Vínculo Mágico
20 Futuro Temido
Notas iniciais
Capítulo XX — Futuro Temido
Magnólia — 25 de outubro de x791
Natsu encarou confuso os dois visitantes, parados a porta do apartamento de Lucy. Minutos atrás, foi despertado por violentas batidas na porta. Decidido a ignorar quem quer que fosse, apenas mudou de posição e tentou retornar ao sono anterior, porém o famigerado intruso estava decidido a lhe tirar o sossego, pois insistia em bater cada vez mais forte, de modo que ele se levantou irritado, antes que tivesse que explicar a síndica a razão da porta vir abaixo.
— O que vocês querem? — Perguntou, de forma bem distante da educação e da formalidade que a situação exigia. Afinal, parados bem a sua frente, estavam nada mais nada menos que a Princesa Hisui E. Fiore e o seu fiel capacho, digo, escudeiro, Arcadios.
— Boa noite Natsu-san. — Saudou Hisui, de forma simpática. — Eu preciso conversar com você. Será que posso entrar? — Perguntou, polidamente. Natsu, ainda bem longe de reagir a altura, apenas abriu espaço para que os dois adentrassem o apartamento.
O mago do fogo fechou e trancou a porta, sem a menor curiosidade de saber o motivo da visita repentina. Desinteresse era a palavra correta. Sua única vontade, naquele instante, era se jogar novamente na cama, que lhe parecia muito convidativa.
Percebendo que os visitantes permaneciam parados feito dois idiotas no meio da sala, Natsu apenas resmungou:
— Sentem-se. — Apontou o sofá de dois lugares, encaminhando-se para a poltrona que ficava logo a frente.
— Obrigada. — Disse a princesa. Arcadios permaneceu calado. — Em primeiro lugar — Começou a filha da família real. — Gostaria de dizer que sinto muito pelo que aconteceu com Lucy Heartfilia. — Lamentou.
— Imagino que vocês não andaram de Crocus até aqui apenas para me dar os pêsames. — Natsu retrucou, ríspido.
— Ora, seu... — Arcadios, ante a resposta mal-criada, finalmente se manifestou.
— Deixe-o, Arcadios. — A princesa ordenou, estendendo o braço direito a frente do militar. — Ele tem todo o direito. — Completou. — Peço perdão se nossa visita é um incômodo. — Desculpou-se a princesa, reparando as olheiras profundas e os cabelos desgrenhados do mago. — Por isso, irei direto ao ponto. — Completou.
Natsu apenas continuou encarando os dois visitantes, sem dar sinal algum para que eles prosseguissem. A princesa suspirou. Até então, a conversa tinha sido praticamente unilateral.
Tanto Hisui quanto Arcadios trajavam roupas bem diferentes das que costumavam usar. A princesa vestia-se com uma calça jeans confortável, um moletom largo rosa claro e tênis da mesma cor. O cabelo estava preso em um rabo desleixado, e ela não ostentava jóia alguma. Arcadios, por sua vez, usava uma camisa roxa e um colete pardo, calça marrom e botas.
Mesmo com a evidente tentativa de não serem reconhecidos, as curiosas vestimentas dos visitantes tinham passado totalmente despercebidas pelo dragon slayer. Ele não era do tipo que reparava no que as pessoas usavam, embora se preocupasse com as próprias roupas. Mas ele sabia que o assunto que eles queriam tratar era sigiloso e que ambos não queriam ser vistos, pela tensão que sustentavam.
— Eu sei que você está com as chaves de Heartfilia-san. — Falou a princesa, incisiva.
— E você as quer. — Salamander concluiu, com a mesma objetividade.
— Quero. — Admitiu a princesa. — Sabe, eu também sou uma maga celestial. — Explicou. — A ambição de todo mago celestial é reunir as doze chaves de ouro. Contudo, não é apenas por isso que eu as quero.
— E eu posso saber por que outra razão você quer as chaves? — Perguntou o mago do fogo, arqueando as sobrancelhas.
— Porque essas chaves em mãos erradas são um perigo. — Respondeu. — Na verdade, eu diria uma catástrofe. — Emendou. — Estou disposta a pagar o que quiser por elas. — Ofertou.
Sem saber exatamente o porque, o garoto sentiu seu interior ferver de irritação. Entretanto, não demonstrou. Nos últimos meses tinha aprendido a guardar suas emoções apenas para si, demonstrando apatia para o resto do mundo. Só assim conseguira se ver livre das tentativas incômodas de seus amigos de o animarem.
— Lucy nunca tratou os Espíritos dela como mercadoria. — Comentou. — Tanto que ela foi presenteada com as duas chaves de Yukino durante os Grandes Jogos mágicos e recusou, pensando nos sentimentos deles.
— O que quer dizer? — Arcadios interferiu.
— Que eu não vou vender as chaves. — Decidiu o dragon slayer. — Eu sei que os espíritos celestiais tem vontade própria. Alguns deles procuraram Lucy espontaneamente para fazer um acordo, quando o contrato anterior foi encerrado. Por isso deixarei que eles ajam livremente, sem interferências.
Hisui encarou o rapaz, perplexa. Era extremamente difícil encontrar um mago, até mesmo celestial, que não menosprezasse os espíritos. Todos os tratavam apenas como objetos, como instrumento de trabalho. Admirada, sorriu fraco.
— Heartfilia-san realmente devia ser uma maga maravilhosa. — Comentou.
— Isso não vem ao caso. — Natsu cortou. Não tinha problemas em lembrar de Lucy. Mas falar era outra história. Definitivamente, era um assunto que o incomodava.
— Bem, eu respeito sua decisão. — Disse a garota. — Mas você se importaria se eu perguntasse aos espíritos pessoalmente se querem vir comigo? Você pode presenciar a conversa, se quiser. — Propôs.
Natsu contraiu os lábios, ante a sagacidade da monarca. Se recusasse o pedido, estaria negando o que acabara de dizer.
Claro que ele realmente pensava daquela forma: Tinha aprendido com Lucy a respeitar os espíritos. Inclusive, era companheiro de Guilda de um deles. Entretanto, não se sentia confortável em se desfazer dos pertences da maga. O apartamento dela permaneceu intocado. Ele passou a morar ali e pagar o aluguel com esse objetivo.
Suspirando, resignado, o mago caminhou até a mesa de cabeceira e pegou o chaveiro, que estava sobre ela. Separando as chaves douradas, as entregou a princesa, sentando-se novamente na poltrona em seguida.
Hisui manejou as chaves com intenso cuidado, sabendo que se tratava de um tesouro da contratante anterior, consequentemente também do dragon slayer. Escolhendo aleatoriamente, separou uma das chaves, constatando ser a do líder do zodíaco: Leão.
— Abra-te, portão do Leão: Leo! — Exclamou, erguendo a chave, porém nada aconteceu. — Nani? — Perguntou a princesa, confusa. Natsu ergueu uma sobrancelha, curioso.
— Tente outra. — Arcadios orientou. Assentindo, a garota separou outra chave e a ergueu.
— Abra-te, portão do caranguejo: Câncer! — Falou, revelando mais uma tentativa falha. — Eu não entendo. — Meneou a cabeça em negação, virando-se para Arcadios.
— Tente todas. — O Militar pediu.
— Mas eu não sinto nenhuma magia emanando delas. — A princesa retrucou.
— Tente mesmo assim. — Arcadios insistiu.
Natsu apenas observou as novas dez tentativas infrutíferas da princesa. Foram todas iguais: Ela escolhia uma chave, invocava o signo correspondente e falhava. Quando abaixou a última, encarou o dragon slayer, lívida.
— O que aconteceu? — O membro da Fairy Tail perguntou, sem dar muita importância.
— Eu não consigo invocá-los... — Respondeu ela.
— Sim, isso eu percebi. — Disse o dragon slayer, impaciente.
— Bem, eu não sinto nenhuma magia nelas. Isso é muito estranho. — Comentou. — Eles deveriam ter atendido ao chamado, já que o contrato anterior se encerrou. — Ponderou.
— Você está insinuando, que talvez o contrato não tenha se encerrado? — Natsu perguntou, repentinamente interessado.
— Oh! — A princesa exclamou, percebendo a gafe que cometera. Dizer que o contrato não tinha encerrado era o mesmo que dar falsas esperanças ao mago do fogo. — Não creio nessa possibilidade, já que Lucy... Err... — Atrapalhou-se.
— Morreu. — Natsu completou, seco.
— É. — A princesa respondeu, sem graça.
Um clima desagradável instalou-se entre o dragon slayer e a princesa. Natsu sabia que ela não havia feito por mal. Na verdade, ele sabia que as pessoas não faziam por mal. Ele é que não conseguia encarar o assunto com facilidade. Ele é que não conseguia aceitar que Lucy realmente estava morta. Pois mesmo após quase três meses, imaginar que a existência dela tinha chegado ao fim parecia irreal. Inacreditável.
— Bem, já que você não conseguiu contato com os Espíritos, pode me devolver as chaves? — Quebrou o silêncio, ríspido.
— Ah, claro! — Hisui concordou, prontamente se levantando e depositando o molho nas mãos do garoto. — Nós já vamos então. — Avisou encaminhando-se para a porta, Arcadios imediatamente se levantou para acompanhá-la.
O mago do fogo tomou a frente e abriu a porta, o único ato de cavalheirismo praticado em toda a visita. A garota agradeceu e passou, juntamente com o militar. Porém, antes de partir, virou-se novamente para o rapaz.
— Eu só peço — Começou, em tom suplicante. — que pense melhor sobre a minha oferta. Ficaremos em Magnolia até amanhã. Caso mude de ideia, nos procure na hospedaria perto da Catedral.
Ao ver que o dragon slayer murmurou em concordância apenas para que ela fosse de uma vez, resolveu acrescentar:
— Essas chaves podem trazer auxílio ao contratante, mas também podem trazer o caos a nossa era. Por favor, se não quiser vendê-las a mim, ao menos não as entregue em mãos erradas. — Implorou.
Os dois visitantes despediram-se e desceram as escadas que davam acesso a rua. Natsu nem esperou que eles deixassem o edifício para fechar a porta e trancá-la novamente. Tão logo o fez, sobressaltou-se ao ouvir uma vozinha fina e conhecida.
— O que eles queriam, Natsu? — O mago encarou Happy, que estava sentado sobre a pequena mesa de jantar. Não sabia como não tinha percebido a chegada dele ao ambiente, já que moraram juntos tantos anos e, o seu cheiro e o ruído de suas asas batendo eram tão familiares. Mas, ultimamente, seu nível de distração era tão absurdo que vinha confundindo seus sentidos.
— Nada de mais. — Respondeu, fazendo com que o exceed estreitasse os olhos em uma careta incrédula.
— Não deve ser boa coisa. — Ponderou o gato. — Da última vez, apenas o soldado narigudo apareceu e... — Fez uma pausa, receoso. — Era encrenca. — Completou.
— Não precisa se preocupar com isso. — Falou Natsu, enquanto se atirava na cama. — Eles não devem perturbar de novo. — Mentiu, a voz abafada pelo travesseiro.
— Aye. — Happy concordou, não acreditando em uma palavra sequer. Em seguida, respirou fundo, como se estivesse criando coragem para dizer alguma coisa. — Ne Natsu — Começou, cauteloso. -, todos já estão na Guilda. — Como resposta, o dragon slayer apenas virou o pescoço, de modo que pudesse encarar o felino, que recuou um pouco. — Elfman me pediu para te buscar.
— Eu já disse a ele que não vou. — Salamander lembrou, irritado. — Não tinha porque ter feito você vir aqui.
— Mas não é só o Elfman que quer que você vá. — Happy tentou. — Muita gente perguntou por você, até os membros de outras Guildas. — Contou. — Todos querem que você vá e... — Ele deu uma pausa e murchou as orelhas. — Eu quero que você vá. — Completou.
— Gomen, Happy. — Natsu se sentou e lançou um sorriso fraco para o companheiro. — Eu não quero ir. E eu não vou.
O exceed suspirou resignado. Verdade que estava frustrado por não conseguir convencer o amigo, mas o entendia perfeitamente. Ele mesmo, no fundo, não estava com ânimo para festejos. Mas, em consideração a Elfman e Evergreen, iria.
— Você não vem mesmo? — Fez uma última tentativa, voando até parar ao lado do amigo.
— Não. — O mago respondeu decidido, afagando a cabeça do gato. — Eu vou sair em missão de madrugada, por isso vou descansar agora. — Justificou. — Você vem comigo? — Perguntou.
— Aye. — Happy concordou, desanimado. — Que horas você sai?
— Vou pegar o trem das cinco horas. — Avisou.
— Te encontro na estação então. — Disse o exceed. — Até amanhã! — Despediu-se, voando janela afora.
Natsu apenas observou o gato desaparecer por entre os telhados das construções antigas e se jogou novamente contra o colchão, enterrando a cabeça no travesseiro e cerrando os olhos.
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A guilda estava apinhada de gente. Eram tantas pessoas presentes, que mal havia mesas para comportá-las. Mas também, não era para menos. Não era todo dia que um evento dessa natureza acontecia na Fairy Tail. Na realidade, aquela era a primeira vez que acontecia.
— Estão todos tão animados! — Wendy exclamou, sentada em uma das banquetas do balcão, com as costas apoiadas na madeira.
— Não tenho certeza se a guilda permanecerá inteira após essa noite. — Charle, que estava sentada em cima do balcão, observando o movimento, comentou.
— Eu só queria entender — Lisanna começou, debruçando-se sobre a superfície e apoiando o queixo nas mãos — como um chá de bebê acabou se tornando um evento inter-guildas. — Completou, notando os inúmeros visitantes.
— A notícia sobre a gravidez da Evergreen estourou quando estávamos em Zamúria. — Lembrou Mirajane. — E bem, muitos magos de outras guildas apareceram para ajudar e acabaram sabendo.
— Isso não explica a razão deles estarem aqui. — Continuou a albina mais nova, observando pelo canto de olho o dragon slayer da luz, que também estava sentado no balcão, porém um pouco mais adiante. Ela não sabia o porquê, mas o mago da Sabertooth não tirava os olhos dela, e isso vinha incomodando-a.
— Eles só querem um motivo para fazer farra. — Comentou a exceed branca, mal humorada. — Tanto que transformaram um evento feminino em uma baderna. — Emendou, observando Elfman que estava berrando que nem um louco que chá de bebê também era coisa de homem.
— Eu ainda não consigo acreditar que vou ser tia! — Lisanna exclamou, animada, observando Evergreen, com sua enorme barriga de sete meses, ralhar com Elfman.
— Eu também não! — Mirajane respondeu chorosa, pois a lembrança do terrível bebê que idealizara na Ilha Tenrou voltou a assombrá-la.
— Que isso Mira-nee, não precisa se emocionar! — Lisanna a abraçou, equivocada quanta a razão das lágrimas da irmã.
— Natsu-san não quis vir? — A dragon slayer celeste interrompeu o momento família, perguntando para Happy, que estava sentado ao lado de Charle, roendo um peixe. Ao ouvir a pergunta da garota, o exceed largou a refeição e murchou as orelhas.
— Gomen. — Desculpou-se o gato. — Eu insisti para que ele viesse, mas ele não quis. — Falou, abaixando a cabeça.
— Eu entendo. — Wendy sorriu fraco. Verdade que a comemoração estava animada, mas para ela, momentos como aqueles vinham sendo apenas distrações. Sempre que se encontrava sozinha, acabava lembrando da morte da companheira de guilda e, de como ela indiretamente acabou provocando o fim do "Time Mais Forte da Fairy Tail".
Naquela semana, completaria três meses do fatídico episódio na Nihil Occultum. Desde quando anunciaram que o corpo da maga celestial foi encontrado, Wendy e Porlyusica, por ordem direta de Makarov, tiveram que manter o dragon slayer do fogo dormindo, até que o corpo fosse liberado para o enterro.
O sepultamento aconteceu em Magnolia. Devido a proporção do incidente, acabou atraindo a presença de muitos curiosos e magos de outras guildas. Ela nunca iria se esquecer da cena da urna descendo para o fundo da terra, em um gesto completamente simbólico: Todos sabiam que em seu interior não havia nada mais que uma mão. Apenas um pedaço que confirmava o fim da existência de uma amiga.
Depois, pouco a pouco, as pessoas se dispersaram e o som das lamúrias foi desaparecendo. Até que finalmente só sobrou Natsu parado em frente o túmulo de mármore recém fechado, com o vendo bagunçando-lhe os cabelos e brincando com seu cachecol. Nenhum dos magos da Fairy Tail tentaram tirá-lo dali. Todos sabiam que seria um esforço vão. Com Wendy, não foi diferente. Apertando Charle mais forte contra o próprio corpo, a pequena dragon slayer lançou um ultimo olhar para o então companheiro de equipe, antes de dar meia volta e deixar o cemitério.
Depois daquilo, o time que integrava nunca mais saiu em missão novamente. Todos resolveram dar um tempo e trabalhar por conta própria, pois a união da equipe apenas evidenciava que não estava mais completa: Sempre faltaria alguém.
Assim, Wendy decidiu estudar técnicas médicas e curandeirismo com Porlyusica, juntamente com Chelia, que tinha sido liberada pela Mestra da Lamia Scale para passar um tempo na Fairy Tail e se tornar discípula da velha conselheira médica.
— Wendy, cuidado! — A exceed branca tirou a garota bruscamente de seu devaneio, com um grito e um empurrão, salvando-a por um triz de não ser acertada por uma cadeira voadora.
— Mas o quê...? — A garota tentou perguntar, mas parou por ter que se atirar atrás do balcão para se salvar de outra cadeira.
— O Gajeel estava no palco cantando uma canção de ninar em homenagem a ocasião. — Charle explicou, também escondida sob o balcão, lembrando-se da terrível versão de uma cantiga que Wendy costumava cantar para ela quando era filhote, completamente modificada pela voz grave do Dragon Slayer, além dos brutos acordes da guitarra e de muitos Shooby-doo-bop's. — Aí o Elfman mandou ele parar antes que traumatizasse o filho dele que ainda nem nasceu. — Contou, concordando mentalmente com o mago take over. — Então Gajeel se enfureceu e atirou a guitarra na cara dele.
— E foi assim que começou a confusão. — Concluiu a menina. — Ué, onde está a Mira-san? — Perguntou, notando a ausência da garçonete.
— Saiu para servir uma mesa pouco antes do furdunço começar. — Lisanna, que também estava agachada para se proteger, respondeu.
As duas magas e os dois exceeds espiaram por detrás da superfície de madeira, tentando ver em que nível estava a desordem. Perceberam Evergreen escondida debaixo de uma mesa, tentando proteger a barriga enorme com as mãos. Elfman estava em cima dessa mesma mesa, quebrando todos os objetos que iam naquela direção, evitando que acertasse a gestante, berrando para que todos parassem.
Gray se estapeava com Gajeel em cima do Palco, enquanto Juvia torcia por ele aos berros, quase indo ao delírio, pois o mago do gelo tinha se empolgado e por consequencia se despiu completamente. Levy, estranhamente vestida de coelho, implorava para que eles parassem.
Erza, que parecia um demônio, com os olhos vermelhos e uma aura sombria exalando de seu corpo, corria atrás de Jet e Droy, pois eles tinham derrubado sua preciosa fatia de bolo de morango acidentalmente. A ruiva estava tão fora de si, que não se importou nem um pouco de abater Ichiya e seu grupo de puxa-sacos, que tiveram a infeliz ideia de entrar no caminho.
— Isso não vai acabar bem! — Charle exclamou, percebendo que praticamente todos os magos presentes, anfitriões e visitantes, tinham se metido na confusão.
— Aye. — Happy concordou, imaginando a cara do Mestre quando visse os estragos.
— MIRA-NEE!!! — Lisanna gritou desesperada, ao ver a irmã ser atingida por uma mesa. A garçonete voou longe e bateu em uma pilastra, dando ao pequeno grupo de expectadores a impressão de que sua alma estava prestes a abandonar o corpo. — Mira-nee! — Tornou a gritar a albina, levantando-se e preparando-se para resgatar a take over mais velha.
— Deixa que eu pego ela! — Alguém apertou seu ombro, e quando ela percebeu que se tratava de Sting, ele já tinha saltado por cima do balcão e corria em direção a Mirajane.
Lisanna observou, admirada e agradecida, o dragon slayer da Sabertooth pegar a garçonete no colo e voltar, tão rápido quanto foi.
— Obrigada! — Exclamou, quando Eucliffe deitou a maga ao lado do pequeno grupo. — Wendy, por favor! — Lisanna pediu, olhando a pequena dragon slayer.
— Hai! — A garota respondeu de pronto, iniciando o procedimento curativo em Mirajane.
A albina mais nova se sentou no chão, recostando aliviada no balcão. Não era porque as confusões da Fairy Tail eram frequentes e inevitáveis que deixavam de ser perigosas. Essa em particular, estava demorando mais que o necessário. O barulho dos móveis se partindo e dos vidros estilhaçando, fora os berros dos envolvidos, ficava cada vez mais intenso. A garota só parou sua breve reflexão sobre a baderna, quando percebeu, incomodada, que o dragon slayer da luz a encarava fixamente. Incomodada, se remexeu.
— Perdão, posso ajudá-lo em alguma coisa? — Perguntou, incisiva. Sting, que estava agachado a um metro dela mais ou menos, corou, envergonhado.
— Ah, me desculpa. — Pediu, coçando a nuca. — Eu devia ter percebido que estava te incomodando.
— Na verdade, está me assustando. — A albina admitiu, sincera. Sting forçou uma risada.
— De verdade, não foi essa a minha intenção. — Justificou-se. — É que… — Começou e deu uma pausa, como se escolhesse as palavras certas antes de prosseguir. — Você se parece muito com Yukino.
— Ah! — Lisanna, exclamou surpresa. Sabia que tinha semelhanças com a ex-Sabertooth, sua irmã mesmo havia lhe dito. Mas jamais desconfiaria que era por esse motivo que Sting a vinha encarando. — Sinto muito por sua amiga. — Lamentou, educadamente.
— Obrigada. — Respondeu. — Eu sinto falta dela. Mesmo que ela tenha integrado a guilda por pouco tempo. — Confessou. Pela intensidade do rubor na face dele ter aumentado, Lisanna desconfiou que talvez ele tivesse sentido algo a mais por Yukino. — Sinto muito por sua amiga também. — Finalizou, referindo-se a Lucy.
— Obrigada. — Lisanna respondeu, com um sorriso triste.
— Natsu-san e ela eram muito próximos, não é? — O louro perguntou, casualmente. Lisanna murchou.
— Sim. — Respondeu, ainda sorrindo triste. — Mais que próximos, na verdade. — Completou, mentalmente.
— Entendo. Por isso ele não veio. — Concluiu o garoto.
— É. — Lisanna confirmou, com uma pontada no peito. Não adiantava fingir que não, ela sabia a verdade: Natsu ainda não tinha superado a ausência de Lucy, por isso quase não aparecia mais na guilda, a não ser para pegar missões. E mesmo assim, ele procurava ir logo que Mirajane a abria, para não correr o risco de ser interceptado por ninguém.
A garota sabia que tinha que dar um tempo ao amigo, e que ele estava vivendo uma fase difícil. Mas ela tinha algo a dizer a ele. Tinha feito uma promesa a si mesma, quando pensou que morreria no projeto Heaven, confinada em um lacrima e submersa no Seranium. E o fato de praticamente não vê-lo mais, estava dificultando que ela a cumprisse.
— O que foi? — Sting perguntou curioso, ao perceber que a garota fez uma pequena viagem mental.
— Ah, nada! — Ela respondeu, corando. — Desculpa, preciso sair! — Pediu, levantando-se decidida.
— E você vai atravessar essa zona? Corajosa! — Sting comentou, admirado.
— Não. — Ela Admitiu, risonha. — Vou pela porta dos fundos. — Explicou, e sumiu cozinha adentro.
— Ué, Onde Lisanna foi? — Mirajane, que havia acabado de se recuperar, perguntou. Nos últimos segundos, ela vinha acompanhando a conversa dos dois magos, curiosa.
— Ela apenas disse que precisava sair. — Explicou o dragon slayer da Sabertooth.
— Eles se goxxxtam!!! — Happy exclamou, cobrindo a boca com as patinhas e dando uma risadinha debochada.
— O QUE??? — Sting gritou, vermelho como um pimentão. — Por que você enrolou a língua??? — Indagou, furioso.
— Ara, ara! — Mirajane, riu.
— Ora Happy, você não tem jeito mesmo! — Charle ralhou.
— Mas olha, ele até ficou vermelho! — Justificou o exceed azul.
— Isso não vem ao… — A felina começou a rebater, mas parou ao ter a mente preenchida por uma imagem alheia ao que se passava a sua volta. A pequena curandeira, a garçonete e o gatinho azul a encararam curiosos, sabendo que provavelmente tinha tido uma visão. Sting apenas acompanhava tudo, sem entender.
— Charle? — Wendy chamou, quando percebeu que os olhos da gatinha ganharam foco. — Você viu alguma coisa?
— Eu vi, mas… — Falou, esfregando as têmporas. — Não pode ser. — Completou, meneando a cabeça em negação.
No geral, as visões de Charle aconteciam em flashes rápidos e sequenciais. Apenas uma vez ela teve um vislumbre nítido do futuro. E esse vislumbre tinha se concretizado quase três meses atrás, no enterro de Lucy Heartfilia. Ela nunca se esqueceria da terrível sensação de ter que rever aquela cena. Tudo tinha acontecido exatamente igual. Até o epitáfio da maga era o mesmo da visão, que tinha tido quando estava enclausurada naquela jaula no setor laranja da Nihil Occultum¹:
Lucy Heartfilia
x767 — x791
Maga Celestial amada por seus espíritos.
Maga da Fairy Tail amada por seus amigos.
Agora, novamente, uma visão perfeita e nítida tinha ocorrido a felina. Mas aquela visão era simplesmente impossível de acontecer. Estaria Charle tendo vislumbres de futuros alternativos? Ou quem sabe, ela estaria tendo visões com os habitantes de Édolas? Não, ao menos essa última opção, estava descartada, com certeza.
— O que não pode ser? — Mirajane perguntou, gentil. — O que você viu? — Insistiu, tentando ajudar.
— Eu… — Charle pensou se devia contar ou não o que acabara de ver. Concluiu que, se era algo impossível de acontecer, não haveria problema em revelar. Entretanto, não se sentia a vontade com todas aquelas pessoas. — Vocês dois podem nos dar licença, por favor? — Pediu, a Sting e Happy, ligeiramente corada.
— O QUÊ??? — O Exceed gritou, decepcionado.
— Por favor, Happy! — Wendy pediu, educadamente, ao ver que a gatinha estava incomodada.
— Vamos lá. — Sting chamou, apontando a confusão. — Faz um tempo que eu não vejo Lector, ele deve estar encrencado. — Falou. — Me ajuda a procurar? — Pediu.
— Aye! — O exceed concordou, desanimado, e logo ambos deixaram a segurança da barreira que o balcão formava para caírem na baderna.
Charle, vendo que a dragon slayer e a garçonete a encaravam curiosas, respirou fundo. Com certeza, elas não acreditariam no que ouviriam a seguir.
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Natsu levantou-se irritado. Na verdade, irritado era pouco. Ele estava furioso.
Quando Happy deixou o apartamento, o mago rolou na cama por horas, até finalmente pregar os olhos. Ele nem mesmo tinha alcançado um estágio de sono mais profundo, quando novas batidas na porta o fizeram pular, assustado.
Xingando mentalmente o novo visitante, o mago do fogo se direcionou a porta arrastando os pés, pronto para mandar embora quem quer que fosse com uma chuva de impropérios. Porém, quando a abriu, todos os desaforos que trazia consigo morreram na garganta, ao mesmo tempo que seus olhos se arregalavam, no mínimo curiosos.
— Lisanna? — Perguntou, confuso, encarando a albina parada sob o batente.
— Boa noite Natsu. — Ela saudou, gentilmente. — Podemos conversar?
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¹ Fato ocorrido no capítulo 12 desta fanfic.
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