Vínculo Mágico
24 Epílogo
Notas iniciais
Epílogo
– Anda logo Lucy! — Natsu implorou, com a voz chorosa.
– Calma! — A loira rebateu, tranquilamente, remexendo-se no colo do parceiro de time. — Não consigo girar a chave. — Avisou, forçando a fechadura.
O mago de cabelos rosados dramatizou, fingindo bambear, como se estivesse prestes a cair. Lucy revirou os olhos, mas continuou a se concentrar no que vinha fazendo. Ambos estavam parados em frente a porta do apartamento da maga celestial há pelo menos cinco minutos, tentando destrancar a bendita porta.
Lucy, que estava acomodada nos braços do dragon slayer, tentava de todas as formas girar a chave na fechadura, mas o pequeno pedaço de metal, que parecia prestes a se partir, nem se mexia na tranca.
– O que você fez com a minha porta? — Ralhou, erguendo o tronco para encará-lo.
– Eu não fiz nada! — Defendeu-se o dragon slayer. — Mas se não abri-la depressa, eu vou meter o pé, porque você pesa pra caramba! — Avisou.
– Se fosse pra ficar reclamando, não devia ter se oferecido para me carregar até aqui. — A garota falou, tentando se libertar dos braços do parceiro.
– Mas ele não se ofereceu. — Happy contou, a voz afetada pelo esforço de carregar a mala cor de rosa da maga celestial escada acima. — Ele perdeu no Janken-pon – Revelou.
– NANI? — Lucy encarou Natsu, furiosa.
– Urussai! — Natsu gritou para Happy, que totalmente ignorou a fúria do amigo, pois estava cansado demais para se importar com qualquer coisa.
– Quanto cavalheirismo! — A maga lastimou, batendo a mão na própria testa.
– Você não ia conseguir subir sozinha de qualquer forma. — Natsu alfinetou, segurando a loira com firmeza, pois ela ainda se debatia. — E eu prometi a Porlyusica-san que não deixaria você se esforçar demais. — Lembrou — Então abra logo a droga dessa porta, pra eu poder te jogar na cama de uma vez! — Chiou, fazendo-a corar com as interpretações equivocadas que aquela frase poderia gerar.
– Hai, Hai. — Lucy concordou, fingindo descaso, e jogou novamente o tronco para baixo, tentando alcançar a fechadura.
Apesar da fala aparentemente ríspida do amigo, a maga ostentava um discreto sorriso. Era muito bom estar de volta. Era muito bom estar com ele. E ela sabia que apesar de Natsu estar fazendo corpo mole, seu peso não o afetava tanto assim.
O verdadeiro objetivo do dragon slayer era irritá-la, insinuando que ela tinha engordado. Por isso que, de início, ela não estava se esforçando tanto para abrir a porta com agilidade. Porém, em determinado momento, a chave realmente agarrou na tranca, fazendo com que o processo se tornasse mais difícil que o esperado.
– Não pensei que eu fosse viver para ver o dia que vocês entrariam em meu apartamento pela porta da frente. — A loira comentou casualmente, ainda forçando a fechadura.
– Não é a primeira vez que eu uso a porta. — Natsu comentou, aborrecido.
– Mas será a primeira vez que verei acontecer. — Lucy rebateu.
– Isso me faz pensar que nesses últimos tempos o Natsu só tem entrado pela porta. — Happy observou, curioso. Ainda não tinha parado para pensar na estranheza do fato. — Embora eu tenha continuado a entrar pela janela. — Completou.
– Ué Natsu, por quê? — Lucy perguntou curiosa, fazendo com que os braços de Natsu tencionassem em torno de si. — CONSEGUI! — Gritou animada, esquecendo-se da pergunta feita.
– Finalmente! — Natsu, aliviado por ter escapado do questionamento, nem esperou a loira erguer o tronco novamente para chutar com força a superfície de madeira, fazendo a porta quicar na parede.
– O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FA... — Lucy começou a berrar histérica, ao ver a porta quase se desgrudar das dobradiças, mas parou abruptamente assim que teve o primeiro vislumbre do interior do seu apartamento. — ...zendo? — Concluiu, deixando o queixo cair.
Sua sala de estar estava repleta de balões coloridos. Na mesinha de centro, um bolo de morando e uma tigela de salgadinhos pediam para ser devorados. Amarrada nas paredes, cruzando o teto sobre o sofá verde musgo, pendia uma faixa que dizia, em letras garrafais e coloridas "Okaeri Lushy".
– Vocês... — A loira começou, a voz embargando. — Vocês fizeram tudo isso? — Perguntou, boquiaberta, finalmente entendendo a ausência dos dois amigos na enfermaria da Guilda naquela manhã.
– Claro que não. — Happy confessou. — Não teríamos essa capacidade. — Admitiu.
– O pessoal da guilda ajudou. — Natsu contou. — Gray, Juvia e Romeo limparam o apartamento. Mirajane e Lisanna fizeram os salgados. Wendy e eu enchemos os Balões. Gajeel, Levy e Charle enfeitaram a casa. Erza encomendou o bolo e Kanna fez as bebidas. — Explicou, animado.
– Que tipo de bebidas? — Lucy perguntou, com uma gota na cabeça.
– Apenas suco. — Respondeu o mago do fogo. — Ordem da Porlyusica-san.
– Que maldade, Natsu! — Happy choramingou, jogando a mala no chão de qualquer jeito. — Eu também ajudei e você nem me mencionou!
– Ah, Gomen! — Pediu o dragon slayer, acomodando a maga celestial no sofá. — Foi o Happy que fez a faixa. — Tentou consertar.
– Isso explica o erro no meu nome. — Concluiu a garota, segurando a risada.
– Bem que a Charle me avisou que estava errado. — O exceed comentou, sob uma aura depressiva. — Mas não dava tempo de fazer outra. — Choramingou.
– Tudo bem. — A loira o confortou. — Eu adorei. — Falou, abrindo um largo sorriso, fazendo com que os olhos do felino brilhassem de contentação.
– Yosh! — Natsu exclamou, animado. — Vamos comer! — Falou, enfiando cinco salgadinhos na boca de uma vez.
– Mas — Lucy começou, fazendo uma careta ante a forma nojenta que o companheiro de time mastigava. — onde estão os outros? — Perguntou, estranhando o fato de todos terem se esforçado para lhe fazer uma surpresa, mas apenas Natsu e Happy estarem presente.
– A menhoomnha dam einmchou emhe ihem. — O Dragon Slayer tentou responder, fazendo uma chuva de farelos cair no tapete.
– Hã? — A loira questionou, duvidando que o amigo realmente pudesse ter dito alguma coisa.
– Ele disse que "a velhota não deixou eles virem". — Happy traduziu, roendo um peixe, que Lucy se perguntou de onde tinha saído.
– Por quê? — Indagou, confusa.
– Porlyusica-san disse que você ainda está em recuperação, por isso precisa de tranquilidade. — Continuou o felino. — E disse também que como é impossível qualquer reunião da Fairy Tail não resultar em uma confusão colossal, você está proibida de participar delas por enquanto. — Concluiu.
– Ela meio que tem razão. — Concordou Lucy, mesmo que incomodada com a restrição imposta pela curandeira.
– É por isso que decidimos fazer outra festa aqui quando a velhota te liberar! — Comunicou Natsu, assim que terminou de engolir os salgadinhos, ficando de pé sobre o sofá.
– Eu fico impressionada com a facilidade com que você decide as coisas relacionadas ao meu apartamento sem me consultar. — Ironizou a loira.
– Ah! — Natsu exclamou, caindo sentado sobre o estofado. — Isso é porque agora eu também moro aqui.
Um silêncio reticente pairou entre os dois magos, não sendo absoluto apenas pelo som insistente e irritante que os dentes do exceed faziam ao atritarem com a espinha do peixe.
– NAAAAAAAAAAAANI???? — Lucy gritou, tentando se levantar, porém caindo sentada novamente. Suas pernas ainda não estavam muito firmes, afinal. — Quem te deu permissão para morar no meu apartamento? — Perguntou indignada e vermelha de irritação.
– Na verdade — O mago do fogo começou, cruzando as pernas sobre a mesinha de centro e esticando ambos os braços sobre o encosto do sofá. — eu é que estou permitindo que você venha morar comigo. — Comentou, casualmente. — Você sabe, nos últimos meses eu é que morei aqui.
O queixo da maga caiu de tal forma ante a cara-de-pau do companheiro de guilda, que Happy teve a impressão que ela nunca mais conseguiria fechar a boca novamente.
– VOCÊ SÓ MOROU AQUI PORQUE EU NÃO ESTAVA AQUI! — Lucy gritou exasperada, enfatizando o pronome pessoal, arrastando-se até parar sentada ao lado do dragon slayer.
– Isso não muda o fato de que eu é que paguei os últimos aluguéis. — Contestou o mago, também enfatizando. — Portanto, eu sou o novo inquilino. — Continuou, abrindo um sorriso vitorioso. — Mas, como eu sou muito bonzinho, vou deixar você morar comigo. — Emendou, fazendo Lucy imaginar de quantos modos diferentes poderia espancá-lo.
– Você só pode estar de brincadeira. — A loira bateu na própria testa, lamentando a demora em acordar daquele pesadelo.
– Não está não. — Happy interviu. — Agora somos companheiros de quarto, Aye! — Exclamou, arrancando lágrimas da maga celestial. — Veja Natsu, ela está emocionada! — Debochou.
– A síndica não pode ter concordado com isso. — Tentou argumentar.
– Claro que ela concordou. — Natsu rebateu. — Ela achou ótimo, porque eu sempre pago o aluguel no dia. — Alfinetou. — Ela me adora. — Lucy cerrou os punhos, exasperada. Aquele argumento era um golpe muito baixo.
– Isso não tem como dar certo. — Resmungou, cruzando os braços. — Onde você vai dormir? — Questionou.
– Na cama, oras. — O garoto respondeu.
– E o Happy? — Indagou.
– Na cama.
– E eu? — Insistiu.
– Na cama. — Disse o mago, confuso pelo o interrogatório.
– E quantas camas existem no apartamento atualmente? — Perguntou a maga com uma pontinha de esperança, já que ainda não tinha visitado o quarto desde que voltara.
– Uma só. Por quê? — O dragon slayer respondeu.
– UMA OVA QUE EU VOU DIVIDIR A CAMA COM VOCÊS!!! — Berrou a garota, dando um sopapo no amigo.
– Lucy é tão egoísta. — Happy observou.
– Aye. — Natsu concordou.
– O que eu fiz? O que eu fiz para ter que lidar com dois folgados invasores? — A loira choramingava, olhando para o teto. — Este é o tipo de coisa que a Porlyusica-san tinha que proibir. — Falou, voltando-se para os amigos. — Eu nunca vou ter tranquilidade com vocês dois por perto!
– Isso é muito injusto, Lucy! — Natsu reclamou. — Eu ia ficar aqui de qualquer forma até você melhorar, você já tinha concordado com isso. — Lembrou.
– Tá, desculpa. — A garota tentou se redimir, sentindo a consciência pesar. Afinal, Natsu e Happy vinham cuidando dela muito bem. — Depois a gente conversa sobre essa história de dividir o apartamento. — Falou, pegando um salgadinho e dando uma mordida.
– Yosh! — Concordou o mago, enchendo as duas mãos com salgados e enfiando na boca de uma vez.
Os três amigos continuaram se empanturrando e logo devoraram o bolo em minutos. Assim, a tarde correu tranquilamente, com a pequena equipe ora conversando sobre as missões que fariam quando Lucy se recuperasse, ora dando fim em tudo que era comestível.
Apesar das situações irritantes que os dois amigos provocavam, a maga celestial se sentia muito agradecida. Muito agradecida por poder estar novamente envolvida nessas situações que pessoas normais simplesmente duvidariam que poderiam ocorrer corriqueiramente, como ocorrem na vida de um membro da Fairy Tail, tanto que não conseguia permanecer irritada por muito tempo.
Logo a noite começou a cair, fazendo com que Natsu se lembrasse das instruções da velha Porlyusica e levasse Lucy para o quarto.
Segundo a curandeira, ainda demoraria alguns dias para que os movimentos da maga retornassem completamente. Além disso, a magia que a selou por três meses era forte demais, de forma que poderia provocar alguns efeitos colaterais, caso não fosse devidamente cuidada durante sua recuperação.
– Eu já estou conseguindo andar, sabia? — A loira reclamou, enquanto Natsu a carregava para a cama.
– Você ia demorar um ano para fazer o percurso da sala até aqui. — Ele rebateu, acomodando-a no colchão.
– Lucy parece uma velha resmungona. — Happy observou, posando sobre o edredom.
– E você não perde a oportunidade de me alfinetar. — Criticou ela, apoiando as costas na cabeceira de madeira.
– Aye. — Assentiu o gato, indiferente.
– Pronto. — Falou Natsu, esticando as pernas da companheira. — O que mais que a velhota disse que você tinha que fazer? — Perguntou, repassando mentalmente as instruções da curandeira.
– Não sei. — Lucy se fez de desentendida.
– Não está na hora de tomar aquela poção nojenta que ela te receitou? — O garoto perguntou, fazendo a maga celestial estremecer só de lembrar o gosto do remédio.
– Talvez. — Tentou disfarçar. O dito medicamento lhe agraciava com pelo menos meia hora de náuseas.
Percebendo a finta da jovem, Natsu tratou de revirar o apartamento atrás da poção.
– Eu não a encontro em lugar nenhum! — Reclamou, após 15 minutos de buscas infrutíferas.
– Estava dentro da frasqueira com meus objetos pessoais. — Lucy contou.
– E por que não disse antes? — Ralhou Natsu.
– Estou dizendo agora. — Devolveu Lucy.
– E onde está a fresqueira? — Perguntou o mago.
– É frasqueira. — Lucy corrigiu. — E ela ficou junto com a minha mala, para o Happy trazer.
Ambos os magos encararam o exceed, esperando que ele revelasse onde tinha guardado o objeto, mas o felino não deu um pio sequer. Para desespero dos dois magos, ele começou a suar, desconcertado.
– Né Natsu... — Começou, temeroso.
– Não me diga que você... — Natsu interrompeu, apavorado.
– Acho que a fresqueira ficou na carruagem. — Completou o gato, provocando o pânico no dragon slayer.
– É frasqueira. — Lucy tornou a corrigir.
– DROGA! — Natsu gritou. — DROGA, DROGA, DROGA! — Continuou, andando pelo quarto. — A velhota vai me matar! — Concluiu. — Você ganhou no Janken-pon e ainda deixou as coisas da Lucy para trás? — Lembrou, indignado.
– Você falou para eu trazer a mala! — Defendeu-se o Exceed.
– Não! — Rebateu o mago. — Falei para trazer as tranqueiras dela! — Lembrou, apontando para Lucy.
– Hei! — A garota interviu, irritada.
– Vá atrás do carroceiro Happy! — Natsu ordenou.
– Por que eu? — O felino reclamou.
– Não foi você que esqueceu a frasqueira na carruagem? — Lucy respondeu, incrédula.
– Mas como eu vou encontrar o carroceiro? — O gato perguntou, choroso. — Vou ter que voar a cidade toda!
– Se vocês não recuperarem a poção — Lucy começou, a voz carregada de malícia, chamando a atenção dos amigos. — Terão que pedir outro frasco a Porlyusica-san. — Completou, vendo os amigos empalidecerem drasticamente.
– Happy, você pede outra poção para a velhota! — Natsu decidiu
– NANI?! — Happy perguntou, indignado. — Mas foi você que prometeu cuidar da Lucy direitinho! — Lembrou.
– Só que foi você que perdeu a poção! — Natsu argumentou.
– Eu não posso fazer isso! — O gato pelejou. — Se eu disser que perdi a poção, ela vai me matar! — Falou, voando de um lado para o outro, desesperado. — Ela odeia humanos! — Lembrou.
– Mas você não é humano. — Lucy se intrometeu, zombeteira. — Você é um gato, lembra? — Repetiu o argumento que o exceed costumava usar para ganhar todas as discussões.
– Lushy! — O felino a encarou, os olhos lacrimejando. — Você é uma criatura maligna! — Acusou.
– Yosh! — Natsu exclamou. — Happy vai pedir outro remédio pra velhota, porque é o que corre menos perigo de vida.
– Até você Natsu? — Continuou a dramatizar, caindo no choro.
– São dois contra um. — Natsu finalizou.
– Ok… — O exceed rumou para a janela, derrotado. — Eu vou atrás do carroceiro. — Decidiu. — Mas se eu não encontrar a poção — Parou, para encarar os dois amigos de forma sombria — irei até a Porlyusica-san pedir outro frasco e vou dizer que é porque VOCÊS QUEBRARAM O QUE ELA DEU! — Completou ao berros antes de sair voando a toda velocidade, provocando uma crise de risos na maga celestial.
– NAAAAANI??? — Natsu correu para a janela, desesperado. Entretanto, o felino tinha saído tão depressa, que o dragon slayer já não conseguia avistá-lo. — DESGRAÇADO! — Gritou. — Isso não tem graça Lucy! — Voltou-se para a maga, que a essa altura chorava de tanto rir. — Ela vai nos matar!
– Gomen! — Ela pediu, quase sem fôlego.
– Eu preciso alcançá-lo! — O mago do fogo avisou, subindo no parapeito. — Nossas vidas dependem disso!
– Hai, hai. — A loira concordou, ainda entre risos.
– Ah, droga! — Ele reclamou, quando preparava-se para pular. — Eu não posso te deixar sozinha! — Lembrou-se.
– Tudo bem, Natsu. — Lucy tentou acalmá-lo. — Pode ir.
– Não posso não! — Retrucou, pulando no chão. — Eu prometi a velhota que não te deixaria sozinha. — Contou. — Se ela souber que eu quebrei o remédio e ainda por cima te deixei sozinha, serei assassinado duas vezes! — Concluiu, em pânico, puxando os cabelos rosados.
– Você sabe que isso é impossível, não é? — Disse a maga celestial. — Ninguém morre duas vezes. — Corrigiu. — Então, no máximo, ela irá te assassinar uma vez só. — Consolou.
– Uma já é ruim o bastante. — O mago falou, atirando-se de barriga na cama, ao lado da garota.
Lucy encarou a expressão contorcida de preocupação do parceiro de time, segurado-se para não cair na risada novamente. Sem entender a razão, achou muito fofa aquela carinha desolada que ele fazia. Na verdade, 90% das expressões que ele vinha fazendo ultimamente eram classificadas nessa categoria pelo loira.
– O que foi? — Natsu perguntou, flagrando-a olhando para ele.
– Na-da não! — Lucy gaguejou, sem graça.
A garota encarou as próprias pernas, mas mesmo assim sentiu os olhos de Natsu queimarem sobre si. Quando voltou-se para ele novamente, deparou-se com aquele olhar profundo e cheio de significados ocultos que, ocasionalmente, ele vinha lhe lançando.
– Natsu? — Chamou, levemente envergonhada com o modo que ele a olhava.
– Hmm? — O mago respondeu com um resmungo.
– Mais cedo o Happy comentou que você nunca mais havia entrado no apartamento pela janela. — Falou, recordando do acontecido. De fato, a visão do amigo empuleirado na janela a lembrara do comentário do exceed, mas a expressão incrivelmente fofa que ele fez logo depois, dispersou seus pensamentos. — Por quê? — Perguntou, realmente curiosa. Afinal, depois de tanto tempo convivendo com as invasões do amigo, naquele dia, pela primeira vez, tinha o visto entrar no apartamento pela porta da frente.
A pergunta pareceu pegá-lo de surpresa, pois o mago corou instantaneamente, virando o rosto para a parede.
– Natsu? — Lucy chamou, arqueando as sobrancelhas.
– Eu não tinha mais razão para entrar pela janela. — Respondeu, desconcertado, a voz abafada pelo travesseiro.
– Como? — A maga celestial perguntou, confusa.
Natsu sentou-se no colchão, com as pernas cruzadas e a cabeça baixa. Lucy percebeu que ele ainda estava corado. Inevitavelmente, corou também.
– A única razão que eu tinha para entrar e sair do apartamento usando a janela era para irritar você. — O dragon slayer confessou, sorrindo timidamente. — Quando pensei que você tinha morrido... Eu não tinha mais motivos para pular a janela. Porque você não ia estar aqui para brigar comigo quando eu entrasse. — Finalizou.
Lucy estava em choque. As bochechas queimavam, dando-lhe a certeza de que estava intensamente vermelha. As palavras de Natsu simplesmente fizeram com que as suas sumissem.
– Eu… — A maga começou, gaguejando. — Eu esperava ouvir qualquer coisa, menos isso. — Admitiu. Natsu sorriu.
– Aposto que tem muitas coisas que você não espera ouvir. — Falou, erguendo a cabeça e encarando-a diretamente. Lucy corou ainda mais ante a profundidade do olhar do dragon slayer.
– Como assim? — Perguntou, o coração disparando. Natsu recuou um pouco.
– Nada. — Tentou desconversar, esfregando os cabelos da nuca.
– Ah. — Lucy exclamou, com uma pontinha de decepção. Ela se culpou por aquilo, mas de certa forma, esperava um pouco mais daquele momento. — Eu pensei que você tinha algo importante para me dizer. — Confessou sem pensar, mas o arrependimento fez com que ela cobrisse a boca com ambas as mãos logo em seguida.
Natsu empalideceu levemente, ficando apreensivo. Como Lucy poderia saber que ele tinha cogitado a possibilidade de dizer-lhe algo importante? Imediatamente, sua cabeça começou a imaginar se Lucy desconfiava de alguma coisa, ou se alguém tinha insinuado algo para ela.
Contudo, apesar do nervosismo, o mago não pôde deixar de se surpreender. Por um momento, ele pensou que a maga celestial tinha ficado decepcionada... Como se ela ansiasse por saber o que ele tinha para contar. Mas isso não era possível, era? Afinal, ela nem sabia do que se tratava... Ou sabia?
Tomando fôlego e coragem, sem saber exatamente porque estava agindo daquela forma, o rosado começou a se aproximar da garota, ignorando o alerta que soava em sua mente
– Algumas coisas não precisam ser ditas, Lucy. — Explicou, percebendo que os olhos dela se arregalavam conforme a distância entre os dois diminuía.
Lucy nunca imaginou que fosse possível que seus batimentos cardíacos alcançassem um ritmo tão veloz e jurou que sua respiração tinha parado quando o dragon slayer colocou suas mãos sobre as delas, retirando-as de sua boca.
Congelada no lugar, viu o pouco espaço que ainda havia entre eles desaparecer.
E então seus lábios se uniram em um toque quente e acolhedor.
Os dois permaneceram alguns segundos estáticos, sem saber exatamente como proceder em seguida.
Foi quando o mago do fogo pensou que movimentar a boca poderia dar certo e, talvez tenha dado, pois Lucy entreabriu os lábios timidamente, permitindo que ele explorasse a abertura com sua língua quente, encontrando também a da garota.
Maravilhado com a experiência, o mago entranhou os dedos nos cabelos louros dela, trazendo-a mais para perto. Em um gesto necessitado, tornou a mexer os lábios, explorando com avidez a boca da parceira, conduzindo o beijo em movimentos lentos e profundos.
Aquilo era muito bom.
Natsu parou não porque queria, mas porque sentiu que Lucy realmente precisava de uma pausa para respirar. No que dependesse dele, teriam continuado ininterruptamente por minutos a fios, provando diversos ritmos e movimentos.
Lucy o encarava, os olhos arregalados, a pele mais vermelha do que ele imaginou que pudesse ver algum dia. Ele próprio não devia estar muito melhor.
Ambos sabiam que aquele não era o primeiro beijo deles.
Os dois lembravam-se perfeitamente do momento em que Natsu foi manipulado pela magia de Pali, roubando o primeiro beijo da maga celestial e quase provocando uma tragédia maior. Mas a sensação que tinham é que aquilo nunca tinha acontecido, e o primeiro beijo, de fato, era o que tinha ocorrido segundos atrás.
Aquela era a primeira experiência.
O nervosismo, o frio na barriga, o desejo.
Tudo compunha um maravilhoso cenário de descobertas.
Apesar do constrangimento, ambos continuavam a se olhar, diretamente nos olhos. Foi quando Lucy percebeu um brilho perigoso tomar conta dos orbes negros do dragon slayer. Confirmando seus temores, ele desviou o olhar de sua face, voltando-se para outras partes de seu corpo.
– Natsu! — Chamou alarmada, quando ele se inclinou sobre ela.
Mas ele a ignorou, tomando-lhe os lábios novamente.
O novo beijo foi mais intenso. O mago do fogo investia em movimentos mais rápidos, mais desesperados, chupando com vontade a língua e os lábios da parceira.
Lucy sentia um calor absurdo emanando do corpo dele, tanto que sua testa e seu pescoço começavam a se umedecerem pelo suor.
Mas isso não importava.
Mesmo sabendo que aquela situação era potencialmente perigosa, ela não queria que ele parasse. Tanto que ela também agarrou com força os cabelos rosados com a mão direita, e com a esquerda enlaçou-lhe o pescoço, o trazendo mais para perto.
E sabe-se lá até onde teriam chegado se, voando completamente feliz e satisfeito, não tivesse entrado pela janela o gato alado azul.
– Natsu! Lucy! — Happy gritou animado, olhando fascinado apenas para o que trazia bem seguro nas patinhas. — Eu achei a poção! — Gritou vitorioso, erguendo o objeto. — Eu me encontrei com o carroceiro e então... — Parou abruptamente, só então dando-se conta do momento que tinha interrompido.
A chegada do exceed surpreendeu o casal de forma absurda, fazendo com que eles ficassem completamente sem reação, de modo que nem mesmo conseguiram se afastar. Apenas permaneceram encarando o gato, os olhos saltando as órbitas, as faces extremamente coradas, as bocas levemente abertas pelo susto.
O pequeno felino, por sua vez, estava tão embasbacado que nem percebeu quando o frasco que trazia escorregou por suas garras e rumou direto ao chão, fazendo o barulho de vidro estilhaçando ecoar pelo quarto, e espalhando o líquido esverdeado pelo piso, juntamente com os cacos cristalinos.
– Happy! — Lucy exclamou, num fiapo de voz, tentando empurrar Natsu para o lado.
– Vocês... — O exceed começou, os olhos arregalados, tão vidrados como pratos.
– Não é nada disso... — A jovem tentou explicar, mas ter o mago do fogo em cima de si não ajudava a esclarecer muita coisa.
– Vocês... — O gato continuou, tentando absorver a situação no auge da pasmaceira.
Entretanto, por mais chocado que estivesse, Happy não poderia deixar a oportunidade de se divertir com a situação passar batida. Não quando os dois magos praticamente o obrigaram a voar por toda Magnólia atrás do carroceiro. Então, logo seu semblante estupefato se converteu em uma expressão extremamente maliciosa.
– VOCÊS SE GOXXXTAM!!! — Gritou, completamente ciente da confusão que viria a seguir.
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