Usuário Final
5 Antes de dormir 2:1
Notas iniciais
Antes de dormir 2:1
— Rapaz? Ei rapaz?
Adam piscou rapidamente e em sua frente, uma simpática senhora de cabelos grisalhos e óculos tão grandes, que faziam seus olhos ficarem do tamanho de bolas de tênis, o observava com um sorriso tímido.
— Sinto muito. — desculpou-se Adam, passando rapidamente os últimos produtos pela caixa registradora da loja de departamentos em que trabalhava depois da aula. O movimento de clientes no Wikimart estava bem fraco naquele dia e Adam agradeceu por aquilo, já que os outros três caixas estavam fechados. Sua atenção estava dispersa, ele não conseguia focalizar direito o que deveria fazer a seguir e as imagens daquela cidade escura ainda corroíam seus pensamentos. Isso para não mencionar as criaturas sorridentes, as quais ele fazia o possível para não lembrar.
— Seu rosto está sangrando... você se envolveu em alguma briga? – perguntou a senhora, apontando o dedo em direção ao seu rosto.
— Oh droga... — resmungou Adam, pegando um lenço salpicado de vermelho do bolso e o pressionando contra a ferida no rosto, causando uma dor aguda. – Sabe quando eles dizem que você não deve usar facas sem a supervisão de um adulto? Há um bom motivo para dizerem isso.
Os dois riram enquanto Adam terminava de fechar a conta da senhora a sua frente. Ela lhe pagou com notas lisas e novas, acompanhadas de três balas mastigáveis, as quais ele agradeceu cordialmente. Enquanto a mulher se afastava, ele teve a impressão de já tê-la visto antes. Mais uma vez sua mente lhe pregava peças, pois provavelmente ela fazia compras naquele lugar três vezes por semana, não havia nada de sobrenatural ou místico naquilo. Os eventos daquele dia o estavam enlouquecendo, tinha que ser. Adam não sabia explicar o que estava acontecendo, ele não tinha a quem contar e mesmo se tivesse, quem acreditaria?
Abaixou-se e retirou uma cartela de analgésicos da gaveta do caixa, engolindo em seco dois comprimidos de uma só vez. Desde que sairá da escola, já havia tomado mais de três, mesmo assim, ainda sentia a cabeça pulsar e latejar com uma dor incomoda e desagradável.
Mais uma vez, agradeceu pela loja estar vazia. Por mais que as pessoas da escola falassem mal daquele emprego, sobre o quão degradante era trabalhar numa loja de departamentos, Adam gostava daquele lugar, das mesmas trinta músicas repetidas vez após outra, do cheiro de desengordurante de limão que o zelador sempre usava pois o lembrava de sua falecida esposa, de todas as histórias de clientes e casos estranhos ocorridos nos corredores, até mesmo o gerente da loja era uma boa pessoa. O trabalho, diferente do que era para todas as outras pessoas, era o refúgio de Adam, onde o tratavam bem e não com todos aqueles olhares que ele tanto detestava. Por mais cansado que ele ficasse ao fim do dia, era raro ele não voltar para casa com um sorriso no rosto, como o que tinha naquele momento, olhando para as três balas na sua mão. Comeu uma de frutas e esperou pacientemente, mas não havia nenhum cliente determinado a encerrar suas compras. De repente, a visão periférica captou alguém. Adam não viu o rosto, mas parecia alguém que ele conhecia muito bem. Seus olhos pareciam tê-lo traído por um instante, quando ele percebeu de relance um capuz branco desaparecer por um dos corredores. Ele se ergueu na cadeira, tentando espiar o mais longe que aqueles olhos cansados poderiam alcançar...
— Adam!
Com o susto, Adam escorregou na cadeira e bateu dolorosamente a mão no caixa, estremecendo o móvel inteiro.
— Nossa... você tem que ficar mais atento, hein? – zombou sua irmã, Eriza, parada em frente a esteira de compras do caixa. Os cabelos recém-pintados de azul, estavam enrolados em um rabo de cavalo mal feito, a maquiagem parecia ter desbotado com o passar das horas. Seu rosto era delicado como uma boneca de porcelana, com as maçãs rosadas e olhos cor de grafite, grandes e expressivos. – Se eu fosse uma cliente, você estaria ferrado...
— Você quase me matou de susto! – reclamou Adam, segurando a mão dolorida – Você não devia estar no trabalho?
— Eu fugi. Mas só um pouquinho, já já eu volto! Tipo... amanhã...
— Eriza você não pode simplesm...
— Ei isso são balas? – Interrompeu Eriza, pegando as duas balas restantes da mão de Adam – Adoro essas! Valeu por deixar a de morango pra mim!
— De nada...
— Vou pegar um extra lá no Jens hoje a noite. Sempre fico acabada quando trabalho lá, por isso saí mais cedo. A Caren vai me cobrir, então não vou ser demitida. — se justificou Eriza sentando em cima da esteira de compras, de forma que ficasse de frente para Adam.
— Eriza, se o Hugo pegar você sentada aí eu vou ter problemas.
— Vai não. Ele me acha gostosa – disse confiante, se inclinando para trás e se apoiando nas mãos – Mas ele é muito bundão para admitir. Se ele aparecer aqui, provavelmente vai fingir que eu nem existo e suar frio enquanto fala com você.
Adam gargalhou e limpou o rosto, que voltara a sangrar. Por alguma razão, a ferida não queria se fechar e o sangue continuava fluindo como se alguma coisa ainda estivesse no ferimento. Por um instante ele havia esquecido de tudo o que acontecera, a presença de Eriza era sempre reconfortante, seu comportamento por mais diferente que fosse do seu, era divertido e dava a Adam uma sensação de liberdade. As vezes, ele desejava ser igual a irmã, mas lhe faltava muita coisa para ser tão impulsivo.
— Meu Deus Adam! O que você fez ai? – Preocupou-se Eriza, se inclinando na direção de Adam e segurando seu rosto com as mãos – Onde você se cortou?
— Fazendo a barba. — mentiu descaradamente.
— Fazendo a barba, é? E somos irmãos desde ontem a noite, por um acaso?
— Anteontem.
— Você já limpou isso?
— Sim, limpei – respondeu Adam, apertando o lenço no rosto novamente.
— Não use isto, está sujo. Espera aí.
Eriza foi até uma das prateleiras no fundo e pegou uma cartela de curativos, rasgando a embalagem antes mesmo que Adam pudesse dizer a ela, que teriam que pagar por eles primeiro. Ela limpou o ferimento com um lenço limpo, e colocou dois curativos, colados desajeitadamente sobre o machucado.
Enquanto ela tentava colar uma das abas, Adam olhava diretamente em seus olhos. Apesar de ser bem mais velha do que ele, ela parecia uma criança, era doce e brincalhona e ele poderia descrever uma infinidade de coisas sobre ela, apenas olhando em seus olhos, com aquela cor que lembrava nuvens de chuva. As vezes, pensava que a conhecia melhor do que conhecia a si mesmo.
— Você por um acaso já olhou para uma garota desse jeito? – perguntou Eriza, se afastando mas ainda olhando diretamente para Adam.
— Como?
— Tenho certeza que qualquer garota ficaria derretida por esse olhar sexy que você tem!
— Por favor... de novo não... — reclamou Adam, tocando de leve o curativo, percebendo que estava completamente torto.
— Você deveria parar de andar sozinho por aí e arranjar uma namorada, afinal, você é um cara legal, é gatinho, me pergunto por que ainda tá sozinho!
— É por escolha própria. E como está a Ashley? – respondeu, mudando de assunto logo em seguida.
— Nós terminamos, você sabe.
— De novo? É a quarta... ou quinta vez só esse mês! – zombou Adam, balançando a cabeça negativamente.
— A gente vai voltar de novo, ela é igual a você. Não vive sem mim!
— Por Deus... pelo menos ela é mais legal que a dançarina do Jens.
— Você nunca vai esquecê-la, né?
— Ela quebrou meu celular achando que era seu! Aquela garota é pirada! – respondeu Adam, em meio a uma gargalhada.
— Sim, mas você tem que admitir que ela era muito gata! Oh! Eu adoro essa música! – gritou Eriza, dando uma pancada no caixa e começando a cantarolar a melodia, fazendo caras e bocas, como se estivesse num show de rock. A melodia chamada “End User” era lenta e bonita e toda vez que Adam a ouvia, lembrava-se de Eriza. Era sua música, pensava.
— Eu gostava mais antes de escutá-la o dia todo... — disse Adam, sorrindo com um falso desânimo na voz e se perguntando se uma música lenta deveria ser cantada daquela forma num show.
— Antes da música terminar, um sujeito esguio, de cabelos lisos, alinhados meticulosamente para trás, que parecia olhar para o chão o tempo todo se aproximou do caixa de Adam. Imagina-se que os gerentes tivessem um ar opressor, uma presença marcante e fossem capazes de impor a ordem no recinto de trabalho, porém Hugo era completamente diferente desse estereótipo, talvez por isso mesmo que Adam e a maioria dos funcionários, gostavam dele.
— Você já pagou por isso? – perguntou Hugo, apontando para a embalagem de curativos largada sobre a esteira rolante.
— Hugo... oi... — respondeu Adam, sem jeito. Eriza, ainda sentada na esteira, se inclinou para trás, cruzando as pernas e Hugo pareceu desviar os olhos dela. – Vou fazer isso antes de fechar o caixa.
— Me dá aqui... – Hugo apanhou o restante dos curativos e os enfiou no bolso – Vai para o relatório de perdas. O Danilo se cortou na máquina de frios de novo. Isso aqui não vai adiantar, mas serve para ele parar de jogar a culpa na Fran e calar a boca.
— Ok... — respondeu Adam, lançando um olhar severo para Eriza, que abriu um sorriso ainda mais largo, enrolando de forma sensual, uma mecha do cabelo nos dedos. – Hum... O movimento tá tranquilo por aqui hoje, né?
— Parece que ninguém gosta de sair de casa em dias assim. Que sorte já que você está sozinho, hein?
— Não exatamente... – Eriza sussurrou melodiosamente, olhando diretamente para Hugo, que parecia evitar de olhá-la nos olhos. Uma fina gota de suor escorreu pela testa dele.
— Pois é... — respondeu Adam, tentando segurar o riso.
— No final do mês vamos fazer uma festinha com o pessoal, já que vamos fechar tudo para o balanço mensal. Temos umas duas caixas de bebida... que estão no relatório de perdas há séculos... Ei você é maior de idade, né?
— Já tenho 18, Hugo... e que Deus abençoe o relatório de perdas.
— Assim que se fala! Você vai, não é? – perguntou Hugo, parecendo animado.
— Sinto muito, mas acho que...
— Ele vai sim. — disse Eriza incisivamente. Adam a fitou com reprovação enquanto Hugo, olhava de relance, desviando logo em seguida.
— Você não pode simplesmente decidir por... — começou Adam, para novamente ser interrompido por Eriza.
— Você vai sim, você quase nunca sai para se divertir. Hugo, ele vai.
— Hum... então... você vai ou não?
— Ah... claro. Contem comigo. — respondeu por fim, suspirando. Eriza fechou o punho e deu um soco no ar em comemoração.
— Que bom! O pessoal vai ficar animado, já que você nunca participa de nada. Agora deixe-me levar isso até o Danilo antes que a Fran termine de matá-lo... e cuide dessa ferida no rosto! Se infeccionar pode assustar os clientes!
— Pode deixar! – respondeu Adam, acenando enquanto Hugo se afastava.
— O bebê da irmanzinha vai para uma festa! – comemorou Eriza, saltando de cima da esteira.
— Você não tem jeito não é mesmo?
— Claro que não. Ei, já tenho que ir, está tarde! Nos vemos de manhã?
Eriza deu um beijo barulhento na bochecha sadia de Adam e saiu, mas não sem antes voltar e arrancar um pacote de chicletes, que ficava numa gôndola próxima ao caixa.
— E Deus abençoe o relatório de perdas! – disse enquanto saía, guardando o pacote no bolso do casaco.
Fale com o autor