Unseen Eyes
2 Broken - Parte um.
A lua cheia. Eu pessoalmente detesto esse período da lua. Apesar dela estar em todo o seu esplendor, radiante pelo reflexo dos bem direcionados raios de sol, sempre ilumina noites que não precisam de luz. Noites das mais profundas trevas, que não necessitam de uma bola prateada no céu para serem mais trágicas. Ou consideradas poéticas.
Pra mim, é no minimo inútil, essa fase lunar.
Mas é em uma noite desprezível dessas, que tudo realmente toma inicio.
São oito horas. O jovem Andrew estava na biblioteca da casa, foleando mais um livro de sua extensa coleção, a qual devorara de maneira prodigiosa. Absorvendo quaisquer informações.
Um garoto magro, baixo, no auge dos 11 anos, com lisas madeixas castanhas e escuras. Sua pele, alva, como se houvesse visto a luz do sol poucas vezes.
O azul de seus olhos era escuro e profundo, os mais belos olhos que eu havia visto. Confesso que foi a coisa que mais me chamou atenção, no inicio. Foi topar com aqueles infinitos olhos. Grandes e absolutamente sinceros. Incapazes de mentir.
Sua família era formada por mais quatro integrantes.
Sua mãe, uma linda mulher. Hora, perfeitamente simpática, agradável e cheia de alegria. Outrora, uma cobra, desprezível, detestável e calculista. Com o humor instável e imprevisível. Fanática por dinheiro, sempre na ganância de ganhar e ganhar mais do que podia sustentar. Sua família não era importante. Seu marido, ou seus filhos, mataria e chutaria qualquer um deles de seu caminho, se necessário.
Seu pai, um homem dominador. Sempre bancando o líder de família trabalhador, que não para uma hora no serviço e é digno de descanso. Mas seu trabalho limita-se em apenas mandar – Por telefone. – seus contratados traficar suas drogas em diferentes cantos do país. Saia de casa apenas para – Desculpe o termo chulo. – afogar seu ganso nas prostitutas mais caras que seu dinheiro pode conseguir. Acredite, sexo é um termo puro demais para a sujeira que ele fazia com aquelas mulheres. Algumas até eram famosas e davam as caras na TV. Sério, nunca havia visto tanta sujeira e canalhice. Da coprofilia mais horrenda, ao bondage e ao sadomasoquismo. O Sr. Crowsly era um homem pervertido, pederasta e totalmente detestável, tal qual sua esposa. Além de ser um pai ausente por completo, raras vezes lembrando-se que tinha uma família.
Alexander, o irmão mais velho. Dezesseis anos. Era um completo traste. Drogado, alcoólatra e sátiro, pervertido de maneira menos horrenda, porém mais compulsiva. No meio da adolescência, já havia perdido a conta de quantas mulheres e homens este já havia se deitado. Não era de se estranhar ser um adolescente demasiado problemático com uma família desgraçada como aquela.
Sophie, a irmã do meio. Uma garota depressiva e cadavérica, que não colocava nem o rosto para fora de seu quarto. Anoréxica, bulímica e também viciada em drogas. Sua vida já estava no prazo de validade. Poderia morrer a qualquer momento, seu corpo não se sustentava mais em pé. Andrew sempre visitava seu quarto, e, quando não era expulso aos berros, lia pequenos poemas para sua irmã. Na esperança de que ela tentasse se recuperar.
E entre essas ervas daninhas, havia uma rosa perfeita e imaculada. Sem o menor defeito. Uma criança de onze anos com os olhos mais puros e sinceros, como se nunca ouvisse da mentira, ou provasse da falsidade. A inocência estava atrás daqueles olhos azuis.
Pelo menos, até aquela noite...
Sophie! Posso entrar? – Gritou o menino do lado de fora. E como não ouviu nenhum grito, entrou rapidamente, batendo a porta devagar. Sentando-se logo em seguida do lado de sua irmã.. – Encontrei um poema novo, quer ouvir?
Como você consegue? – Disse o cadáver vivo, com a voz rouca e quase inaudível.
Achar esses poemas? Na biblioteca ué.
Não. – Tragou seu cigarro. – Sobreviver a tudo isso... Isso não pode ser chamado de vida... Como você consegue ser tão indiferente? Como consegue não sofrer?... Com essa família? Todos desistiram de viver...
O garoto não demorou a responder, e armou um belo sorriso em seu rosto.
Consigo porque eu sou muito mais forte do que vocês.
Eu admito que essa resposta me trouxe ao auge da excitação. Desculpem.
A garota deu um pequeno sorriso, havia perdido aquela discussão sem ao menos armá-la. Aquele rapazinho era realmente esperto.
Me desculpe, irmãozinho... – Uma lágrima rolou de seu rosto pálido. – Desculpe por não ter sido tão forte, por não ter de dado apoio... Por ter me rendido a Morte tão facilmente... Eu... Eu... Poderia ter sido uma irmã melhor...
Sophie, não comece com um discurso desnecessário. Você é, e foi a irmã que eu mereci ter... Quer dizer, eu prefiro ver as coisas dessa forma. Se eu fosse fraco como vocês, essa família já teria se esfarelado há tempos...
Você merece muito mais do que isso, Andy. Jamais diga o contrário. Eu te amo, por favor, acredite nisso.
Uma última lágrima rolou do rosto de Sophie, uma lágrima que desabou singela e sutil sobre a frágil mão de seu irmão mais novo. E, depois de um sorriso sincero, porém abatido, foi levada pela tão aguardada Morte. Juntando-se a eternidade.
Minha emoção atingiu o auge, eu confesso, quando vi o pequeno garoto abraçando o cadáver. Colocou o rosto em seu peito, para ouvir se aquele coração ainda pulsava, segurando seu próprio coração nas mãos, em desespero. A irmã era a única coisa que o motivava, apesar de ser uma figura abatida. Era a única pessoa que conseguia ser gentil. Que não abusava do pobre garoto.
De seus olhos, escorreram as primeiras lágrimas. Sim, as primeiras lágrimas choradas na frente de alguém. Mesmo que na frente de um defunto. As primeiras lágrimas que eu tive a chance de observar tombando de seu rosto. Lágrimas que me concederam uma visão nítida do que estava por vir, das trevas que aguardavam aquele garoto.
E a partir daquele momento, eu decidi com quem, ou o que, eu ocuparia meu tempo livre. Afinal, eu sou um demônio muito entediado.
“Ouviu-se um estrondo...”
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