Usuário Final
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Emily o havia levado através de passagens e corredores, lojas e becos, até o lugar onde o que havia restado das três equipes, estava escondida. No caminho, ela lhe explicara sobre o que havia acontecido para que se encontrassem numa situação tão ruim. A medida que ela falava, mais e mais Adam percebia que conhecia apenas a ponta do iceberg. A Rede se ramificava de uma forma inimaginável, estava tão interligada no mundo real que nenhuma pesquisa jamais o apresentaria aquelas informações.
Muitas pessoas sabiam sobre a Rede, muito mais gente do que Adam imaginava. Pessoas poderosas e influentes que tinham interesses além dos ideais benevolentes da Syscom. Havia um submundo ali, algo que os manuais jamais lhe explicariam. Debaixo do que os sistemas não podiam enxergar, as informações fluíam feito sangue, o dinheiro negro rodava de mão em mão, alguns pagando por testes, outros por segurança, informação, alguns apenas por um pouco de diversão. Aquele mundo era livre, apesar de todas as regras impostas pelo Projeto Usuário Final, e qualquer um que estivesse dentro dos padrões, poderia fazer o que bem entendesse.
Um dos motivos pelos quais Emily acreditava que ninguém viria para o resgate, não era a periculosidade da missão, mas o que ela poderia significar para os envolvidos. Uma operação ilegal poderia desencadear consequências catastróficas, ninguém sabia quem estava pagando ou o quanto de informação essas pessoas tinham, seus objetivos e propósitos, até onde iriam. Ali dentro haviam regras e os Usuários tinham um poder que ia além das estrelas, mas lá fora, eles eram apenas humanos. Era um risco do qual boa parte das equipes oficiais da Syscom preferia ficar de fora.
As crianças perdidas foram contratadas para investigar uma anomalia que fora detectada por alguns Operadores, não havia sinal de Devoradores, portanto a missão seria tranquila. Dinheiro fácil, com certeza. Quando chegaram no local combinado, foram agraciados com a surpresa de que as regras haviam mudado e que trabalhariam com uma equipe de reconhecimento para analisar uma possível falha no banco de dados da Rede, algo que poderia expor um dos bens mais valiosos ali: o acesso a mente dos Dormentes. Era óbvio que aquele tipo de falha chamaria tanto a atenção de Devoradores quanto da própria Syscom, mas como parte do pagamento já havia sido feita, eles não poderiam voltar atrás e deveriam seguir de acordo com o plano, não solicitando nenhum tipo de suporte. A equipe de reconhecimento também havia apagado informações cruciais sobre os membros daquela operação, como os grupos aos quais pertenciam e dados de identificação. Assim que as crianças perdidas entraram no prédio, a reorganização se iniciou, os pegando de surpresa assim como pegara Adam e seus amigos. Porém, sem a experiência de campo dos Helldivers, a batalha foi um massacre.
Com uma sorte incrível, os sobreviventes conseguiram abrir caminho até o subsolo, naquele shopping vazio e fantasmagórico. Foi então que a coisa toda piorou, os sistemas caíram um a um, os impedindo de criar equipamentos ou desconectar, nem mesmo a IA funcionava adequadamente. Em seguida, eles descobriram que estavam presos ali embaixo, pois cada vez que tentavam sair, ocorria uma reorganização emergencial. Juntando as peças, era fácil entender o que havia acontecido com a reorganização e o porquê dela não seguir o cronometro.
Se aproximaram lentamente de um pátio, onde um restaurante fast food se mantinha isolado no centro. Adam tinha quase certeza de já ter cruzando com aquele restaurante em algum momento, mas o letreiro não dizia nada, era apenas um amontoado de letras. Uma mulher estava parada logo na entrada, montando guarda com um rifle AR-16, o capacete que cobria suas feições lembrava muito o de Carla, com a diferença que o visor era cor de rosa. A mulher prontamente levantou a arma na direção dele.
— Hey, vai com calma! — gritou Emily — Ele é um Helldiver!
— Caramba! — praguejou a mulher abaixando a arma — Eu achei que fosse um devorador!
Um garoto saltou de trás do letreiro do local, ele portava um rifle de precisão Barret M99 que era quase do seu tamanho.
— Nem esquenta Mali, se ele fosse um Devorador, teria acertado ele assim que os dois passaram pela cafeteria. É uma péssima escolha para um capacete.
“Cheshire, seu desgraçado...” — praguejou em pensamentos, ao ver o garoto desenhar um sorriso no capacete com os dedos
— Pelo contrário — Adam disse — afinal, quero ver alguém conseguir cortar a minha cabeça.
— Não é de se estranhar... Vocês Helldivers são todos loucos. — ele completou, com seriedade — Michael. — E estendeu a mão para Adam assim que o capacete se desfez. O garoto aparentava ter menos de doze anos, tinha pouco mais da metade da altura de Adam, os cabelos ralos estavam sujos e ele tinha um enorme corte numa das bochechas, o sangue parecia ter secado o ferimento
— Aquela ali é a Mali, minha parceira.
Mali acenou com a cabeça e Adam percebeu o roxo febril que despontava de seus indicadores, os dois tinham um Link. Junto com Emily, Michael levou Adam para dentro, onde as “crianças perdidas” ou o que havia restado delas, estava.
Das aproximadamente 25 pessoas, apenas 10 haviam sobrevivido. Havia um homem alto, a barba já esbranquiçada sentado sozinho numa mesa, um dos braços parecia um trapo de tiras de carne e pele, ficando difícil diferenciar o USV do orgânico. Outro estava largado numa das paredes, uma poça de sangue aos seus pés parecia aumentar lentamente, se não fosse AIDA em checar seu status, Adam teria pensado que ele estava morto. Uma mulher juntava munições e armas numa das mesas, junto com uma garotinha — por que diabos alguém havia levado uma criança para lá? —, outra mulher estava deitada num dos bancos, havia um torniquete improvisado no que havia restado de uma de suas pernas. Um homem de barba e óculos de armações grossas estava mais ao fundo, lendo um exemplar de alguma revista cientifica, dois homens estavam ao seu lado de braços cruzados, um deles estava com metade do capacete trincado enquanto outro, tinha o olho esquerdo coberto por um tapa-olho improvisado, os cabelos quase brancos estavam salpicados de sangue.
Por um momento Adam ficou petrificado enquanto todos os olhares eram dirigidos para ele. Acompanhando da sorridente Emily, sentia-se como o comediante que acabara de entrar no palco e esquecera as falas, a pessoa que deveria contar piadas mas que no final das contas acabou se tornando a própria. Era difícil identificar se o olhavam com espanto, indiferença ou mesmo descrença. Ele quase podia ouvir o descontentamento ecoar de seus pensamentos “é só ele?” “Onde estão os outros?” “Não imaginava que fossem mandar ajuda mesmo!” “Que mau gosto para um capacete!”. Esse último, de fato não havia sido sua imaginação.
— De onde você tirou esse daí, Emily? — perguntou o homem com tapa-olho — Já não estamos ferrados o bastante?
— Ele é nossa saída daqui. — respondeu a garota, confiante — Vamos lá Adam, é sua vez.
De dentro do capacete, Adam lançou um olhar de desespero para Emily. Pensando em tornar aquela conversa menos impessoal, Adam fez com que metal do capacete se desmontasse para dentro do USV, mostrando seu rosto a todos. Entre os olhares silenciosos, pediu mentalmente para AIDA lhe dar as informações sobre todos na sala, algo o dizia que aquela situação poderia fugir do controle, então seria bom ter uma carta na manga.
— Ele é só um garoto! — ridicularizou o homem de barba, Quentin — sem equipe — 6 meses de atividade — Somos tão importantes que mandaram uma equipe inexperiente para salvar a gente! Tanto que sobrou só o engraçadinho aí! Eu disse pra vocês, é exatamente isso que a corporação faz, eles não ligam!
— Mais um para virar uma pilha de tripas. É bem o tipo de coisa da Syscom. — Sergio — sem equipe — 8 meses — Pobres coitados... me pergunto quanto tempo a equipe dele durou.
— Deixem o menino falar. — pediu a mulher, terminando de carregar um pente de metralhadora. Alessa — sem equipe — um mês. A criança estava acolhida atrás dela, como se estivesse se protegendo de algo que Adam fosse falar, as duas possuíam um Link. Linda — sem equipe — duas semanas.
Em silêncio, ele apenas pensava no que tinha em mãos, um grupo de pessoas que tinham passado o inferno naquele lugar, pessoas que quase foram deixadas para morrer, que estavam feridas e sem esperança. E ele era a salvação delas, o garoto de uma das equipes mais famosas da Rede, o novato em seu segundo dia. Que grandioso, não? Adam não sabia o que fazer, realmente não sabia. A falta de convivência com pessoas dificultava ainda mais as coisas, se estivesse em outra situação, teria virado as costas e mandado todos para o inferno, mas agora era diferente, era real e o que quer que ele falasse ali, poderia tornar todo o sacrifício de seus amigos em vão. Uma gota de preocupação escorreu em sua mente, será que eles estavam bem?
— Eu não sou apenas um garoto — falou, e mais uma vez, sentiu-se um boneco de ventríloquo. Aquele outro Adam que ele costumava esconder, falava por ele. Mas era diferente agora, estranhamente, não parava de pensar em Beatriz — Sou um Helldiver.
A palavra tinha um poder surpreendente, fazendo com que todos os presentes o olhassem diferente. Para o bem ou para o mal, aquilo poderia ser muito útil.
— Acho que não somos tão insignificantes assim — sorriu Alessa, olhando para Adam e logo depois para a garotinha — Parece que estamos salvas, meu bem! Vamos voltar para casa logo, logo!
Aquilo o acertou como uma facada, fria e impiedosa, cortando dentro dele, abrindo caminho para um sentimento doloroso e uma realidade ainda pior. Não pode evitar de pensar em quanto tempo será que elas sobreviveriam na Rede? Olhou para as duas e sorriu. Era o máximo que conseguiria fazer naquele momento.
Correndo por ambientes desolados, Adam não parava de pensar no quanto ele estava sendo imprudente com a decisão que havia tomado, mas alguém havia dito que as melhores decisões são aquelas que você faz em momentos difíceis, pois elas carregam a coragem necessária para enfrentar dificuldades. Ele tentava se agarrar naquela ideia com todas as suas forças, provando a si mesmo que o que estava fazendo era certo.
Há uma hora atrás, estava sentado do lado de fora com Alessa, tomando o café frio que saía misteriosamente da máquina de refrigerantes, enquanto Emily mostrava a Linda, um ursinho que havia pego na loja de brinquedos. O gosto da comida na Rede era tão real quanto todo o resto, mas era mais como uma lembrança, algo que deveria ser de um jeito mas que seu corpo dizia ser de outro, causando uma confusão engraçada em seus sentidos.
— Parece melhor quando você fecha os olhos e tenta se lembrar do gosto — ela disse, olhando para a menina — Tudo aqui é como uma lembrança.
Adam apenas confirmou com a cabeça, dando um gole grande demais no café frio. A menina correu com o urso enquanto Emily fingia ser um Devorador, o sorriso enorme era tão engraçado que a menina mal conseguia correr de tanto que ria. Lá dentro, Quentin e Sérgio tramavam algum jeito de localizar o celular perdido usando as conexões que AIDA havia conseguido liberar num deles, era algo mínimo, mas os rapazes pareciam ter um talento nato para aquele tipo de coisa. Quentin era um professor de tecnologia de informação que teve de reaprender todos os seus conceitos sobre informática ao ir para a Rede, já Sérgio era um faz tudo que via na Rede a oportunidade perfeita para desenvolver suas aptidões para a informática. Mas era em Alessa e Linda que Adam concentrava sua atenção naquele momento.
— Eu vejo esse seu olhar de preocupação — Alessa disse, sorrindo — Vamos ficar bem, apesar de parecer o contrário. Você vai se sentir melhor se eu disser que confio em você?
Foi ainda pior. Adam não queria dizer para ela que ouvir aquele tipo de coisa não ajudava em nada, era pior quando ele mesmo não tinha certeza se poderia cumprir aquilo. Sorriu.
— Você não é de falar muito, não? Tudo bem, eu faço companhia para você mesmo assim.
— Será que sou o único que acha que isso tudo está terrivelmente errado?
— Com certeza não, mas o que podemos fazer se não continuarmos seguindo em frente? Nossa situação é essa, infelizmente.
— Eu sei... mas não acho que uma garotinha e sua mãe deveriam vir para um lugar desses. Eu prometo que vou tirar vocês duas daqui. Dou a minha palavra. — Adam disse, e nunca estivera tão certo de si quanto estava naquela hora — Pode não ser muito, eu sei...
— Pelo contrário. A palavra de um homem é a coisa mais valiosa que ele pode dar. Eu vejo coragem nos seus olhos, mesmo que escondida em algum lugar. Seus pais devem estar orgulhosos de você.
— Eles morreram há muito tempo.
— Seus pais devem estar orgulhosos de você. — Ela repetiu e ele entendeu o que ela queria dizer. Sorriu mais uma vez.
— Ei, Adam — Era Michael, o rifle enorme apoiado nos ombros — Acho melhor você dar uma olhada numa coisa.
Levantou-se depressa e seguiu com Michael até o telhado de uma loja de departamentos, onde ele entregou-lhe seu rifle, indicando a direção em que deveria olhar. Próximo a uma loja de ferramentas havia um Devorador, rastejando como um lagarto, parecia procurar alguma coisa. Michael o indicou um ponto mais à esquerda e Adam quase derrubou a arma com o susto. Deveriam haver mais de 30 deles, uma massa escura movendo-se vagarosamente como uma mortalha solta ao vento, os tentáculos bruxuleantes se debatiam em suas costas. As aberrações andavam juntas, como se vasculhassem o local a procura de alguma coisa e Adam sabia exatamente o que era.
— Dou no máximo três horas até eles chegarem aqui. — Michael falou sem emoção na voz.
— Mas que merda... precisamos daquele telefone funcionando. — E um desespero percorreu sua espinha, fazendo-o olhar inconscientemente para onde Alessa estava com Linda.
— Adam, sinceramente, você acha que teremos alguma chance se aquelas coisas chegarem aqui? O telefone não vai ajudar.
Ele demorou alguns segundos para formular a resposta, pensou em inventar algum tipo de frase motivadora, falar a coisa certa para a ocasião, mas não adiantava. Aquele garoto parecia ser mais esperto do que ele.
— Não mesmo.
— Obrigado por sua sinceridade.
Adam ouviu passos e ao se virar, deparou-se com Emily o observando. Um estranho sorriso estampava seu rosto e por um momento, ele se preocupou com o que ela estava pensando.
— Isso aqui é um ninho! O nível três está por aqui, só pode! — ela disse — Nós não temos a menor chance contra todos eles.
— Vou dar um jeito — Adam falou, sem ter certeza sobre o que faria a seguir. Emily o olhava com a mesma expressão e ele soube que ela escondia algo — Emily, você sabe de alguma coisa que não quer me contar?
— Já que você perguntou — ela começou, sentando-se ao lado deles — Os caras que vieram conosco, os do reconhecimento, disseram que é o nível três que está no controle da reorganização e da anomalia que nos desconectou do Horus.
— Eu já imaginava isso, o que mais você tem ai?
— Eu sei onde ele está.
E agora ele estava ali, correndo com Emily, Michael e Mali, seguindo uma pista incerta que poderia ser a salvação deles, ou apenas adiantar suas mortes — não que aquilo fizesse alguma diferença frente a situação que estavam enfrentando. Enquanto fugiam dos Devoradores, Emily contou que viu uma série de cabos, dutos e fios que se espalhavam por toda a parte, conectados diretamente nas estruturas de sustentação do prédio por máquinas estranhas. Diferente de tudo o que havia visto ali, elas pareciam de alguma forma, vivas. Antes de serem desconectados do Horus, Emily ainda teve tempo de checar os dados daquelas coisas e conseguiu a assinatura de login de um Usuário Final morto, a confirmação exata de um Devorador de nível 3. Os dados seguiam num fluxo único, saindo de algum lugar na direção contrária às máquinas, em outras palavras, era só seguir os cabos e conseguiriam encontrar o Devorador.
Adam saltou um vão entre dois andares e apertou o ursinho de pelúcia nas costas, carregando-o como uma mochila improvisada, um presente de boa sorte de Linda. De acordo com a menina, aquele era um bicho de pelúcia do planeta Cerus e podia disparar raios mortais pelos olhos quando seus amigos corressem perigo. Poderia ser bem útil, sem dúvida alguma. Uma lembrança calorosa o abraçou, quando pensou na mãe e filha acenando para ele, antes de se esconderem num local seguro junto com os outros. Aquele era um motivo bom o bastante para fazer aquele plano dar certo.
A medida que se aproximavam do local onde o Devorador estava, os sistemas oscilavam, indo e vindo tamanha a interferência que ele causava. Já sabia que os Devoradores de nível 3 possuíam capacidades além das de qualquer Usuário Final e muitas vezes, habilidades especiais como os códigos de acesso. Porém, a maioria deles ficava em estado letárgico quando usava tais habilidades, o que daria uma certa vantagem para Adam e os outros.
— Conexão restabelecida — Anunciou AIDA, num dos momentos de oscilação, para a surpresa de Adam — Estou conectando você à Beatriz.
A imagem de uma Beatriz muito surpresa surgiu em sua interface visual.
— Mas que porra! Adam! — ela berrou — Cara, você não tem ideia do quanto estava preocupada! Estamos caçando você em tudo quanto é canto!
— Eu estou bem. Olha, Beatriz, a conexão não vai durar muito — falou rapidamente — Eu encontrei as crianças perdidas, estamos indo atrás do nível três!
— Você o quê?! Você ficou maluco?!
— É o único jeito! — Ele quase gritou, e os outros o olharam espantados — AIDA vai te passar as coordenadas de um ponto que não reorganiza, as outras crianças perdidas estão lá! Tem um grupo de Devoradores indo na direção delas, vocês precisam ir até lá!
— Droga, Adam! Não vá bancar o herói de novo!
— Beatriz, eu sou a única chance que eles têm!
Beatriz ficou em silêncio, o olhar baixo, o rosto contraído como se pensasse em uma saída melhor para aquela situação.
— Preciso que você confie em mim — ele disse, confiante.
— Ok, mas estou indo atrás de você! Assim que você chegar... — e a conexão foi cortada. O aviso de “SISTEMA INDISPONÍVEL” novamente começou a piscar em seu habitual tom de vermelho. Pronto, estava feito. Um alívio percorreu seu corpo, e suas pernas pareceram leves como uma pena.
— Crianças perdidas? Não tinha um nome melhor não? Algo menos pejorativo? — falou Michael, o olhando seriamente.
— Não me culpe! — respondeu. Na sua mente, não pode evitar de pensar em Carla. Talvez ela e Michael se dessem bem, os dois pareciam ter a mesma idade e se comportavam feito adultos.
— Era a HeLa? — perguntou Mali — Ouvi dizer que ela é linha dura.
— Ela é incrível! — completou Emily — Já ouvi tantas histórias a respeito dela! Espero que possa conhecê-la depois que tudo isso terminar. Ei, Adam, será que ela pode fazer a minha recomendação também?
— Se a gente sobreviver a essa sua ideia maluca, pedirei pessoalmente as Madames. — Adam respondeu e continuou a corrida.
Depois da breve conversa com Beatriz, ele sentia algo estranho percorrer seu corpo, borboletas na barriga se agitavam, antecipando o momento em que lutaria com a criatura de nível 3, estava ansioso pelo confronto, era uma sensação calorosa, gostosa. Aquele não era ele, era... Beatriz. As palavras dela se iluminaram em sua mente, “Não compartilhamos apenas um Link, lembre-se disso.”
— Anomalia sistêmica detectada. Ativando modo de combate.
O sorriso do gato mágico preencheu seu rosto, quando o capacete se formou. Estendeu a mão, fazendo um gesto para que os outros parassem. De algum jeito, sabia exatamente o que estava fazendo e como fazer, o Link o puxava cada vez mais para perto de Beatriz, ele quase podia ouvi-la respirar ao seu lado.
— Estamos perto, veja — E apontou para uma loja vazia, onde os cabos, fios e tubos se amontoavam do lado de dentro, ligados a uma espécie de caldeira. A coisa pulsava feito um coração, soltando baforadas de vapor, fios a conectavam nas paredes, tornando o lugar numa espécie de teia de aranha, um emaranhado de conexões vitais para o Devorador. Adam se perguntou o que aconteceria a ele, se uma daquelas coisas estourassem...
— Que nojo! — exclamou Mali — o que vamos fazer agora, chefe?
— Chefe? — Adam indagou, o sorriso do gato parecia deixá-la desconcertada — O nível três está bem perto agora, com todos aqueles Devoradores que vimos, ele com certeza está com a guarda baixa, não deve saber que estamos indo atrás dele. De qualquer forma, vamos com calma e quando chegarmos lá, façam exatamente o que eu disser.
— E ainda não quer ser chamado de chefe...
Seguiram por dentro de uma loja de produtos de limpeza, acompanhando os fios embolados por um buraco numa das paredes. Saíram num salão que mais lembrava um aeroporto, o chão quadriculado de vermelho e preto brilhava, as cadeiras de espera estavam dispostas enfileiradas, pilhas de revistas repousavam sobre mesinhas, a iluminação estava fraca, as poucos lâmpadas que ainda funcionam oscilavam convulsivamente. O teto era forrado de fios e cabos, que desciam até mais uma caldeira pulsante ao longe, encostada numa vidraça enorme que cobria toda a parede circular. Do outro lado, um emaranhado de fios parecia cobrir cada centímetro do vidro, com a exceção do lugar onde ficava a máquina.
Desceram cuidadosamente com as armas em punho, havia pouca munição para elas, mas Adam esperava que eles não precisassem chegar ao ponto de precisar gastá-las. Mal avançaram meio metro e algo se remexeu na distância. A coisa se arrastava pelo chão, protegida pela escuridão, os tentáculos chicoteavam o ar. Adam fez um sinal com a mão, e Michael levantou o rifle nos braços, mantendo o Devorador na mira. O som de metal tilintando ressoou por toda a parte, garras e patas se arrastavam pelos fios sobre suas cabeças; sorrateiros e mortais, os Devoradores desceram pelas paredes, cercando o grupo. Dois deles se puseram sobre a caldeira pulsante e Adam entendeu prontamente a função daquela coisa, ou a menos sua importância. Estavam protegendo-a. Ele olhou para Mali e Emily e as garotas confirmaram com a cabeça, haviam entendido tão bem quanto ele.
Quando sua mão baixou, o tiro de Michael teve a perfeição que se esperava de um atirador de elite, estourando metade do corpo do Devorador que estava ao longe. Os demais avançaram com ferocidade sobre o grupo.
— Emily, Mali! — gritou Adam — Os braços!
Emily e Mali desembainharam as katanas e avançaram, desviando dos tentáculos e das garras que eram impelidas sobre elas, cortando tudo o que as espadas conseguiam alcançar, Adam por outro lado, segurava a Beretta numa das mãos e a espada na outra, providenciando a cobertura necessária para as garotas assim como Michael, que recarregava manualmente as balas do rifle numa velocidade impressionante, graças a um suporte no pulso que concedia uma troca rápida de cartuchos. Mali esquivou de um ataque que rasgou o chão e a espada arrancou as garras da criatura, Emily desviou dos tentáculos afiados e atacou pela esquerda, decepando o braço na altura do ombro.
— Adam! — Ela gritou, como se de alguma forma soubesse o que ele planejava, como se estivesse em sua cabeça assim como Beatriz.
Ele pulou por cima de um Devorador, que Michael prontamente abateu, e cravou a espada no núcleo da criatura ferida, girou nos calcanhares e se preparou para um novo ataque. Os Devoradores rolavam pelo chão como polvos, espiralando com os tentáculos e esquivando dos disparos numa velocidade espantosa. Um deles agarrou Mali pela perna, esmagando o USV como se fosse um papel laminado. A moça uivou de dor e desferiu um golpe na criatura que retrocedeu, já sacando a arma para disparar noutro que avançava; Emily chegou pelo outro lado decepando uma das pernas da criatura, mas incapaz de desviar do golpe, fora lançada contra a vidraça.
Outro tiro de Michael rasgou o ar e Adam pode sentir o rastro da bala cruzando ao seu lado. Saltou com a espada em punho, cravando a lâmina no peito da criatura, estourando o núcleo. Deslizou pelos estilhaços e girou o corpo, a lâmina rasgou outro Devorador na transversal e a Beretta na outra mão disparou, cristais choveram para todos os lados. E mais uma vez a espada negra tilintou, um braço fora decepado e então Emily quem dera o golpe de misericórdia. Ele precisava avançar a qualquer custo, correu sentindo a dor das garras enfiadas na coxa direita, mesmo assim continuou junto com Emily, a moça se atirara em cima de um dos Devoradores que guardavam a caldeira e Adam fez o mesmo com o outro, a espada atravessara a cabeça da coisa, o que não impediu que os dentes dela cravassem em seu braço. A lâmina perfurou um dos tubos e uma nuvem de vapor escaldante vazou. Adam apertou a espada com mais força ainda, rasgando outro cabo. Alguma coisa acertara suas costas, mas ele não teve tempo de olhar. Um clarão ofuscou tudo e ele sentiu seu corpo ser expandido e contraído, sugado para um único ponto quando a vidraça e os cabos ao redor ruíram, levando-o abaixo junto com boa parte da parede. A arma rolou das mãos e a espada tilintou para um canto.
A mensagem de “SISTEMA CONECTADO” piscou uma vez na interface visual e Adam se arrependeu de não ter arrebentado a outra caldeira.
— Adam? Você está bem? Emily? — Era Mali, a janela de comunicações aberta na interface visual mostrava seu rosto — Onde vocês estão?
Adam olhou ao redor, estavam do outro lado da vidraça, onde agora um monte de entulhos fumegantes estava no lugar onde a caldeira explodiu, separando-o de Mali e Michael. O lugar era uma grande sala recoberta por fios do chão ao teto, um bolo enrolado de espaguete plástico multicolorido. Emily estava largada num dos cantos, ela levantou a cabeça levemente junto com o polegar.
— Estamos vivos — Ele disse, forçando-se a levantar. Onde a garra havia acertado na perna, agora havia um corrimento constante de sangue, assim como a mordida no braço. Parte do USV parecia ter derretido com o vapor — E vocês?
— Acho que dá pra sobreviver, mas minha perna já era. E o Michael está sem munição. É bom que seus amigos cheguem logo.
— Não se preocupem eles... — Foi então que viu a coisa no centro da sala. Poderia ser confundida com uma pessoa não fosse o sorriso psicótico e distorcido no rosto vazio. Estava fundida num pilar de cabos escuros, as garras pendiam atrofiadas de um dos lados e os tentáculos se grudavam a fiação no teto. Uma esfera vermelha jazia na lateral, amarrada por fios que se pareciam com raízes — Mali... preciso desligar agora. — E encerrou a comunicação.
Emily se levantou vagarosamente, se aproximando de Adam. Ele se arrastou até a espada e a pegou com o braço bom se dirigindo lentamente na direção da coisa.
— Que coisa grotesca! — exclamou Emily — Dá um fim nisso antes que eu vomite!
— Com certeza — Adam respondeu de imediato. O Devorador de nível 3 era ainda pior do que os outros que tivera de enfrentar até aquele momento, parecia uma experiência genética que havia dado terrivelmente errado, a coisa atrofiada se contorcia soltando um ruído doloroso, como se temesse pelo seu fim, o que tornava o momento ainda pior. Ao menos estaria acabado em breve.
Algo caiu com peso sobre o chão de fios, uma massa contorcida, negra. Adam e Emily mal tiveram tempo de desviar da coisa que se revolvia feroz. Um grunhido ensurdecedor ecoou quando o Devorador de nível 2 se ergueu imponente. Não seria tão fácil assim. A aberração deveria ter aproximadamente dois metros de altura e diferente dos outros, não possuía tentáculos ou garras, era robusta, com um par adicional de braços que saíam de suas costas como duas patas de insetos, as mãos de três dedos abriam e fechavam lentamente.
Apesar do tamanho a coisa avançou num piscar de olhos e Adam desviou por pouco do soco que arrebentou a parede onde estava. Emily disparou com sua arma e o Devorador colocou o braço na frente do rosto como se estivesse protegendo-se dos disparos, então correu na direção dela, os passos pesados estremeciam o chão e o soco furioso cortou o ar quando ela foi para trás, ainda atirando.
Adam partiu para cima do Devorador, cortando um belo pedaço do dorso antes que um punho explodisse em suas costas, a dor foi imensurável e ele cambaleou para o lado. O Devorador se virou e Emily mais uma vez atraiu sua atenção. A criatura avançou e ela conseguiu escapar de um golpe que certamente a mataria. Os quatro braços atacavam numa rápida sucessão deixando Emily encurralada num canto.
Adam se ergueu com dificuldade, ignorando os avisos de danos que AIDA dava um após o outro. Ouviu Emily chamar seu nome e no instante seguinte o som seco de uma pancada. A garota perdeu o equilíbrio e o Devorador a agarrou pelo pescoço, erguendo-a do chão. Um impulso vindo de dentro, mais forte do que a dor e o cansaço, o jogou contra o monstro, não permitiria que ele a matasse. Saltou sobre o Devorador gritando a plenos pulmões, a espada fincou no braço que prendia Emily e Adam forçou a lâmina para baixo, decepando-o. O Devorador o jogou no chão, mas ele voltou a atacá-lo, dessa vez rasgou metade da perna da criatura, recebendo outra pancada em troca, os braços nas costas eram velozes e fortes, quase impossíveis de serem evitados. Emily atacou com sua katana, trazendo o Devorador ao chão. A monstruosidade agitou os punhos e Emily foi ao chão. Adam intercedeu, protegendo Emily de mais um golpe e decepou outro braço, perdendo boa parte do capacete num potente soco. A visão escureceu, mas ele se manteve firme, não iria fraquejar. Os indicadores de dano piscavam por toda a parte na interface visual rachada e ele continuou os ignorando. O Devorador o agarrou pela perna e Emily mais uma vez o salvou, agarrando a cabeça da coisa, a lamina foi cravada na boca, alargando ainda mais o sorriso.
Adam se recompôs e golpeou o peito da criatura, vez após outra, era como bater numa rocha. Mais um corte, e uma rachadura surgiu, o Devorador jogou a garota para longe e parte dos braços decepados já estavam parcialmente regenerados. Não havia mais tempo. Com a força que lhe restava afundou a espada de uma vez no peito do Devorador, sentiu o rosto arder quando o capacete foi estilhaçado por um soco. Caiu. O Devorador cambaleou em sua direção, os passos trôpegos. Quebrou a espada no peito e com um último urro se partiu feito uma jarra de cristal quebrada.
Estava feito.
— Emergência. Seu estado é crítico. Você necessita de cuidados médicos imediatamente. — avisou AIDA.
— Valeu... — E sorriu, cuspindo uma grande quantidade de sangue. O olho esquerdo não abria de jeito nenhum, as costas pareciam quebradiças e ele mancava de uma das pernas. O braço cujo ombro reclamava, não se movia de forma alguma — Emily! — chamou pela garota.
Emily estava caída no mesmo lugar em que o Devorador a jogara, rastejou por um instante e se apoiou numa das paredes. Levantou o dedão mais uma vez.
— Estamos um bagaço — e riu, mas não havia graça em sua voz — Mas acho que formamos uma boa equipe, não é mesmo Senhor Helldiver?
— Acho que sim... — grasnou Adam, cuspindo ainda mais sangue — Mas não se preocupe, minha amiga conserta você. Ela conserta qualquer coisa. — E se ergueu de uma vez — Preciso... terminar uma coisa...
Cambaleou pela sala, pegando a arma caída no meio dos fios. O nível 3 se contorceu como se soubesse o que o esperava e Adam desejou que o desgraçado soubesse mesmo, que ele temesse o que o aguardava. Pessoas haviam morrido por causa dele, pessoas que tinham família, amigos, alguém os esperando em casa, um trabalho, uma vida pela frente e agora, não restava mais nada. Aquela monstruosidade os havia matado sem nenhum propósito e ainda sorria, como se debochasse da situação, como se soubesse que ele se importava. Apertou a arma com tanta força que os dedos machucados doeram ainda mais, ergueu-a lentamente e disparou, arrebentando o sorriso do Devorador, a cabeça pendeu para trás quando os dentes explodiram e o maxilar fora arrancado pela rajada de disparos.
— Quem está rindo agora, hein? — outra rajada partiu os fios que o conectavam e a criatura urrou. Não ia se demorar mais. O derradeiro disparo estourou a esfera e toda a estrutura se desmanchou em estilhaços, derrubando o corpo esfacelado do Devorador no chão.
Olhou para trás e sorriu para Emily, que retribuiu da melhor forma que pode. Seu rosto ferido era uma ofensa àquela beleza sutil e delicada e Adam teve novamente um impulso de querer protegê-la, de envolver seu corpo nos braços e dizer que tudo ficaria bem.
— Adam! — Era Beatriz — Você está bem? As comunicações voltaram!
— Como é bom ouvir sua voz de novo... — ele sussurrou aliviado, a tranquilidade dela atravessou a comunicação, percorrendo seu corpo quebrado. Sorriu involuntariamente. — Bom, sobre aquela história de bancar o herói... espero que a Valéria esteja pronta para consertar dois Usuários cansados.
— É bem a sua cara mesmo — E riu de forma aliviada — Tenho certeza que você deixará a Valéria muito feliz com seus machucados! E a propósito, seus amigos já estão em segurança, fique tranquilo. Eu também estou quase chegando aí, estou bem perto de você!
O olhar aliviado se perdeu na sala emaranhada de fios. O urso do planeta Ceres estava jogando um dos cantos, esperando pacientemente que ele fosse pegá-lo. Avançou um passo doloroso, quando de repente ouviu um murmúrio as suas costas. Virou-se rapidamente para a pilha de cacos negros no chão, onde antes haviam os restos do Devorador, agora havia um homem. As feições castigadas pelos anos, a expressão de desespero e o sangue na boca ferida. O corpo estava repleto de marcas negras, veias saltadas que pulsavam bombeando alguma coisa que definitivamente não era sangue. Um dos olhos estava completamente negro, escuro como a noite. Mesmo naquele estado, era impossível não reconhecer aquele homem. Sabia muito bem quem ele era, tão bem quanto conhecia a si mesmo. Aquele era Herman Vause.
O homem abatido fitou-o com olhos suplicantes e tossiu, vomitando algo escuro como lama. A mão de Adam tremeu, os dedos se afrouxaram em volta da arma e ele quase a derrubou. Se o outro braço ainda funcionasse, seguraria a pistola com as duas mãos.
— Beatriz! — ele quase gritou em pânico — É o cara do login, o Herman Vause, a pessoa que eu vi as lembranças! Que merda tá acontecendo aqui?
— O que?! O Devorador ainda está vivo?
— Não tem Devorador aqui, tem um homem e ele está vivo!
Beatriz levou alguns segundos para falar; o homem caído tremia, suas mãos apertavam a cabeça com força.
— Escute muito bem o que vou dizer — a voz dela era suave, mas ficava claro que ela estava correndo. Adam sentiu medo da suavidade daquelas palavras, antecipando o momento em que ela diria o que ele já sabia — Eu nunca vou mentir para você entendeu? Nosso Link é baseado em confiança, então ouça bem, Herman Vause está conectado ao Devorador permanentemente, seu login já está quase devorado e ele não tem mais salvação. Eu sinto muito Adam, mas você terá que agir rápido.
— Espera... o que você quer dizer com isso?
— Que ele está vivo e o Devorador também. Quando você destruiu o núcleo, apenas acabou com a parte regenerativa dele, mas o corpo se manteve inteiro. Adam, você não deve ter muito tempo agora, logo ele vai tomar o controle do corpo e procurar outra vítima!
— Você quer que eu... o mate...? — as palavras pareciam não querer sair, como se o fato dele não dizer fosse mudar o que aconteceria a seguir.
— Você não tem escolha.
Ele gelou. Algo frio se contorceu em suas entranhas, um medo sem fim pareceu percorrer cada músculo ferido daquele corpo cansado. A mente fraquejava mais do que o corpo, seus pensamentos eram desorganizados e confusos. O homem aos seus pés se contorceu num grito de dor, apertando os ombros como se quisesse comprimir algo dentro dele. Os olhos novamente se voltaram para os de Adam e foi como se estivesse naquele quarto perfumado, vendo Vause sentado na beirada da cama, segurando a mão da esposa doente, a filha aos seus pés brincava sozinha, pura, doce e inocente, inalcançável pelas tragédias daquele mundo tão cruel. Por um momento, viu a si mesmo segurando as mãos da mulher, rezando para que ficasse bem pois precisava dela, eram uma família, precisavam ficar juntos, ver a filha crescer. Mas Adam não era Vause, era Adam e somente isso.
A mão mais uma vez fraquejou e ele desejou que a outra ainda funcionasse, queria largar o peso daquela coisa sobre qualquer um. A pistola agora pesava uma tonelada, estava carregada com culpa e dor, prestes a explodir seu veredito sobre a vida de um inocente.
— Onde eu estou? — O que era Vause naquele corpo falou, a voz era arrastada e rouca, carregava sofrimento — por que... você está apontando uma arma para mim?
A voz do homem atingiu-o ainda mais forte que os socos do nível 2, quebrando alguma coisa que ele ainda tentava conservar intacta. Adam não respondeu. Não conseguiu nem mesmo fechar o único olho que tinha aberto, seu corpo estava rachado, trincando cada vez mais rumo aquela verdade avassaladora.
— Adam, você precisa fazer! — exclamou Beatriz — Não sei se chegarei aí a tempo! Se você não o fizer, hora ou outra esse Devorador vai matar Vause e se espalhar para todos os Links dele! Você vai condenar todas essas pessoas!
— Eu não... posso matar uma pessoa.
— Você... vai me matar? — o homem disse, ainda encolhido — Por que?
— Ele não é uma pessoa, não mais.
— Eu não sou um assassino, não estou aqui para isso — A arma fraquejou ainda mais, a mão cedendo com o peso, lentamente —Tem que haver outro jeito!
— Não há outro jeito! — Beatriz gritou em resposta — Você está aí para salvar pessoas, se você não fizer isso, pessoas morrerão! Quantas crianças perdidas você quer que tenhamos, Adam?
— Por favor... por favor.... Não me mate! — implorou Vause — Eu não fiz nada! Eu nem conheço você... eu nem sei como vim parar aqui!
— Não... não... isso é tão errado, tão errado... — Adam olhou para trás, para o rosto horrorizado de Emily, ela estava chorando. Os lábios dela se moveram e ele entendeu como a recusa para o que ele deveria fazer. Não.
— Minha família? Cadê minha família? O que você fez com elas? — Vause se aproximou, as mãos quase tocaram Adam, mas ele recuou erguendo a arma novamente.
— Eu preciso... — Ouviu-se um estalar de ossos e o corpo do homem se torceu para trás, ele urrou e naquele momento era difícil saber o que ainda era Vause e o que era o Devorador. A pele das costas rompeu, liberando tentáculos agitados que se revolviam, o homem gritava, implorava por ajuda.
Destroçado da pior forma possível, Adam firmou a arma na mão, mas o dedo não pressionou o gatilho. A visão ficou turva e ele se recordou de todo o ódio que sentiu pelo Devorador minutos antes, por todas as vidas que ele já havia tirado. Agora ele entendia e fazia isso perfeitamente bem. Era diferente quando era ele do outro lado do muro, quando o alvo não era um completo desconhecido, mas alguém que ele conhecia tão bem, mesmo em tão pouco tempo. A hipocrisia humana que ele também carregava consigo, anunciou sua presença vitalícia. Se fosse um completo estranho, um homem sem passado ou futuro, teria ele puxado o gatilho? Teria sido mais fácil? E se fosse Eriza? Naquele momento ele viu Beatriz, os olhos vermelhos cheios de lágrimas, a arma apontada para aquele rosto indecifrável e Alice, estampava o mesmo sorriso de sempre, doce, puro, inocente como uma criança. Ela era uma assassina, ambas eram, assim como ele também seria ao puxar aquele gatilho, encerrando a vida de Herman Vause. Mas se ele não o fizesse... condenaria todos os Links, sua mulher, sua filha. O Devorador provavelmente o mataria, assim como mataria Emily, então tudo se tornaria em vão. Não puxar o gatilho... não o tornaria um assassino também? Mas não podia matá-lo... pois havia visto o mundo por seus olhos, havia vestido a pele dele assim como o Devorador fazia naquele momento. Matar aquele homem seria como matar a si mesmo. E naquele instante não era mais Vause, mas ele quem implorava pela própria vida com os olhos cheios daquela lama negra. Não havia mais nada que o separasse daquelas lembranças, não havia mais barreiras.
Ouviu Beatriz, a voz clara como cristal. Algo havia agarrado seu corpo, era confortável, era o que ele queria, que Vause sobrevivesse para voltar para sua família outra vez. Mas aquela coisa que se remexia dentro dele as vezes, aquela que dizia que ele não pertencia a lugar nenhum, estava acordada e jamais dormiria novamente. O que quer que Adam tivesse sido, era diferente agora.
Abriu os olhos no exato instante que Beatriz avançava ao seu lado, seus olhos lindos eram vorazes, porém frios, como se toda a doçura que possuíam tivesse esvaído em algum momento. Havia algo enrolado no corpo dele, tentáculos escuros e finos, como vasos, grudados em seus braços. Vause.
— Por favor... me ajude.
A lâmina negra da espada de Beatriz entrou pelo peito do homem, deslizando macia pela carne, o movimento vertical dividiu seu corpo, os olhos suplicantes foram cada um para um lado, as lágrimas negras manchavam seu rosto escurecido. Um segundo golpe e o corpo mutilado tombou, o sangue jorrou para todos os lados e os órgãos que não eram mais humanos se espalharam pelo chão. A massa amontoada de carne, fios e sangue não era mais nada, não era mais humano, nem Devorador, muito menos Herman Vause.
Adam estava ajoelhado, olhando para o rosto frio de Beatriz coberto de sangue, seus olhos eram indecifráveis, mas ele podia ver o medo neles, podia senti-lo no próprio corpo. Ela arfava, ainda segurando a espada na mesma posição, como se estivesse congelada entre o tempo e o espaço, um momento infinitesimal do que sentia por dentro. Olhou para a própria mão, coberta de sangue, não o seu sangue. E na pilha de tecidos mortos que havia sido Vause, ele ainda pode reconhecer os olhos, os malditos olhos suplicantes. Apertou a mão na boca para impedir o grito que nunca surgiu.
A ele, nunca foi dada a escolha.
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