Vício M(eu)
11 Capítulo 10 - 1/4 vazio de ti.
Notas iniciais
Capítulo 10 – ¼ vazio de ti.
Lentamente os alunos se deslocavam para suas respectivas aulas.
Olho na linha do horizonte, pela janela aberta da sala de aula e vejo o Campo de Futebol de mãos dadas com o Ginásio do colégio. Ginásio acena para mim e prega um sorriso convidativo em seus lábios. Faço uma careta e balanço negativamente a cabeça, recusando o convite silencioso do casal. Os dois dão de ombros tristemente, viram de costas e seguem o seu caminho.
–– Vamos matar Educação Física? –– Emi pergunta com voz chorosa e mimada. –– Mas depois da aula tem banho! –– a olho com cara de “E?”
–– Por favor, Emily. –– ela continua. –– Banho. Nós. Duas. Nuas. –– e completa o seu raciocínio.
Arregalo os olhos por um espanto espontâneo. Gosto de Emi. Gosto de estar com Emi. Gosto de sentir aquelas coisas que só Emi me faz. Gosto de sentir aquelas coisas que só Emi sabe me fazer sentir. No entanto, apesar de tudo isso, ou até, talvez, por causa de tudo isso, ainda me sinto amedrontada, receosa.
Um balão cinza entra voando pela, ele raspa na quina pontuda de uma classe e estoura. Nos seus últimos suspiros ele me confidencia com a voz engasgada:
“O que me enchia não era o Ar, mas sim o Desconforto.”
Preciso de um breve tempo para compreender que o Desconforto o incomodava, mas era o que lhe deixava vivo. E agora, era a aura de Desconforto que predominava e aos poucos se misturava ao ar que envolvia a mim e a Emi.
–– Sim, nós vamos matar Educação Física e só para deixar claro, nós não vamos fazer nenhuma porcaria de teste para nenhuma porcaria de equipe de líderes de torcida porcas. –– através de meus dotes telepáticos, digo com convicção para ela.
Em seguida pego meus materiais, me encaminho para fora da sala de aula, mas não a espero, pois ainda estou espantada com as ideias de Emi.
–– O que? Como assim? –– ela fala, com alguns passos de distância de mim, caminhando apressadamente para me alcançar. –– Nós vamos fazer o teste sim!
–– Se você se interessou pela oferta, fique a vontade, mas eu não vou fazer porra nenhuma. –– digo irritada.
–– Isso tudo é TPM? –– pergunta, mas eu não respondo.
Apenas sigo caminhando. Dobro a direita, no primeiro corredor que corta o que eu estava, sigo até o final para então dobrar a esquerda, num corredor pequeno e depois, dobro a direita de novo, num corredor extenso, largo, úmido e escuro.
Passo por alguns armários danificados, com fechaduras estragadas, portas amassadas, ferrugem, pichações e sabe-se lá mais o que. Dou mais alguns passos e paro na frente da porta de vidro que se faz de portão de castelo medieval para o meu reino de páginas amareladas com cheiro de mofo.
Olho para o fundo do corredor, onde há mais armários e também classes danificadas. Os móveis estão empilhados uns por cima dos outros tapando a parede inteira. O desleixo com que a direção trata a biblioteca me entristece. Olho para Emi e vejo pelo seu olhar que ela partilha dos mesmos pensamentos que eu.
Reviro minha mochila em busca de meu chaveiro, onde estão todas as minhas chaves, incluindo a da sala menos habitada do colégio.
É a mais gordinha, completamente prata e com um leve cheiro de ferrugem, que acabou por perfumar todas as outras chaves do molho.
Enfio a chave na fechadura da porta, dou duas voltas, ouvindo dois clacks ao total. Levo minha mão direita da chave, à maçaneta, pressionando a mesma para baixo e depois com uma leve força empurro a porta, que se abre sem maiores cerimônias. Dou espaço para Emi passar, ela entra, eu tiro a chave da porta e depois a fecho novamente.
Respiro profundamente e deixo o cheiro de mofo entrar em meus pulmões.
Meu lar não era a casa em que morava com minha mãe, muito menos a casa de Zack, mas sim a biblioteca.
Fico os dois períodos inteiros de Educação Física com a esperança de que: A) Zack entrasse por aquela porta com os olhos arregalados e se declarasse para mim. B) Meu celular tocasse e fosse minha mãe, apenas para avisar que tudo iria permanecer do jeitinho que estava, que não iríamos a lugar nenhum.
Qual das duas alternativas me agradaria mais? Nem sei. Mas é tanto faz como tanto –– não –– fez, já que nenhuma delas aconteceu.
Quando todos os outros sinais restantes soavam e os corredores se enchiam de alunos perambulando para lá e para cá, eu ficava de olhos bem abertos, tentando inutilmente enxergar acima daquelas cabeças, procurando por Zack.
Eu precisava vê-lo uma última vez. Não precisava falar com ele, muito menos tocá-lo. Mas necessitava olhar para o leitor de poesias antes da execução da mais remota possibilidade de termos algo de cunho carnal.
Meus batimentos cardíacos e minha angústia fundiram-se um n’outro, metamorfosearam-se numa mão grande, grossa e áspera que envolvia seus cindo dedos, um por um, em meu pescoço.
Eu estava sufocando e Zack era meu ar.
Mas Zack não vinha.
O ar não veio.
Eu não respirei.
Minha consciência desmaiou. Meu corpo moribundo-se pelo resto da aula.
Duas fortes buzinas de carro, uma seguida d’outra, despertaram minha consciência.
–– Você foi fabricar essas caixas, Emily?! Traga suas coisas para esse carro agora! –– Sibilou uma voz feminina. A voz de minha mãe.
Olho em volta e estou no que aparenta se meu quarto. Que se não fosse por três caixas, uma empilhada em cima da outra, ambas de papelão e de tamanho mediano, estaria completamente vazio. Já deve estar tudo a caminho da casa do chefe de Sheron. Ops, da nossa casa.
Sem minha permissão, uma única lágrima escorre. Quente e salgada. Deixando um único rastro vertical em minha pele.
Não tenho certeza, mas penso que choro pelo vazio.
Exterior e interior.
Você já olhou para um quarto vazio? Já olhou para o seu quarto vazio? Olhou para a caverna que abrigava até então todos teus sonhos, angústias, decepções, pensamentos e fetiches estar repentina e simplesmente vazia?
Um quarto vazio é aterrorizante.
¼ vazio de ti também é.
Tento avançar com meus pés, mas há nostalgia escorrendo pelas paredes, se empoçando em baixo de mim, se fazendo de areia de movediça.
Percebo que aos poucos, minha linha de visão vai abaixando, a cada segundo, cai um pouco mais, um pouco mais, um pouco mais, um pouco mais, um pouco mais, um pouco ma... um pouco...
Estou afundando, sendo engolida, mastigada e devorada pela nostalgia.
Grito. Grito com todas as minhas forças, todos os meus ares. Peço por Socorro, no entanto quem entra é Silêncio, que traz juntamente a ele um banquinho de tirar leite de vaca. O objeto baixo de madeira é colocado ao lado da poça nostálgica, onde estou. Silêncio senta-se ali e simplesmente me encara. O encaro de volta por alguns segundos, apenas até eu me lembrar que estava afundando.
Começo a me debater freneticamente, um festival de pernas para lá, braços para cá, mas o ato só me faz descer mais e em maior velocidade.
Sinto a areia ocupando minhas narinas e minha visão embaçando. Abafadamente ouço um “Emily!” e depois uma mão me puxa de volta para a superfície. De volta à vida.
Emi me ajuda a sair da poça de nostalgia movediça e me abraça fortemente. Sinto suas mãos afagando meu cabelo e envolvo meus braços em seu pescoço, repousando meu rosto em seu ombro. Minha respiração ofegante se transforma em soluços frenéticos, abrindo alas para minhas lágrimas.
–– Shhhh... Já passou, já acabou. –– Emi cochicha. –– Está tudo bem agora, ouviu? –– ela fala me soltando e me encarando. Balanço a cabeça positivamente enquanto gradativamente vou cessando o choro.
Minha outra eu sorri sem mostrar os dentes, me acaricia a bochecha e suavemente me beija os lábios.
–– A gente tem que ir agora. –– Emi completa.
–– A gente tem que ir agora. –– repito sua fala mais para mim do que para ela.
Pego as três caixas e desço a escada. Me deparo com minha casa completamente vazia. Sinto vontade de chorar fitando que antes era uma sala de estar, a minha sala de estar. Mas percebo que há nostalgia escorrendo pelo teto, e por desespero, me apresso.
Emi abre a porta da frente e passa pela mesma, já se acomodando no banco traseiro do carro logo em seguida. Um suspiro me escapa e sinto o ar ecoar pela casa inteira. Dou uma última olhadela e vou em direção à porta.
Do lado de fora, largo as caixas no terceiro degrau que antecede o projeto de varanda, para poder pegar meu chaveiro que está no bolso de trás de minha calça. Ouço a sutileza do som que é emitido pelas chaves batendo umas nas outras, enquanto eu as levo até a fechadura da entrada de madeira.
Encaixo a chave correta e dou duas voltas.
Era a última vez que aquela porta seria fechada por mim.
O chaveiro volta para o meu bolso e as caixas para as minhas mãos. Sento no banco do carona e passo as caixas de papelão para Emi.
–– Vamos lá! –– Sheron abre um sorriso de orelha a orelha.
Eu não digo nada. Emi também não.
Mamãe arranca com o carro. Percorremos a nossa rua até virarmos a primeira à direita.
–– Emi, nós vamos ser muito felizes, eu prometo. –– Sheron diz quando dobramos na rua principal, mas eu continuo calada.
Paramos no semáforo da esquina da primeira quadra da rua da cafeteria, a R. Machado de Assis. A luz vermelha que era emitida do objeto tecnológico me cegava, não por ser forte, mas porque naquele instante, tudo era mais intenso. A luz verde se acendeu, esperamos dois segundos para o carro pálio branco de quatro portas que estava na nossa frente arrancar e então, arrancamos também. Dobramos a esquerda e mesmo com uma quadra de distância, eu já avistava a placa da cafeteria.
Um Uno Novo vermelho sai da rua lateral e corta nossa frente, mas Sheron está tão feliz que nem se dá o trabalho de xingá-lo. Eu estou tão nervosa que mal ouço meus batimentos ensurdecedores.
O carro vai perdendo a velocidade até ficar inerte. Estacionamos atrás de um caminhão branco de mudanças, na lateral da cafeteria.
Abro a porta com a mão tremendo. Sinto meus batimentos cardíacos na minha cabeça, garganta, costelas e em meu lábio inferior. O mundo fica em câmera lenta e cada passo é mais demorado enquanto caminho em direção à varanda da casa azul simpática, que naquele momento, não era tão simpática assim. De rabo de olho, percebo minha mãe e Emi caminhando a minha direita e a minha esquerda, respectivamente. A bolsa branca de mamãe balança, acompanhando o ritmo do balançar de seu cabelo loiro, que hoje está liso, numa escova perfeita.
Uns cinco ou seis rapazes de diferentes biótipos e idades que variam entre 19 e 30 e poucos entram e saem da casa. Um garoto de olhos verdes acinzentados, meio alto e meio forte passa olhando para mim, me sinto constrangida, mas estou nervosa demais para perceber.
Em coro, subimos os degraus da varanda, depois Sheron entra primeiro, eu por segundo e Emi vem logo atrás de nós.
Somos recebidas por uma sala de estar repleta de caixas e mais caixas. Meus olhos procuram por Zack, na esperança de não vê-lo de jeito nenhum. Minha mãe deixa sua bolsa em cima de pilha de caixas no momento em que começo a ouvir passos vindos da escada.
Dilan aparece num terno cinza importado, usando perfume demasiadamente e com um sorriso que se não estivesse em seu rosto, seria acolhedor e simpático.
–– Sejam muito bem vindas, minhas meninas! –– ele fala e logo após beija demoradamente minha mãe, para então me abraçar. Não retribuo o abraço, me sinto grosseira por isso, mas não me importo.
–– Emi... –– o patrão de Sheron usa o apelido que somente a própria e Sheron e Anne usam –– sei que no começo vai ser difícil a adaptação, mas todos nós vamos ser muito felizes aqui nessa casa. E isso, é uma promessa. –– ele fala segurando minhas mãos com as suas, em forma de concha.
–– Ela sabe disso, Dilan. Apesar de não aparentar, ela sabe. –– minha mãe fala com sua voz agradável, a que denúncia sua beleza antes mesmo de qualquer resquício da sua aparência física.
–– Sendo assim, acho melhor eu apresentar a casa para essa moça tão bonita! –– ele me oferece o braço e eu o aceito, porque no fundo, sei que se uma de nós vai ser realmente feliz aqui, esse alguém será minha mãe. Então, farei de tudo para que essa felicidade seja completa.
De braços dados, eu e Dilan subimos a escada, degrau por degrau. Estando cada vez mais perto do quarto de Zack.
–– Nessa primeira porta aqui, é o quarto do meu filho. Acho que ele está dormindo, mas não vai se importar se eu o acord... –– Dilan ergue o braço para bater na porta de Zack.
–– Não! –– minha voz sai tão desesperada quanto eu realmente estava –– Não precisa incomodar ele. –– a última pessoa que eu queria ver era Zack. Mas também não estava sendo nada agradável ficar esses minutos com Dilan, se aquela agora era minha casa, eu só queria saber onde era o meu quarto, para poder me trancar nele.
–– E também, eu não quero atrapalhar, suponho que o senhor e minha mãe precisem voltar para o trabalho... –– dou um sorriso sem graça e ele suspira.
–– Está bem, posso pelo menos levar a senhora aos seus aposentos? –– eu entendo a ironia por tê-lo chamado de senhor e rio, um riso nem tão forçado assim, para depois balançar a cabeça em sentido positivo.
Ele dá cinco pequenos passos para trás e depois três passos para esquerda, faz gesto para eu ir até ele e eu o faço. Dilan guia minha mão até a maçaneta da porta que se estende a nossa frente.
–– Faça bom proveito. –– o pai de Zack pisca para mim e sorri um sorriso de leitor de poesias, me deixando sozinha no corredor logo em seguida.
Viro de costas e encaro a porta do jogador e futebol, não há som algum saindo de dentro do quarto. Meus batimentos aceleram mais um pouco. Escuto saltinhos subindo os degraus e em instantes Emi já está ao meu lado.
–– Tá se imaginando entrando sorrateiramente nua na calada da noite naquele quartinho, não é? –– ela fala e sinto vontade de rir de nervoso, mas não o faço, por não ser mais possível ficar mais nervosa.
–– Vai dar tudo certo. –– Emi sussurra e quase me sinto aconchegada na sua voz sexy. Ela leva minha mão e a sua até a maçaneta. –– No três... um... dois...
–– Três. –– digo e de olhos fechado torço a pequena bolinha, empurrando ao mesmo tempo a porta.
Um cômodo escuro aparece. Tateio a parede ao lado da por e logo encontro o interruptor. Uma luz branca acende no centro do quarto. A peça estava com algumas de minhas malas, mais várias caixas. Minha cama já estava montada e devidamente arrumada, se encontrava contra uma parede que formava um “L” para depois fazer uma outra porta branca de correr de semblante. Abro a porta e encontro um closet vazio de um lado e do outro um banheiro com banheira que aparentemente iria saltar água de todos os lados possíveis, protegida por um box.
–– Nossos banhos serão muito mais longos. –– Emi fala e logo se forma o costumeiro sorriso malicioso.
Volto para o quarto de paredes completamente brancas e simplesmente me jogo na cama, enquanto minha outra eu faz sei lá o que. Ouço duas batidas na porta que deixei aberta e levanto de uma vez só.
–– Eu e Dilan vamos ir trabalhar, sabe que não podemos abandonar aquilo lá por muito tempo. –– minha mãe diz enquanto entra no quarto e se senta ao meu lado. –– sei que se tratando de você, isso não vai acontecer, mas Emily, pode ficar a vontade, agora essa é nossa casa também, ok? –– ela fala e deposita um beijo em minha testa. Apenas balanço a cabeça positivamente por não saber o que dizer. Sheron se levanta e vai embora. Ouço o motor de um carro arrancando e acredito que estou sozinha em casa.
Me jogo novamente na cama.
–– Achei que seria mal educado se eu não viesse te dar as boas vindas. ––escuto uma voz masculina e lentamente ergo o meu corpo, para então ficar sentada na cama. Zack está com o cotovelo apoiado na porta e com pulso descansando em cima de sua cabeça, enquanto sua outra mão está no bolso da sua jeans. Ou seja, incrivelmente sexy.
–– Bem, não seria exatamente simpático se não o fizesse. –– digo e depois me arrependo, porque logo em seguida o olho com um olhar extremamente flertativo, o que deve ter me levado a corar.
Ele ri, desmancha a pose e começa a caminhar em minha direção. Eu fico em pé.
–– Seja bem vinda ao inferno. –– Zack diz olhando em meus olhos, para no momento seguinte me puxar para um abraço.
Meu coração dispara.
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