Usuário Final

32 Capítulo opcional: Dormindo acordado


Eu abro os olhos. Meu quarto ainda é o meu quarto.

Olho para minhas mãos.

Intactas.

Ao meu lado, ela dorme como se nada pudesse interromper seu sono. Eu a invejo, mas ela não precisa saber disso. Eu me levanto, vou até o banheiro. O espelho mostra o rosto da mesma pessoa há 35 anos. Eu abro o armário atrás dele.

Tomo uma pílula.

E espero ela fazer efeito.

Pronto.

É assim nos últimos dias, ou seriam anos? Acho que no final das contas dá no mesmo. Eu me sento à mesa para o café da manhã e ela me pergunta como foi a noite, eu prefiro não contar, mas ela insiste. Sei que ela finge que o que eu faço é incrível, que estou salvando o mundo e que ela tem orgulho de mim, mas no final das contas ela preferiria que eu nunca mais voltasse para aquele lugar. Se eu pudesse, jamais voltaria.

Mas não tenho escolha. Nenhum de nós tem.

Eu minto para ela assim como ela mente para mim. Não pretendo estragar o café da manhã contando como aquele garoto novo morreu na minha frente, que durante mais de 10 minutos tive que mentir que ele ficaria bem e que ele só não sentia as pernas porque elas estavam quebradas. Eu não faço ideia do que aconteceu com a outra metade do corpo do rapaz, quando cheguei ela já não estava mais lá. Eu nem ao menos me lembro do nome dele.

Ela fica feliz em ouvir minha mentira, eu fico feliz em contá-la. A melhor mentira é aquela que você conta para você mesmo.

Ela me beija, eu saio para o trabalho.

Tomo uma pílula.

O trânsito está lento, talvez eu me atrase, talvez não. Eu não me importo, mesmo que meu chefe se importe. O desgraçado vai me dar o mesmo sermão, vai falar sobre os prêmios de sua carreira, as dificuldades que enfrentou e tudo o que teve de passar para chegar ao topo. O topo do nada. Deito a cabeça no volante, a pílula parece se recusar a fazer efeito, mas no final ela sempre faz. Alguém buzina, o trânsito flui e não consigo parar de pensar nas ruas escuras e vazias daquela cidade. O silêncio é bom, mas não sinto falta dele. Silêncio é o som da morte, é o que resta após ela passar, um vazio imenso e infinito. Como aquela maldita cidade.

Eu chego tarde, mais cedo do que gostaria, mais tarde do que meu chefe toleraria. O discurso segue como o esperado, como se ele tivesse decorado um texto – e talvez tenha mesmo. Enquanto ele fala, penso em quantas vezes posso ter salvo a vida dele, ou de suas filhas, de sua esposa. Penso em como poderia meter uma bala na cabeça dele e ninguém jamais saberia. Seria apenas um manequim a menos na noite, menos uma figura bizarra e distorcida que eu teria de ver.

Dormentes... tenho náuseas cada vez que os vejo, mas sei que é apenas a inveja fazendo a sua parte. Se eu gostaria de voltar a ser um deles? Quem não gostaria? Claro que tem aqueles jovens estúpidos que pensam que ser um Usuário Final é pura diversão, que não veem a hora de pegar numa arma e atirar em alguma coisa. Tudo é diversão até que alguém morra, e para os que não se importam com os outros, a diversão acaba quando alguém arranca metade do seu corpo.

Eu tento trabalhar, mas me sinto cansado. Não o tipo de cansaço que as pessoas normais sentem, meu corpo está em perfeito estado, tive uma boa noite de sono – melhor até do que o sono de muita gente – mas minha mente não. Na minha cabeça, já fazem anos que não durmo, não me lembro mais como era sonhar, como era a sensação de adormecer sem preocupações, sem pensar em quem vai morrer na próxima noite.

O frasco no meu bolso está vazio. Pego um novo na gaveta, mas não o azul. Preciso comprar mais, o suficiente para os próximos meses.

Tomo uma pílula.

Mas essa, desce feito uma navalha.

Pego o frasco azul e guardo no bolso do casaco. Talvez hoje eu durma de verdade, uma bela e perfeita noite sem sonhos. Às vezes não sei o que é pior, fingir que durmo ou fingir que estou acordado, afinal nenhum de nós de fato está.

Abro minha caixa de e-mails. Há um relatório sobre as operações da próxima semana, coisa vinda da central, coisa grande. Os meus colegas de equipe me mandaram mensagens também, me convidaram para uma festa virtual. Que patético.

Apertaria a mão de cada um deles se pudesse, mas me recuso a fingir que o estou fazendo, não importa como. Quando perdemos a noção do que é verdadeiro, passamos a dar mais valor para o real, para o físico. É a única coisa que temos de verdade, a única que eu não quero fingir, pois eu preciso disso para me sentir mais humano, para sentir que de alguma forma eu ainda existo.
Há uma mensagem SPAM de mais um imbecil que descobriu meu endereço de e-mail, um desses malucos que sabem da existência da Rede e dos Usuários Finais. Alguns nos veneram como se fossemos deuses, outros nos consideram uma maldição. Infelizmente esse pertence ao segundo caso. O cara escreve todo tipo de teoria da conspiração num blog, tudo tão surtado que imagino que a Syscom não se deu nem ao trabalho de remover ou censurar. Lixo.

Deleto tudo o que não é pertinente ao trabalho e a palavra “Link” em um dos e-mails, me leva de volta para a Rede. Links me assustam desde o dia em que vi uma garota estourar os miolos do próprio Link, um psicopata estuprador de dormentes, foi uma cena terrível. Fiquei com pena dela, qualquer um ficaria. Ser ligada a alguém tão desprezível e ser obrigado a sentir a perda, não me parece a melhor sensação do mundo.

Na missão de ontem encontrei uma garota sofrendo pelo seu Link. Quando descobri que ela era a famosa líder dos Helldivers, conhecida como HeLa, a imortal, quase não acreditei. Para mim, ela poderia ser chamada apenas de “a normal”. HeLa não é uma deusa da morte, nem mesmo uma Pacificadora como muitos dizem que ela é. A garota me pareceu apenas mais uma jovem comum, muito bonita por sinal, mas comum e não digo isso como uma ofensa. Ela parecia uma pilha de nervos, tinha um sincronismo anormal e irregular, e pela conversa que ouvi, tudo causado pelo Link com um novato, que a propósito, estava envolvido no incidente do distrito industrial. Os Helldivers nem deveriam ter saído conosco ontem, mas vieram mesmo assim e como era de se esperar, a presença deles não impediu que aquele garoto morresse. Qual era o nome dele mesmo? Não me lembro de jeito nenhum.

Disseram que foi uma Pacificadora que o matou, as aberrações que deveriam nos proteger, mas que hoje em dia não fazem a menor ideia de quem é amigo ou inimigo. Não faz diferença. Agora ele é só um nome para a lista. Um do qual eu não me lembro.
As horas se arrastam, mas como tudo, elas passam por mim feito o vento e mais uma vez eu não sei no que acreditar. Quando o real e o irreal são separados por uma linha tão tênue, que nos tornamos incapazes de diferenciar o certo do errado.

E nessas horas eu paro.

E tomo outra pílula.

E ela mais uma vez cumpre seu papel.

A medida que o dia vai morrendo pela janela, sinto o mesmo desconforto no estômago. Sinto que a cidade me chama, ouço suas vozes e elas clamam por meu nome, imploram pelo meu sangue.

Eu não quero voltar. Nunca mais.

Mas hoje à noite, depois de beijar minha esposa, eu sei que voltarei. Como fiz em todas as noites.

Eu aperto o volante do carro, as luzes dos faróis vermelhos à minha frente vão se apagando na distância da rodovia escura. Eu sinto cheiro de sangue nas minhas mãos e por um momento apenas, eu quase posso vê-lo escorrer por entre meus dedos.

Jeremy. Ana. Cassiana. Joseph. Adriane. Selma. Janete. Eduardo.

Por que não consigo lembrar do maldito nome do garoto? Não gosto de esquecê-los. Minha lembrança é a única coisa que eles têm agora, o único lugar em que eles podem existir. Já me disseram para não me importar com isso e eu não me importo.

Mas não me importar não faz com que essas pessoas estejam vivas, pelo contrário.

Só prova que elas morreram e que eu não pude fazer nada para evitar. Meus olhos doem, mas não tenho lágrimas para chorar.

Eu tomo uma pílula.

E rezo para que os fantasmas que vejo lá fora tenham ido embora quando ela fizer efeito.

Mas eles não vão, pois não estão lá fora.

Eu chego em casa.

Minha esposa me beija, ela está feliz por me ver e eu estou ainda mais feliz por vê-la. Ela me pergunta sobre os remédios, sobre meu trabalho. Eu respondo e aproveito cada palavra, aproveito cada minuto que tenho para olhá-la, pois nunca sei quando será o último. Quando se convive com a morte, você passa a aproveitar melhor a vida.

Cada momento é único. Cada momento é o último.

Quando deito ao lado dela, passamos horas conversando e eu fico olhando para seus olhos azuis, tão profundos quanto o mais puro dos oceanos. Ela me conta sobre seu dia, sobre seus planos e sonhos e eu percebo que, diferente dela, eu não tenho nenhum.

Mas eu sorrio mesmo assim.

Em breve ela estará dormindo, tendo os sonhos que jamais terei. E percebo, como percebo em todas as noites, que é melhor assim. Enquanto eu estiver lutando, noite após noite, ela ainda terá os mesmos sonhos desse futuro que ela sempre desejou para nós.

E nesse momento eu entendo mais uma vez, porque ainda luto.

Para que ela e o bebê que ela carrega, jamais precisem lutar.

Digo que tomarei a pílula azul antes de dormir. Ela sabe que menti e eu finjo que acredito que ela não sabe. A beijo demoradamente.

E tomo uma pílula.

Mas não uma azul.

Ela adormece e eu me preparo para mergulhar a consciência no vazio. Olho para seu rosto uma última vez e o guardo como uma lembrança permanente.

Uma vez mais, a Cidade Silenciosa me espera.

Mas dessa vez eu adormeço com um sorriso no rosto.