Unlike Cinderella...
47 Capítulo 46 - War... - Parte 5
Notas iniciais
POV Ally
Mergulhei entre as árvores, com as botas escorregando na terra molhada e nas agulhas de pinheiro encharcadas, a respiração áspera no peito e a cabeça latejando. Tropeço e caio de lado. Fico no chão, ofegante, espiando através da floresta sombria.
Desde que o ataque inimigo dentro da Floresta Bávara se iniciou, eu havia me separado do grupo. Meu corpo estava fraco. O sangue que pedi começava a fazer falta e eu sabia que a guerra ainda estava longe de acabar.
Deitada no chão, cercada pela flora daquele assombroso lugar, eu conseguia ouvir os gritos e lamentações das vítimas daquela monstruosa batalha.
Mesmo levando os inocentes para os abrigos antibombas, meus inimigos haviam descoberto uma forma de encontrá-los e torturá-los.
Coloco a mão em meu pescoço e sinto o corte latejar. Ignorando qualquer resquício de dor, agarro o relicário e fecho os olhos, tentando me concentrar em encontrar um plano para sobreviver. As chances eram mínimas, tendo em vista que Brooke estava atrás de mim, tendo minha mãe em suas mãos.
Suspiro frustrada. Eu havia conseguido salvar Vick e Cecília, mas fracassei com minha mãe. Tudo parecia estar indo de mal a pior e eu não conseguia encontrar nenhuma solução. Austin havia desaparecido com Elliot, meu pai, assim que encontrou Edgar, deixou que Prince e Dez cuidassem do resgaste das rainhas e foi atrás do homem, Cassy e Dallas foram atrás de Taynara e eu não duvidava que Manu não faria o mesmo, além de que meu ombro parecia não queria parar de sangrar.
Ouço o caminhar pesado dos soldados de Edgar e Gavin rondando a floresta. Sinto a tensão tomar conta do meu corpo, ao ouvir a voz cínica de Brooke, dando ordens aos homens de meus inimigos. Ela parecia confiante em cima de seu cavalo e ver o sorriso maldoso moldando seus lábios fazia com que eu sentisse ainda mais nojo da garota.
– O que vocês estão esperando, seus idiotas? Encontrem Allycia, imediatamente! – grita, frustrada por não conseguir me encontrar. – Não é possível que aquela garota tenha sumido do nada.
Seguro minha respiração, tentando ao máximo não fazer barulho. Procuro meu revólver, mas logo me lembro que durante a confusão, eu o havia perdido. Brooke estava a poucos metros de mim e aquela era a chance perfeita para matá-la.
Olho em volta, procurando algo que pudesse servir de arma, mas a única coisa que encontro são folhas e minha inseparável espada. Cogito a ideia de atacá-la naquele instante, mas logo percebo que isso seria suicídio. Brooke estava cercada de homens e ainda possuía muito mais armas que eu, além de seu estado físico ser bem melhor que o meu.
– Senhora, nossos homens já procuraram por todas as partes e não há nenhum sinal da princesa Allycia. – anuncia um dos soldados, parecendo temer a reação da garota.
– Como não encontraram essa garota? – grita Brooke, irritada.
– Ela simplesmente desapareceu, minha senhora. – dita outro soldado, aproximando-se com o seu cavalo.
Antes que Brooke dissesse algo, um enorme barulho de canhão se manifestou, assustando os cavalos e causando um grande alvoroço entre os soldados que estavam próximos. A garota os olha assustada, enquanto tentava acalmar o cavalo em que estava montada.
Encolho-me, reconhecendo os temíveis tanques de guerra que o exército krosviano possuía. Fazia anos que eu não os ouvia, no entanto, o medo infantil ainda continuava vivo em mim. Por nascer em um país que vive em guerra, eu aprendi que quando tais armas eram usadas, a situação já havia saído do controle. Com certeza, a ordem tinha sido dada por Gregory.
– O que está acontecendo aqui? – questiona Brooke, contendo um brilho amedrontado em seus olhos.
– O exército inimigo está nos atacando com tanques de guerra, senhorita. – anuncia um de seus homens, parecendo lamentar o que estava por vir.
De repente, um novo alvoroço se inicia próximo ao local onde estávamos. Um grupo de soldados aparece, completamente feridos e repletos de destroços do campo de batalha. Brooke estava pálida. A realidade havia caído sobre a garota.
– Socorro... – imploram os feridos, aproximando-se de sua líder naquele instante. Brooke estava sem reação. Seu espanto era visível e seus homens pareciam completamente perdidos, sem qualquer comando.
– Senhorita. – chama um dos soldados mais experiente que estavam próximos de Brooke. – O que devemos fazer?
– Eu...eu não sei. – confessa, atordoada.
Mais bombas são lançadas, ocasionando em mais destruição. Brooke tremia e parecia estar prestes a desmaiar. Vendo que sua líder não tomaria qualquer atitude, o soldado suspira frustrado, como se soubesse desde o início que não era uma boa ideia a participação de Brooke.
– Os feridos devem fugir o mais rápido possível para o nosso forte e os soldados que ainda permanecem em condições de lutarem, preparem suas armas! – grita o moreno de olhos escuros. – Precisamos encontrar a princesa Allycia e usá-la como nossa moeda de troca pela vitória.
– Sim, senhor! – gritam os homens, passando a seguir as ordens de seu superior. Brooke continuava estática, observando os soldados se movimentarem da melhor maneira que podiam no pequeno espaço em que estavam.
De repente, sinto algo gélido sobre minhas pernas. Desvio minha atenção para a cena que ocorria entre os guerreiros de Edgar e Brooke e, cautelosamente, passo a encarar minha perna. Meu corpo endurece e o ar me falta ao perceber a enorme serpente sobre mim.
Eu queria gritar e correr para o mais longe do animal peçonhento, mas eu sabia que isso irritaria e aguçaria ainda mais o instinto traiçoeiro da víbora. E conforme ela subia sobre meu corpo, mais o medo aumentava.
As lágrimas desciam com intensidade. Eu não sabia como reagir. Qualquer movimento brusco que eu fizesse poderia me levar a morte. Eu precisava fazer alguma coisa, mas meu corpo parecia não obedecer aos meus comandos. A pele escamosa e de cor forte deslizava sobre a minha, causando a pior sensação do mundo.
Os gritos vindos das batalhas, lembram-me que meu objetivo era trazer a vitória e a paz para meu povo. Eu era a rainha deles, naquele momento. Precisava ser forte e confiante, capaz de enfrentar qualquer perigo, sem medo do que poderia acontecer.
Mexo minha mão lentamente e sinto o metal frio de minha espada. Começo a mover a mão até encontrar o punho da arma. Olho para o réptil, controlando ao máximo a minha respiração, e noto que sua cabeça estava do lado contrário ao meu rosto.
Volto a encarar Brooke novamente. A garota agora continha apenas três homens, somente com suas armas, ao seu lado e tentava controlar seu cavalo. Contando mentalmente, preparo-me para matar o animal que estava sobre mim e para a batalha que se iniciaria assim que minha localização fosse descoberta.
Segurando firmemente a minha espada, jogo minha perna para longe da serpente e, no momento em que ela me daria o bote, consigo atravessar seu corpo com a afiada espada. Sentindo o coração acelerado, levanto-me no mesmo instante e logo ouço os gritos de Brooke, ordenando que seus homens me capturassem.
Eu ainda estava aterrorizada por ter aquela serpente tão próxima de mim. Desde criança, um dos meus poucos e maiores medos são serpentes. A fobia se iniciou após ver um pequeno pássaro ser engolido por uma cobra quando eu tinha seis anos, desde então, o pavor por elas se tornava maior a cada dia. Agora, após ter vivido essa experiência, eu sentia que tudo havia piorado.
Acordo de meus devaneios ao notar a rápida aproximação dos soldados de Edgar. Limpo as minhas lágrimas e inspiro profundamente. A hora de mais uma luta havia chegado e eu não poderia me deixar levar por medos infantis. Ergo minha cabeça e, desviando de seu ataque, viro meu corpo e acerto minha espada na garganta do primeiro cavaleiro.
Corro na direção dos outros dois soldados e o nosso primeiro contato foi o choque das espadas. Os dois loiros passam a me atacar com agilidade, interceptando meus golpes rapidamente. Mais explosões são ouvidas e as lamúrias dos envolvidos na batalho se tornavam ainda mais altas.
De alguma forma, os pedidos de ajuda fizeram com que eu ganhasse mais força e confiança para continuar a lutar. Eu não poderia me entregar. O meu povo clamava por um líder forte e que fosse capaz de levar a paz a eles. Esse era o meu papel nessa tragédia grega que estávamos vivendo.
Chuto o abdome de um dos homens e cuspo nos olhos do outro. Eles se afastam, irritados pela minha atitude e enquanto se recuperavam, eu atinjo o rosto do primeiro e acerto o segundo na coxa esquerda. Aproveitando os segundos de vantagem que eu possuía, eu me afasto e enquanto estavam distraídos com os ferimentos, utilizo de toda a minha habilidade e agilidade para perfurar o olho de um e cortar a cabeça do outro.
A adrenalina continuava intensa em meu corpo. Minha respiração descompassada e o perigoso olhar que lanço a Brooke foram o bastante para assustá-la. A garota parecia surpresa com a minha reação. Não era preciso muito para descobrir que em sua mente, ela tentava encontrar os traços da tímida menina que perturbava na escola e que agora estava a sua frente, com a armadura coberta de sangue o com um visível desejo de vingança.
– Allycia Dawson. – sussurra Brooke, enquanto descia de seu cavalo. E mesmo com sua inesperada reação, a morena ainda parecia hesitar em se aproximar de mim.
– Brooke Clark. – digo, assumindo a minha postura mais ofensiva possível. Sorrio sarcasticamente, aproximando-me da garota, que me olhava desconfiada. – Você parece não muito bem, Brooke. Como é estar fora de seu castelo de cristal?
– Melhor impossível. – fala, sorrindo maleficamente. – Principalmente, sabendo que você irá morrer hoje pelas minhas mãos.
Dou uma risada discreta de descrença. A garota me olha com deboche e pega uma arma de sua cintura. Procuro pelo meu revólver, mas lembro que a única arma que eu tinha era a espada em minhas mãos. Praguejo, odiando-me por não ter pego mais armas.
– Não acha que está sendo presunçosa demais? – questiono, sorrindo, sem me deixar abalar pela pistola de porte médio em seu domínio. Eu precisava enrolar Brooke, enquanto procurava por alguma ideia que pudesse me levar a vitória. Não havia dúvidas que em combate corporal e com espadas, eu levaria a melhor, mas com uma arma de fogo, eu estava em desvantagem clara.
– Será mesmo? – pergunta, fingindo pensar sobre o assunto. – Eu acho que não, afinal, nós duas sabemos que uma arma é melhor que uma espada. Essa vitória será fácil para mim.
Outra explosão é ouvida. Brooke me olha assustada, enquanto eu a encarava friamente. De repente, sensação de nostalgia me preenche. Assim como naquele momento, eu já havia estado frente a frente com inimigos, ouvindo os gritos desesperados de meus aliados e contando com a sorte para sobreviver ao inferno que ocorria em meu amado país.
– A guerra é muito mais assustadora do que se parece, não é mesmo, Brooke? – afirmo, passando a encarar o incêndio que ocorria a alguns metros de nós.
A garota não me responde, apenas passa a me encarar, como se tentasse entender aonde eu queria chegar. Na realidade, nem mesmo eu entendia o motivo de estar dizendo isso para Brooke. Olho para as minhas mãos e o sangue brilhava intensamente sobre elas.
– O que você está vendo hoje é apenas uma amostra do que vivi durante esses dezessete anos. Por anos, eu vi Krósvia passar por diversas guerras e resisti ao seu declínio. – continuo, levantado meu olhar para a morena a minha frente. – Suas ameaças são algo que jamais irão me assustar, porque não importa o que faça comigo, Brooke, nada superará o que eu já vivi.
– Eu irei matar você! – grita, tentando me assustar, enquanto mexia sua arma descontroladamente.
– Então mate! – grito em resposta, abrindo meus braços. Brooke me encarava surpresa, transtornada. – Vamos, Brooke, atire!
E no momento em que Brooke destrava sua arma, uma pedra atinge sua cabeça, fazendo a garota soltar a arma e levar a mão a cabeça, enquanto se ajoelhava, sentindo a dor de ter sido apedrejada.
– Não ouse machucar a minha filha. – dita minha mãe, aparecendo ao lado de Trish.
Aproveito a distração de Brooke e jogo sua arma para longe. Seguro minha espada próxima a garganta da garota e passo a encarar minha mãe e minha melhor amiga. As duas pareciam exaustas, mas olhavam para Brooke com bravura e fúria.
– Mãe, volte para o castelo! – peço, respirando com dificuldade. – Aqui é muito perigoso.
– Eu não ficar parada, vendo minha filha lutar sozinha pelo reino que venho tentando proteger desde que assumi o trono. – dita a mulher, andando devagar na minha direção. Ela não estava bem. Seu rosto estava pálido e as mãos tremiam com intensidade.
No meio do caminho, a mulher parece perder um pouco a consciência. Trish, ao ver minha mãe cambalear, prestes a cair, corre em direção a mulher e a ampara.
– Mãe! – digo, preocupada.
De repente, Brooke pega uma adaga que estava escondida em sua bota e tenta me atacar, mas consigo evitar que a mesma me tingisse. Ela parecia surpresa, mas isso não dura por muito tempo. Brooke consegue pegar sua espada e joga sua adaga para longe.
Olho desesperada para minha mãe, enquanto Brooke e eu estávamos em um empate. Penny se vira para mim e sorri suavemente. Ela sussurra algo para Trish e a garota, preocupada, ajuda minha mãe a se levantar aos poucos.
– Eu...eu estou bem. – diz, fracamente.
– Trish, a leve de volta para o Castelo Cristal, por favor. – peço, temendo pela saúde de minha mãe. – Preciso que a deixe longe de toda essa confusão e dos conflitos que estão ocorrendo por toda Krósvia.
Ouço a risada maldosa de Brooke e desvio meu olhar para ela. A garota parecia feliz em ver o meu desespero. Seus olhos brilhavam com intensidade, como os olhos de um maníaco. Sua insanidade era visível e aquilo estava me assustando.
– Parece que meu namorado chegou para brincar conosco. – sussurra perigosamente. Brooke parecia estar fora de si. Possuía um sorriso demoníaco em seu rosto, tornando sua expressão ainda mais assustadora. – Em pouco tempo, Austin e eu viveremos juntos por toda a eternidade. Ninguém mais será capaz de destruir o nosso amor.
Eu não sabia sobre o que Brooke estava falando, mas era possível ouvir o relinchar de cavalos próximo de nós. Viro-me, rapidamente, na direção de onde vinha o barulho, quando Brooke cita o nome de Austin e assusto-me ainda mais ao notar que Gavin e ele lutavam a alguns metros de nós.
– Austin... – murmuro, aliviada por vê-lo vivo e temendo por sua vida ao ver seu estado lastimável.
– É uma pena que você não possa ver a morte do meu amor, querida. – diz Brooke, dando um chute em minha perna, desequilibrando-me, momentaneamente.
– Claro que não verei, afinal, os próximos na lista de espera para queimar no fogo do inferno são Gavin e você. Alguma coisa a dizer, como suas últimas palavras? – questiono, ironicamente, voltando a atacar Brooke.
– Morra! – grita Brooke, atacando-me freneticamente.
A garota estava dominada pelo ódio. Seus ataques eram incoerentes, no entanto, fortes e perigosos. Eu estava fraca e o máximo que conseguia fazer era interceptar seus golpes e evitar que eles me atingissem mortalmente.
Eu tentava me concentrar em minha luta, mas estava sendo uma tarefa difícil, tendo em vista que minha mãe continuava no mesmo lugar de antes, observando a nossa luta e que meu noivo estava incrivelmente ferido e sem condições alguma para enfrentar um dos maiores mestres em lutas.
Sem perceber, eu estava perdendo minha luta para uma garota que jamais havia recebido um treinamento digno para um combate de verdade em meio à guerra. Eu estava sem controle algum e meus ferimentos não ajudavam em nada. Era como se eu estivesse em um universo paralelo, onde estava destinado a mim a não sobreviver a qualquer que fosse a luta que ocorresse.
As cenas do meu primeiro beijo, da primeira troca de olhares e da primeira vez em que eu percebi que eu amava Austin como jamais amei alguém na vida voltam a invadir minha mente. Todos os planos feitos e o desejo de um futuro somente nosso estavam indo por água abaixo.
Uma fraqueza inexplicável toma conta de mim. Brooke consegue acertar um dos cortes em meu braço e o sangramento se reinicia. Eu estava fraca demais. Por mais que eu tentasse ser forte, meu corpo já não conseguia suportar mais. E por mais que eu dissesse que lutaria até o fim, eu não podia me enganar — o meu fim estava próximo.
O incêndio passa a se aproximar da floresta e, mesmo com intensa chuva que caia sobre a cidade, o fogo continuava a consumir qualquer coisa que estivesse à sua frente. A fumaça passa a circular por todo o local. Em minha mente, o único pensamento era que eu não havia escapatória. A minha morte já estava decidida. Ou Brooke me mataria ou as chamas seriam a causadora da minha ruína.
– Trish! – grito, tentando me manter firme. – Fuja com minha mãe para longe!
– Nós não vamos te abandonar, Allycia! – grita minha mãe, tossindo, logo em seguida, devido a fumaça. – Eu não vou embora até ter certeza de que minha filha está bem.
– Eu estou tentando levá-la, Ally, mas sua mãe insiste em ficar aqui. – fala Trish, respirando com dificuldade.
Desvio minha atenção de minha mãe e volto a encarar Brooke. No momento em que ela atingiria minha perna, interrompo o seu ataque e consigo empurrá-la para longe. Acerto minha espada em seu ombro, dou um soco em sua face e quando ela cai, chuto sua barriga.
Aproveitando o tempo que eu tinha, corro até minha mãe e Trish. Abraço minha melhor amiga e sinto suas lágrimas sobre mim. Eu queria tanto evitar que a garota estivesse passando por aquilo. Com certeza, Trish era a última pessoa que merecia ver cenas tão horríveis como a guerra.
– Eu sinto muito, Trish. – sussurro, assim que me afasto e limpo suas lágrimas. – Fuja daqui antes que as chamas tomem conta de todo o local ou mais inimigos apareçam.
– Mas, Ally, eu não... – tenta argumentar, mas eu a interrompo, decidida.
– Você já fez demais por mim. Se eu não posso ganhar essa guerra, ao menos quero ter certeza que minha melhor amiga sairá viva. – falo, limpando suas lágrimas e sorrindo. – Corra até o castelo e pegue um dos carros que estão em uma espécie de garagem subterrânea. Tente encontrar os outros e dirija até a cidade vizinha. Acredito que todos os carros possuam dinheiro. Compre as passagens de avião e voltem para Miami.
– Ally, por favor... – Trish chorava com mais intensidade. Eu odiava vê-la sofrer, mas tínhamos que ser realistas. Eu já havia os envolvido demais em meus problemas. Agora, eu precisava salvá-los.
– Obrigada pela ajuda. Eu jamais teria conseguido ir tão longe se não fosse por você e os outros. Sejam felizes por mim. – digo a garota e a abraço pela última vez. – Aproveite o momento em que Brooke e eu estivermos lutando e corra com minha mãe como jamais correu antes.
Quando eu a solto, viro-me para minha mãe. Os lamentos de Brooke eram audíveis e eu tinha certeza que ela continuaria a chorar e gritar de dor por mais alguns minutos. Sorrio tristemente para minha mãe e a abraço.
A mulher chorava silenciosamente e parecia saber exatamente o que eu estava pensando. Talvez aquela fosse a última vez que eu a veria e aquilo fez meu coração se contrair. Apesar de tudo o que ela fez a todos que estavam próximos de si, minha mãe já havia sofrido muito em sua vida.
– Allycia, não faça isso, por favor. – implora minha mãe, apertando-me ainda mais contra si. – Eu não vou suportar perder mais um filho.
– Vossa Majestade é a mulher mais sábia e forte que conheço. Continuará a reinar Krósvia com dedicação e cuidado, como sempre fizeste. Fora a melhor mãe que eu poderia ter tido. Nunca duvide disso. – sussurro, afastando-me de minha mãe. Acaricio seu rosto e sorrio, feliz por ver pela primeira vez na vida, Penny Dawson mostrar seus sentimentos. – Eu te amo. Muito.
De repente, ela olha assustada para algum ponto atrás de mim e me puxa para perto de si. Ela joga meu corpo para a direção inversa a que eu estava e quando dou por mim, Brooke havia atingindo as costas de minha mãe com sua espada.
Brooke tira a espada de dentro de minha mãe e olha assustada para nós. A mulher cai em meus braços, chorando ainda mais e sorrindo calmamente. Eu estava sem reação. Ela sangrava com intensidade e, por algum motivo, parecia feliz pelo que havia feito.
– Eu...te amo...tanto...minha...princesinha. – sussurra, acariciando meu rosto. – Eu sinto...muito. Eu...deveria ter...dito isso...antes que...você fosse embora.
– Mãe, pare, por favor. – digo, deixando uma lágrima descer de meus olhos.
– Por favor...não chore. – diz, limpando a lágrima. Ela estava radiante. Eu nunca tinha visto um sorriso tão bonito moldar os lábios de minha mãe. Era como se ela estivesse em paz. Suas lágrimas continuavam a descer com intensidade. Coloco minha mão sobre a dela e a aperto com força. – Uma princesa...nunca deve...mostrar seus...sentimentos. Não...importa o que...aconteça...permaneça forte...e diga ao seu...irmão que...eu sinto muito...por não...ter evitado...que ele fosse...expulso de Krósvia apenas...apenas por...amar a música...como nós...duas e que...eu o amava...muito mais...do que ele...imaginava.
– Mãe... – sussurro, impedindo que as lágrimas descessem de meus olhos. Por mais que estivesse doendo, eu não choraria.
Trish, que estava ao meu lado e chorava intensamente, coloca a mão em meu ombro. No entanto, no momento em que percebe que Brooke iria se aproveitar do meu estado e me atacaria, a garota pega a espada que estava próxima de mim e impede a morena de me atingir.
As duas garotas começam um confronto intenso. Olho assustada para Trish e Brooke, mas logo desvio o olhar para minha mãe, que já estava começando a se entregar. A mulher, notando o meu desespero, sorri e dá um sofrido suspiro.
– Allycia...prometa que...sobreviverá a essa...guerra e que...irá proteger e governar Krósvia...muito melhor...do que seu pai...e eu fomos...capazes. – pede, pegando em minha mão e a beijando com carinho. – Prometa que...será a rainha...que krosvianos...precisam.
– Eu prometo. – digo, firmemente.
– Seja feliz...meu amor. – fala, fechando os olhos. – Eu te amo.
Aquelas foram as últimas palavras de minha mãe e seu último sopro de vida. Abraço o corpo falecido da mulher e inspiro seu perfume, controlando a minha vontade de chorar. Eu sentia raiva de mim mesma. Mais uma vez, eu não consigo evitar a morte de alguém que amo e, o pior de tudo isso, era que eu sempre sou a culpada por suas mortes.
– Eu também te amo, mamãe. – sussurro em seu ouvido, mesmo sabendo que ela não me ouviria mais.
Respiro fundo e deito seu corpo no chão. A guerra ainda não havia acabado. Eu precisava cumprir com a promessa que eu havia feito a minha mãe. Não importando o que aconteça daqui para frente, eu protegerei o meu reino e darei um fim a essa guerra.
Olho na direção de Trish e Brooke. As garotas estavam exaustas e o ritmo de luta era lento. A fumaça a nossa volta dificultava a nossa visão e o fogo se aproximava cada vez mais. Tento encontrar Austin, mas não vejo nenhum sinal do loiro e nem de Gavin.
– Trish, já chega. – digo, enquanto me levanto do chão. As duas param de lutar e passam a me encarar. A latina me analisa por um tempo. Por fim, ela se afasta de Brooke e caminha até mim.
– Acabe com ela. – sussurra Trish, entregando a espada para mim. – Faça com que ela pague por tudo o que fez nessa vida.
Pego a espada da mão de Trish e sorrio discretamente. Eu estava possessa. O meu ódio por Brooke chegava a ser pior do que o que eu sentia por Edgar. E a garota parece ter percebido isso, pois assim que seu olhar se encontra com o meu, ela começa a correr na direção contrária do fogo.
Antes que Brooke conseguisse sair da área em que estávamos, eu a alcanço e me jogo em cima da garota, a derrubando. Sem esperar mais, enfio minha espada em seu ombro. Ela grita de dor e isso só aumenta o meu desejo de vingança. Puxo minha espada de volta e saio de cima dela.
Pego seu cabelo com brutalidade e esfrego seu rosto no chão, escutando os lamentos de Brooke. Cansada disso, puxo seus cabelos e a obrigo a levantar. Olho em seu rosto e vejo diversos machucados. Seu nariz e boca sangravam e ela chorava como nunca. Seus olhos estavam arregalados e era óbvio o seu medo. Sorrio, satisfeita por vê-la naquela situação e me divirto com a minha vingança.
– Você não foi valente o suficiente para matar Kira e a rainha de Krósvia? – sussurro, malignamente, em seu ouvido, puxando cada vez mais o seu cabelo. – Então seja valente o suficiente para lutar por sua vida.
Solto a garota e entrego sua espada para ela. Brooke tenta fugir, mas, antes que ela tivesse qualquer chance, eu enfio minha espada em seu outro ombro, fazendo-a chorar ainda mais. Vejo Trish se afastar do fogo que se aproximava, levando o corpo de minha mãe consigo.
– Por favor! Não me mate! – implora, chorando.
– Desculpa, mas eu ainda estou com vontade de torturá-la até a morte. Tenta de novo. Talvez eu tenha piedade de você e a faça ter uma morte rápida. – digo, ironicamente, enquanto encaro a garota que estava no chão. – Agora, lute! – grito, partindo para cima de Brooke.
Ela se vira no momento em que minha espada a acertaria mais uma vez, desviando do ataque. Rastejando, Brooke pega a sua espada e se levanta. Aparentemente, ela havia entendido que eu a mataria e a sua única forma de sobreviver era lutando comigo.
Com a espada levantada, ela corre em minha direção. Intercepto seu ataque e atinjo um chute em seu rosto. Brooke cai no chão e tenta se levantar, mas eu a chuto mais uma vez, fazendo-a cair de cara na poça de lama que estava próxima.
– Pare, por favor! – implora mais uma vez.
Pego-a pelo o braço e a faço levantar. O fogo estava bem próximo de nós e mesmo com a chuva intensa que caia, estava óbvio que ele não se extinguiria tão facilmente. Encaro Brooke com o meu pior olhar, observando o seu temor.
– Sabe qual foi o seu pior erro, Brooke? – pergunto, aproximando-me da garota, com a minha espada, enquanto ela se afastava de mim, aos poucos, indo de costas em direção ao fogo.
– Ally, por favor! Por favor! – grita, desesperada. – Não me mata! Eu sinto muito! Me perdoa, Ally. Eu sei que fui uma pessoa ruim, mas...por favor, não me mata!
– O seu erro foi mexer com a pessoa errada. – digo, dando o meu pior olhar, sem me abalar por seus apelos.
Sem controlar mais a minha raiva, eu a chuto com toda a minha força e a faço cair nas chamas que estavam próximas de nós. O fogo a atinge e ela começa a gritar, enquanto era queimada viva. E, por mais que soubesse que eu estava sendo uma pessoa pior do que Brooke, eu apenas a observava enquanto rolava no chão, tentando apagar o fogo em seu corpo.
– Ally, vamos embora! – grita Trish, olhando desesperada para mim. – A floresta inteira vai ser tomada pelo fogo e nós não conseguiremos sobreviver.
Dou uma última olhada em Brooke, vendo-a ser consumida cada vez mais pelo fogo. Respiro fundo e corro na direção de Trish. A latina, assim que me ver, abraça-me com força e me olha preocupada. Sorrio para ela e pego minha mãe.
– Vamos. Eu ainda preciso matar mais três pessoas. – falo, colocando minha mãe em minhas costas, com a ajuda de Trish.
– Você está bem? – questiona, preocupada, enquanto corríamos.
– Eu ficarei bem quando essa guerra tiver chegado ao fim. – respondo, vendo alguns cavalos mais à frente. – Parece que a Deusa da Guerra está a meu favor.
Corremos até os animais, que estavam presos em árvores e relinchavam desesperados, tentando fugir do incêndio que tomava conta da floresta. Solto alguns deles, deixando apenas dois deles ainda presos. Os animais que estavam soltos, correm assustados para o mais longe possível da floresta.
– Como levaremos sua mãe? – pergunta Trish, observando os cavalos. – Não conseguiremos colocá-la em cima de um deles.
– Vá na frente. Darei um jeito de levá-la. – peço, procurando alguma solução.
– Não, eu não vou. – responde, decidida. – Vamos procurar uma solução juntas.
Sorrio com a resposta de Trish. Determinada a agradecer a latina depois, passo a procurar em volta algo que pudesse nos ajudar a subir nos cavalos. Desespero-me mais ao notar que o incêndio já estava conseguindo nos alcançar.
– Droga. – digo, frustrada por não encontrar nada que fosse de grande ajuda.
– Ally, veja isso! – grita Trish, apontando para um pedaço do tronco de uma árvore que havia sido derrubada. – Se levarmos os cavalos até lá e conseguirmos acalmá-los, podemos colocar sua mãe em cima de um deles e ir embora.
– Ótima ideia, Trish. – digo, correndo com minha mãe em minhas costas, até os cavalos, ajudando Trish a soltá-los e leva-los até o tronco de árvore.
De alguma forma, os animais colaboraram conosco. Eles caminharam com calma e permaneceram quietos, enquanto Trish subia em um deles e eu entregava, com dificuldade, minha mãe a ela. Para nossa sorte, a mulher era bem mais leve do que aparentava ser.
Quando certifico que minha mãe estava bem segura com Trish, subo no outro cavalo e cavalgamos o mais rápido possível para longe do incêndio que estava prestes a nos atingir. E conforme nos afastávamos, mais audível o som das batalhas se tornava.
– Por qual caminho nós vamos? – pergunta Trish, assim que chegamos a uma espécie de encruzilhada no meio da floresta. Observo os caminhos e escolho ir pelo o que estava no lado direito.
– Por aqui. – digo, voltando a cavalgar.
A medida em que íamos nos aproximando do fim da floresta, a imagem de homens lutando se tornava mais clara. E quando já estamos a poucos metros deles, surpreendo-me ao notar que as pessoas que lutavam eram Gavin e Austin.
– Essa não. – fala Trish, assim que percebe a cena que ocorria a nossa frente. – O que vamos fazer?
– Austin! – grito, correndo até o meu noivo que estava em um estado precário.
Gavin e Austin se afastam, surpresos com a minha aparição. O loiro estava completamente ferido e acaba por cair próximo ao tronco de uma árvore. Meu inimigo me olhava com deboche e parecia estar se divertindo com meu desespero.
– Princesa Allycia Dawson. É uma honra encontrá-la, após tanto tempo. – fala Gavin, fazendo uma falsa cortesia. – Alegro-me ao ver que obteve vitória sobre a tola Brooke. – complementa, com um sorriso irônico no rosto.
Ignorando Gavin, desço de meu cavalo e corro até Austin. Ele estava semiconsciente e respirava fracamente. Seu corpo possuía diversos cortes e a quantidade de sangue que havia perdido era imensa. Meu coração se aperta ao ver que ele já estava entre a vida e a morte.
– Austin, permaneça acordado, por favor. – peço, colando nossas testas, desesperada.
– Ally... – sussurra, dando um fraco sorriso, enquanto abria os olhos.
– Meu Deus, o que eu faço. – sussurro, olhando assustada para o estado de meu noivo. – Eu preciso tirar você daqui.
– Que coisa feia, princesa. Seu pai não lhe ensinou que é falta de educação interromper a luta de dois cavalheiros? – fala Gavin, rindo. – Austin e eu ainda não terminamos.
– Ally...fuja, por favor. – pede Austin, tentando se levantar, mas estava tão fraco que acaba caindo de novo.
Afasto-me de Austin e me levanto. Encaro Gavin com ódio. Pego minha espada e inspiro profundamente. Volto meu olhar a Trish e ela estava ainda mais desesperada. Em seus olhos eu via o pedido para que não entrasse em mais uma luta, mas eu não tinha outra opção.
– Guarde sua espada, Allycia. – fala meu irmão, aparecendo de repente. Gavin me olha assustado e se vira para trás, encontrando Prince em cima de seu cavalo e com um olhar furioso. – Eu mesmo terei o prazer de arrancar a cabeça de Gavin com as minhas próprias mãos.
✻
Continua...
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