Until the very great end
7 I had to go through hell to prove I'm not insane
Notas iniciais
Izabelly tentou fazer com que Henrique ficasse em sua casa, mas ele não estava confortável em ficar no mesmo espaço que seus sogros. Portanto, foi diretamente para o hotel depois da promessa que selaram. Izabelly contou que o homem que Henrique tinha visto era um colega da filarmônica que tinha lhe chamado para sair.
Mas as coisas mudaram e Henrique — mesmo que Izabelly garantisse que já estava perdidamente apaixonada — faria de tudo pra que isso acontecesse de novo. Afinal, seu era seu o seu proposito. E além disso, tinham a primeira consulta com a terapeuta marcada. Eles fariam sessões separados um do outro, mas a terapeuta seria a mesma.
— Vai ter um luau na praia na terça. — Henrique franziu as sobrancelhas. Normalmente esse tipo de festa funcionava de finais de semana. Os dois estavam andando calmamente pela orla da praia. Sentiam a brisa do mar e aproveitavam o momento. — Vamos?
— Vamos! — Henrique disse animado. Ele realmente gostava de luaus. Principalmente quando era a turma da filarmônica de Izabelly que organizava. As músicas costumavam ser bem diferentes, tinha comida, bebida e gente legal. Mas, estranhamente, tinha algo a mais naquele pedido de Izabelly. Era quase como se ela estivesse particularmente ansiosa para aquele evento. E isso fez Henrique ficar com uma pulga atrás da orelha o tempo todo.
Logo depois de mais meia hora caminhando, voltaram em direção onde o carro do tatuado estava estacionado e forma direto para a terapia. A de Henrique começaria primeiro e logo depois Izabelly iria para a dela. Quando saíssem, Henrique os levaria para um encontro simples já que é certo que pequenas vitórias precisavam ser comemoradas.
Assim que Henrique estacionou o carro no estacionamento do consultório, hesitou. Não porque estava arrependido, mas porque não sabia como agir ou como falar. Estava com medo? Era algo como isso. Com o carro desligado, Izabelly olhou para o marido no banco do motorista. Ele agarrará o volante com força, quase como se aquilo o impedisse de sair do carro.
— Não precisamos ir... — Izabelly tentou e sorriu simples. Ela não queria que o marido se forçasse a nada.
Era algo besta, não era? Henrique quase se sentiu como Leo se sentia quando tinha que ir fazer exame de sangue. A simples ideia de sair do carro era assustadora. Mas, como sempre Izabelly estava lá, sendo a luz necessária para que ele pudesse fazer tarefas simplesmente idiotas como sair do carro para sua consulta.
A verdade, era que Izabelly também estava nervosa, então nada mal seria ficar perto do marido, sendo que naquele momento, ela precisava dele por perto também. Se ela era a luz do fim do túnel dele, para ela, ele era o túnel.
— Preciso — Respondeu. — E depois nós iremos comemorar, tudo bem? — Henrique sorriu. — Vamos a um restaurante ou apenas a um concerto.
Izabelly abriu um sorriso.
— Tem um concerto hoje as 22h00. Conseguimos terminar a sessão aqui, ir nos trocar e depois passarmos num restaurante antes de irmos.
Henrique finalmente largou o volante e saiu do carro, acompanhado pela esposa, ambos entraram no consultório. Mas enquanto caminhavam pela recepção, não podiam deixá-lo de fazer sem que suas mãos estivessem entrelaçadas uma na outra. Henrique segurava a mão da esposa com força, como se tivesse medo de que em um piso em falso, fosse derrubado diretamente para o chão.
Não demorou muito para que Izabelly fosse chamada. Ela seria atendida primeiro. Logo depois, Henrique ficou esperando jogando um joguinho no celular para passar o tempo. Colocou o fone de ouvido para ouvir a melodia gostosa que Izabelly fazia com o piano. Joguinho e música clássica? Henrique os fazia combinar.
Numas duas salas de distância, Izabelly terminara de narrar resumidamente tudo o que havia acontecido.
— Você foi cuidada por Henrique esse tempo todo. – a psicóloga disse à Izabelly depois de ouvir e analisar a história toda com atenção, ela ainda precisaria de mais detalhes, mas os tomaria depois com Henrique. – E quem cuidou das dele? Você diz que ela ainda está aí queimando no peito e talvez seja porque cada um tem que cuidar da própria dor. Você da sua e ele dá dele.
— Isso quer dizer divórcio? – Ela fungou, o papel ainda estava válido. Não tinha a mínima ideia da onde o envelope havia ido parar, mas não conseguia imaginar um divórcio mais, especialmente logo depois da promessa.
— Não, querida – A mulher mais velha apenas sorriu pela resposta que havia acabado de chegar, ela imaginava que a sua paciente poderia pensar algo como isso. – Isso quer dizer que vocês vão fazer essa busca juntos pela cura da dor de cada um. E continuar com esse casamento se for o que verdadeiramente querem.
Izabelly sorriu grande. Então os dois estavam no rumo certo. Pela primeira vez desde que Leo morreu. Eles estavam caminhando na estrada certa.
— E eu estarei aqui, para poder ajudar vocês com qualquer problema que surgir durante essa caminhada. — A terapeuta garantiu — Afinal, é pra isso que vocês me procuraram, não é?
***
Agora o tatuado estava no hotel, se arrumando para irem jantar. Ele buscaria Izabelly na casa dos pais — onde havia lhe deixado logo depois de saírem da consulta — e seguiriam para o concerto logo em seguida.
— Henrique? — o tatuado estranhou ao ouvir a voz do taxista conhecido. Eles só conversavam quando ele pegava carona. Nunca haviam ligado um para o outro. Talvez era uma emergência com Augus e esse pensamento apenas conseguiu lhe deixar atormentado.
— Eu...- Falou sem entender.
— Não sei se pode falar agora, mas estive com Augusto essa tarde.. Ele parece sentir mesmo a sua falta.
Henrique também sentia a falta dele. Muito.
— Eu também, mas não posso deixar Miami agora. Volto só na quarta.
— Henrique.. — o taxista disse com cautela. — Augusto está com febre emocional sem data pra melhora.
Não esperou o homem terminar de se explicar. Desligou a chamada automaticamente e o taxista, do outro lado da linha, ficou assustado. Será que o empresário viria? Henrique rapidamente fez um telefonema e adiou sua passagem; Pegou suas coisas e e foi para o aeroporto.
— Belly eu tenho que voltar para NYC — Disse na chamada rápida no caminho do aeroporto. —
— Porque? — Perguntou, ela não estava entendendo absolutamente nada. Aliás, já estava até pronta, esperando Henrique vir buscá-la. Belly vestia um vestido azul e seus cabelos delicadamente caiam em cascata em suas costas.
— Eu tenho que resolver uma coisa de última hora na empresa- sua voz não saiu firme, saiu quebrada. E Izabelly logo captou a mentira. E Henrique sabia que ela tinha percebido, ele só conseguia esperar que sua esposa lhe desculpasse sobre isso mais tarde.
***
Izabelly não pode evitar a decepção que sentia. Era inevitável. Ela começava a achar que Henrique tinha dito aquelas palavras – na noite que prometeram – para apenas se safar. Do que? Ela não tinha a mínima ideia. Talvez ele não sentisse mesmo nada. E aquilo fosse apenas para não perder o fantasioso joguinho de casa de bonecas que os dois fingiam brincar.
A sós com seus pensamentos, enquanto lhe encarava no espelho, Izabelly sentiu todas as expectativas indo embora.
— Querida, — seu pai a chamou, entrando no quarto. Izabelly olhou para seu pai, que parecia reparar carinhosamente cada detalhe do antigo quarto que a filha ocupava quando adolescente. – Está tudo bem?
— Eu ia sair – Izabelly disse tentando conter a decepção presente em sua voz – Mas Henrique acabou tendo que ir para uma emergência em Nova Iorque com a empresa.
— A essa hora? – Sua mãe ergueu a sobrancelha. Izabelly o odiou por um estante. Não queria que ela sentisse as coisas que ela também estava se sentindo: enganada. – Onde iam?
— Hoje a um concerto e amanhã iriamos a um luau na praia.
— Não sei se eu e seu pai ainda temos idades para luaus, mas podíamos ir no concerto. Você está linda, querida. Seria um pecado tirar esse vestido sem usá-lo.
Izabelly concordou. Mas foi como esperado: teria sido muito melhor se Henrique tivesse ido com ela porque simplesmente não conseguia parar de pensar nele. Certo momento da noite, chegou a pensar se não estava ficando louca. E que talvez, Henrique e Leo – os dois homens da sua vida – não fossem donos da loucura que instalará em seu coração.
***
Para o orfanato foi o primeiro lugar que Henrique foi assim que pisou em Nova Iorque. Teve a grande sorte de o seu velho amigo taxista estar lhe esperando no aeroporto. Agradeceria eternamente por isso. Quase conseguiu se lembrar da noite em que Leo faleceu. Ele correndo apresado em um taxi.
Seu coração doeu dentro do peito com essa comparação.
— Acha que ele está bem? – Henrique perguntou agitado.
— Está com febre. – O taxista falou tentando acalmar a situação – Não vai morrer Henrique.
Ele não teve a mínima ideia de como aquela frase havia recebida pelo tatuado, mas não teve tempo de pensar porque rapidamente estacionaram na frente do orfanato. Henrique nem esperou o carro desligar direito que foi logo abrindo a porta e saindo, indo em direção a recepção.
— Onde está Augusto? — Perguntou todo atrapalhado que nem se quer se lembrou do sobrenome do garoto, mas teve tempo de pensar que se o sobrenome da sua família fosse para o menino, não soaria tão mal. Augusto Sanchez.
Dava um nome bem bonito.
E Henrique não sabia, mas a mãe de Augusto era brasileira. Uma mulher que saiu de São Paulo para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Acontece, que os planos da mãe dele não saíram como planejados e o menino acabou parando no orfanato. E por mais estranho que parecesse, Henrique agradeceu.
Se não fosse por isso, ele quase não sentiria essa ligação estranha, mas tão gostosa que sentia com o menino. Quase como se eles fossem pai e filho.
Não demorou muito para Henrique chegar na enfermaria. Todo estabanado como só ele era, derrubou algumas pessoas no caminho. Ele já nem sabia mais onde estava Walter, o taxista, apenas saiu correndo em direção ao menino que estava – agora – na enfermaria, deitado em uma cama, com a aparência super abatida.
— Rique! – O menino exclamou ao ver o homem passando pela porta, praticamente arrombando. Era uma miragem? Seu pai estava mesmo ali?! Henrique sorriu simples enquanto Augusto tinha um sorriso que praticamente rasgava seu rosto no meio. Por mais que aquilo parecesse loucura, o sorriso dele lembrava muito a Henrique de Leo e Izabelly.
É. Definitivamente. Ele estava enlouquecendo. Imaginava que se sentia louco assim porque estava passando por tanta coisa esses últimos dias que não sabia mais diferenciar seus sentimentos. Henrique apenas não conseguia identificar que na verdade, esse não era o problema, era o caminho para a solução dele.
Ele só precisava juntar as peças. Ele só precisava entender que ele achava que o sorriso de Augusto tão semelhante com o do Leo pelo motivo certo. E o principal: ele não podia se descabelar a si mesmo quando entendesse.
***
Era um lugar branco. Não havia ninguém a não ser ele. Henrique tinha usava uma roupa branca, como se tivesse acabado de sair de uma peça da igreja em que ele havia sido um anjo.
— Querido, lembre-se do que Antoine de Saint-Exupéry disse uma vez. O essencial é invisível aos olhos.
O Pequeno Príncipe era um livro que a sua avó lia para ele quando era criança. O sonho não fazia sentido, sendo que a sala estava vazia, a não ser por ele, mas a voz em sua cabeça estava muito clara. E a voz da sua avó repetia a mesma frase, até que ele se debateu, tentando sair do lugar em que sua mente havia lhe aprisionado. Até que ele finalmente acordou.
Henrique tinha apagado na poltrona da enfermaria do orfanato. Mas acordou no mesmo instante em que seu sonho se deu por acabado. O Pequeno Príncipe lhe atingiu em cheio. Ele sentia tanta falta de passar as tardes com sua avó no Rio enquanto ela lia para ele na beira da praia de Copacabana.
Henrique tinha mandado avó para NYC porque não queria que ela ficasse largada – como sabia que seus pais fariam – caso ficasse numa casa de repouso no Rio.
Deu a sorte de conseguir contratar funcionários que falavam português perfeitamente para cuidar da avó, porque sabia que com o Alzheimer ela logo esqueceria da língua inglesa. Língua que havia ensinado ao neto, também, nas mesmas tardes, que lia Antoine de Saint-Exupéry para Henrique.
Ela lia os livros em inglês e Henrique tentado em saber o que a história significava não parou de pesquisar. Era um menino inteligente, autônomo. A avó sentia um orgulho imenso do neto. E os dias em que ela mais se sentia grande, era quando a idosa passeava com o menino na praia, ele com sua mãozinha agarrava seus dedos, e a cada figura diferente que via, perguntava o que era.
Desde a conchinhas do mar a frutas, lojas e pessoas. Eram tão bons aquele pôr do sol que o sonho trouxe a Henrique todas as lembranças do Rio de uma só vez. Quase como se estivesse de volta à cidade Maravilhosa.
Uma sensação absurda de falta da sua avó lhe atingiu o peito, cutucando desde o pelinho do pé até o da nuca. A falta lhe atravessará todo seu corpo, e sentiu falta das mãos da avó em volta da sua. Sentia falta de sua família. Era isso que ele sentia. E não havia falta pior do que isso.
Prometera que visitaria logo no dia seguinte, e depois levaria Augusto para dar uma volta no parque.
E falando nele: Henrique segurava a mão do pequeno garoto com leveza, mas da mesma forma que se sentia preso ali nem que corresse o mais rápido que pudesse, conseguiria escapar do sentimento de proteção que estava criando por aquele garotinho.
Ele só esperava que Izabelly lhe perdoasse por isso.
***
Izabelly encarava o teto do quarto no qual era escuro, mas continha um monte de adesivos de estrelas que brilhavam no escuro. Ela tinha colado todas aquelas estrelas lá em cima quando seu coração foi quebrado pela primeira vez por um menino da escola.
Ela odiou a dor que aquele garoto havia causado a ela. Um simples garoto que não tinha nada de especial havia conseguido fazer um estrago bem grande com seu coração. Mas era tão diferente de quando estava com Henrique. E de quando se sentia com seu coração quebrado em tudo que se relacionava a ele.
— Querida, — a porta do quarto se abriu dando-lhe a visão de sua mãe de pijamas, com o olhar preocupado. – Não tem psicóloga amanhã?
— Não. – Suspirou – É um dia sim, dia não. Exceto nos finais de semana.
— Porque tantas sessões assim? – Sua mãe lhe perguntou chegando mais perto. Estava preocupada com a filha, não podia negar, mas também tinha medo de ser invasiva. Só de pensar em perder a menina em sua frente fazia o peito arder.
Menina? De menina Izabelly não tinha nada. Era uma mulher. Uma linda maravilhosa mulher. Mas ela ainda a via exatamente assim: sua menininha que quando criança, lhe fazia milhares de perguntas absurdas de desde porque chove à o porquê o sol é amarelo e porque Jesus é um cara branco.
— Quero minha família de volta logo. Acho que se eu for em mais consultas, junto com Henrique, mais rápido melhoraremos.
Izabelly suspirou ainda deitada. Aquela frase tinha saído com tanta sinceridade de seus lábios que se sentiu grata por amar tanto sua família que caso os perdesse, seria capaz de definhar. Não tinha melhor coisa do que amá-los. Se parasse de fazer isso, pararia de viver.
Talvez havia sido por isso que ela não havia morrido ainda, não é? Apesar de morto, ela ainda o amava. Amava-o seu filho com cada fibra de seu ser.
Izabelly pensava tanto em sua família e tanto em cuidar dela que se surpreendeu com isso e arregalou levemente os olhos e a sobrancelha. Ainda era assustador a intensidade na qual amava. Se doava por inteiro. Izabelly não era uma pessoa que suportava metades.
Sua mãe logo se sentou ao seu lado na cama de solteiro e começou a fazer um leve carinho em seus cabelos castanhos.
Ela quase se sentiu como se fosse uma filha novamente. Como se não fosse uma mãe. Apenas uma garotinha que deitava no conforto dos braços de alguém que amava. E ela agradeceu porque sua mãe não questionou, não perguntou. Ela apenas ficou ali. Como se silenciosamente dissesse – junto aos seus carinhos em seu couro cabeludo – que ela não estava ficando louca.
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