prontamente saudado de volta, por outro homem, com roupas tão extravagantes quanto as suas: Uma cartola laranja fluorescente e um paletó amarelo com listras roxas, contrastando ridiculamente com uma camisa vermelha e uma gravata borboleta azul royal. — Como foi a missão? — Indagou o irmão mais novo, magro como um varapau, que mesmo sentado superava a altura do irmão mais velho.
— Faltam apenas quatro, Jiro-chan. — Respondeu o baixinho.
— Pensei que você pegaria a todos hoje. — Comentou Jiro. — Isso não nos atrasará? — Questionou, preocupado.
— De forma alguma. — Esclareceu o outro. — Os últimos preparativos ainda estão sendo providenciados. Portanto, não há problemas em esperar que eles se aproximem nós. — Completou.
— Então só precisamos recepcioná-los calorosamente. — O mais alto ironizou, um sorriso maléfico rasgando-lhe a face.
— Provavelmente, eles se dividirão e investigarão em Datra também. — Supôs o recém chegado — Sua missão é ir até lá e trazê-los em segurança para a sede. — Orientou, acariciando a pança avantajada.
— E a sua é fazer o mesmo com os que chegarem em Zamúria. — Reforçou o magrelo.
— E assim estaremos prontos para realizar o sonho da nossa mãe. — Concluiu o baixinho.
A estranha dupla trocou um olhar completamente satisfeito, resultado do sucesso de um plano de anos.
— Mas e a maga celestial? — Jiro questionou, quebrando o momento de enlevo. — Acha que realmente poderemos contar com ela? — Inquiriu, descrente.
— Se ela não colaborar — Começou o outro, contorcendo a face em uma expressão macabra -, simplesmente terá o mesmo destino que a irmã. — Revelou, causando um arrepio na espinha do caçula. — Nós nunca estivemos tão próximos de alcançar nosso objetivo. Não permitirei que ninguém atravesse nosso caminho. — Garantiu. — De uma só vez, destruiremos a Fairy Tail e a Crime Sorcière. E quando o projeto estiver completo, até mesmo o Conselho Mágico se renderá a nós.
• • •
A estação de trem de Magnólia sempre foi um lugar barulhento, não importasse o horário. Naquela manhã, porém, um grupo bem conhecido na cidade fazia questão de deixar seu tempo de espera naquele local o mais interessante possível, fazendo com que suas vozes se sobrepusessem até mesmo aos apitos dos trens.
— Para de babar no meu ombro! — Reclamou Lucy, empurrando bruscamente a cabeça de Natsu, que pendeu mole por alguns instantes para cair do outro lado, no ombro direito de Lisanna. — Deixe para dormir no trem! — Pediu, irritada.
— Nhaaaa, Lucy, deixa de ser malvada! — Engrolou o mago, de olhos fechados. — É o segundo dia que você me acorda de madrugada. — Um bocejo arrastou sua última palavra.
— Deixa de ser malvada… — O exceed azul, que dormia do colo do amigo, repetiu. — Lucy estranha. — Completou com um sorrizinho.
— Esse gato não se contenta em me insultar apenas enquanto está acordado. — A loira comentou, um tanto desolada. Lisanna riu, atraindo a atenção da maga celestial. — O que foi? — Perguntou.
— Nada. — A albina meneou a cabeça, sorrindo. — Eu apenas acho engraçada o relacionamento de vocês três. — Esclareceu.
— Não tem nada de engraçado em ter dois inconvenientes invadindo sua casa o tempo todo. — A maga estelar rebateu bicuda, da boca pra fora.
— Pelo visto eles passaram a noite lá de novo. — A Strauss caçula constatou, olhando de esguelha para o rosado que repousava em seu ombro. Heartfilia corou.
— Não que eu tenha convidado, ou algo do tipo. — Respondeu, constrangida.
A verdade era que, nos últimos dias, a jovem até mesmo cogitara trocar sua cama de casal por duas de solteiro, pois o dragon slayer era tão espaçoso que, quando dormia em sua casa, ou a jogava no chão, ou a mantinha pressionada durante toda a noite contra a parede.
— Claro. — Concordou Lisanna, sem querer provocar.
No dia anterior, todos haviam combinado de encontrar-se na estação e tomar o trem das seis, para que investigassem as marcas estranhas que vinham aparecendo nos membros da Fairy Tail e a morte de Yukino.
Parte do grupo iria parar dali a duas estações, em Datra, cidade onde Lucy e as meninas fizeram um trabalho especial em um Maid Café e local onde tinha aparecido a primeira marca. O restante, passaria por mais duas cidades e trocaria de estação, pegando outro trem e fazendo uma viagem de mais quatro horas, para finalmente chegar em Zamúria, local onde Yukino havia sido assassinada.
— É! Zamúria é mesmo longe daqui. — Comentou Mirajane, que mantinha-se em pé, parada ante ao banco onde a irmã, a maga celestial e o dragon slayer estavam acomodados. Lucy olhou-a com uma pontada de inveja.
A garçonete estava simplesmente deslumbrante, trajando um vestido azul marinho de mangas longas, em estilo gótico, enfeitado com babados brancos. Um espartilho branco evidenciava sua cintura esbelta e firmava a saia volumosa. A marca em seu pescoço permanecia oculta por uma tira de veludo, da mesma cor do vestido.
Lisanna olhou a irmã com admiração. Ela a achava simplesmente fantástica. Nunca ficaria tão bem vestindo-se no mesmo estilo. Por causa disso, sempre trajava-se de maneira mais despojada e confortável. Naquele momento mesmo, usava um short jeans desfiado e uma regata branca de gola alta. Um All Star vermelho de cano médio e um casaquinho de lã verde água completavam sua produção.
— Também é uma cidade consideravelmente grande. — Continuou a albina mais velha.
— Dificilmente concluiremos as investigações hoje. — A loira comentou — Provavelmente tenhamos que passar alguns dias por lá.
— Creio que em Datra as coisas sejam mais ágeis. — Opinou a Garçonete. — Assim que concluirmos, seguiremos para Zamúria e nos encontraremos com vocês. — Afirmou.

— Ok. — A maga estelar sorriu.
Espalhados por ali, estavam os outros membros da Fairy Tail, que iriam nessa missão. Elfman estava a uns cinco metros de Lucy, gritando com Evergreen por ela ter lhe acertado com seu leque sem motivo aparente. Gajeel, Levy, Lily Carle e Wendy estavam esperando sentados em outro banco e Juvia andava de um lado para o outro, choramingando que seu Gray-sama ainda não havia chegado.
Observando a cena, Lucy reparou que Erza também ainda não estava ali.
— Por que será que Gray e a Erza ainda não chegaram? — Perguntou a maga celestial, curiosa.
— Deve ser algo relacionado ao que o mestre queria falar com eles ontem. — Lisanna respondeu.
Cerca de quinze minutos depois, Lucy viu Erza e Gray se aproximando de onde estavam, acompanhados de mais duas pessoas. Quanto a essas duas pessoas, a loira teve que esfregar os olhos para ter certeza de que não estava enganada.
— Gray, Erza! — Exclamou surpresa.
Lisanna também tinha se levantado abruptamente ao vê-los chegando, fazendo com que Natsu batesse a cabeça contra a madeira do banco.
— Mas que droga, você duas não podem me acordar de outro jeito que não seja com uma pancada? — Reclamou, levantando-se e esfregando a cabeça.
— Você também poderia não ter me jogado no chão. — Happy reclamou, já que também tinha despencado do colo do amigo.
— Foi mal. — Natsu respondeu. Só então, deu-se conta dos recém-chegados. — Mystogan! — Exclamou surpreso, ao ver Jellal se aproximar, caracterizado como o antigo Mago Classe S da guilda.
— Não Natsu — Lucy corrigiu -, este é o…
— Jellal. — Erza completou.
— Eu sei, eu sei. — Resmungou Natsu. — Acontece que eu conheci esse cara por três nomes diferentes. Não me censurem por estar confuso.
— Ele está certo. — Jellal comentou entre risos. — Se bem que ter um terceiro com o meu rosto nunca foi a minha intenção.
— Agora que eu parei para pensar, sua cara é muito comum. — Happy comentou, com toda sua inconveniência. Jellal imediatamente ficou sob uma aura depressiva. — Só perde para a da Lucy.
— COMO É QUE É? — Gritou a maga, enfurecida.
— É mesmo! — Natsu concordou. — Lucy, Gemini, Edo Lucy e Lucy do futuro. É como se eu tivesse te conhecido quatro vezes. — Falou, contando nos dedos.
— NÃO CONCORDE COM ELE! — Ralhou ela.
— E eu ainda vi três de vocês simultaneamente! — Completou animado.
— Por quê? — Lucy chorava, caída de joelhos debaixo da mesma nuvem negra que cobria Jellal.
— Vocês têm uma facilidade incrível de perder o foco da conversa. — Uma garota, que chegou junto com Erza, Jellal e Gray comentou. Natsu olhou para ela, confuso, tentando lembrar-se de quem se tratava.
— E você quem é? — Perguntou, coçando a cabeça. A garota deu um gritinho de felicidade.
— Meu disfarce funcionou! — Comemorou.
— Na verdade não. — Disse Lucy, recuperando-se. — O Natsu é que tem uma memória deplorável.
— Mentira! — Natsu retrucou, irritado. — Meldy, não é? — Perguntou o Dragon Slayer.
— Isso. — Respondeu a garota. Meldy estava com presos em maria-chiquinhas. Na tentativa de se disfarçar, usava óculos de grau no estilo gatinho, e roupas de colegial.
— Mas eu ainda não entendi o que vocês estão fazendo aqui. — falou o mago de cabelos róseos.
— Natsu! — Lisanna e Lucy exclamaram ao mesmo tempo. — Não seja rude. — Lucy completou, sozinha.
— Já irei explicar. Por favor, aproximem-se todos. — Pediu Erza e todos obedeceram. — Ainda temos alguns minutos antes do trem partir. — Falou, olhando os presentes um por um. — Ontem, na guilda, o mestre pediu para converar com Gray e eu.
— Sim, nós reparamos. — Mirajane disse.
— Ele nos chamou porque se lembrou da natureza dos poderes de Meldy, e pensou que talvez ela pudesse nos ajudar com essa história das marcas. — Contou Gray.
Alguns rostos se iluminaram, esperançosos. Quando percebeu a situação, Meldy tratou de esclarecer:
— Sinto decepcionar vocês, mas eu não percebi muitas semelhanças com a minha magia de ligação sensorial. — Falou a garota. Todos suspiraram desanimados.
— Faz sentido. — Concordou Juvia. — Quando lutamos na Ilha Tenrou, você disse que eu precisaria estar pensando no Gray-sama para que a magia funcionasse.
— Exatamente. — Continuou Meldy. — Eu só poderia atingir uma pessoa que não conheço sem estar na sua presença por meio de outra pessoa. E mesmo assim, a pessoa mais próxima teria que estar pensando no alvo.
— É, mas no caso da Juvia você pode acertá-la a qualquer hora, que o atingido sempre será o Gray. — Observou Happy.
— Não faça comentários desnecessários!!! — Ralhou o Mago do Gelo.
— Gray tem razão. — A maga de armadura falou, irritada. — Prossiga Meldy.
— Enfim — Continuou a maga, entre risos -, aparentemente vocês foram acertados em duplas. Esse é o único fator que nos faz supor que estão ligados, porque eu não sinto ligação mágica alguma.
— Não se esqueçam que que talvez a magia ainda não tenha sido ativada. — Jellal lembrou.
— E é por isso que vocês estão aqui?
— Não só por isso. — Explicou Jellal. — O alvo da Crimes Sorcière, além de Zeref são as Guildas Negras.
— Vocês estão desconfiados de alguém! — Lucy exclamou.
— Penso em algumas possibilidades. — Respondeu ele — Logo que Makarov entrou em contato, me interessei pelo caso.
— Até porque, já temos uma morte comprovada. — Meldy lembrou, séria.
— Pessoal, já está na hora. — Alertou Mirajane.
— Esperem um pouco. — Jellal pediu. — Já que estaremos nos dividindo em dois grupos e indo para cidades diferentes, precisamos ter um meio de comunicação. — Falou, enquanto retirava de sua capa alguns objetos. Todos exclamaram admirados ao verem do que se tratava.
— Isso são… Lacrimas? — Elfman perguntou, exteriorizando a curiosidade geral.
— Lacrimas de comunicação portáteis. — Confirmou o mago, exibindo um conjunto de lacrimas transparentes, ovaladas e achatadas, penduradas por cordeis de couro. — Cada dupla fica com uma, assim poderemos nos comunicar a distância.
— Jellal e eu também poderemos nos comunicar telepaticamente com vocês, mas apenas quando não estivermos separados por uma grande distância. — Meldy acrescentou.
— Legal! — Wendy Exclamou. — Isso, me faz pensar… eu sou dupla de quem? — Falou, olhando em volta.
— Eu também não tenho uma dupla, então poderemos ficar juntas. — Meldy convidou.
— Ok! — Wendy concordou animada.
— Então vejamos, uma para Juvia e Gray… — Falou Jellal passando a lacrima para Gray.
— Não deixe a lacrima com o Gray! — Levy alertou. — Ele vive tirando a roupa! Pode ser que ele tire a lacrima acidentalmente.
— Como se eu fosse realmente fazer isso! — Retalhou o mago do gelo.
— Por via das dúvidas, entregarei para Juvia então. — Jellal decidiu, rindo, e rapidamente distribuiu o restante das lacrimas entre as duplas.
— Certo, então todos já sabemos o que fazer. — Disse a maga dos cabelos escarlates.
— Sim. — Mirajane confirmou. — Lisanna, Juvia, Gray, Wendy e eu faremos as investigações em Datra, e depois seguiremos para Zamúria.
— E nós iremos diretamente para Zamúria. — Lucy falou.
— Como Jellal vai auxiliar em Zamúria, eu irei ajudar nas investigações em Datra. — Meldy completou. — Afinal, também serei a dupla da Wendy.
— Nesse caso, devemos nos apressar. — Charle alertou. — O trem já está para partir.
• • •
Jellal observava, quase que hipnotizado, Erza dormindo apoiada na janela. Pelo vidro, era possível perceber que o trem fazia suas últimas curvas antes de chegar em Zumúria, o destino final do grupo. Naquele momento, ele desejava que a viagem durasse um pouco mais, só para poder passar mais tempo contemplando o sono da maga.
Erza parecia dormir um sono pesado. Talvez não tão pesado como o de Natsu, Lucy e Happy, que estavam praticamente embolados um em cima do outro, mas profundo o suficiente para não se incomodar com o movimento do trem.
A face corada da maga, o cabelo despenteado e a boca levemente aberta, certamente seriam motivos de piada para seus companheiros de guilda, caso eles a vissem assim. Mas para Jellal não. Ele não entendia como mesmo nessas condições ela ficava tão linda.
Várias horas mais cedo, enquanto os membros da Fairy Tail entravam no trem, o antigo membro do Conselho viu, com uma pontada de decepção, Erza sentar-se ao lado de Natsu — que já se encontrava verde de enjoo — no trem.
Entretanto, quando o mago do fogo percebeu quem seria sua companhia, rapidamente fugiu amedrontado para a poltrona da frente, onde Lucy já se acomodava com Happy.
— Ela vai me colocar para dormir! — Repetia ele para a loira, que estava visivelmente irritada.
Aproveitando-se da oportunidade, Jellal perguntou a ruiva se poderia sentar-se ao seu lado, e ela assentiu sem graça.
De início, ambos viajaram calados, apenas escutando as reclamações de Lucy quanto ao dragon slayer. O mago do fogo estava deitado no colo da maga celestial, e ela não parava de repetir que o faria pagar uma roupa nova caso ele a sujasse.
Pouco tempo depois, Natsu caiu no sono, o que fez Erza exclamar admirada:
— Lucy, você conseguiu fazer o Natsu dormir! — Falou animada. — Lucy, que passava a mão distraidamente pelos cabelos do dragon slayer, corou imediatamente. Até aquele momento ela nem tinha percebido o que estava fazendo.
— Não fiz nada! — Falou esganiçada, vermelha como um tomate.
— Fez sim! — Provocou a ruiva. — Eu sempre tive que socá-lo para que ele pudesse descansar. Quem diria que uns carinhos no cabelo seriam o segredo. — Jellal se sentiu levemente irritado com a fala da ruiva. Para sua sorte, a máscara de Mystogan cobria qualquer reação sua.
— Eu pensei que fosse o Happy! — A loira tentou, desesperadamente, justificar.
— Eles se goxtam! — Disse o gato azul.
Depois dessa cena, a viagem seguiu sem muitas discussões. Logo o trem parou em Datra e os magos que ficariam ali desceram, desejando boa sorte ao magos que seguiriam.
Mais tarde, eles trocaram de estação e pegaram outro trem. Lucy teve praticamente que carregar Natsu em suas costas, já que ele estava muito abatido. A segunda viagem mal tinha começado e Lucy também dormiu, por cima de Natsu que mais uma vez estava em seu colo.
Jellal tinha sentado-se novamente ao lado de Erza, que a esse ponto parecia mais descontraída. O mago do cabelo azul achava que sua mudança de estado devia-se a metade dos magos ter descido em Datra. Quanto a outra metade, era até engraçado de se ver. Gajeel, mesmo com aquele tamanho todo, também tinha despencado no colo de Levy, em razão do forte enjoo. Elfman e Evergreen não paravam de berrar um com o outro.
Boa parte do restante da viagem, Jellal e Erza puderam — finalmente — conversar. Verdade que a conversa tinha sido sobre assuntos toscos ou casuais, como o tempo, os Grandes Jogos Mágicos e a Batalha dos Dragões. Mas para Jellal, o simples fato de poder falar com ela assim, casualmente, era um presente.
Algum tempo depois a maga, vencida pelo cançaso, adormeceu. E Jellal, mais do que grato, passou o resto do caminho observando-a.
Quando o trem parou, o mago mascarado, com uma pontada de chateação, cutucou o ombro da Ruiva.
— Erza — Chamou ele — Chegamos. — A maga de armadura abriu levemente, os olhos e quando o viu, sorriu. Pela segunda vez naquele dia, Jellal sentiu-se agradecido por estar de máscara.
Ao perceber onde estava, Erza levantou-se num sobressalto, tão vermelha quanto os cabelos.
— Vamos, Natsu, Lucy! — Gritou — Já está entardecendo e temos muito o que fazer. — Falou, enérgica. Ao ver que os magos ainda estavam atordoados de sono, tratou de arrastá-los para fora, deixando um assustado Jellal e cinco confusos companheiros de guilda para trás.
• • •
Zamúria era enorme. Um pouco menor que Crocus, mas ainda assim enorme. Lucy observava, admirada, as belas construções, enquanto andavam a caminho do apartamento de Yukino.
Logo após terem sido tirados abruptamente do trem por Erza, Lucy e os demais foram deixar suas malas em um hotelzinho, perto da estação. Como eles haviam chegado em Zamúria no meio da tarde, decidiram deixar as investigações para o dia seguinte. Com exceção da visita no apartamento de Yukino. Todos concordaram que de noite era o melhor horário para ir até lá, pois chamariam menos atenção.
Entretanto, em um grupo relativamente grande como aquele vagando pelas ruas a noite, dificilmente não seria chamativo. E era exatamente isso que estava passando pela cabeça de um deles.
— Se a nossa intenção é não chamar muita atenção, não deveríamos ter escolhido um grupo menor? — Gajeel perguntou, incomodado.
— Isso seria o ideal. — Erza respondeu — No entanto, recebemos orientação para não nos separarmos de nossas duplas. — Esclareceu. — Unindo essa circunstância ao fato que os mais adequados para fazer uma análise do apartamento são Lucy, Levy e Jellal, tivemos que vir todos.
— Mas você nem foi marcada, portanto não é dupla de ninguém. Não seria melhor ter ficado para ajudar Elfman e Evergreen? — Questionou o dragon slayer de ferro.
— Você tem algum problema com a minha presença aqui? — A ruiva perguntou, exalando uma aura vermelha extremamente assustadora. Gajeel encolheu, temeroso.
— De jeito nenhum! — Respondeu mais que depressa, pensando no quanto preferia ter ficado com Elfman e Evergreen.
Mais cedo naquele dia, assim que chegaram ao hotel, Erza resolveu mostrar uma foto de Yukino ao recepcionista, para ver se conseguia alguma informação. Coincidentemente descobriu que Yukino se hospedara por uma noite, naquele mesmo lugar, quando chegou em Zamúria.
Com o objetivo de arrancar mais algumas informações e inquirir os funcionários, Elfman e Evergreen ficaram no hotel. Como Lucy, Levy e Jellal precisavam ver o local do crime, o outros os acompanharam, sem muita opção.
— Lucy, estou com fome! — Natsu reclamou.
— Aye! — Happy concordou.
— Vocês vão ter que esperar nosso retorno ao hotel para comer. — A loira respondeu, indiferente.
Assim, totalmente calado, o grupo seguiu seu caminho. Logo, eles chegaram na rua que ladeava o rio. Lucy reparou que essa rua era muito parecida com a que ela morava. Até as construções eram semelhantes. Não precisaram andar muito para encontrar o endereço que procuravam.
— É aqui. — A maga celestial falou olhando uma velha construção de dois andares, pintada em um tom rosa desbotado.
— Lembra um pouco a sua casa Lucy. — Happy comentou.
— É. — A maga respondeu.
— Certo, vamos entrar e acabar logo com isso. — Natsu Chamou.
— Acalme-se Natsu. Nos vamos invadir o lugar. Precisamos fazer com cuidado. — Jellal alertou.
— Que seja então. — O dragon slayer do fogo respondeu bicudo.
A casa estava protegida por fortes magias. Mesmo assim, Jellal quebrou-as com uma facilidade digna de aplausos. Todos, boquiabertos, adentraram na escuridão do recinto e dividiram-se para procurar coisas importantes.
Lucy subiu as escadas com Natsu em seu encalço. Ela movia-se pelos cômodos instintivamente. Em alguns, ela nem mesmo passava pelo batente da porta. Simplesmente parava, olhava para dentro e, se não achava interessante, seguia. Foi assim até chegar no quarto em que Yukino havia morrido.
A maga estelar reconheceu, mesmo no escuro, o ambiente das fotos que recebera pelo piso encarpetado. Nada parecia estranho ali. Talvez, tudo de importante já tivesse sido retirado. Mesmo assim, a garota sentia que tinha uma pista ali. Sentia que Yukino poderia ter deixado um caminho para que eles seguissem. Com essa ideia, Lucy retirou a carta que a Ex-Sabertoot lhe enviara da bolsa, e tornou a ler.
— Encontrou algo? — Natsu perguntou.
— É como se eu pudesse encontrar. — Respondeu a maga.
Lucy circulou pelo quarto, em busca de qualquer coisa que pudesse ser um sinal. Tratava-se de um ambiente simples, mas extremamente organizado. De móveis, só possuia uma cama, uma escrivaninha, uma cadeira e uma grande estantes de livros. Mas foi em frente a escrivaninha que Lucy estacou.
— Lu-chan! — Levy chamou. Lucy virou-se, sobressaltada. — Encontrou alguma coisa? — Perguntou a baixinha, observando a carta que Lucy tinha nas mãos.
— Ainda não. — Respondeu. — Mas acredito que Yukino poder ter deixado alguma pista. — Acrescentou.
— Eu tembém estava pensando nisso. — Levy comentou. — Na verdade, tem algo nessa carta que está me incomodando desde que você a leu, lá na guilda.
— E o que é? — Questionou Natsu, curioso.
— A saudação. — A Shadow Gear respondeu.
— A saudação? — Indagou a maga estelar.
— Sim, a forma como Yukino te cumprimentou no início da frase.
Lucy tornou a ler o pedaço de papel, mesmo sem precisar. Ela praticamente decorou a carta de Yukino. Sabia perfeitamente que a primeira palavra escrita ali era "Olá".
— "Olá". — Repetiu, mesmo assim.
— Isso! — Levy exclamou. — Sabe, é um jeito muito incomum de se cumprimentar alguém. Muito informal. Mas aí eu pensei que, talvez, a razão de ela usar três simples letras para te saudar, seja para esconder muitas outras.
— Uma sigla? — Indagou, admirada.
— Exato! — A baixinha concordou exultante. — Só não me pergunte de que. — Completou. Mas Lucy já tinha uma ideia do que poderia ser. Desde que entrara no quarto, o que mais lhe chamou a atenção foi a quantidade absurda de livros que Yukino possuia. A maior parte deles estavam organizados na estante, exceto três, que estavam sobre a escrivaninha.
— Levy, você é genial! — Lucy elogiou animada, pegando um dos três que estava sobre a mesa. O exemplar tinha uma capa azul marinho, com detalhes prateados.
— Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo? — O dragon slayer pediu.
— Claro, Natsu. — A loira respondeu. — Veja o nome desse livro. — A loira pediu, segurando o livro em frente ao rosto do Dragon Slayer.
— Objetos Lendários Amaldiçoados. — Leu o mago em voz alta. — Idaí?
— Objetos Lendários Amaldiçoados. — Repetiu a maga estelar animada. Ao perceber a incompreensão do amigo, a loira revirou os olhos. — O.L.A. Natsu! "Olá"! — Insistiu ela.
— Então era uma abreviação para o nome do livro. — Levy comentou, empolgada. — Anda Lucy, abra! Deve ter alguma pista aí dentro! — Pediu a maga pequena.
De fato, tinha. Ao folhear o livro, Lucy encontrou, escondida em uma página mais ou menos do meio, uma folha.
— Parece parte de um artigo científico. — Falou, lendo por cima.
— Sobre o que se trata? — Levy perguntou.
— Uma nova substância mágica. — Respondeu.
— Diferente de tudo o que eu esperava. — A baixinha constatou. — Essa folha tanto pode ser a pista, quanto pode estar indicando a pista.
— Sim. Ela podia estar apenas marcando a página do livro. — Lucy reforçou.
— Que por sinal trata de uma uma poderosa adaga amaldiçoada com uma maldição de morte.
— Uma adaga simples já não é o suficiente para garantir a morte de alguém? — O dragon slayer perguntou irritado. — Eles precisam ficar inventando mais coisas para deixar esses objetos ainda mais perigosos?
— De fato, uma punhalada pode ser fatal dependendo do lugar onde acerta — Disse a maga estelar. — Mas uma pessoa não morre apenas por cortar o dedo com ela. No caso dessa adaga, é diferente. — Explicou. — Ela garante que o golpeado tenha uma morte lenta e dolorosa, mesmo que tenha sofrido apenas um corte bobo.
— Ou seja, se a pessoa não morre pelo golpe, morre pela maldição. — Arrematou Levy.
— Vamos levar o livro e o artigo para o hotel. Lá poderemos analisá-los com mais calma. — Instruiu Lucy.
— Ok. — Os outros dois assentiram.
— Encontraram alguma pista? — Erza entrou no quarto, seguida por Jellal e Gajeel. Lucy e Levy narraram suas descobertas.
— E vocês? — Natsu perguntou.
— Achamos um outro quarto, cheio de livros. — Gajeel comentou.
— Mas de interessante mesmo, só tinha esse aqui. — Jellal mostrou o livro que trazia nas mãos.
— Um livro com todas as páginas em branco. Nem sequer possui um título. — Erza falou.
— No entando, sentimos uma forte magia emanando dele. — Jellal completou.
— Ele possui um título sim. — Lucy contestou, fitando a capa de couro marrom.
— Mas Lucy, eu não vejo título algum. — Erza rebateu, surpresa.
— Como não, gente? — A maga estelar perguntou indignada. Pegando o exemplar nas mãos, apontou as grandes letras douradas que estavam na capa, lendo-as em voz alta. — "Segredos Zodiacais". É um título interessante.
— Lucy, eu não vejo nada. — Natsu comentou, sem graça. A maga encarou os amigos, perplexa.
— Nenhum de vocês vê? — Perguntou, esperançosa. Todos menearam a cabeça negativamente. — Gente, eu não estou inventando, é sério, isso tá escrito aqui.
— Nós não achamos que você esteja mentindo Lucy. — Erza começou.
— Então porque vocês não podem ver?
— Talvez — Jellal começou — apenas você possa ver.
— Por quê? — A loira perguntou.
— O livro pertencia a Yukino ou a irmã dela. Quanto a irmã eu não sei, mas certamente Yukino e você tinham uma característica em comum que as diferenciam de nós.
— A magia. — Lucy concluiu. — Apenas magos estelares podem ver.
— Arrisco dizer, pelo título, que apenas magos estelares com contratos com espíritos do zodíaco possam ver. — Supôs o mago mascarado.
— Tem lógica. — Gajeel concordou. Você consegue ler as páginas? — Perguntou curioso. Lucy abriu o livro, exibindo as páginas alvas.
— Em branco. — Falou desapontada.
— Por ser uma maga estelar com várias chaves de ouro, você consegue ler a capa. Yukino provavelmente também podia. — A ruiva comentou. Existe uma maneira de ler esse livro, apenas precisamos descobrir qual é. Acho que já podemos voltar. — Finalizou, olhando para Jellal, que estava dando uma breve olhada naquele cômodo.
— Sim. — O mago concordou.
Lucy enfiou de qualquer jeito o artigo científico dentro de sua bolsa, e saiu com o exemplar de "Segredos Zodiacais" nas mãos. Levy levava o "Objetos Lendários Amaldiçoados". Juntos, todos deixaram a velha casa, e começaram a caminhar de volta para o hotel.
Quando estavam para sair da rua que margeava o rio, Erza, olhando para trás, reparou que Jellal não estava mais com eles.
— Pessoal, Jellal não está aqui. — Falou, a ruiva, apreensiva. — Alguém viu para onde ele foi?
— Ele estava logo atrás de você, não estava? — Levy perguntou.
— Sim, estáva atrás de mim até agora há pouco. — Respondeu a maga. — Ele sumiu de repente.
— Você acha que alguém pode ter levado ele? — Gajeel perguntou.
— Creio que não, mas é possível. — Respondeu, abaixando a cabeça. — Eu vou voltar para procurá-lo.
— Nós vamos com você. — Falou Natsu.
— Não vão não! — Disse Titânia. — Vocês tem que ir para o hotel e estudar as pistas que encontramos, o mais rápido possível.
— Mas Erza, não podemos deixar você sozinha. — Tentou Lucy.
— Vocês não precisam se preocupar. — A ruiva respondeu. — Voltarei logo.
— Vamos te dar uma hora. — Gajeel falou. — Se em uma hora não voltarem ao hotel, iremos atrás de vocês.
— Ok. — A maga de armadura respondeu. — Tentem fazer contato com o grupo de Datra, e vejam se está tudo bem.
— Pode deixar. — Lucy concordou.
Erza virou as costas e saiu correndo pela margem do rio. Poucos passos depois, espiou por cima dos ombros e constatou, aliviada, que seus amigos já tinham ido. A sensação que ela tinha era de que a marca que eles tinham recebido os deixariam mais vulneráveis em batalha.
Felizmente, Erza não precisou correr muito para encontrar quem estava procurando. Logo ela divisou o mago mascarado, parado, imóvel na beira do rio.
— Seu grande idiota, o que você pensa que está fazendo? — Perguntou, enfurecida, inclinando-se sobre ele.
— Erza, você precisa ir! — Jellal pediu.
— Como se eu fosse deixar você sozinho aqui. — A ruiva respondeu. Jellal suspirou, contrariado.
— Nós temos companhia. — Falou ele, tenso.
— Eu sei. — Disse Erza, se equipando com uma espada. — Por isso é que eu não vou deixá-lo de jeito nenhum.
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