Eram duas e meia da manhã e a rua estava praticamente deserta, e lá estava eu, sentado em um dos degraus de um bar qualquer.

Não queria pensar em nada, pois tinha certeza de que qualquer coisa que eu pensasse naquele exato momento iria me fazer lembrar de casa. A última coisa que eu queria, era lembrar daquele lugar repugnante do qual eu tinha coleções de lembraças ruins, e a cada dia que passava eu ia ganhando mais delas.

Eu estava exausto, sentia que a minha cabeça ia explodir, pensando bem isso não seria ruim, se a minha cabeça explodisse eu ia ter um motivo para não voltar pra casa.

A única coisa que me motivei a fazer foi fumar. Tirei a carteira de cigarro barato do bolso da jaqueta de couro e o esqueiro. Peguei o último cigarro da carteira e o acendi.

Aproveitei ao máximo a ótima sensação da primeira tragada, deixando escapar por entre meus lábios uma espiral de fumaça. Depois de mais algumas tragadas decidi ir andando, até que...

- Uruha, é você?

-Eu mesmo... No que posso ajudar?

Virei-me e me deparei com a imagem de um menino moreno, poucos centímetros menos que eu, que me encarava com um grande e belo sorriso estampado no rosto como se me conhecesse a anos.

- Sou eu, Aoi! Fui seu colega no tempo do colégio, lembra-se?

Tempo do colégio?

Ah, aqueles sim eram bons tempos... o tempo em que eu era feliz...

Eu, então, o olhei de cima a baixo, fazendo um grande esforço para lembrar-me daquele garoto sorridente... mas não consegui! Preferi fingir que o conhecia:

- Oh, sim! — Fui até ele e apertamos as mãos. — Quanto tempo, cara!

- Séculos! — respondeu-me ele ainda sorrindo. — Eu já estou fechando o bar, não gostaria de beber algo?

Eu estava exausto e com apenas menos da metade de um cigarro... sem dúvidas era um convite tentador.

- Eu adoraria, mas não tenho dinheiro!

- Eu pago... pelos velhos tempos.

Entramos, então no bar. Sentei-me enquanto Aoi terminava de fachar o estabelecimento e pegava uma garrafa de cerveja e dois copos. Sentou-se ao meu lado, abriu a garrafa e despeijou a bebida em boa quantidade em ambos os copos... Decidi perguntar algo antes que ele começasse a falar:

- Então amigo, o que faz da vida?

- Ah, eu estou trabalhando aqui no bar do meu pai... [...]

Ele começou a me contar o que fez da vida depois do colégio. E enquanto ele falava eu tentava me lembrar dele... Seria impossível não lembrar daquele sorriso tão belo.

Por um outro lado, eu tinha receio de que ele me perguntasse "E você, o que fez da sua vida?'', se ele o fizesse eu não saberia como responder. Comecei a olhar para um ponto fixo sem relamente prestar atenção no que o garoto dizia. Ele acabou notando o meu olhar vazio.

- Uruha, você está bem?

- O quê? Estou sim... — respondi enquanto esfregava meus olhos.

- Você está com uma aparencia cansada, eu passei a noite toda enchendo seus ouvidos de coisas que não te interessam — riu-se — , você deve estar querendo ir embora!?

- Eu, cansado? Capaz! Você é quem deve estar cansado, trabalhou o dia inteiro!

— Eu fiz hora extra no trabalho ontem, estou um pouco cansado sim. — Disse ele enquanto tirava o avental. — Escuta Uruha, já é tarde e a essa hora não tem nenhum ônibus, nem táxi rodando, você não quer passar este fim de noite aqui comigo?

- Como assim? Sem nenhum jantar romantico antes?

Aoi em olho com cara de interrogação e eu fiquei meio sem graça. Tive medo de que ele não tivesse gostado da 'piadinha' que fiz. Mas então, a cara de interrogação dele, converteu-se em um sorriso.

- Se não quiser dormir, apenas fique e me faça companhia, sim?

Eu pensei em recusar gentilmente, mas só de pensar em deitar meu corpo cansado em uma cama que nem precisava ser confortável... Eu aceitei. Fomos até um comodo atrás do bar. Havia lá uma cama, um sofá e uma TV antiga. O lugar era simples mas em dava uma incrível sensação de conforto e o ar era tão convidativo e relaxante. Assim que entramos, sentei-me na cama que era bem confortável, nem grande, nem pequena.

Aoi entrou por uma portinha e ficou poucos minutos. Saiu de lá de bermuda e sem camisa. Deitou-se no sofá e ficou me olhando.

- Seu pai não vai brigar com você por causa da bebida? — perguntei.

- Não. O velho não me paga muito bem... eu pego as bebidas como se elas fossem um "bônus" pelo meu trabalho mal pago.

- Entendi. E você trabalha aqui todos os dias?

- Eu trabalho sempre que o bar fica aberto.

- E o que você faz quando ele não está aberto?

- Eu não tenho amigos e não gosto de sair sozinho... Eu fico aqui mesmo...

- Fazendo o que?

- Estudando.

- Estudando?

Me espantei com a resposta dele.

- Sim, eu tenho que estudar se eu quiser realizar o meu sonho.

- E eu posso perguntar qual é o seu sonho?

Nós rimos.

- Eu quero ser médico.

- Médico? Não acha chato ter que ficar cuidando de gente doente?

- Não acho. Eu prefiro pensar que vou estar ajudando as pessoas e não que elas vão ser um peso pra mim!

- Só serão um peso pra você, se elas forem obesas!

Nós rimos novamente. E muito. Ao fim dos risos eu bocejei e ele me olhou parando completamente de rir.

- Está com sono?

- Um pouco.

- Vamos dormir então?

- Pode ser.

- Boa noite!

- Pra você também.

- Fique a vontade e se precisar de mim, eu estarei aqui no sofá. — ele riu e eu acabei rindo junto.

Aquele sorriso dele era tão belo! Eu poderia passar a noite inteira ouvindo ele rir.

- Ok!

Deitei-me e olhei para o teto. Alguns minutos depois cobri-me com umas cobertas que estavam estendidas na cama e adormeci.

No dia seguinte eu não sabia ao certo onde eu estava. Mas aí eu olhei para o moreno atirado no sofá, adormecido, com um piercing no lábio inferior e com a franja caindo no rosto... Meus olhos se fixaram naqueles grandes e belos lábios e eu lembrei-me daquele belo sorriso que eu poderia passar o resto da minha vida ouvindo.

Tive vontade de ajeitar a franja dele mas tive medo de que ele despertasse antão, fui até o balcão e peguei um bloquinho, onde certamente ele anotava os pedidos, e uma caneta. Escrevi um bilhete, e joguei em cima da cama.

Aproximei-me do garoto adormecido, ajeitei sua franja, em seguida beijei-lhe a testa e saí.

No bilhete estava escrito:

' Dá próxima vez eu pago.

- Uru ^o^ '

Notas finais
He :B
Foi um capítulo emprovisado porque o original foi estraviado Ç_Ç
Então espero que tenham gostado...
Daqui a pouco eu posto o capítulo 2!
bj <3