Until You Return
1 Capítulo 1
Notas iniciais
– JANE –
- Korsak, você conseguiu alguma coisa na cena do crime? – pergunto ao ver o homem adentrar o escritório.
- Nada além do corpo e algumas evidências que já pedi para analisarem. – responde. – O resultado já chegou?
- Ainda não. – verifico o relógio. – A correspondência geralmente chega às quatro horas, faltam três minutos.
- Você deve estar nervosa, não é?
- Muito.
- Ainda acho errado você não querer dizer para Maura sobre isso, Jane. Vocês estão juntas e tão bem desde aquela última vez...
- Eu sei, mas é algo que eu quero tanto. Desde que ouvi a história de meu avô, sempre me imagino no lugar dele. Seria outro de meus sonhos realizados.
- E qual é o outro?
- Ser uma detetive. – respondo e solto uma risada baixa.
Os minutos pareciam estar congelados e eu nunca havia me sentido tão nervosa em toda a minha vida. Uma palavra na tela do computador decidiria um ano da minha vida, envolvendo todas as partes: família, trabalho e amor. Maura. Seriam 365 dias, um ano completo longe da loira e eu não sei se consigo. Estamos tão bem desde nossa última briga que não quero estragar as coisas justo agora, quando as coisas começaram a voltar ao normal novamente. Desde Hoyt e Dennis nós temos sido extremamente protetoras uma com a outra. Tentamos não tocar no assunto e, se o assunto vem à tona, uma de nós duas sempre muda o rumo da conversa no exato momento.
Quatro e três é o horário marcado no relógio pendurado na parede. A ansiedade toma conta de meu corpo e não consigo me manter parada. Preciso de uma distração, de algo que me tire todos esses pensamentos e o peso de todas as decisões que terei que tomar.
- Vou descer para falar com a Maura. – digo para Korsak, que remexe alguns papéis em sua mesa. – Não consigo ficar aqui parada só vendo o tempo passar.
- Vai contar para ela?
- Ainda não. – respondo e respiro fundo. – Afinal, não sei qual é a resposta ainda. Pode ser que seja negativa. Não quero preocupa-la à toa.
Korsak apenas balança a cabeça em sinal positivo. Ele sabe de tudo que vem acontecido comigo nos últimos anos, desde o Hoyt até minha situação com Maura. Assim como Frost, ele é como se fosse da família. É família.
Caminho pelo longo corredor do Departamento até alcançar o elevador. Minha cabeça é uma confusão de pensamentos e reações e tudo que mais quero é organizá-los de modo que ninguém saia magoado ou prejudicado. Maura era em quem eu pensava. Ela havia passado por tanta coisa sozinha, sempre fora reservada e fechada o suficiente para que não deixasse ninguém entrar em sua vida e logo eu, que sou tão fria e fechada quanto ela, consegui fazer com que Maura Isles se abrisse de alma e coração.
As portas metálicas do elevador se abrem e sou retirada do meu transe. Adentro-o e aperto a seta para baixo. Respiro fundo várias vezes seguidas para tentar colocar os nervos no lugar. Minhas mãos suavam e eu tentava enxuga-las com o polegar, mas havia cicatrizes ali. Sempre que eu as sentia, flashbacks de Hoyt tendo-me presa ao chão com um bisturi ameaçando fazer um corte mais profundo em meu pescoço vêm à minha cabeça, lembrando-me de como é estar aterrorizada e com a lembrança o frio me percorre a espinha.
O barulho do elevador ecoa e percebo que o mesmo está parado no subtérreo, colocando-me de frente para o escritório de Maura. A porta estava fechada, então a loira estaria na sala de autópsias.
- Maura? – chamo ao entrar na sala, gelada e vazia.
- Estou aqui. – ela responde adentrando a sala novamente, fechando a porta que separava seu escritório do necrotério. – Está tudo bem?
- Está sim. – respondo, apesar de não ser totalmente verdade. – E você?
- Só um pouco de dor de cabeça, mas já passa. Você está bem mesmo? Eu sei quando você mente.
- A gente conversa sobre isso em casa, ok? – minha pergunta é respondida com um gesto de cabeça, afirmando.
Aproximo-me dela, abraçando-a por trás e depositando um beijo em seu pescoço. Nossa diferença de altura faz com que meu rosto descanse em seu ombro, sua cabeça pendendo um pouco para o lado para que eu me conforte. Pego suas mãos e entrelaço nossos dedos.
– Agora eu quero saber sobre você e essa dor de cabeça. Deixou de tomar café de novo?
- Não, eu tomei.
- Maura...
- O que foi? Eu comi!
- Urticárias, Maura!
- Ok! Eu iria deixar para comer assim que terminasse esse relatório, o que seria agora. – me solto de seu corpo e sigo em direção a seu escritório. – Jane, o que é que você vai fazer? Jane!
Ignoro o chamado da mulher e procuro por sua bolsa no sofá, poltrona, cadeira mesa, armário e prateleira. Quando acho o objeto, reviro até encontrar o pequeno pacote branco da barra de cereais que Maura sempre levava na bolsa.
- Aqui. – entrego-o para Maura. – Come.
- Você sabe que eu não como enquanto estou trabalhando, Jane. Ainda mais aqui, no meio das mesas de autópsia.
- Ah, mas você vai comer. – respondo, pegando o pacote de suas mãos e abrindo-o. – Come isso agora, que quando sairmos daqui te levo para jantar.
- O poder de persuasão dos Rizzoli nunca falha. – ela dá uma mordida no alimento e dou-lhe um sorriso vitorioso.
- Preciso subir para finalizar umas papeladas com Korsak, te espero no hall. É para você terminar isso. – aponto para a barrinha e antes de sair da sala dou-lhe um beijo rápido nos lábios.
Ao mesmo tempo em que minha ansiedade me corroía por dentro, eu não queria subir. Não queria ter que pegar naquele envelope e abri-lo, muito menos ler o que dizia no papel. Mas alguma coisa me dizia que era o certo a fazer, que eu deveria subir e, se caso a resposta fosse positiva, ficar feliz com isso e ir. O sentimento de ter que deixar Maura para trás arde em meu peito, não quero deixa-la.
Adentro a sala após vinte segundos parada no corredor. Procuro por Korsak ou Frost, mas a sala está vazia. Vou para minha mesa e encontro um envelope fechado e um bilhete, em post-it, que dizia: “Precisei ir embora, Frost também já foi. Saiba que, seja qual for a resposta, estarei do seu lado. – Korsak.”
Minhas mãos trêmulas seguram o envelope, receosas em abri-lo. Eu devia? Devia deixar tudo que construí para trás, por um ano? Deixar Maura, mesmo depois que tudo que aconteceu entre nós? Devia?
Antes que toda a coragem se esvaísse de meu corpo, abro o envelope. O papel branco continha em letras maiúsculas e minúsculas o meu destino.
Dobro-o ao meio, de modo que o pedaço de papel caiba em meu bolso. Saio da sala e faço o trajeto até o portão principal pensando em como abordar o assunto com Maura, planejando mil e uma maneiras para reagir diante da reação dela. Quando chego à porta, vejo Maura me esperando. Antes que eu me aproximasse, ela me abre um sorriso e não consigo ter outra reação a não ser sorrir de volta.
- Vamos? – pergunto. Pego sua mão e entrelaço nossos dedos, usando a outra mão para abrir a porta. Gesticulo para que ela vá a minha frente e vou logo em seguida. – Como está a dor de cabeça?
- Melhor um pouco. Só preciso de um Ibuprofeno.
- Você precisa jantar. Aonde quer ir?
- Chinesa?
- Você é quem manda. – dou-lhe um beijo na têmpora.
Entramos no carro e me posiciono no banco do motorista e ajeito meu cinto em meu corpo.
- Por que você sempre dirige? – Maura pergunta, ajeitando seu cinto.
- Porque da última vez que deixei você dirigir quase perdi metade do meu capô.
- Isso é um absurdo. Foi somente um arranhão bem leve no para-choque.
- Ah, leve. – digo com sarcasmo. – Tão leve que arrancou o para-choque inteiro.
- Pois saiba que tirei 98 em Direção e Manobras na autoescola. Ainda tenho pesadelos com isso.
- Na autoescola que você comprou sua carteira? Sei...
- Jane! – seu tom de voz sobe em uma oitava e sinto sua mão acertar-me um tapa.
- Desculpe. Mas dessa vez, mocinha, quem dirige sou eu.
O restaurante que eu havia escolhido leva-la não era muito distante dali. Apenas alguns sinais e esquinas dobradas e estávamos na porta. Desde que começamos a trabalhar juntas nós vamos a esse restaurante, sempre que sobra algum tempo.
A recepcionista já nos era familiar e sabia qual nossa mesa favorita, com a melhor vista para o iluminado Westgate. Nossos pedidos eram, quase sempre, os mesmos. Vez ou outra Maura pedia algo diferente enquanto eu sempre optava pelos calzones.
Acomodadas lado a lado com nossos pedidos feitos, entrelaço nossos dedos em meu colo e lanço um sorriso de canto de boca para a mulher ao meu lado. Seus olhos parecem brilhar e ela sorri de volta, descansando sua cabeça em meu ombro.
- Então, como foi seu dia? — sua voz quebra o silêncio entre nós duas.
- Normal. Fiz trabalho de escritório o dia todo. Foi meio entediante, para ser sincera. — meu corpo chacoalha com a risada que tento segurar. — E o seu?
- Fiz as autópsias hoje e você não vai acreditar no que eu encontrei no estômago de uma das vítimas. — ela me olha por um segundo, como se esperasse a minha já esperada reação de nojo.
- Ok, nós não vamos conversar sobre nada da sala dos mortos durante o jantar, por favor.
- Bom, tecnicamente, nossos pedidos ainda não chegaram...
- Maura!
- Ok...
Maura ri fazendo seu corpo tremer sobre mim. Sua risada era algo tão doce, tão inocente... Poderia ouvir àquele som todos os dias pelo resto da minha vida. Por um segundo eu pensei em como conseguiria deixa-la, se conseguiria contar para ela e ainda manter minha vontade de ir. Tê-la em meus braços era a única coisa que eu queria no momento.
Beijo o topo de sua cabeça e passo meu braço por cima de seu ombro, deixando-o pender. Maura deita sua cabeça em meu peito e se acomoda ali.
- Eu te amo. – digo baixinho, para que somente ela pudesse ouvir.
- Eu também te amo, Jane. – ela responde olhando em meus olhos. Seu sorriso estava enorme, deixando amostra a pequena covinha em sua bochecha.
Esperamos somente alguns minutos até que nossos pratos chegassem. Há muito tempo não jantávamos assim, tranquilas, sem pensar em tudo que estava nos aterrorizando.
Paro o carro na porta da casa de Maura. Há algum tempo eu não entrava em meu apartamento. Já era rotina: sair do trabalho, ir para a casa de Maura, dormir, ir para o trabalho e voltar com a loira para casa.
- Droga, acho que deixei meu celular cair aqui dentro em algum lugar. – digo, olhando para todos os cantos do carro. – Pode ir, já entro.
- Ok. – ela responde e deixa o carro.
Meu celular estava em meu bolso. Eu só precisava de uma maneira de distraí-la para pegar o envelope que eu havia deixado no porta-luvas antes de entrarmos no restaurante. Respiro fundo antes de dobrar o papel novamente e coloca-lo em meu bolso.
Saí do carro e entrei em casa. Não vi Maura na sala, cozinha ou em qualquer lugar por ali. Subi as escadas que davam em seu quarto e ouvi o barulho do chuveiro ligado. Abri o armário procurando por alguma coisa para eu vestir. Peguei um short preto e uma blusa branca qualquer. Não estava com cabeça para ficar escolhendo roupa. Desci para a cozinha novamente, minha cabeça parecia querer explodir. Peguei um remédio no armário e o engoli. Fiquei recostada no balcão durante algum tempo, até que vejo Maura apontar na escada.
- Ei, você demorou. – ela diz quase num sussurro e se aproxima, coloca seus braços em torno de minha cintura e pressionou seus lábios contra os meus.
- Quando eu subi você tinha acabado de entrar no banho, daí resolvi descer e tomar um remédio. Minha cabeça está me matando. – respondo, dando-lhe outro beijo. – Vou tomar um banho, ok?
- Ok. Vou esperar por você aqui embaixo.
- Ok.
Subo novamente deixando Maura sozinha na sala. Minha cabeça é uma confusão de pensamentos e medo. Adentro o banheiro, tiro o envelope da calça e deixo-o em cima da pia. Sinto a água quente cair em meus ombros liberando toda a tensão que me consumia há horas.
Fico ali por aproximadamente vinte minutos, não mais que isso. Saio enrolada na toalha e vejo que Maura continua na sala. Troco de roupa e pego o envelope, respiro fundo e desço.
- Maura, preciso falar com você.
Vejo a mulher sentada em uma das pontas do sofá, assistindo a algum documentário sobre coisas antigas. Eu me sinto completamente fraca e desencorajada, ali parada no último degrau do lance de escadas. Minhas pernas parecem bambear por um segundo. Caminho até o sofá e sento ao seu lado.
- Há alguma coisa errada?
Respiro fundo na vã tentativa de impedir as lágrimas de caírem. Não queria demonstrar fraqueza agora, não podia.
- Jane?
- Prometa que não vai surtar.
- Você está me assustando. O que aconteceu?
Entrego o envelope fechado, da maneira que eu o havia encontrado em minha mesa hoje mais cedo. Maura olha para mim com as sobrancelhas franzidas antes de pegar o papel. Não entendia uma vírgula do que estava acontecendo.
Maura lia cada palavra escrita no papel, seus olhos acompanhando a extensão de cada frase. Pude perceber sua expressão morrer e seus olhos marejarem.
- Jane, o que é isso? – ela olha para mim, seu rosto agora molhado tomado pelas lágrimas.
- Deixe-me explicar—
- Explicar o que? – ela pergunta ao se levantar do sofá. – Que você vai embora por um ano, para um campo de guerra, e que nem se deu o trabalho de me avisar?
Ela andava de um lado para o outro entre o sofá e a mesinha de centro. A mão que segurava o envelope entre o dedo indicador e o do meio em sua cintura, a outra em sua testa. Maura fitava o chão e eu sabia que ela estava, no mínimo, mal. Eu mantinha minha cabeça baixa, estava errada. Extremamente errada e eu reconhecia isso.
- Mesmo depois de tudo que aconteceu com o Hoyt, com o Dennis, tudo que aconteceu nas últimas semanas... Deus...
Levanto-me e fico de frente para ela, fazendo-a olhar para mim, para meu rosto agora tão repleto de arrependimento, por não ter contado antes. Ela fita meu rosto e suas bochechas molhadas e seus olhos vermelhos irritados pela quantidade de lágrimas fazem meu peito doer.
- Maura...
- É um ano, Jane. Não é uma semana ou um mês, é um ano inteiro. – diz Maura, olhando em meus olhos, com a voz falhando à medida que as lágrimas escorriam. – Como eu vou ficar sem você por um ano? É uma guerra, Jane. Você tem noção do quão em perigo você está colocando a sua vida?
- Eu sei de todos os riscos. E é só um ano, eu prometo que passa rápido.
- Eu vou com você. – ela diz subitamente. – Posso conseguir uma licença para exercer medicina nos campos.
- Não. – eu digo, fitando-a. – Eu não vou deixar você colocar sua vida em perigo.
- Eu só vou ser da equipe médica, Jane.
- Não são só os soldados que morrem por lá, Maura!
Maura se encolhe ao ouvir meu tom de voz aumentar. A culpa me atinge como um trem-bala e logo a puxo e coloco-a em um abraço.
- Me perdoa. – peço. – Me perdoa, por favor.
Seu corpo treme contra o meu devido aos soluços. Sinto minha blusa começar a umedecer-se com as lágrimas de Maura, seu rosto em meu peito. Ela não merece isso.
- Por favor, não vá. – ela implora em um sussurro.
- Eu preciso ir. – respondo em um sussurro. – Vai ficar tudo bem, você vai ficar bem.
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