Until the very great end

26 ‘Cause they say home is where your heart is set in stone


Eles dizem que lar é alguém e não um lugar, mas Henrique diria que todas as duas suposições estão erradas, porque um lar é sobre um lugar e pessoas. Os dois fazem parte disso, porque as pessoas acabam vindo com o lar, e vice-versa. Mas sua mente ficava agitada, porque, mesmo em Petrópolis, num feriado com sua mulher, ainda assim, aquela cidade lhe parecia como um lar, mesmo que ele morasse em outro lugar. Ir para Petrópolis com Augusto assim que ele veio para o Brasil para morar com eles, definitivamente, aos quatorze, tinha sido uma ideia brilhante, mas voltar, alguns anos depois, já com Isabela e Catarina, tinha sido outra ideia que seria ganhadora de um prêmio.

A mãe de Henrique, encheu o saco dos dois para ir junto, mas por algum motivo, Henrique queria que aquele final de semana fosse deles, e para eles. Portanto, conseguiu convencer a mãe com algumas palavras de que ela deixaria brincar com Isabela na praia, assim como a sua avó fazia com ele, e como sua mãe fazia com Leo.

Leo.. ah, doía pensar nele. Mas era como cutucar uma ferida. As memórias não doíam tanto, mas doíam. Izabelly, como o marido, achava que a dor sempre estaria ali, afinal, um filho é um filho, por mais que o tempo passe e outros venham no lugar, nada pode substituir alguém que veio de você. Do seu coração e do seu amor.

Era um feriado, mas Henrique sabia do motivo de estarem ali. Era o lugar favorito de Leo, e era o aniversário de sua morte. Anos se passaram e sua lembrança ainda estava viva em porta-retratos, mesmo que, com o tempo, novos tivessem sido expostos nas prateleiras.

— Obrigado por estar comigo. — Henrique sussurrou baixinho no ouvido da esposa.

— Eu achei que a gente já tivesse conversado sobre agradecer por coisas óbvias — Belly resmungou. Henrique sorriu, agarrando em sua mão, enquanto observava as crianças correndo pela pracinha do centro da cidade. Teria um festival de fogos a noites, e todos estavam ansiosos, exceto por Isabela que odiava o barulho de fogos. Mas a menina havia sido recompensada por sorvete, no dia seguinte. Ela rapidamente aceitou a troca, porque quem mais queria ver os fogos, era Augusto que vinha, arduamente, tentando descobrir mais sobre a cidade de onde nasceu. Com muito esforço, o menino de agora dezessete, havia descoberto que suas raízes brasileiras eram pertencentes ao Rio e a Petrópolis. Tinha achado todas as informações sozinho, e sem o conhecimento dos pais. Que imaginavam que a animação por estarem ali era puramente infantil.

— Coisas óbvias fazem parte de mim e você — Henrique comentou. Os dois estavam sentados em um banquinho. — Quer dizer, vendo assim, era óbvio que acabaríamos juntos, por mais que as vezes, duvidássemos disso.

— Eu duvidei apenas uma vez — Izabelly disse baixinho — e foi a pior duvida que já tive em toda minha vida. Aquele maldito envelope que havia o documento do divórcio pesava em minhas mãos.

— Eu compreendo — Belly segurou com mais força a mão do marido. Eles não eram idiotas, sabiam que dia era aquele. Mas não ousavam a pronunciar em voz alta. Tudo pronunciado, era mais real, doía mais. E eles não queriam dor naquele dia. — Você acha que eles são felizes?

O assunto veio de repente que Henrique se confundiu por alguns segundos sobre o que sua esposa falava, mas ao ver o olhar dela direcionado para as crianças – agora, um deles, adolescente e o outro, pré-adolescente – ele imediatamente soube do que se tratava e sorriu. O sorriso no rosto dos três respondia sua pergunta. No entanto, o sorriso morreu quando Bela percebeu que o irmão tinha sumido.

— Você viu Augusto? — Perguntou para a irmã mais velha, Catarina franziu o cenho. A brincadeira era pique-pega, não esconde-esconde.

As duas não queriam preocupar seus pais, mas resolveram que era o melhor a se fazer. Os quatro começaram a procurar, Bela com Henrique e Catarina acompanhada de Izabelly. Passaram olhando pelo centro inteiro e não achavam o menino. Henrique já estava com tanta raiva e tanto suor escorria pelas suas costas, que ele já estava pensando em cortar o presente de aniversário quando encontrasse o filho. Porque, simplesmente, não haveria a possibilidade de não encontrá-lo. Essa possiblidade não podia existir.

O frio da serra machucava as pontas dos dedos de Izabelly. Antes não parecia tanto assim, mas agora, sem Augusto aumentava tudo, inclusive o frio. Sem saber que quase matava os pais de preocupação, Augusto pegava um taxi em direção ao endereço que havia encontrado conseguido com Andrea, sua advogada de quando ainda precisava de uma. E na verdade, se ele precisasse dela até o ano que completasse dezoito, — nesse mesmo ano – ele poderia tê-la. Foi com essa chantagem que ele havia conseguido essa informação sem que ela contasse para seus pais. Augusto pagava o taxista que havia lhe deixado em frente de uma casa humilde que ficava do lado de uma igrejinha.

Ele tocou a campainha com as mãos suando e esperou ser atendido, até que finalmente, uma mulher negra atendeu a porta. Ela tinha um sorriso cansado no rosto, mas ainda parecia alegre.

— Quem é você? —

— Augusto — respondeu com a voz trêmula. Sua confiança tinha ido para o ralo. A mulher era parecida com ele e quando notou isso, começou a gaguejar. — Estou procurando por minha mãe, Lilian.

A mulher de repente, agarrou o colarinho do menino e o levou para dentro de casa, fechando a porta em seguida. O ato repentino deixou o menino tonto, mas nada que pudesse falar ou fazer, faria a mulher na sua frente se acalmar. Por um momento, Augusto pensou se aquela fosse ela... Mas, não podia ser. A mulher era velha demais para ser sua mãe. De repente, uma coisa que ele nunca pensou que fosse acontecer, aconteceu. Ele recebeu um tapa, assim que a mulher se afastou.

— Quem você pensa que é, moleque? — Se irritou, a voz dela saia com fúria. — Sua mãe some por dias, e depois nunca mais aparece. Recebo uma notícia que ela estava em Nova Iorque, caralho! Nova Iorque. Ela manda notícias e dinheiro, até quando você faz três e depois somem do mapa. Um ano depois descubro que ela morreu, mas não tenho dinheiro o suficiente para trazer o corpo para cá. Afinal, favelado não tem chance alguma. Mas, surpreendentemente, um dinheiro cai na minha conta, e uma carta diz que é para eu me mudar para uma casa em Petrópolis que você me encontraria quando precisasse me encontrar.

Augusto estava tonto. Um pouco pelo tapa, e outro pouco pelas informações que havia acabado de receber. Como assim? Ao ver que o menino estava prestes a estacionar, a mulher estacionou as palavras e franziu a sobrancelha.

— Onde é que você esteve?

Augusto então, desmaiou. Deixando Henrique e Izabelly mais preocupados ainda, que imediatamente foram chamar a polícia porque já havia anoitecido e o menino simplesmente não aparecia. Até que dando informações para a polícia, enquanto seu pai desesperado, falava com o policial, e a matriarca da família tentava acalmar o marido com gestos circulares com as pontas dos dedos em suas costas, Augusto acordou. A mulher negra tinha o olhar sob ele, com cuidado. Ela o olhava como se estivesse vendo um milagre bem na sua frente, e talvez, de fato, ela estivesse.

Para a sanidade mental do casal Clarke Sanchez, Henrique recebeu uma mensagem de Andrea, perguntando como estavam os planos do menino... E que planos eram aqueles? Perguntou o tatuado para advogada, que respondia, enquanto Augusto pagava o taxista que havia lhe deixado em frente de uma casa humilde que ficava do lado de uma igrejinha. Foi com essa informação que a policia conseguiu encontrar o menino, que já tinha recebido todas as informações que precisava, e agora se despedia da mulher com um abraço. Ele tinha prometido voltar e talvez tinha sido aí que houvesse errado.

— Nunca mais faça isso! — Henrique gritou quando os três já estavam dentro do hotel, Isabela e Catarina tinham passado o resto da tarde lá, sozinhas. — Eu estava pensando em tirar o teu presente de aniversário, mas eu percebi que isso nunca seria o suficiente para o susto que você acabou de nos fazer passar se não fosse a mensagem de Andrea. Onde estava com a cabeça?

— O que seu pai quer dizer é que... você deveria ter conversado com a gente. Nós te ajudaríamos e você não precisava ter nos matado do coração.

Augusto abaixou a cabeça. Ele não queria que seus sentissem assim.

— Não abaixa essa cabeça. — Henrique pediu, olhando diretamente para o filho. — Levanta. — Como Augusto poderia desobedecê-lo? E ele a levantou, por mais que olhar nos olhos de sua mãe e do seu pai agora doesse nele. Como pode ter sido tão estúpido?

— Eu só queria descobrir sobre minha mãe. — Izabelly sentiu seu coração murchar. Aquela informação doía. Mas ela não deixaria demonstrar a dor. Ela sempre havia sido forte em disfarçar, e não seria agora que mudaria as coisas e ela agradeceu que não tivesse feito, porque interromper a felicidade de seu filho era tudo o que ela menos queria.

— E o que descobriu? — Henrique perguntou irônico. Augusto abaixou a cabeça mais uma vez pelo tom de voz do pai, — Não abaixa a cabeça, caralho.

— Foi estranho — Murmurou — Ela morreu nos Estados Unidos, estava dirigindo um carro. Foi a informação que eu tive. Ela estava bêbada. Foi minha avó que me disse isso. O carro era roubado e parece que ela atropelou alguém. E o dinheiro que vovó recebeu para sair da favela, provavelmente havia sido roubado também, mas era em dólar, então, comprar uma casa em Petrópolis não foi difícil. Mas, eu não me sentia em casa ali. Era tão estranho e quando eu acordei, senti falta da minha cama e da minha pelúcia.

Poderiam se passar anos, que Henrique nunca deixaria de sentir o coração se aquecer por seu menino ainda estar com aquela maldita pelúcia, que agora, estava bem envelhecida. Belly engoliu o choro. Bêbada? Dirigindo um carro? Sentiu seu coração se apertar, mas ainda assim, se aquecer quando viu Augusto e Henrique aconchegados num abraço. Os dois olharam para ela, e logo mais, a mesma se juntou. Bela e Catarina, logo ficaram com ciúmes, e mesmo sem entender, ficaram abraçadas aos três. Izabelly respirou fundo, tentando se aliviar de toda a tensão dos últimos minutos. Ali seria onde ela descansaria seus ossos, e se deixaria viver, porque ali era onde ela pertencia: no lugar que sua família pertencesse também.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.