Unschuldig

2 Predador, presa e o bote


Notas iniciais
Atualizada 21/09/2016.

Ninguém estava mais aguentando aquele falatório todo do professor de física. Smoker podia até ser um ótimo professor, mas depois de quatro aulas consecutivas dele qualquer um se cansaria. Nami encarava o quadro bastante entediada, isso para não dizer de saco cheio. Olhava constantemente seu relógio de pulso, mas cada vez que fazia isso parecia que a hora demorava mais a passar. Soltou um pequeno suspiro de frustração. Já havia se passado três meses desde que fizera a aposta silenciosa com Vivi e todas as tentativas de aproximação que realizara foram totalmente falhas.

Na verdade, parecia até que Luffy a estava evitando. Quando Nami tentava ficar a sós com ele, Luffy inventava alguma desculpa e rapidamente fugia do local. Não tinha mais invadido o quarto dela e até tinha mudado de lugar na sala. (Antes ele sentava atrás de Usopp, a esquerda de Nami. Atualmente estava sentado ao lado da carteira de Vivi.) A garota ruiva distraiu-se de seus pensamentos ao ouvir um roncar baixo. Olhou para Usopp e percebeu que, curiosamente, este dormia de olhos abertos. Como ele havia adquirido aquela estranha habilidade, ninguém sabia.

— E por hoje é só, classe. – logo após Smoker dizer isso, o sinal tocou. Foi possível até ouvir um gritinho de “aleluia” vir de algum canto da sala. – Lembrem-se dos seminários para a próxima semana!

O som do toque pareceu reanimar muito dos alunos que estavam se segurando para não dormir na aula, pois rapidamente guardaram o material e correram porta afora. Minutos depois o professor também se retirou da sala, parecendo bastante aliviado por sair dali. Pelo visto nem ele estava suportando ficar olhando pra cara dos alunos depois daquelas quatro aulas maçantes que dera.

— Hã? Onde? Quando? Quê? Comida? – Usopp acordou assustado ao receber um tapa forte na cabeça. Quem em sã consciência acordava alguém desse jeito bruto? O moreno olhou pro lado encontrando ninguém mais, ninguém menos do que Roronoa Zoro. – Zoro... Você me acordou pra quê?

Zoro deu de ombros.

— Ah, nada não. Só queria saber como você consegue dormir de olhos abertos. Isso me poderia ser muito útil no futuro...

Usopp sorriu travesso.

— Essa é uma história muito interessante... Há alguns anos, quando eu estava em minha viagem eremita pelo norte da Ásia—

— Esquece. Não quero mais saber.

— Ei! Que falta de consideração com a minha pessoa é essa?! Deixe ao menos eu terminar a narração! – Usopp choramingou, agarrando o braço alheio em busca de alguma atenção. Zoro, no entanto, apenas o sacudiu pra longe como se afastasse uma mosca inoportuna.

Ignorando completamente a cena que Usopp fazia perto de si, Nami ajeitava seu material na bolsa sem o menor traço de pressa. Ela era muito decente para sair apressada como a manada descontrolada que a maioria dos alunos formava quando ressoava por toda a escola indicando o fim da aula.

— Finalmente podemos ir embora pra casa! – Sanji falou alongando os braços e soltando uns estalos por ter ficado muito tempo numa só posição. Em seguida virou-se pra Nami e segurou uma de suas mãos, para lhe dar um beijo casto nela. – Nami, querida, deseja algo de especial para o almoço de amanhã?

Nami sorriu para Sanji, pensando um pouco no assunto.

— Não tenho nenhum pedido especial. Afinal, tudo o que você cozinha fica delicioso. – riu do garoto que só faltou corar com o elogio. Sanji era tão fácil de ser agradado... – Então deixo você escolher.

A alegria de Sanji foi tão grande que ele levantou e a abraçou fortemente. A ruiva riu baixinho. Seu amigo ás vezes era um tanto que carente.

— Ah, minha bela dama! – Sanji a girou no ar, causando, sem perceber, um leve levantar da saia dela. – Vou preparar algo super delicioso só para você!

Quando foi devolvida ao chão, Nami acabou captando um certo olhar estranho vindo de Luffy que era um dos alunos que ainda permanecia na classe. Seria ciúmes? A garota sorriu diante a possibilidade, mas o fato dele ainda estar acompanhado de Vivi tirou um pouco da felicidade que ela sentira.

— Ei, Sanji! – Usopp apareceu perto deles com as mãos na cintura, parecendo indignado. – Você não vai trazer nada pra gente também?

— Ah. Trago algo comestível para vocês. – Disse fazendo pouco caso – Talvez eu traga o resto de comida do meu cachorro especialmente para vocês. Ou quem sabe, venen... Quero dizer, variedade de alimentos!

— Nossa. Você mentindo pior que Usopp. – Zoro comentou bocejando e coçando a barriga de uma forma muito semelhante a que os idosos costumavam fazer.

— Oe, Zoro, não me compare com ele. Esse nível de mentira aí é inferior pra caramba, sei mentir muito melhor que isso! – Usopp acrescentou, orgulhoso, só se dando conta alguns segundos depois do que tinha falado. – Err... Não que eu minta com frequência, é claro...

Enquanto os garotos discutiam, Nami aproveitava a chance para olhar discretamente de soslaio para Luffy. Ele conversava com Vivi, com uma expressão que raramente era vista em seu rosto: ele estava apreensivo. Nami doaria uma parte de sua sorte de ganhar dinheiro para ouvir o que eles estavam conversando e olha que ela era bastante gananciosa. Infelizmente não havia como fazer isso.

— Por isso eu digo que não! – Sanji disse como resposta a algo que Usopp perguntou. Passou o braço ao redor dos ombros de Nami e continuou falando normalmente, enquanto gesticulava ouriçado para Zoro com a mão livre. – Você tem que ser mais sutil, não siga as dicas desse cabeça de alga maldito!

A ruiva teve que conter um sorriso ao perceber que na mesma hora que Sanji encostou o braço nela, Luffy lhe lançou um olhar entre ameaçador e confuso. Sorte que os outros garotos não perceberam, pois ainda estavam bem distraídos na conversa sobre como chegar numa garota. Depois de alguns minutos Sanji retirou o braço dos ombros dela para gesticular mais amplamente e dar ênfase em algo que ele estava explicando para Zoro.

Uma ideia surgiu em sua mente e ela sorriu malignamente.

Se ele queria ignorá-la, teria que se esforçar bastante a partir de agora. O primeiro passo do seu plano seria iniciado ali mesmo na sala. Observou os seus três amigos idiotas rolando e brigando no chão, por algum motivo igualmente idiota, e deu três socos, bem aplicados, neles. Um em cada um.

— Parem já com isso! – fingiu estar irritada, mas ria internamente daquela cena. Muitas vezes ela apenas fingia ficar furiosa, quando na verdade ela estava se divertindo com as brigas tanto quanto eles próprios. – Até você, Usopp? E eu achando que você era o mais sensato...

— Na verdade, eu não sei como entrei na briga. – Usopp era de longe o mais arrebentado, senão o único. Ele esfregou a bochecha inchada, soltando um gemido baixo. – Só lembro de estar tentando afastá-los e...

O de cabelos verdes bufou, cruzando os braços.

— A culpa é sua por ficar no meio. – Zoro disse completamente ileso, a não ser pela pequena protuberância que se formou no alto de sua cabeça por causa do soco de Nami.

— Nami! É tudo culpa desse maldito marimo. Ele vive me provocando de propósito! – Sanji até lacrimejou pra tentar despertar algum sentimento de pena da jovem de mechas ruivas.

Ao seu lado, o Roronoa empertigou-se para em seguida fazer uma carranca irritada.

— Minha, uma ova. Eu só disse a verdade.

— Que bela verdade de merda a sua, moita humana! Retire o que disse! – retrucou, empurrando Usopp para chegar até Zoro e o segurou pela gola da camisa.

— Quieto, manicaca. E eu não vou retirar nada. Você e sua sobrancelha defeituosa que se virem sozinhos.

— Não meta minha sobrancelha na conversa, seu sem-senso-de-direção!

— Eu nunca me perdi, ouviu! Os caminhos é que mudaram de lugar!

Sanji deu um riso de escárnio.

— Você é um grande imbecil, isso sim!

— E você é um babaca de marca maior!

Os dois rosnaram batendo a testa um no outro, parecendo prestes a iniciarem outra briga. Usopp que não queria ser envolvido outra vez, tratou de se afastar rapidamente e se escondeu atrás de Nami, como o belo corajoso que era.

— CHEGA! – gritou Nami, batendo novamente na cabeça deles. Agora eles tinham duas protuberâncias no alto de suas cabeças. – Vocês só sabem brigar, pelo amor de Deus!

— Oe, Nami... Por que eu apanhei também? – indagou Usopp, tentando entender como acabara ganhando outro galo na cabeça, quando ele apenas se afastara para evitar problemas.

Nesse momento a garota percebeu seu pequeno vacilo e deu um sorrisinho amarelo, enquanto mexia numa mecha do cabelo.

— Opa! Foi mal, Usopp. Foi força do hábito... Desculpa mesmo.

Zoro e Sanji – que ainda estavam trocando olhares irritados – bufaram e ficaram de costas, um pro outro.

— Parecem crianças... – Nami suspirou e depois sorriu. Quase se esquecera que tinha um plano para pôr em prática. – Bem, amigos sempre devem fazer as pazes depois de brigar... Então não briguem mais. Ao menos por hoje, certo?

E dito isso ela aproximou-se de cada um deles e depositou um beijo na testa. Zoro e Usopp franziram as sobrancelhas achando estranho, mas resmungaram um ‘sim’ como resposta. De Sanji não seu pra ouvir resposta alguma, pois ele desmaiou com um repentino sangramento nasal. Inicialmente o plano de Nami era dar um selinho em cada um, mas ainda bem que ela mudou de tática visto a reação exagerada do loiro. Imagina se tivesse sido nos lábios!

— Bem, agora eu tenho que ir. – balançou levemente seus cabelo, que chegavam até sua cintura, fazendo charminho e pegou sua bolsa. – Até amanhã, pessoal!

Passou lentamente ao lado de Luffy, só para ver que expressão ele estava fazendo e sentiu-se satisfeita ao vê-lo aturdido. Se bem que ele não deveria ter ficado tão chocado, afinal, havia sido só um beijinho inocente na testa. Ou melhor, três beijinhos inocentes nas testas.

Deu um sorrisinho de múltiplos sentidos para ele – embora ela duvidasse que Luffy fosse captar a intenção – e saiu da sala se sentindo bem mais confiante do que no início do dia.

*

Uma semana se passou sem que Nami dirigisse uma sequer palavra a Luffy. Porém, toda vez que Luffy passava ocasionalmente na frente dela, Nami fazia questão de abraçar ou fazer qualquer tipo carinho em Sanji, que dificilmente largava do pé dela. Mas o que era mais engraçado eram as reações do garoto de cicatriz na bochecha. Ás vezes ele ficava tão chocado com a cena que acabava batendo em alguma parede. Outras vezes ele corava, olhava furioso na direção dela e corria para algum canto qualquer pisando duro.

— Ai, ai. Será que ele ainda vai insistir em me ignorar? – Nami pensou em voz alta, suspirando. – Afinal, por que é que ele começou a me ignorar mesmo?

A garota ruiva fechou o livro que estava lendo e apoiou a cabeça em sua mão, pensativa. Só agora tinha parado para pensar no que levara Luffy a evitar falar com ela. Como podia ter esquecido de descobrir esse detalhe tão importante? A biblioteca estava um pouco escura e não se via mais ninguém por perto. Olhou em seu relógio e assustou-se ao ver que horas eram.

— Droga! Já são seis horas? Como foi que o tempo passou tão rápido?! – reclamou para si mesma.

Olhou pela janela de vidro que havia ali perto e percebeu que várias nuvens negras cobriam o céu antes limpo. Era bem evidente que uma forte chuva desabaria logo e se não fosse rápida acabaria chegando toda encharcada em casa, já que não tinha levado seu guarda-chuva. Por que sempre que chovia era quando ela não tinha levado o bendito objeto? Parecia que o tempo mudava de propósito. Soltou seu cabelo que estava amarrado em um rabo-de-cavalo e sentiu um alívio ao deixa-lo deslizar em suas costas.

Em seguida levantou-se e recolheu o grupo de livros que antes estava lendo. Tinha ido à biblioteca atrás de paz e sossego para estudar, mas acabou se distraindo com um livro de ficção que encontrara ali acidentalmente.

— Bem, termino de ler você depois. – ela falou olhando triste para o livro de capa colorida. – Você é tão interessante... Será que alguém perceberia se ele desaparecesse misteriosamente? – sorriu da própria ideia de furto que sabia que nunca conseguiria pôr em prática.

Estaria ela ficando louca? Já até estava falando com livros! Talvez passar o dia inteiro planejando formas de chamar a atenção de Luffy não fosse tão saudável assim e estivesse prejudicando o pouco de sanidade que ainda restava. Esticou o braço esquerdo a fim de colocar o livro em mãos na prateleira certa e parou ao sentir uma respiração próxima ao seu pescoço. Assustada, virou-se rapidamente e viu o rosto de um rapaz que não conhecia. Ele era mais alto que Nami e seus cabelos loiros estavam repicados de um modo não muito estiloso. Uma cicatriz marcava a pele de sua testa acima da sobrancelha direita, dando-lhe um ar perigoso. O seu olhar também era bastante intimidador e a garota recuou um passo, embora isso não tenha adiantado muito por estar de costas para uma estante.

— Oh. Assustei você? – ele sorriu malicioso, lambendo os lábios. – Não era minha intenção...

Nami apertou o livro que ainda mantinha em mãos, rezando para todo tipo de divindade que o medo que ela estava sentindo fosse apenas tolice e na verdade não tivesse motivo pra ficar preocupada. Contudo, quando o outro pôs as mãos na estante e aproximou o rosto do dela, o instinto começou a falar mais alto.

— Quem é você? E o que faz aqui? – Nami estava claramente preocupada, até seu tom de voz demonstrava isso. Estar sozinha com um garoto que não conhecia em uma biblioteca escura, com certeza era assustador.

— Calma, boneca. – o garoto segurou o rosto dela com certa indelicadeza. – Por que tantas perguntas? Não se lembra de mim?

A ruiva sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Ela o conhecia? Mas... De onde? Nami estava confusa. Não conseguia se lembrar de tê-lo visto antes, mas talvez fosse o nervosismo incontrolável que estava sentindo. Lá fora uma chuva torrencial começou a cair.

— Pelo visto você não lembra mesmo. Bem, para alguém como você deve ser muito rotineiro rejeitar todo tipo de gente que vem se declarar pra você... Mas talvez você lembre depois disso. – ele disse e logo em seguida beijou-a brutalmente, o cheiro de bebida alcoólica causando náuseas na jovem. Nami logicamente não correspondeu ao beijo, o que fez o garoto parar e encará-la com um sorriso presunçoso.

Agora sim a garota estava amedrontada. Ao receber aquele beijo bruto, lembrou-se automaticamente de quem ele era. Há, mais ou menos, dois meses ela recebera outro beijo idêntico a esse. O garoto se chamava Bellamy e era completamente maluco. Quando a viu pela primeira vez, se declarou para ela e beijou-a forçadamente. Nami tentou dispensá-lo da maneira menos ofensiva possível, mas ele insistira. Como ele não havia entendido quando ela tentou ser gentil, teve que ser curta e grossa para dar um basta aquela perseguição toda. O pior foi que mesmo assim Bellamy continuou persistindo e até conseguiu o número do celular dela, passando a enviar muitas mensagens de interpretações duvidosas. Assustada com a evolução do teor que as mensagens passavam a ter, Nami bloqueou o número dele. Só então ela passou a ter um pouco de paz, além de que Bellamy não tentara mais se aproximar dela depois de uma segunda rejeição explícita no meio do refeitório cheio de gente.

— Rá! Pelo visto você lembrou! – ele falou com escárnio na voz.

— Bellamy, o que você quer de mim, hein?! – Nami tentava se afastar dele, mas o garoto a segurava fortemente pelos ombros agora.

— De você? Eu só quero que você pague por me iludir daquela forma. Ficou esbanjando sensualidade para mim e quando reuni coragem para falar com você, fui rejeitado.

Nami arregalou os olhos diante tal loucura. Nunca nem tinha notado ele pela escola, quem dirá ficar esbanjando sensualidade por aí.

— Do que está falando, criatura? Eu nunca fiz nada disso!

— Oh! Não, não. Na verdade, você me conquistou e depois me esnobou. Após tudo aquilo que você me fez passar, eu venho observando-a de longe.

Quando Bellamy terminou de falar isso, um raio caiu no ambiente externo e iluminou brevemente o local. Nami sentiu suas mãos tremendo. Sua mente estava a mil por hora a fim de encontrar uma solução e até agora ela não conseguira pensar em nada útil. A garota não conseguia desviar o olhar do dele.

Bellamy estava olhando-a como se estivesse encarando uma presa.

Notas finais
Relendo aqui e pensando que talvez tenha sido aqui os primórdios do ship zosan em meu coração asuhsauhsa