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12 Num piscar de olhos
Fui carregado para algum lugar, estava completamente desorientado e dolorido, eu não conseguia abrir direito meus olhos, sempre que conseguia piscar, eu via algo diferente como matagais ou terra, barro, mas nunca ficava cem por cento acordado.
E então depois de um bom tempo, acordei aqui nesta cela com uma mulher que estava no canto agachada, e ao lado havia a cela de Kage, estávamos em um tipo de caverna, presos numa cela onde a única luz vinha de tochas do lado de fora. A mulher estava toda coberta com algum manto e um capuz cobrindo seu rosto, ela parecia ser bem alta, fora isso não tinha muito pra se notar. Kage viu que estava acordado e disse:
— Achei que não fosse acordar mais.
— Acho que apaguei por um tempinho, o que aconteceu?
— Lutamos o quanto podíamos até que haviam muito mais inimigos do que aliados.
— Onde estamos?
— Em alguma caverna longe dos outros, parece que somos muito 'perigosos' juntos.
— Faz muito tempo que eu estou desacordado?
E então, alguém nos interrompe:
— VOCÊS! TRABALHO, AGORA!
Era um daqueles orcs, ele veio destrancar nossas celas e nos empurrou para seguirmos caminho. Saindo daquele cômodo, vimos uma grande roda no meio da caverna e muitos dos aldeões estavam ali empurrando a roda, outros aldeões quebravam parte das pedras com picaretas, não sei o que estão procurando aqui nesse buraco mas deve ser importante. Olhando para cima, dava pra ver o céu, ainda estava claro, nós estávamos num buraco abaixo da terra, acho que numa grande fenda. E então, nós colocaram para quebrar as rochas um ao lado do outro, ficaram dois orcs de vigia. Kage começou a falar em minha mente:
"Precisamos encontrar Morgana e o garoto mas temo pelo que eles podem fazer com os aldeões se fugirmos. O Curandeiro está acima de nós, distraia esses guardas que eu vou achar um jeito de tirar a gente daqui em segurança."
E o que eu iria fazer, bater um papo com eles? Enfim, pareceu ser a melhor opção naquele momento, cheguei um pouco mais pro lado para prestarem atenção apenas em mim e os chamei:
— Ei orc. Você tem nome ou é só orc mesmo? O que tem de tão importante nessas pedras aqui?
— Só orc e não importa o que tem nas pedras, volte a quebrar.
— Ah, qual é, vou ter que ficar te chamando de orc o tempo todo, vai, diz seu nome, meu nome é Eric, e o seu?
Ele não estava muito contente mas sinceramente, nem eu, odeio papo furado:
— Abaradicctos. E ele é Cicthor.
Olhei para cima e vi Kage matando o guarda que vigiava o Curandeiro, continuei enrolando:
— Nome grande para um homem grande. Mas aí, me diz o porquê das pedras, vai que encontro o que vocês procuram e acabo passando reto.
— Procuramos qualquer coisa que faça mais armas, tipo...pedra.
— Inteligente, mas não é muito trabalho invadir uma vila pra escravizar o povo, trazer aqui e ficar de guarda? Não tem nenhum lugar de compra de...pedras por exemplo?
— Está fazendo perguntas demais, volte ao trabalho.
E então eles se viraram e viram onde Kage estava, o curandeiro estava fazendo algum tipo de magia, suas mãos estavam reluzindo, usei a picareta para matar um dos orcs e corri pois o outro veio atrás de mim, olhando para frente vi mais quatro orcs me esperando, achei que não teria mais o que fazer, foi quando uma nave estranha entrou pela fenda e desceu em cima dos orcs, matando eles. Quando isso aconteceu, a mulher que estava em minha cela se segurou em meu braço, não entendi direito mas estava mais surpreso com a nave. Nunca tinha visto nada parecido, uma nave azul pontiaguda, escrito "Liberdade" com sangue dos lados, saiu ar da comporta da nave, abrindo ela e revelando uma mulher com braços robóticos, bem magra, cabelos longos e vermelhos, seriedade nos olhos e armada até os dentes, eu a reconheci imediatamente, era Shelly, era realmente ela, ela estava ali na minha frente. E de repente um flash cegou os meus olhos e quando a voltei a enxergar, estávamos todos do lado de fora da fenda, lá no topo, eu e todos os outros aldeões, Kage e o curandeiro conseguiram nos tirar de lá mas logo agora que Shelly havia me encontrado. Procurei o curandeiro e disse:
— Precisava fazer isso AGORA?! Eu preciso voltar.
— Você está louco?! Mesmo que eu quisesse, não posso, estou muito fraco, seu amigo Kage teve que me ajudar. Enfim, estamos do lado de fora, temos que sair daqui.
— A pessoa na nave podia nos ajudar.
— Ela vai ter que se virar sozinha agora.
Quando olhei em volta, vi que estávamos em uma divisa entre os prédios e a floresta, os aldeões estranharam aquilo e então eu disse ao curandeiro:
— Não é uma boa idéia vocês voltarem pra floresta já que estão procurando por vocês, vamos para a cidade, eles não conhecem nada lá mas eu sim, podemos conseguir mantimentos e remédios facilmente.
— Espero que esteja certo porque temos que sair daqui agora.
Antes de continuarmos, me dei conta de que a mulher da cela não estava mais do meu lado, eu estava com a cabeça cheia, nem reparei que ela tinha sumido. Começamos a adentrar a cidade, prédios ruídos, corpos soterrados, letreiros piscando e ainda nem era sexta-feira. Liderei eles até algum mercado por perto que estava um pouco inclinado mas não completamente destruído, a primeira coisa que eles ficaram assustados foi a porta automática, eles vai ter muitas coisas novas para processar. Fui no setor de carne ver se ainda tinha alguma boa e praticável, Kage veio conversar comigo meio preocupado:
— Tem certeza que aqui é seguro?
— Se tenho certeza? Era minha antiga cidade, eu morava aqui antes dessa zona toda acontecer.
— E o que causou isso?
— Pelo que apareceu nas notícias, era algum problema temporal, por isso tem muitas coisas diferentes aqui, coisas do passado e do 'meu' presente.
— E pelo jeito daquela nave esmagando os orcs, coisas do futuro também.
— Parece que sim.
— E Morgana e o garoto? Será que estão bem? Eles não vão nos encontrar nesse caos.
— Não temos nenhum modo para rastreá-los, então é torcer para que o encontremos, pelo menos antes dos orcs ou qualquer outro perigo. Além do mais, Morgana sabe se virar.
— Como assim outro perigo? Achei que sua cidade fosse segura.
— Os maiores monstros das cidades são as pessoas. O egoísmo da humanidade já fez coisas terríveis e tenho certeza que continuam fazendo. Se sobrou alguém, claro.
— E qual é o plano agora?
— Pegar mantimentos e se esconder por um tempo, eu estou exausto.
Partimos dali e fomos em direção ao meu prédio, pra minha surpresa, ele ainda estava de pé, um dos poucos que ainda estavam firmes. Nem tentei usar o elevador, com certeza poderia piorar a situação. Subimos até o oitavo andar e chegamos na porta do meu apartamento, forcei a porta e ela se abriu, quando dei alguns passos pra dentro, alguém pulou nas minhas costas e pôs uma faca no meu pescoço, joguei a pessoa no chão e apontei a arma, ainda bem que não atirei, era o garoto, ele me reconheceu e veio me abraçar, Morgana estava ao lado da porta da cozinha e falou comigo:
— Parece que o garoto estava certo, você veio.
— É minha casa, claro que viria.
— Não sabíamos o que fazer, então nós escondemos até encontrar vocês. Que bom que estão todos bem. Mas parece que tem muita gente aqui, não cabe todo mundo.
A neta do curandeiro correu em direção ao garoto e lhe abraçou, ela sentiu falta dele. Comecei a reparar naquele corredor lotado então voltei pra fora do meu apartamento e disse a eles:
— Seguinte pessoal, tem outros quartos em volta do meu, invadam, vejam se tem comida, remédios ou pessoas, entrem juntos pra evitar serem emboscados, não sabemos se há sobreviventes e são hostis ou não. E quando puderem, descansem, vou pensar no que fazer amanhã.
Alguém no meio deles disse uma coisa que todos os outros concordaram:
— Como vamos nos defender, estamos desarmados.
— Tem algumas facas aqui em casa mas se quiserem montar outro tipo de arma, usem a imaginação, quebrem algumas coisas, misture com outras, ou usem sua ferreira.
Agatha deu um passo a frente e disse:
— Mas o que eu posso fazer, não tenho minhas ferramentas comigo.
— Seja criativa, muita coisa aqui dá pra fazer fogo, derreter coisas, jóias, tem lojas lá fora com equipamentos pra fazer tudo o que você quiser, apenas evite chamar atenção pra você não ser pega.
— Sério?! Então vou tentar.
Ela saiu com uns 2 aldeões e o resto foi invadindo os outros apartamentos, o curandeiro veio até mim e disse:
— Não vamos ficar aqui para sempre, meu povo deve voltar para o nosso vilarejo. Espero que não esteja achando que vamos ficar aqui para sempre.
— Não estou achando nada, vocês precisavam de ajuda e eu ajudei, podem ir embora quando quiser.
O curandeiro chamou sua neta para ir embora mas ela queria ficar com o garoto. Então ele saiu e ela ficou, mandei os 2 brincarem ou qualquer coisa e fui para a cozinha, ficamos só eu, Kage e Morgana. Eles ficaram olhando em volta e Morgana disse:
— Então é assim que se parece a casa de um homem solteiro do futuro?
Kage retrucou:
— Ainda bem que sou um homem solteiro do passado.
— Não tem nada de futuro aqui, vocês que viveram muito no passado. E além do mais, teve um terremoto, não estava tão bagunçado antes disso.
Comecei a olhar em volta, olhei para a porta da cozinha e lá no fundo, eu percebi que tinha alguém no canto da sala agachado. Era aquela mulher da cela. Não me lembro dela de qualquer outro lugar, acho que não estava com os aldeões. Caminhei até a sala, passei a mão no meu sofá para tirar o resto de reboco que havia nele, sentei e falei com ela:
— Você não é um deles, né? Nunca vi ninguém falando com você OU sobre você em lugar nenhum. Porque está me seguindo? Você some e aparece de repente.
— Eu estava naquela cela mais tempo do que você imagina.
— Então vamos do começo, quem é você?
— Meu nome é Ilana, Ilana Durwenar.
— E o que você está fazendo aqui seguindo os aldeões Ilana?
— Não estou seguindo eles, estou seguindo você.
— Eu? Você me conhece de algum lugar?
— Eu sei tudo sobre você. Tudo o que aconteceu. Tudo o que você fez por esse povo.
— ...Você é Deus?
— Nada disso. Fiquei numa cela presa com você desacordado, já que você não acordava, quis descobrir quem você era, então eu segurei sua cabeça e descobri.
— E porque não disse nada quando acordei? E isso foi praticamente um abuso, eu estava desacordado e você fingiu que nada aconteceu.
— Eu fiquei meio desconcertada com tudo que vi, e também não sabia como dizer algo a você que não fosse soar estranho, como está acontecendo agora.
— Razoável. Mas de novo, porque está me seguindo?
— Gostei da pessoa que você é, parece alguém bom para ter por perto. Queria me juntar a vocês, vocês cuidam um dos outros. E além do mais, eu estou sozinha.
— Então sai desse canto e sente aqui conosco.
Ela se levantou e tirou o capuz, revelando seu cabelo enrolado, sua pele negra e seus olhos verdes, seu rosto tinha marcas de guerra, várias cicatrizes nos lábios e bochechas, e então ela veio para perto de nós. Morgana e ela se deram bem, não acho que ela seja uma ameaça, apenas estava sozinha por muito tempo. Deixei elas conversando e chamei Kage para o meu quarto. Ele fechou a porta e disse:
— É, você sabe fazer amigos. Lembra quando te encontrei sozinho?
— Lembro e era muito melhor do que agora, eu já tenho muita preocupação pra lidar agora, e mais uma me apareceu.
— Acha que ela é um problema? Parece mais uma solução.
— Uma solução não aparece do nada escondida pelos cantos.
— Então vamos ter que descobrir.
— ESSA é a minha preocupação...se for um problema, teremos que resolver.
— Não vou dizer que somos bons pelo fato de que nós fomos capturados por aqueles monstros, mas somos medianos nisso.
— Você é muito otimista.
— E você é muito pessimista. Ela é um caso a longo prazo. O que vamos fazer com os aldeões?
— Eu não tenho o que fazer com os aldeões, eles tem uns aos outros.
— Vamos achar algum bom abrigo para eles, que não esteja em ruínas para deixá-los seguros.
— Podemos fazer isso mais tarde? Eu estou cansado demais pra ficar fazendo turismo com você agora.
— Amanhã será então. Vou buscar uns aldeões e caçar, parece que algumas criaturas vieram para esses lados da cidade, vai ser mais fácil pegá-las dentro das construções.
— Pode ser, só me deixa dormir.
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