Vínculo Mágico
3 Portador de Más Notícias
Notas iniciais
Capítulo III — Portador de Más Notícias
Natsu já havia perdido a noção do tempo que Lucy estava envolvida em seus braços. Mal Arcadios deixara o apartamento e a maga estelar jogou-se contra o dragon slayer, desabando em lágrimas. Chorou tanto que o tecido negro de suas vestes estava umedecido.
O mago do fogo pousava uma das mãos na cabeça da loira, e a outra em suas costas. Ela, por sua vez, tinha o rosto enterrado em seu peito e agarrava sua camisa com força.
Dragneel entendia completamente a dor que a parceira de time sentia, até porque, também estava profundamente abalado com a notícia. O tempo que convivera com a Ex-Sabertooth foi escasso, mas suficiente para saber que ela era uma boa pessoa.
Ele tinha visto suas lágrimas ao ser expulsa da guilda que tanto admirava. Sabia da amargura que ela nutria por ter perdido a família nas mãos dos seguidores de Zeref. Também tinham lutado juntos para escapar de uma morte terrível no subsolo de Crocus. Todavia, a morte encontrou a maga celestial mesmo assim. As fotografias espalhadas pela mesa de centro mostravam isso.
No momento em que Arcadios anunciara que Yukino havia sido assassinada, Natsu precisou amparar Lucy para que ela não desabasse. As pernas da maga estelar bambearam e sua pele – já consideravelmente alva – adquiriu um tom branco doentio.
Constatando o atordoamento da amiga, o mago do fogo a conduziu até o estofado verde musgo e sentou-se com ela em frente ao membro do Exército real, esperando que ele continuasse. Afinal, sabia que aquele homem não apareceria ali apenas para dar a triste notícia. Tinha certeza.
— Eu também fiquei um tanto perturbado quando recebi a notícia da morte de Aguria. — O visitante confessou – Contudo, o que mais me chocou, foi o modo que ela estava ao ser encontrada. — Contou.
— Eu prefiro ser poupada dessas informações. — A maga celestial, com grossas lágrimas rolando pelo rosto, pediu.
— E eu preferia não ter que dá-las a vocês. — Com um gesto, Arcadios indicou ambos — Mas pensei que, como vocês dois passaram um tempo com Aguria no subterrâneo da capital, talvez pudessem esclarecer algumas coisas. — Justificou.
Apesar da situação triste, Natsu teve uma leve vontade de rir. "Passar um tempo com ela no subterrâneo" era mais que eufemismo. Eles tinham quase morrido lá.
— Que coisas? — O mago do fogo inquiriu, não fazendo o mínimo esforço para ser simpático.
Arcadios encarou o dragon slayer seriamente. Já havia percebido que ele assumira uma postura completamente defensiva.
No momento em que estavam apenas eles e o exceed no apartamento, o mago parecia mais relaxado, até mesmo descontraído. Mas bastou Heartfilia colocar os pés naquele ambiente, para que seu comportamento mudasse. Agora mesmo, ele tinha o braço direito passando pelos ombros da maga. Uma atitude claramente protetora. Até mesmo possessiva, arriscaria dizer. Natsu não facilitaria as coisas.
Sem desanuviar o semblante, o visitante tirou, de dentro do casaco, um envelope médio. Em seguida, abriu e pegou o que pareciam ser algumas gravuras. Olhou-as, por um momento, selecionou uma e entregou a maga celestial.
— Você reconhece essa marca? — Perguntou o militar. Lucy, aterrorizada, soltou a fotografia, que caiu em seu colo.
— Quem faria uma coisa dessas? — Perguntou, completamente perturbada.
— Você reconhece? — Insistiu Arcadios. A loira manteve-se em silêncio, ocultando a verdade: ela reconhecia.
A imagem que lhe fora entregue retratava apenas uma parte do corpo de Yukino: dos ombros a boca. Em seu pescoço, estavam gravados os mesmos símbolos que compunham a estranha marca que aparecera no pescoço de Heartfilia, com uma diferença fundamental: os símbolos marcados na maga estelar possuíam uma coloração negra, assemelhando-se a uma tatuagem, enquanto aqueles que circulavam o pescoço de Yukino, pareciam uma queimadura, provocada com ferro em brasa.
Naquele momento, Lucy se sentiu realmente grata por ter seguido o conselho de Makarov e escondido sua marca novamente com a fita de cetim. Só de pensar no que aconteceria se Arcadios se deparasse com a maga celestial marcada, quase da mesma forma que a falecida amiga, ela sentia arrepios.
Entretanto, Natsu não estava na Guilda quando o mestre orientou os magos a manter segredo com relação àquela marca. E a loira se deu conta disso apenas quando o mago do fogo já estava segurando a fotografia, que havia caído de suas mãos segundos antes, analisando-a com um ódio contido. Por um instante, a maga desesperou-se.
— Então? — Arcadios tornou a insistir.
— Nunca vi nada desse tipo. — Respondeu Dragneel, devolvendo a fotografia. Mesmo surpresa com a súbita discrição do amigo, Heartfilia respirou aliviada.
— Lucy? — Arcadios direcionou o olhar para a maga.
— Também nunca vi nada assim. — Meneava a cabeça negativamente. — Nem mesmo em livros. — Acrescentou.
— Entendo. Aguria morreu por asfixia. — Contou o visitante. — Eu acredito que tenha sido uma maldição ativada por essa marca. — Ponderou, fazendo com que a loira sentisse o pavor tomar conta de si. — Quero que vocês saibam que eu não estou por trás de nenhum tipo de investigação sobre esse homicídio. — Esclareceu. — Eu fui procurado pelos Cavaleiros Rúnicos para prestar esclarecimentos, simplesmente por Aguria ter servido temporariamente ao nosso exército. A guilda Sabertooth também foi contatada, entretanto, eles alegaram não conhecer nada sobre o passado da maga, bem como não mostraram muito interesse no caso.
— Malditos. — Natsu resmungou.
— Admito que eles são um tanto difíceis de lidar. Nem sequer compareceram no sepultamento. Com exceção dos dragon slayers gêmeos.
— Se eu soubesse, teria ido… — Lucy lamentou.
— A Fairy Tail provavelmente teria comparecido em peso. — Comentou Arcadios. — Talvez por isso a informação não tenha sido divulgada: Para evitar boatos desnecessários sobre a marca. Enfim, pensei que por ser uma maga celestial, talvez você soubesse de algo.
— Sinto muito não poder ajudar. — Lamentou a loira.
— Bem, minha visita a casa de vocês tem um segundo propósito. — Começou Arcadios. Natsu e Lucy se entreolharam curiosos, a segunda levemente incomodada pelo militar ter se referido ao seu apartamento como “casa de vocês”. — Gostaria de pedir que a senhorita Heartfilia encontrasse as chaves de Yukino.
— Como assim? — A jovem questionou — Não foram encontradas com ela? — Indagou.
— Não.
— E qual o seu interesse nisso? — Dragneel perguntou, desconfiado.
— Talvez muitos, talvez nenhum. — Respondeu visitante. — Na verdade, as chaves não tem utilidade para outro, senão o contratante.
— E...? — Pressionou o dragon slayer.
— Sendo completamente sincero, as chaves são muito mais úteis nas mãos de um só mago do que espalhadas mundo afora. — Esclareceu. — Eu já precisei das doze chaves reunidas uma vez, posso muito bem precisar novamente. Portanto, seria mais útil que todas elas estivessem nas mãos de um mesmo mago, de preferência conhecido. — Lucy engoliu em seco. O mago do fogo trincou os dentes.
— Você está querendo dizer que virá atrás da Lucy novamente? — Questionou, entredentes.
— Estou querendo dizer que virei atrás dela, de você, ou de qualquer um que faça parte dos interesses do reino. — Disparou, sem rodeios. — Estou sendo sincero. Poderia muito bem eu mesmo organizar uma equipe de busca e esconder as chaves comigo, caso as encontrasse.
Natsu queria acertar um soco bem no meio da cara daquele homem. A loira, ao perceber isso, colocou sua mão sobre a dele, num pedido silencioso para que se contivesse.
— Bem, a decisão é de vocês. — Arcadios falou, levantando-se. — Se decidirem ir, não precisam nem mesmo me reportar qualquer novidade. Tenho meios de me manter informado. — A maga estelar levantou-se e acompanhou o visitante até a saída. Salamander ficou sentado no sofá, de braços cruzados e olhando para o outro lado. — Ah! — O homem parou, sob a soleira. — Este envelope contém mais algumas informações que podem ser úteis. — Informou, entregando para Lucy o mesmo envelope que tirara do casaco anteriormente.
Quando a Heartfilia fechou a porta atrás de si, acabou ficando ali mesmo, com as costas coladas na madeira fria. Silenciosamente, a garota havia chorado durante toda a conversa. Chorado de tristeza e de pavor. Tudo que tinha ouvido voltava a sua cabeça em flashes, juntamente com a imagem do corpo da amiga e daquela terrível marca gravada em seu pescoço.
— Lucy? — Natsu chamou preocupado. A maga, que até então tinha os olhos vidrados em algum ponto desconhecido, o encarou. O dragon slayer viu que ela mordeu o lábio inferior na tentativa de segurar um choro mais ruidoso. Sem se conter, ela correu até o sofá e lançou-se nos braços do amigo, afundou a cabeça em seu peito e pranteou.
Agora, sabe-se lá quanto tempo depois, a maga ainda encontrava-se abraçada ao dragon slayer. Ela já não chorava, mas ainda sentia o medo corroer todo seu corpo, o que a desencorajava a se afastar.
— Lucy? — O mago chamou.
— Hm? — Respondeu ela, sem se mexer, a voz ainda chorosa.
— O que o velhote disse sobre a marca? — Indagou.
— Ele disse que não faz ideia do que se trata. — Respondeu. — Mas presumiu mais ou menos o mesmo que Arcadios concluiu. Que se trata de uma maldição que ainda não foi ativada. — Contou, sentindo o corpo de Natsu tensionar. — Aliás, por que você não nos acompanhou até a guilda? — Perguntou levemente irritada, sem no entanto se soltar.
— Vocês me esqueceram no trem. — Respondeu, também com uma pontada de irritação na voz. — De novo. — Acrescentou. — Eu estava praticamente inconsciente! — Reclamou.
— Para variar.
— Fui parar na próxima estação. Quando consegui pegar o trem de volta, imaginei que vocês já deviam estar voltando. Cheguei aqui uns 15 minutos antes de você e encontrei Arcadios. — Narrou o rapaz.
Lucy sentiu-se levemente culpada. Estava tão preocupada com a marca que nem mesmo reparara que o amigo não tinha descido do trem. E ainda tinha ficado brava com ele mais cedo.
— Hei, Lucy! — Começou o mago do fogo — Você vai aceitar o pedido? — Inquiriu. — Você vai atrás das chaves de Yukino?
Lucy desvencilhou-se gentilmente de Natsu, sentando-se de frente para ele.
— Eu preciso ir. — Respondeu a maga estelar.
— Lucy, Yukino foi assassinada. As chaves provavelmente estão com o assassino. Você tem certeza disso? — Insistiu o dragon slayer.
— Natsu — Começou a loira. — eu provavelmente iria mesmo que Arcadios não tivesse pedido. — Falou, colocando a franja atrás da orelha. — Yukino tentou me dar as chaves, lembra? Preciso perguntar aos espíritos se eles desejam ficar comigo. Além disso — continuou, colocando as mãos sobre a fita de cetim que tinha no pescoço. -, essa é provavelmente a única forma de descobrir o que significa essa marca, e como me livrar dela. Nem mesmo o mestre conseguiu me explicar do que se trata.
Dragneel conseguiu ouvir a o ritmo dos batimentos cardiacos de Lucy mudar quando ela pensou na possível maldição. Ela estava apavorada.
— Hei! — Falou, abraçando-a novamente. — Não precisa ficar com medo. Não vou deixar nada de mal acontecer a você. É uma promessa!
O mago não falara aquilo apenas para acalmar Lucy. Nove anos antes, embora pelo fato de ter ficado congelado ainda parecessem dois, ele passou pela dolorosa experiência de perder a melhor amiga. A suposta morte de Lisanna tinha o deixado em pedaços. A dor da perda ainda era recente em sua memória, e sentir algo do tipo novamente era um de seus maiores temores. Receber a amiga de volta tinha sido uma benção, mas o dragon slayer sabia que só fora possível porque, na verdade, a albina não havia morrido, e sim sido transportada para outra dimensão.
Mas esse não era o caso. Natsu, por cima dos ombros de Lucy, olhava as fotos do corpo de Yukino. Mesmo sem saber como, Lucy tinha se envolvido em uma situação extremamente perigosa. Se perder Lisanna tinha sido uma experiência dolorosa, a ideia de perder a maga estelar, para ele, era simplesmente inconcebível. Natsu percebeu isso quando presenciara a morte da Lucy do futuro. Sem se dar conta, apertou a amiga com mais força. Definitivamente não a veria morrer novamente.
— Obrigada Natsu. — Agradeceu Lucy, sentindo o corpo relaxar. Ela achava incrível como conseguia ficar calma nas situações mais desesperadoras, desde que estivesse junto do dragon slayer. Enquanto estava abraçada a ele, algo pescoço do garoto chamou a sua atenção. Parcialmente cobertos pelo cachecol, encontravam-se gravados na pele estranhos símbolos negros.
— NATSU! — Gritou, arrancando o cachecol dele violentamente.
— AAAAAAAI LUCY!!! — Berrou o dragon slayer, se afastando. — Você está tentando me matar? — Reclamou, esfregando o pescoço.
— Natsu, seu pescoço! — Exclamou a maga. — A marca! — Ela não conseguia formar frases inteiras.
Alarmado, o mago do fogo correu até a penteadeira, parando em frente ao espelho. Quando encarou seu reflexo, arregalou os olhos.
Ali, gravada em seu pescoço, estava a mesma marca negra que aparecera na pele de Lucy. Os mesmos símbolos gravados no corpo de Yukino.
A maga estelar, que ainda segurava o cachecol, levou as mãos a boca, horrorizada.
Fale com o autor