Usuário Final

3 Acorde, Adam 1:2


Notas iniciais
Que bom que ainda estão aqui! Obrigado por todo o apoio, pelos comentários e mensagens motivadoras que andei recebendo de todos vocês! Jamais imaginei que essa história iria alcançar tantas pessoas! Boa leitura a todos!

Adam levantou assustado, quase saltando de sua cama, com a mão involuntariamente apertando a barriga. Havia sido um sonho e mais uma vez ele estava morto. Já havia perdido as contas de quantas vezes aquilo acontecera. A criatura o apunhalando com as garras e ele, rastejando pelas ruas escuras e desertas para logo depois morrer, enquanto a monstruosidade continuava sorrindo diabolicamente.

Ele olhou com um certo temor para o relógio do celular e as horas estavam todas lá, onde sempre estiveram. Indicadores em uma tela LED marcavam 6hs da manhã. Não havia nada de errado com elas.

É claro que havia sido apenas um sonho.

Mas mesmo apesar de toda a bizarrice daquilo, era o fato de que tudo pareceu real que mais o assustava. Como a sensação de dor que ainda permanecia viva em sua memória como uma lembrança, não um sonho. E a garota? Aquela havia sido a primeira vez que ela aparecera no sonho, mas seu rosto era estranhamente familiar... mesmo que não conseguisse se lembrar dele! Tentou de todas as formas, até mesmo associá-lo a alguém conhecido como sua irmã ou alguma garota da escola, mas não obteve sucesso. Um desconforto crescente arranhava o peito, uma agonia silenciosa e desconfortável, uma tristeza sem fim.

Por que se sentia daquela forma? Como se houvesse perdido algo? Como se de fato tivesse conhecido aquela garota, mas assim como no sonho, ela havia partido e o deixado sozinho naquele ponto de ônibus. Tentou a todo custo afastá-la da memória, mas não conseguiu. Mesmo sem lembrar de seu rosto, suas palavras ainda queimavam dentro dele.

Eu preciso que você faça uma coisa por mim, Adam.”

Adam respirou fundo e tentou seguir em frente, afinal, o dia estava apenas começando. Uma infinidade de possibilidades surgiriam para afastá-lo do sonho e daquela garota. Deixou tudo para trás, para que as horas se encarregassem de apagá-la. E o relógio seguiu seu curso em silêncio.

No final das contas, foi apenas um sonho. Somente isso.

Naquela manhã, Adam tomou um banho rápido e foi até a sala de jantar, onde seu café já estava pronto. Biscoitos e uma xícara grande de café bem forte, acompanhados de um bilhete pedindo que ele comprasse alguns itens críticos, produtos de limpeza e leite. Mais uma vez, sua irmã saíra antes dele, como já vinha fazendo há semanas. Ainda estava se acostumando com a situação, a ideia de ficar sozinho no pouco tempo em que passava em casa ainda o incomodava um pouco. Adam não tinha muitos amigos, tanto no trabalho quanto na escola. Na verdade, se parasse para pensar a respeito, algo que ele jamais faria, perceberia que não tinha nenhum. A única companhia constante que possuía era da irmã, que agora tinha um segundo emprego para segurar as responsabilidades da casa, tornando sua vida solitária ainda pior. As vezes, a via apenas durante a noite ou nos poucos momentos em que seus horários se encontravam. O recorde de encontros foi na semana anterior, onde se encontraram em casa por três vezes e ainda conseguiram assistir a um filme juntos.

Os dois moravam sozinhos desde que Adam tinha 10 anos, quando a irmã conseguira uma autorização para cuidar dele e administrar os bens da família após o falecimento de seu tutor. Seus pais morreram cedo, Adam nunca chegou a conhecê-los a não ser pelas fotografias espalhadas pela casa. Eriza sempre falava deles com um certo carinho e ele sempre se perguntava ao ouvir as inúmeras histórias que a irmã tinha a contar, como seus pais deveriam ter sido, ou mesmo como sua vida teria seguido se eles ainda estivessem vivos.

Ainda sentado na mesa, ligou a TV na sala de estar, onde o noticiário exibia os acontecimentos do dia anterior numa espécie de retrospectiva. Acidentes. Crimes dos mais variados. Algum produto teria seu preço aumentado. Uma empresa chamada “COM” alguma coisa lançava um revolucionário novo “gadget”. Quando a matéria que gostaria de ver foi anunciada, Adam aumentou o volume. Na tela, uma repórter charmosa conversava com um homem de jaleco branco, que parecia não dormir há semanas.

“O que os médicos sabem a respeito da Síndrome de Aurora até agora?”

“Sabemos que esse ainda não é o nome real da doença e como já foi falado diversas vezes, estamos totalmente às cegas no momento. A única informação que sabemos é que ela leva as vítimas a um estágio de coma profundo durante o período REM do sono. Não temos como examinar um paciente que possuí a síndrome em estágio dormente, pois não sabemos identificar os sintomas que a causam.”

“Então os sintomas de fadiga, comportamento fora do comum, falta de atenção e insônia não seriam referentes a essa doença, como os centros de saúde estão informando?”

“De maneira alguma!” — exclamou o homem, balançando a cabeça negativamente — “Alguém disseminou uma informação da qual não temos nenhum tipo de confirmação ainda. Isso só está causando um grande aumento no número de pacientes nos hospitais, afirmando estarem com a síndrome. Estamos trabalhando para evitar que essas falsas informações atrapalhem o desenvolvimento das pesquises e atrase a identificação dos pacientes que realmente estão doentes.”

“Na última semana, mais de trinta pessoas entraram em coma, vítimas da Síndrome de Aurora. O que o Sr. acha desse aumento alarmante dos casos? — perguntou a repórter.

“O que podemos garantir no momento é que não é transmissível por nenhum vetor conhecido. Sabemos que a população já está assustada com tudo isso, mas ainda estamos trabalhando para investigar as causas desse aumento nos incidentes e obviamente que ninguém deve se preocupar...” — respondeu o homem de jaleco, parecendo ainda mais cansado.

— Uma ova que não deve! — resmungou com seus botões, enfiando um biscoito inteiro na boca e desligando a TV. Aquele era o assunto do momento, na escola, no trabalho, no ônibus, em todos os lugares as pessoas comentavam e de certa forma, temiam em ser a próxima vítima. Adam fazia o possível para não pensar a respeito, mas a ideia de adormecer para sempre o assustava e muito, ficar preso em um mundo de trevas tendo apenas sua consciência como companhia, ou pior não parecia o tipo de destino mais agradável. Ao pensar nisso sentiu uma fisgada na barriga e se lembrou que nos últimos dias, em todas as noites seu destino não havia sido nada agradável.

Adam se arrumou vagarosamente, se rendendo as lembranças do sonho que o corroíam por dentro, levou mais de cinco minutos para calçar cada bota. Pegou sua mochila, a lista de compras e saiu.

Na porta do apartamento ao lado, sua vizinha tentava desajeitadamente abrir a porta, enquanto segurava uma pilha de caixas de papelão. Seus cabelos eram de um tom que um dia já havia sido vermelho ou laranja, mas que agora lembrava cor de água suja e de fato, eles não pareciam limpos. Sua expressão era cansada, com profundas olheiras que deixavam um rastro acinzentado ao redor de seus olhos. A mulher olhou para ele com olhos suplicantes e um aperto em seu peito quase o forçou a oferecer ajuda, mesmo assim ele não o fez. Ficaram se olhando por um instante que de tão desconfortável, pareceu durar minutos. Quando ela finalmente conseguiu abrir a porta, lançou a ele um sorriso simpático e desajeitado, que ele retribuiu ainda mais sem jeito. Assim que fechou a porta, Adam tropeçou numa caixa amassada, embrulhada desajeitadamente em papel pardo que havia sido largada em cima do seu capacho. Olhou ao redor e o corredor silenciosamente vazio lhe deu as boas vindas. O carteiro não subia até o sétimo andar para entregar correspondências. Adam se abaixou cautelosamente como se aquilo fosse algum tipo de “pegadinha” e apanhou o pacote, que era demasiado leve.

Para Adam,

IMPORTANTE! ABRA ANTES DE DORMIR

Seus olhos estremeceram de irritação com o que estava lendo e um misto de curiosidade e indignação se passou em sua mente. Aquela deveria ser a quarta ou quinta mala direta que ele recebia somente naquele mês! Já havia recebido propostas de cartões de crédito com supostos prêmios imaginários, ofertas de empregos com lucro imediato e até brindes inúteis, que serviam apenas para fazer propaganda de um produto melhor, do qual ele definitivamente não queria. Mas teve que admitir que eles haviam se superado. Abrir antes de dormir? O que seria agora? Uma oferta de pijamas para a vida toda por míseros $999,99? Criatividade e paciência tinham limite e Adam já havia chego a pelo menos um deles. Abriu a porta novamente e largou a embalagem na lata de lixo, dessa vez nem perderia seu tempo.

Notas finais
Então como estou me saindo? Como esse capítulo acabou meio abrupto, pretendo postar a próxima parte mais cedo, possivelmente ainda essa semana! Obrigado por lerem e até a próxima!