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1 Capítulo 1


Dezessete anos de puro vazio emocional, uma espécie de ressaca, sem sentir absolutamente nada e com pensamentos de todos os tipos bagunçando a minha mente como um tsunami violento. Era como se eu tivesse perdido meu coração, e com ele todas as minhas emoções, e não havia nada que preenchesse esse vazio.

Minha vida baseava-se em escutar os pensamentos e sentir as emoções de centenas de pessoas aleatórias e eu não sou capaz de ter meus proprios sentimentos, a não ser que alguém os tenha por mim. Sim, é uma droga. Como por exemplo, minha mãe, que andava bem preocupada por causa de problemas com a nossa família (se é que posso chamar isso de família) e finanças, e eu não conseguia ouvir outra coisa além das reclamações em sua cabeça mesmo que ela não mencionasse nada, e além do mais que sua angústia me dominava por completo quando estava em casa, o que explicava o fato de eu querer passar a maior parte do meu tempo fora desse lugar. Minha sorte ela estar tão preocupada a ponto de se esquecer de mim... Na verdade não sei o que deveria sentir em relação á esse esquecimento, afinal. Sei apenas que independente do quanto seja dificil, você aprende a viver com a situação que a vida te dá. Eu aprendi a viver com a minha... ou ao menos venho tentando.

....

Halloween. Coincidentemente também era o aniversário de 16 anos de uma de minhas amigas de infância, Isabela, que fora praticamente obrigada pelos pais a ter a festa; ela não é uma grande admiradora de aniversários, muito menos festas "fru-fru". Mas Bela andava diferente ultimamente, sua mente era ocupada com pensamentos vazios, e ela não falava muito comigo e Samantha desde que fizera novas amizades. Isso irritava ás vezes, mas como suas melhores amigas tentávamos entender, apesar se sentirmos o seu afastamento inevitável.
Cheguei ao salão de festas estilizado com o tema de bruxas, e onde todos deveriam usar traje preto. Raramente me achava bonita, e essa noite era uma das raras excessões. Podia escutar uma musica alta tocando mas eu não sabia exatamente para onde me dirigir ou o que procurar, nunca havia comparecido a um evento desse antes.
- Por aqui, moça — uma garota simpática me encaminhou para a entrada, com um olhar carinhoso. Ela estava desorientada, e possuía um sentimento de orgulho e alegria muito grande. Sorri como agradecimento.
- Brigada tia — Bela falou, aí sim eu entendi o porquê da felicidade tão grande da "moça", era a sua tia.
Isabela estava estonteante. Sua maquiagem estava perfeita e seu vestido era longo, azulado, sedoso e com falsos cristais no dorso; o tomara-que-caia tornava seu busto maior e sua cintura mais fina, e seus cabelos naturalmente cacheados encontravam-se lisos, sedosos e brilhantes. Senti suas vibrações extremamente positivas e por um momento pensei que a garota fosse explodir, de tanta animação que possuía dentro de si.
Quando meus olhos se encontraram com os dela, um sorriso instantâneo formou-se em ambas as nossas faces, e a sua felicidade acabou por me contagiar. Seus pensamentos eram como se estivessem flutuando sobre nuvens em volta de um castelo com unicórnios voadores e arco-iris. Bela era praticamente minha irmã. E não importa o quão distante possamos estar ultimamente, sempre teremos um espaço no coração uma da outra, e o melhor, eu não precisava sentir isso. Eu simplesmente sabia.
- Você está maravilhosa, Jenna. E acho que você sabe o que eu estou pensando — ela riu timidamente, e me abraçou. Ela e Angie eram as únicas pessoas que sabiam do meu segredo e acreditavam em mim.
- E você está mais ainda, Bela — a observei com ternura por um momento. Sorrimos e olhamos para a câmera, e então Bela fez um gesto para que eu me entrosasse e tentasse me divertir na festa. Precisava tentar ao menos.
Logo que saí de perto dela, a sensação de felicidade foi embora, e eu voltei a me sentir vazia. Sentei-me em uma mesa no lado exterior do salão, ao lado da mesa das pessoas que eram da nossa escola, mas um pouco mais afastada, e passei a observar o lugar. Havia uma mesa cheia de guloseimas em formatos de olhos e dentes de vampiro, e ponche vermelho como sangue. Estremeci quando uma leve brisa passou por mim, então decidi ir para perto da churrasqueira que era mais aquecido e iria ao menos tentar fingir que estava fazendo algo.
Próximo á churrasqueira, observei George, um colega de classe que tinha um cabelo bastante engraçado, algo como um mini black-power e estava meio desengonçado no terno que era visivelmente maior que ele, e seu amigo Parker, um garoto que aparentava ser hippie, de cabelos longos, pretos e meio ensebados. E detalhe, ele usava uma calça de moletom preta que a qualquer movimento, ela caía até os joelhos. Fiquei meio sem reação com essa cena. Eles riam bastante, enquanto Parker devorava com vontade um prato cheio de churrasco, como se tivesse encontrado a sua mais nova comida favorita, e sempre repetindo gritando a cada 5 minutos que "Carne traz paz interior". Aquela foi a coisa mais estranha que eu já havia presenciado. Tentei não encará-los muito, mas metade das pessoas da festa já os repreendiam com o olhar. Mas os garotos não se importavam, estavam felizes.
Virei para o lado e vi Angelina. Ela estava linda, animada e aliviada por ter me encontrado e não estar mais sozinha. Se perguntava o que eu estava fazendo de pé e parada como um poste de iluminação de rua ao lado da churrasqueira. Acho que observei tanto George e Parker que acabei me esquecendo que fingir fazer algo e parecer natural.
- Eu estava tentando parecer natural — dei uma risada constrangida e a abracei
- Acho que não está dando muito certo — Angie debochou — Senta naquela mesa ali, pra guardar um lugar pra gente, que eu ja estou chegando lá com uns ponches — ela apontou o lugar e piscou com um dos olhos antes de dar as costas, e fiz como ela pediu. Pelo visto Angie já estava paquerando algum garoto, suas piscadelas não enganam a ninguém: toda vez que ela pisca e dá de costas jogando os cabelos, quer dizer que está flertando. E seus pensamentos lhe entregavam por completo. Rolei os olhos e tentei me concentrar no vazio dentro de mim, o que doía bastante, mas era a única maneira que eu tinha de me isolar dos pensamentos das pessoas ao redor e evitar as crises de enxaquecas violentas que esses pensamentos me faziam ter. Era como se cada crise dessas consumisse uma parte da minha vida e após a décima terceira vez, eu estava ficando cada vez mais exausta.

Voltei a encarar Parker por um instante. Ele era bem estranho e engraçado, ria como se essa fosse a sua ultima oportunidade de ser feliz, e isso me fez sorrir um pouco. Admirava tanto pessoas assim, e ele e George prendiam a minha atenção em especial, eu poderia observá-los a noite toda.
Repentinamente, senti um calafrio que me fez encolher, e desviei o olhar para meus braços, que começaram a tremer bastante mas logo pararam. Estranhei mas definitivamente não há nada em mim que seja completamente normal, então dei de ombros e voltei meu olhar para os meninos. Deparei-me com uma cena que me chocou e senti meu corpo estremecer mais ainda.
Parker sangrava muito. Sangue jorrava de seu nariz como uma torneira aberta e ele parecia sentir muita dor em sua cabeça, a envolvendo com seus braços e se encolhendo no chão. Varias pessoas se juntaram á sua volta tentando o ajudar e começaram a carregá-lo para o banheiro, colocando guardanapos de pano em seu rosto para tentar conter o sangramento. Parker passou por mim e nossos olhares se encontraram por milésimos de segundos, mas que foram o suficiente para que uma onda de dor muito grande me nocauteasse. Uma dor imensa que eu nunca havia sentido antes. Perdi o fôlego e caí para trás, batendo a cabeça no degrau que estava logo atrás de mim, e então tive uma crise de enxaqueca, mas que era tremendamente mais forte que todas as outras que eu ja tivera. Me encolhi no chão e gritei, como se isso pudesse amenizar a dor, e varias pessoas começaram a se acumular ao meu redor para me ajudar. Por um momento eu queria que todas elas fossem embora, queria que todas elas morressem e me deixassem em paz. Tentei me concentrar olhando para George que estava em estado de choque e sem reação, com os olhos arregalados e mãos trêmulas. Percebi um vulto negro no lugar onde encontrava-se Parker, mas antes de conseguir focalizar a imagem, acabei apagando completamente.

Notas finais
Critiquem por favor!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.