Notas iniciais
História em 3 capítulos também postada no Spirit

Era um dia de festa na mui nobre residência dos Black. No Largo Grimmauld, número doze, senhoras e senhores da alta sociedade bruxa transitavam com suas taças de champagne em mãos sem de fato se importarem com o motivo de comemoração. Era apenas outro casamento, mais uma entre centenas de alianças que tomariam conhecimento ao longo da vida. Assim como os Black, os Malfoy faziam parte de um círculo exclusivo entre as famílias puro-sangue. Uniões como aquela eram comuns não só entre os Sagrados Vinte e Oito — famílias que preservaram a pureza de seu sangue, sem misturá-lo com o dos trouxas — como também entre os bruxos em geral. Portanto não era motivo de choque que Lucius Malfoy e Narcisa Black fossem se casar. Exceto para uma pessoa.

Sirius Black era primo de Narcisa e não estava nada contente com a união. Os boatos sobre Lucius eram os piores, e ele sabia bem que tinham lá seu fundamento. Sirius se enfurecia só de lembrar do quão corretos estavam, na verdade. O herdeiro dos Black era um homem experiente, mesmo que com apenas dezenove anos de idade. Era um grifinório por natureza, tendo como principais características a coragem e lealdade que eram símbolos de sua casa em Hogwarts. E era por isso que ele não podia aceitar aquele ultraje. A cerimônia marcada para o início da noite seria um marco de desgraça, algo que só traria degradação para todos os envolvidos.

Lucius Malfoy nasceu poucos meses antes do grifinório e era prepotente, egoísta, rude e ambicioso. Olhando ao redor e tentando parecer entediado em vez de inconformado, Sirius pensou que não era isso o que queria para a prima. A família Black já não tinha muitos membros, e o rapaz temia pelo futuro de sua geração que consistia basicamente nele mesmo, seu irmão Régulus e as três primas. Bellatrix era a mais velha entre as irmãs, sendo seguida por Andrômeda e Narcisa. Todas eram tão diferentes entre si quanto possível. Bella tinha o temperamento intempestivo e extravagante, não medindo esforços para conquistar seus objetivos. Ela não tinha escrúpulos. Andrômeda sequer parecia pertencer a família, pois não poderia se importar menos com toda a hierarquia da sociedade bruxa e a suposta pureza de sangue imposta por ela. Já Cissa…

Narcisa Black sempre foi um caso à parte. Nem mesmo as irmãs que cresceram com ela sabiam como decifrá-la. A moça de dezoito anos era contida, sorria por educação e jamais cometeu a menor das gafes em público. Em pensamento Sirius costumava chamá-la de Princesinha Imaculada, já que a prima não parecia ter sequer um defeito. Além de errado, aquilo era inaceitável em tantos sentidos… Só não podia ser real. Mas no jogo que era a sobrevivência em sociedade, realidade era artigo de luxo: extremamente valiosa e difícil de encontrar. Ele não podia deixar que o dinheiro e a linhagem estragassem tudo aquilo.

Saindo de seu lugar escolhido estrategicamente para observar sem ser observado, o rapaz vagou pela mansão reparando em todos. Seus modos, vestes, todo e qualquer sinal que pudesse delatar algo. Nada encontrou. Tentava apenas distrair-se, não pensar nos segredos que sabia. E por falar em segredos, pela visão periférica captou um movimento atípico. Em uma festa da alta sociedade, os gestos eram contidos para sempre expressarem graça. Exaltar a elegância era dever de todos que foram agraciados com um bom sobrenome. Sirius odiava tudo aquilo. Então quando Alice Travers passou praticamente correndo a poucos metros dele, o jovem assistiu com interesse.

Alice foi sua companheira de casa enquanto estudaram na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, e também carregava o fardo de pertencer a uma família de renome. Assim como o Black ela sabia que ao invés de uma bênção, como muitos encaravam, nascer em uma daquelas famílias era uma maldição. Os dois não eram muito próximos no castelo, mas se cumprimentavam cordialmente sempre que se viam. Isso porque Frank Longbottom, amigo de Sirius, era apaixonado por ela e tentava a todo custo conquistá-la. Por isso foi surpresa para o bruxo ver Alice fugindo de Bellatrix, e não de Frank. O outro sequer deveria estar ali. Afinal, era começo de tarde e nem todos os convidados tinham o hábito de chegar no início das festividades. Por um instante Sirius sentiu-se sufocado com tantas informações, mas logo uma figura imponente chamou sua atenção de modo irremediável.

Como sempre, as vestes de Lucius eram negras como a noite. Ele não abria mão do luto nem no dia do próprio casamento. Das botas de couro de dragão até a capa feita sob medida, nada estava fora do lugar. Sirius demorou-se enquanto subia as vistas, pois tinha plena certeza que também era observado e queria prolongar o momento antes de enfrentar o noivo de sua prima. Quando levantasse o olhar, sabia que duas pedras cinzentas queimando como o fogo do inferno estariam à espreita.

Não era segredo para ninguém que havia um verdadeiro ódio entre os dois, embora velado pelo bem familiar. Vulgo, hipocrisia. Se no dia anterior o Black não tivesse ouvido horas de sermões sobre como se portar naquela festa… Ele jurou se comportar. Tanto quanto pudesse, mas não chegou a se pronunciar sobre essa última parte. Por ora se contentou em saber que muito em breve daria o fora dali e não seria mais obrigado a viver de acordo com aquelas regras estúpidas.

Contrastando com a escuridão de seus trajes, a pele de Malfoy era alva. De uma palidez que beirava o doentio, poderia também remeter a uma candura intocada. Ledo engano. Os cabelos platinados eram lisos e longos, combinando com os de Narcisa como se os dois fossem irmãos. Com seus belos cabelos cacheados que assim como os olhos eram castanhos, Sirius sentiu um incômodo ao vê-lo no alto de sua presunção.

Como esperado, duas fendas o encaravam em desafio. A boca de Lucius exibia um meio sorriso completamente cretino, e o bruxo quis socá-lo por isso. Ele sequer se daria ao trabalho de procurar um motivo válido para cometer a agressão. O outro merecia muito mais. Entretanto, a satisfação sumiu do semblante do loiro que por um momento desviou o seu do duelo de olhares mortais que trocava com Sirius. E o mais novo logo soube o motivo quando Marlene McKinnon o abraçou por trás, beijando-o carinhosamente na bochecha.

— Ah, aí está você. — Disse a garota com sua usual animação. — Pensei que estivesse se escondendo de mim, Almofadinhas.

Sirius xingou-se mentalmente ao sentir que corava por causa do apelido. O pior de tudo era o constrangimento de saber que isso acontecia sob as vistas do rival. Cerrou os dentes, valendo-se do gesto para não praguejar contra a pobre Lene. Era tudo culpa dele, no fim das contas. Se não fosse um dos maiores pegadores de Hogwarts nos últimos anos em que lá estudou, não precisaria de uma espécie de namorada para afugentar as demais meninas que tentavam conquistá-lo. E o grifinório já não queria algo com elas há um bom tempo.

Marlene era uma boa garota, ele sabia que sim. Só era carinhosa demais, quase pegajosa, mas havia escolhas piores. Por vezes o moreno se recriminou ao pensar nela como um mal necessário, mas ao ser vítima de situações como aquela sua solidariedade logo se extinguia. Eram tantos beijos, abraços, carinhos… O bruxo estava irritado, sentia-se contrariado ao extremo. Então por que uma vez na vida não podiam fazer o favor de deixá-lo ser ele mesmo? Mas o rapaz sabia, mesmo sem admitir, que já teve aquela sorte. Se é que poderia chamar assim. Sirius então bufou, sem saber o que fazer. Não tinha certeza se chegaria ao fim do dia sem cometer ao menos um assassinato.

— Há quanto tempo está aqui, Lene? — Perguntou, tentando modular a impaciência na voz. Forçava-se a lembrar que a culpa não era de Marlene, o irresponsável era ele.

— Coisa de vinte, trinta minutos. Tentei ir para o seu quarto, mas encontrei seu irmão no corredor. Régulus parecia prestes a ter um ataque cardíaco.

Então riu, fazendo Sirius se virar para olhá-la com atenção. Havia sempre tanta leveza nos gestos de Lene, no modo que ela levava a vida. Principalmente no sorriso. Ele era sincero e contagiante, fazendo-o esquecer um pouco dos problemas. Esse foi o principal motivo de demonstrar uma certa preferência pela moça, por mais que não namorassem. Ela sorria livremente e isso era magnífico. Chegava a ser hipnotizante a forma que a mulher fechava os olhos e ria de forma genuína, sem se importar com nada além do momento. As pequenas rugas ao redor dos olhos franzidos eram encantadoras, assim como a covinha no lado direito do rosto, que nessas ocasiões fazia o favor de aparecer. Para ele, o mundo se tornava um lugar melhor quando a bruxa sorria daquele jeito, tranquilizando-o quase que instantaneamente.

Os McKinnon tinham sua importância no seleto grupo dos puro-sangue, mas eram considerados traidores por não odiarem os trouxas. Sirius também não tinha nada contra pessoas sem magia, e essa era mais uma razão para ser Marlene ali, rindo de maneira relaxada perto dele. Por um momento o bruxo esqueceu sua indignação inicial.

— Você sabe como minha família é com isso de tradição. Por eles todos nós casaríamos virgens, tanto é que fingem acreditar que realmente somos.

— Narcisa talvez seja. — McKinnon especulou.

Sirius se mexeu desconfortável, já que esse não era um tema sobre o qual gostava de pensar. Com gentileza pôs a mão na cintura da companheira, conduzindo-a para uma parte da enorme sala em que não havia tantos convidados. Só então voltou a falar.

— Cissa é um mistério até para os próprios parentes, minha querida. Mas talvez você tenha razão. — Sorriu com o bom humor que lhe era característico. — Quem em sã consciência teria pressa em ir para a cama com Lucius Malfoy, não é mesmo?

Ela deu de ombros, e isso foi o bastante para encerrarem aquele assunto. O homem, entretanto, lembrou de como chegaram nele.

— Você falava sobre Régulus, Lene. Meu irmão de alguma forma foi rude contigo? Diga a verdade, sabe que não tolero desrespeito.

— Não se preocupe, lindo. Ele não me destratou. — Selou os lábios de ambos rapidamente, só então olhando ao redor para conferir se não prestavam atenção neles. Levemente constrangida, continuou. — Bom, para falar a verdade eu nunca tinha reparado em como é intenso o azul dos olhos do Régulus. Mas eles estavam arregalados por causa do meu aparecimento repentino no corredor do quarto de vocês, então acho que é compreensível. Ele só ficou me encarando de um jeito esquisito, então resolvi te procurar entre os convidados.

Ela sorriu no fim do relato, mas Sirius só aquiesceu ao olhar ao redor da sala de estar como se procurasse algo. Uma inquietação o tomava, e a ansiedade que sentia por tantas pessoas estarem ali só servia para piorar as coisas. Aquele casamento era errado e não deveria acontecer, mas não havia com quem falar para impedi-lo. Tentou resignar-se, então, mas desistências nunca fizeram o seu estilo.

No topo da escada viu a figura taciturna de seu irmão mais novo. Régulus parecia o encarar sem expressão, e distraído pelo nervosismo o jovem deu alguns passos se distanciando de Marlene. Foi quando teve certeza, não era ele o foco da atenção. Um pensamento que julgou impossível passou pela cabeça do moreno, mas quase imediatamente outra constatação tomou seu lugar. O que era impossível, afinal? Quem seria tolo e arrogante o suficiente ao ponto de taxar algo de maneira tão definitiva? Sirius estava certo que não tinha sequer um último resquício de moral para tal.

Foi por isso que caminhou até onde um elfo servia um grupo de senhores com seus narizes empinados e caras de nojo. O semblante de praxe dos imbecis que se julgavam a porra do centro do universo e não admitiam menos que o mundo aos seus pés. Era tão injusto não poder fazer nada contra aqueles porcos… Em vez disso o jovem os ignorou e deu uma piscadela ao agradecer a pequena criatura, pegando dois copos do que julgava ser whisky. Sorveu o conteúdo de um deles antes de se virar. Era isso ou perder de vez a cabeça naquele covil. Em seguida voltou para perto de Lene e pediu que ela se divertisse, pois precisava se ausentar para resolver algo. Enfim subiu os degraus da casa onde cresceu, tomando cuidado para não derrubar o precioso líquido em um esnobe qualquer.

McKinnon não se importou. Ela não bebia e Sirius era um espírito livre, fazia o que bem quisesse quando bem entendia. E estava tudo bem para ela.

O primogênito dos garotos Black foi sorrateiramente até o lugar em que o irmão estava. Perdido em pensamentos, Régulus não notou a aproximação silenciosa. E Sirius ainda se recusava a ser uma serpente, como todos os outros de sua linhagem. O fato é que ficou quieto ao lado de Régulus. Sirius olhou para o andar inferior e viu Bella conversando com Alice, a última claramente exasperada e querendo fugir enquanto a outra não admitia ser ignorada. O bruxo não precisava usar Legilimência ou ouvir o que era dito para tirar suas próprias conclusões. Não era difícil prever o comportamento de Bellatrix, e geralmente tratava-se simplesmente de esperar pelo pior. Esse não era seu foco no momento, embora. Ele sequer pigarreou para anunciar sua presença antes de se pronunciar, assustando o irmão.

— Não pense que não percebo seus olhares para a minha... amiga, Régulus. — Declarou simplesmente.

Não havia ira em seu tom, sequer um vestígio de irritação ou vingança iminente. Para Sirius era uma conversa normal, e em uma não havia sentido deixar os bons modos de lado. Até porque Régulus não fez nada para ferir seu orgulho, ainda mais quando ele e Marlene sequer namoravam.

O mais novo pareceu perder o dom da fala nos segundos seguintes a declaração. O tal olhar arregalado, azul e intenso estava de volta em seu rosto. Régulus empalideceu, desviou o olhar, franziu o cenho, ensaiou algumas palavras que saíram entrecortadas de sua boca… E então desistiu por ora para não gaguejar mais. Não era um péssimo mentiroso, sabia disso. Mas aquele caso era diferente. Primeiro porque a garota que saía com seu irmão o intrigava. E depois… Ele só não sabia. Esse era o problema, ela o deixava confuso. Como mentir ou falar a verdade em uma ocasião dessas, se nem o próprio Régulus sabia o que se passava em sua mente?

Sirius esperou pacientemente e sem um traço de julgamento nas feições. Sem interesse, ele apenas observou Alice e Bella irem sorrateiramente para um corredor com dezenas de salas vazias. Foi tempo suficiente para o rapaz incomodado ao seu lado se recompor.

— Sei que não adiantaria nada negar, tanto é que a verdade está nítida em mim. Mas em momento algum quis desrespeitá-los, Sirius. — Respondeu medindo bem as palavras.

— E qual é a verdade, mano? — Perguntou em um tom cansado.

Régulus abriu e fechou a boca várias vezes, calculando qual seria a melhor resposta. No fim decidiu ser apenas franco.

— A verdade é que nem mesmo eu sei. De algumas semanas para cá venho fingindo que a garota não me incomoda. Em momentos de maior sinceridade me pergunto o que tanto me incomoda nela. Ainda não sei, mas há alguma coisa… — Enfim encarou o irmão. — Algo que parece tão simples, absurdamente óbvio. E de repente ela volta a ser um mistério para mim. É um magnetismo estranho que não consigo explicar, e isso me intriga demais.

Sirius enfim esboçou uma reação que não fosse lacônica. Uma sobrancelha arqueou, assim como o canto dos lábios. O olhar castanho escuro enfim mostrava o que sentia, e arrependido, Régulus viu surpresa ali. Condenou-se mentalmente pelo ocorrido, pois para ele os laços sanguíneos eram o que havia de mais valioso na vida de um homem.

— É interessante o que disse sobre a Lene. — O grifinório disse finalmente.

Ele conhecia bem a sensação e de certa forma ficou satisfeito com a descoberta. Pelo menos para o mais novo a situação poderia ser mais fácil, por mais que o próprio não visse seu estado assim. Ao contrário dele, Régulus talvez conseguisse ficar com Marlene e fazê-la feliz.

— Por favor, esqueça essa história. Eu prometo fazer o mesmo. E acredite quando digo que jamais tive a intenção de desrespeitar quem quer que fosse. Vocês não estão namorando, mas estão juntos de alguma forma e eu prefiro a morte a desonrar um dos meus. Vou parar com isso, família é mais importante que tudo. Eu só estava confuso.

Enigmático, Sirius sorriu ao responder.

— Por que não procura a Marlene e conversa com ela em particular? — Ofereceu a um Régulus completamente aturdido. — Excepcionalmente hoje, faça o que quiser para esclarecer sua situação com ela de uma vez por todas.

— Qualquer coisa? — Perguntou com clara desconfiança.

— Sim.

— O que quer dizer com qualquer coisa?

— Isso o que pensou e muito mais, meu irmão. Como você mesmo disse, família é mais importante. Não quero que passe a vida inteira cheio de dúvidas.

— Por que está fazendo isso? Não pode estar em seu juízo perfeito!

— Não se preocupe comigo.

— Sirius, eu…

Mas Sirius não queria mais saber, deu as costas e foi embora. O irmão parecia gostar da garota que ele saía, por mais que o próprio Régulus não soubesse muito acerca dos próprios sentimentos. E Sirius não era apaixonado por Marlene, por mais que gostasse dela. Então o melhor que poderia fazer no momento era ao menos tentar juntá-los para assim, quem sabe, Régulus amá-la como Lene merecia. Esse parecia um sonho bastante ambicioso, principalmente se tivesse a si mesmo como base, mas o bruxo precisava manter a esperança nos relacionamentos. Mesmo que no dos outros.

Mais uma vez, o homem viu-se sozinho em um canto observando as pessoas. Era ridículo o que estava fazendo. O próprio fato de estar ali era a perfeita definição de perda de tempo. Ainda assim, não conseguia ir embora.

Monstro passou por ele carregando uma bandeja que aparentava estar pesada. Ela estava repleta de bebidas, e o elfo que normalmente já andava curvado agora parecia ainda menor ao tentar equilibrá-la. O bruxo era um defensor de todas as criaturas e não tinha nada contra os elfos domésticos de modo geral, mas odiava aquele em particular. A devoção cega que a pequena criatura dedicava a Sra. Black o angustiava de um modo insano, pois sua mãe foi uma das piores pessoas que Sirius já conheceu na vida. Não era algo que gostava de admitir, mas a realidade não seria alterada por causa disso.

Monstro a adorava e tinha o mesmo hábito de se referir aos outros como “sangue-ruins”, por exemplo. Isso fazia com que Sirius sentisse a pulsão de arremessar algo contra o elfo doméstico. Ele tinha plena ciência que Monstro era assim por culpa de sua mãe e no fundo era só mais uma entre tantas vítimas de todo aquele preconceito, mas isso não o impedia de querer dar uns bons cascudos no elfo, por mais irracional que fosse. Ainda assim, o bruxo rolou os olhos e expirou todo o ar dos pulmões na falha tentativa de se acalmar.

Com a incomum combinação de sinceridade e grosseria no tom de voz, perguntou se o pequeno queria ajuda. Ele negou, o que só serviu para acabar com o resto de sua paciência. Sirius então ordenou que Monstro lhe entregasse a bandeja e fosse descansar por cinco minutos na cozinha da casa, proibindo-o de se castigar.

O elfo cumpriu a primeira ordem, curvando-se de forma exagerada em seguida. O nariz grande e enrugado tocou no chão e fez seu caminho de volta enquanto Monstro ficava em sua usual posição novamente. Ele o encarou com verdadeiro ódio antes de sumir no ar, deixando um estampido como último vestígio de sua presença no local.

O grifinório mais uma vez rolou os olhos, perguntando-se por que infernos fez aquilo. Precisava se controlar, senão o estresse o levaria a uma situação extrema. Com a recém-adquirida bandeja de bebidas desceu alguns degraus antes de, farto de tudo, servir-se sem se importar com ninguém. Pela primeira vez no dia não queria mais saber de nada, e assim passeou pela casa. Passou algum tempo nos jardins, para então voltar para onde vários convidados estavam reunidos. Mas ele não queria ficar na festa. Em vez disso foi para o corredor inabitado no térreo. Lá havia várias salas vazias, enquanto outras estavam abarrotadas com itens que ninguém precisava. O lado bom de morar ali era que sabia onde se isolar para ter um pouco de paz. Afinal, ao menos uma vantagem deveria haver.

O corredor era longo e a cor predominante era a verde. Singelos detalhes em prata ajudavam a decorar o local. Aquilo não era surpreendente em uma casa
cuja maioria dos moradores pertencia a Sonserina, e já nem mais o incomodava. Sirius tinha problemas maiores para lidar. A penúltima porta do lado esquerdo era a entrada de uma sala de estudos abandonada há gerações. A biblioteca oficial dos Black ficava agora no segundo andar da casa e tinha o conteúdo muito bem selecionado. Ao menos sob o ponto de vista dos conservadores. Ansiando por um pouco de sossego, o bruxo abriu a porta com a mão livre e deu de cara com uma cena completamente incongruente.

Bella, sua prima que jamais demonstrava qualquer tipo de fraqueza, agora segurava as mãos de Alice enquanto pedia que ela não fizesse “aquilo”. Sirius não soube de fato sobre o que se tratava, pois estava demasiado chocado com as lágrimas que desciam pelos olhos de Bellatrix.

Com o som que fez ao interromper as duas, o homem enfim teve a atenção de Alice. Essa também parecia estar sofrendo, mas permanecia com uma determinação evidente no semblante abatido. A palavra “término” cruzou os pensamentos do moreno, tão rápida quanto um raio. Ele olhou novamente para Bella. Os olhos inundados estavam tristes, mas inconformados também. Continham toda a força de um potente trovão, e ninguém em sã consciência gostaria de ser alvo de tamanha intensidade. Sirius estancou no lugar, e mesmo que odiasse ter interrompido o que havia entre as duas, não conseguia simplesmente se desculpar e ir embora. Algo o prendia ali, e talvez fosse a melancolia que a cada minuto ameaçava tomar cada um de seus pensamentos. Ele não queria sentir aquilo. Foi até aquela sala para fugir do fim iminente, mas ele estava lá também. O maldito fim estava em todos os lugares.

— Você vai ficar aí? — Perguntou Bellatrix com sua voz estridente.

Uma mão invisível subia pela garganta de Sirius, apertando-a e impedindo-o de respirar ou dizer palavra. Então Bella simplesmente saiu, deixando um rastro de ressentimento por onde passava. Alice o encarou como quem dizia “é isso, é a vida” ao dar de ombros sem jeito em uma falha tentativa de esconder a dor. Falhas tentativas, ultimamente tudo se resumia a isso. Ele já estava farto.

Alguns segundos passaram em que o homem ainda estava parado no meio do caminho entre a porta e a mesa de madeira maciça. Equilibrando a bandeja em mãos, ele permaneceu quieto enquanto Alice se retirava. Sozinho ali, finalmente se permitiu ouvir um pouco o que seu interior gritava. Como se já não fosse consciente de tudo aquilo há tanto tempo.

Afogar a angústia na bebida era uma opção plausível, mas Sirius tinha lá seu orgulho. Por mais que não fosse um maldito sonserino, o orgulho seria responsável por guiar suas ações até que a noite encontrasse fim. Por isso achou melhor se livrar da tentação, ao menos por enquanto. A tatuagem de dizeres rudes nos nós de seus dedos ficou ainda mais evidente quando ele pressionou a bandeja com força. “FUCK HARD”, dizia a inscrição em sua pele. Ele só soube que se fodeu e foderia de tantos modos diferentes que não poderia haver uma melhor escolha das palavras para representar tudo aquilo.

O moreno suspirou antes de depositar o objeto de prata em uma cadeira perto da porta. Sequer lembrou de encostá-la para garantir um mínimo de privacidade, apenas respirou fundo ao fechar os olhos e enterrar as mãos no couro cabeludo. Tentou recuperar um pouco do controle perdido enquanto se movia pelo local.

Em breve daria o fora daquela casa e de toda toxidade que o cercava. O casamento da prima era a única coisa que o prendia por ora, pois era algo que ele precisava ver com os próprios olhos. Aquela cerimônia era o exemplo perfeito do quão erradas estavam as coisas na sociedade bruxa. Um rapaz inescrupuloso e devoto a toda aquela besteira sanguínea pregada há séculos se casaria com um moça de boa família porque isso era conveniente.

As conveniências ditavam as regras naquele submundo que alguns bruxos tanto invejavam. Entre as pessoas que acreditavam em uma superioridade justificada por linhagem, casamentos nada mais eram que alianças comerciais. Suas vidas eram vendidas de bom grado pela sonoridade de um bom sobrenome. Não importavam coisas como companheirismo, amor, ou mesmo o caráter do outro. Famílias puro-sangue eram como empresas fechando negócios e casamentos se tornaram meros contratos. Casais eram apenas sócios. Em uma união nada valia mais do que sangue inteiramente mágico. Esse era o critério para escolher alguém, e Sirius se recusava a viver em meio a tanta imundície.

Pouco após concluir seus estudos em Hogwarts o rapaz simplesmente pegou uma boa quantia de dinheiro e viajou. Na época preocupou-se apenas em avisar Andrômeda, pois a forte afinidade que os unia sempre lhes garantiu um bom relacionamento. Sirius visitou de vilarejos bruxos a trouxas, sem ter o hábito de permanecer em uma cidade por muito tempo. Conheceu as mais diversas regiões do mundo, não se prendendo a algo ou alguém. Barreiras como a língua eram meros detalhes que tampouco o impediram de desbravar os continentes e as mais diversas culturas. Quase dois anos se passaram desde o início de sua aventura.

Para Sirius Black o mundo era mais que uma sociedade obcecada por sangue inteiramente mágico, até mesmo por quem não o tinha. Em certos lugares viu amor e compreensão com tal intensidade que chegou a perguntar-se como viveu tanto tempo sem aquilo. Claro que nem tudo correu às mil maravilhas, mas perdeu as contas de quantas vezes foi melhor tratado por completos desconhecidos em comparação aos parentes que o conheciam a vida inteira. O rapaz que cresceu cercado de luxo e que tentaram doutrinar durante todos aqueles anos não queria mais viver no meio de tanta mentira. O moreno compreendia o significado de gratidão, bondade, e acima de tudo, liberdade. Depois de experimentar aquelas sensações nunca mais se conformaria em ser cativo de convenções sociais completamente preconceituosas e excludentes, mesmo que fosse ele o beneficiado. Black acreditava que independente a sua posição naquela hierarquia, nada mudaria o fato de serem ideais completamente absurdos.

Apesar da grata surpresa de conhecer coisas incríveis longe de casa, o grifinório sabia que possuía assuntos pendentes e uma hora ou outra teria que voltar para resolvê-los. Conseguiu ignorá-los por um bom tempo, mas há poucos sentimentos mais persistentes que a saudade. Ela o lembrava dia após dia do que deixou e foi a responsável pela sua volta ao Largo Grimmauld, número doze. Lugar que em breve deixaria pela segunda — e última — vez.

O rapaz de dezenove anos voltara há cerca de quatro meses e desconfiava que só não teve o nome riscado da tapeçaria da família por não ter uma garota trouxa envolvida na fuga. Aos olhos dos demais isso mancharia os maiores orgulhos de suas vidas: sangue e sobrenome. Sirius riu a contragosto ao pensar que pessoas de caráter tão ruim não tinham muitas coisas para se orgulhar, sendo que nenhuma delas era relevante.

Desde seu retorno o bruxo retomou contato com os antigos companheiros de Hogwarts, inclusive Marlene McKinnon. Os dois sempre se deram bem, mas a alegria da volta repentina aliada ao sentimento nostálgico ao falarem sobre o castelo que tanto amavam os conectou ainda mais. Para Sirius, Hogwarts sempre seria sua casa. Na manhã seguinte ele só soube que aquela não era sua cama e que conseguiu complicar ainda mais a situação já delicada em que se encontrava. Não foi fácil reunir forças para voltar, então o mínimo que deveria fazer consistia em agir com um mínimo de responsabilidade. A doce ilusão de controle sobre a própria vida acabou ridiculamente rápido.

O grifinório não apenas complicou as coisas para si, como também envolveu outra pessoa em sua bagunça. Sirius Black definitivamente estava fodido. E pelo que tudo indicava, mais uma vez partiria sem resolver as coisas como desejava. A bruxa sabia que tinham algo apenas casual, mas aquilo não mais o tranquilizava. De todo modo, tudo estaria acabado após aquela noite.

Ele esperava ao menos que Régulus e Lene se acertassem, pois nunca teve a intenção de brincar com os sentimentos da jovem. O arranjo seria conveniente até demais para si, e depois de tudo que viveu o grifinório não acreditava em sorte ou soluções simples caídas do céu. Todavia, um resquício de esperança foi irrefreável. De tantas pessoas afetadas, torcia que ao menos seu irmão e Marlene alcançassem a sonhada felicidade. Sirius se contentava em ser apenas mais uma criatura atormentada pelo amor.

Mas não queria pensar nisso por ora. Amor era um tema demasiado complicado e doloroso que sempre trazia problemas. Já havia coisas demais em sua cabeça. Não sabia se era capaz de lidar com elas, então concentrou-se em se comportar até o fim do maldito casamento. Por mais que fosse absolutamente contra aquilo, seria a última coisa que faria pela família. Depois apenas desaparecia da vida de todos, e chegava a ser consolador saber que não sentiriam sua falta.

Sirius pensou em quando descobririam que Andrômeda estava saindo com um trouxa. Perguntou-se o que seria de Marlene e Régulus, e até mesmo de Bella. Aparentemente, a prima perdera Alice. Ele a entendia.

O ranger da porta o despertou do devaneio em que tentava ligar os pontos, ver em quais momentos a prima sofria enquanto ele não fazia ideia. Ah, as coisas que ignoramos… Então o mero ranger mudou para um som metálico em que a porta da sala de estudos era encostada. Alice teria voltado depois de tão pouco tempo? Improvável. Seria Lene novamente com sua animação infinita? Céus, ele esperava que não. Só queria ficar sozinho, tomar algumas doses e lembrar, já que de todo modo não era capaz de esquecer. Um pouco de whisky definitivamente seria bem-vindo.

Uma voz grave foi ouvida, e o bruxo não duvidou da identidade de seu dono por um segundo sequer.

— Finalmente, Black. — Lucius declarou com desdém. — Achei que nunca ficaria sozinho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.