Usuário Final
16 Batismo de fogo 4:1
Notas iniciais
Adam não prestava muita atenção nas horas ou em quanto tempo passaram caminhando. O cronômetro, que agora ele já sabia que calculava o tempo restante de permanência na Rede, marcava pouco mais de 26 horas. Ele tentava mentalmente calcular o tempo decorrido pelas músicas que haviam escutado, treze, sendo que a décima quarta começaria em alguns segundos. Carla andava sempre à sua frente, sem dar nenhuma palavra. Ela havia parado de reclamar depois da sexta música, quando cortou a comunicação com a rádio Helldivers. Durante a caminhada, Gabriel pode explicar a Adam algumas coisas sobre a Rede e sobre todas aquelas informações com as quais ele ainda estava confuso, principalmente agora que os últimos estágios da sincronização estavam completos e ele tinha acesso livre aos sistemas. Aprendera que precisaria apenas pensar em algo para que isso se materializasse em sua mão, mas que antes, o objeto apareceria na interface visual a fim de receber uma segunda confirmação, Gabriel não entrou em detalhes, mas ficou bem claro que houveram acidentes terríveis com armas não solicitadas no passado. Também aprendeu sobre todos os indicadores que poderia ter acesso e como visualizá-los, poderia saber o estado de seu corpo no mundo real, seu estado atual na Rede, integridade do USV, qual sistema ele estava usando, além de saber o status de todos do grupo — informação esta, que agora ele deixava visível o tempo todo, bastando olhar para a esquerda, onde ficava uma janela com a foto de seus companheiros, junto das taxas de Atividade Cerebral e Sincronismo de cada um.
Antes da música terminar, Carla parou e fez sinal para que Adam também o fizesse.
— Acho que é aqui o ponto, faz tempo pra caramba que não venho por esses lados! — resmungou Carla com seus botões, olhando para a entrada de um prédio sem janelas, que mais se parecia um monólito de concreto — E aí Gabriel? O que você tem pra mim?
— Deixe-me ver ... — A voz de Gabriel surgiu repentina, silenciando a música que tocava, desta vez, ambos o estavam ouvindo — A última reciclagem fez o maior estardalhaço no setor Martinez, caramba que bagunça!
— Gabriel, me deixe informado também, porque minha companhia parece que se recusa a explicar as coisas para mim — provocou Adam. Os agradáveis momentos que passara com Carla os haviam tornados íntimos o bastante para que ele começasse a provocá-la. Também sentia-se mais à vontade com Gabriel, a presença constante dele trazia uma estranha sensação de segurança, como se nunca estivesse sozinho, tendo sempre alguém para olhar por ele.
— Meu humor estaria melhor se vocês não tivessem escutado tanta porcaria! Puta merda, como alguém pode gostar de tanta música ruim?
— Carla... vai com calma — pediu Gabriel, tentando em vão amenizar a situação — meu gosto musical é sagrado. E o novato tem bom gosto também! Adam, a reciclagem do sistema ocorre periodicamente e randomiza as ruas e estruturas da Rede, com exceção dos pontos de descida, como por exemplo o setor Martinez. Devido a reciclagem, navegar na Rede se torna uma tarefa labiríntica se você não tiver uma direção. O que estou fazendo agora é procurar um caminho que ligue um ponto de descida a outro, é o que chamamos de toca de coelho.
— Entendi. Parece algo bem difícil de se fazer.
— Na verdade é bem simples! — respondeu Gabriel, com um leve toque de orgulho na voz — Pronto, achei. Carla, vou te mandar as coordenadas. Descolei o antigo distrito industrial para vocês.
— Não é o que foi misteriosamente reciclado? Que merda, Gabriel, morreu uma porrada de gente por lá! — reclamou Carla, parecendo ainda mais indignada do que quando falou sobre a música.
A ideia de ir para um lugar onde “uma porrada” de gente havia morrido quase fez Adam engasgar com a própria saliva. Sentiu as pernas gelarem e amolecerem, e por um segundo, achou que precisaria se apoiar em alguma coisa, mas se manteve firme.
— Sim, o próprio. E Carla, em qual lugar não morreu gente? O fato é que depois da reciclagem, parece que ele ficou razoavelmente seguro. Dá para vocês treinarem com os Devoradores de classe 1 que perambulam por lá.
Antes mesmo que Adam pensasse em perguntar, Carla o respondeu seriamente:
— Os Devoradores se dividem em classes. Classe 1 são os que nunca devoraram nenhum Usuário Dormente, classe 2 são os que já o fizeram e classe 3, esse você vai ouvir muito, são os que devoraram Usuários Finais.
— Não achei que fosse possível um Usuário Final ser devorado. E obrigado por me mandar para um matadouro no meu primeiro dia aqui, Gabriel. Se eu sobreviver, tenha certeza que não esquecerei disso!
— Disponha Adam, estamos aqui para isso! A Syscom agradece sua excelente escolha!
— Covarde! — zombou Carla, com seu habitual — e detestável — sorriso no rosto. Ela abriu a porta e uma corrente de ar frio vazou do interior do prédio, fazendo um ruído assustador ao passar pelos dois. O interior do prédio era tão escuro quanto o restante da cidade, o lugar lembrava o edifico em que Adam morava, onde uma passarela central interligava os apartamentos nas laterais, enquanto o centro era um vão que dava para um pequeno jardim no térreo. De onde estava era impossível saber com clareza se a semelhança era verídica, mas era evidente que mesmo ao nível da rua, haviam andares abaixo.
— A propósito, estamos com uma terrível divergência temporal. Está afetando quase todos os distritos — explicou Gabriel — O industrial está com mais de duas horas de diferença, ou seja, não poderemos nos comunicar enquanto vocês estiverem por lá, portanto tomem cuidado.
— Às vezes você se esquece quem eu sou! — vangloriou-se Carla, sorrindo diabolicamente, de forma caricata. Era impossível dizer se era uma encenação ou não.
— É exatamente por isso que me preocupo! — respondeu Gabriel, demonstrando sua preocupação.
Assim que Adam e Carla adentraram no corredor, as portas se fecharam às suas costas — como nas cenas de suspense de um filme de terror. A foto de Gabriel desapareceu e um ícone no formato de um relógio acompanhado do número 30 surgiu ao lado do indicador de tempo de permanência na Rede.
— Ei... que história é essa de divergência temporal? — perguntou Adam, temendo a resposta.
— Aqui na Rede tempo e espaço é realmente algo relativo, novato — começou, de maneira calma, sem nenhum tipo de ironia ou ofensa. Talvez ela só tenha feito isso exatamente porque Adam previa o contrário. Devia ser proposital — Sua percepção do tempo pode variar de um distrito pro outro, é como algum estúpido programa de TV ao vivo, sabe aqueles em que o áudio demora pra acompanhar a imagem? Graças a isso, nossa comunicação, que as vezes já é uma bosta, fica pior! — finalizou, sorrindo ao final. Mas aquele sorriso não era nem um pouco parecido com os demais. Algo dizia a Adam que talvez Carla não fosse tão durona quanto parecia. Mas, se fosse isso, por que ela tentava tanto intimidá-lo? De qualquer forma, preferiu não baixar a guarda, não seria um sorriso amigável que o faria pensar diferente sobre ela.
Avançaram pelo pequeno corredor, adentrando no hall onde as passarelas laterais ladeavam o andar e portas de madeira, forravam as paredes acinzentadas por toda a parte, como num hotel. Adam e Carla se aproximaram da beirada do vão, contornada por um corrimão que se entortava para acompanhar uma escadaria que seguia tanto para cima quanto para baixo.
Novamente, Adam não se questionou como aquilo era possível. Dois andares abaixo, a escadaria se dividia em diversas outras, irregulares, que se estendiam invertidas, como um emaranhado de cordas se entrelaçando, recobrindo até mesmo as paredes. Olhar para cima, era como olhar para um espelho, pois a inversão era a mesma, o mesmo emaranhado de degraus se repetia com seu padrão desconexo, sem propósito ou objetivo. A primeira coisa que lhe veio em mente ao olhar aquilo, era o labirinto de espelhos que se formava quando se apontava um espelho para o outro. Era como olhar para uma ilusão de ótica, uma obra de arte de algum artista esquizofrênico ou vanguardista demais para sua época. Tanto para cima quanto para baixo, era impossível ver onde as escadas terminavam.
Carla se demorou por um instante na beirada, levando os dedos aos lábios, como a criança que de fato era, gesto que seguia completamente na direção contrária da mulher forte e agressiva que aparentava ser.
— Pelo menos dessa vez será mais perto. Da última, passei mais de quatro horas andando! — reclamou para Adam, seguindo a escada que descia, mesmo que fosse impossível afirmar se de fato ela descia mesmo — Faça o que fizer, não solte o maldito corrimão! — ordenou, indicando o corrimão com um tapinha.
Antes que Adam pudesse perguntar o motivo, Carla já havia iniciado a descida em seu habitual passo apressado e ele teve que correr para acompanhá-la. Andar ali era como caminhar por uma vertiginosa montanha russa e na primeira inversão, ele já havia perdido a orientação em que estavam no começo da escadaria, era como se o mundo inteiro girasse ao redor deles. Carla, que seguia a frente, virou a esquerda num cruzamento de degraus, pegando uma escadaria que fazia uma espiral e terminava numa porta, fixada em uma das paredes, que poderia muito bem ser o teto. Adam se apressou para continuar obedecendo a regra número um, saltando os últimos degraus na intenção de economizar tempo e espaço quando de repente, sentiu um puxão no umbigo e seu corpo foi arrancado do chão como se tivesse sido impelido por uma força invisível. Esticou-se instintivamente para agarrar o corrimão, conseguindo milagrosamente o fazer com a ponta dos dedos e no mesmo instante foi atirado novamente ao chão, batendo a testa num dos degraus. A sensação de dor o lembrou da pancada que havia levado naquele dia, mais cedo, mas havia doído bem menos.
— Sabia que existe um motivo pra eu ter falado pra não soltar a porra do corrimão? Cara, você tem algum tipo de problema em ouvir os outros? — repreendeu, Carla. Adam teria preferido que ela estivesse com raiva, pois seu rosto parecia esconder um sorriso de deboche ainda pior do que os outros.
— Se você não andasse tão rápido isso não teria acontecido! — reclamou, se levantando cautelosamente. A mão apertava o corrimão com tanta firmeza, que era possível ouvir os estalos da madeira rachando — Achei que fosse morrer agora.
— O corrimão indica a direção que a gravidade daqui funciona. Solte-o e você realmente morre. Ficou claro agora? Se você preferir posso te mandar um e-mail.
Adam apenas balançou a cabeça, se perguntando como havia passado pela sua mente que Carla poderia ser uma boa pessoa. Subiram rapidamente a escadaria em espiral, tornando o cenário ao redor um grande borrão. Se Adam estivesse no mundo real, com certeza teria vomitado. Carla abriu a porta lentamente e baixando o rifle para segurar a maçaneta com mais firmeza, se apoiou nas laterais da porta e subiu, mostrando que novamente a gravidade havia se invertido e que talvez, aquilo realmente fosse o teto. Antes que Adam pudesse fazer o mesmo o símbolo de um envelope azul piscou à sua direita.
— Você tem um novo e-mail. — A voz mecânica da IA de auxílio soou em seus ouvidos. De fato, ela havia enviado a maldita mensagem. Adam sorriu e seguiu Carla através da porta.
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