Unlike Cinderella...
32 Capítulo 31 - Romance...
Notas iniciais
POV Trish
– Não subestime a minha inteligência, garota. – diz Brooke, de maneira debochada. – Achou mesmo conseguiria esconder de mim que você é uma princesa? Princesa Allycia Dawson, herdeira do trono de Krósvia.
A resposta de Brooke surpreendeu a todos. Como ela sabia que Ally é princesa de Krósvia? Aproximo-me de Ally, esperando qualquer reação da cobra.
– Como você sabe disso? – pergunta Austin.
– Por que não pergunta para a sua namoradinha? – o forte sarcasmo no tom de voz de Brooke não foi evitado.
– Cuidado com o que fala, Brooke. – alerta Emily, causando estranhamento a todos.
– Fique calada, Emily. – repreende Brooke, lançando um olhar ameaçador para a loira. – Eu não sou idiota.
Emily apenas olha para a morena com um sorriso discreto, demonstrando deboche e caminha até uma mochila que estava na arquibancada do ginásio.
– Ainda não respondeu à pergunta, Brooke. – diz Dallas, com frieza. – Como você descobriu que Ally é uma princesa?
– Ela mandou investigar a minha vida. – responde Ally, demonstrando frustração. Alguns segundos depois, sua expressão se torna sombria e um pouco angustiada. – No dia em que você e Elliot brigaram, Austin, eu a peguei com uma revista com fotos minhas.
– O que? – questiono, sem acreditar. – Como você conseguiu uma revista com fotos da Ally?
Brooke sorri com sarcasmo e depois olha para a amiga, lançando um olhar cúmplice para a loira. Emily caminha até nós, lançando a revista aos nossos pés, despertando a nossa curiosidade.
Dez se abaixa e recolhe a revista, na qual, havia a foto de Ally na capa. O idioma utilizado na reportagem é completamente diferente do inglês. Olho confusa para os garotos e os mesmos pareciam tão perdidos quanto eu.
– O que está dizendo na reportagem? – pergunta Dez.
– Que língua é essa? – complemento, enquanto tomo a revista da mão do ruivo e começa a folhear as páginas.
– Krosvi¹. – responde Emily, surpreendo-me ainda mais.
– Você sabe demais para uma patricinha, Emily. – alfineta Austin.
– Não seja ridículo, príncipe. – responde a loira, com acidez. – Não sou uma ignorante como você pensa.
– O que quer dizer com isso? – pergunto, desconfiada.
– Isso não importa. – responde Brooke, parecendo não gostar nenhum pouco da atenção estar sendo voltada para Emily.
– O que você ganha com isso, Brooke? – pergunta Ally, aproximando-se da morena. – Essa briga de reinos não tem nada a ver com você.
Brooke olha para Ally com sarcasmo e ri escandalosamente. A morena pega seu celular e entrega a Emily. A loira a olha com seriedade e suspira frustrada, como se não aguentasse mais atender aos caprichos da garota.
– Espero que saiba o que está fazendo, Brooke. – diz Emily. – Eles não ficarão nada contentes com suas atitudes.
– Se sabe o que é melhor para você, Emily, acho melhor fazer o que estou mandando. – responde Brooke com frieza.
Ally nos encara por um momento, tentando entender o que estava acontecendo. Emily fala ao celular em uma língua completamente diferente, o que faz com que todos ficassem confusos, exceto a Ally.
– Não pode ser ... – sussurra a morena, em estado de choque.
– Ally? – chama Austin, preocupado. – Ally, você está bem?
– Ela... – Ally tenta falar, mas parecia não acreditar. – Austin, nós temos um problema. – dita por fim, recuperando-se do choque.
– O que está acontecendo? – sussurra Dez, olhando para o casal.
– Eu não sei. – digo com sinceridade. – Mas, pela reação de Ally, as coisas não estão nada bem.
– Será que é algum problema em Krósvia? – murmura Dallas, aproximando-se mais de nós.
– Espero que não. – falo, sentindo a preocupação se tornar ainda maior. – Não sei se eles irão aguentar mais problemas.
– O que foi, Ally? – questiona Austin, olhando para a namorada com apreensão.
Ally volta a olhar para Brooke, que continha um sorriso maldoso moldando seus lábios, e Emily, que continuava a conversar no celular. Conforme o diálogo da loira desenrolava, mais Ally ficava tensa.
– Por que não revela a todos a sua descoberta, princesa? – pergunta Brooke, sorrindo, falsamente, após Emily ter terminado de conversar com telefone e ter entregado o aparelho a garota.
– Por quê, Brooke? – questiona Ally, ignorando a sugestão da cobra. A demora em obter respostas estava me matando, mas eu sabia que não poderia interferir no assunto. – Você tem noção das consequências que as suas ações ocasionará?
– Eu não me importo, garota. Será que ainda não entendeu que vocês todos pagaram por tudo que já me fizeram passar? – rosna Brooke. – Eu quero vingança e eu vou conseguir.
– Do que você está falando, Brooke? – questiona Austin, confuso. – Se existe alguém que sofreu nessa história, eu tenho certeza de que não foi você.
– Você acha isso mesmo? – a expressão de Brooke era a de uma pessoa psicótica. – Você, Austin, sempre me ignorou, nunca ligou para mim, sempre preferiu as outras garotas, mesmo sabendo que eu era apaixonada por você.
– Você é louca, Brooke. – afirma Austin. – Apaixonada? Você só diz isso porque eu nunca me rebaixei para você. Eu fui a única pessoa, naquela época, que não tinha medo do que você poderia fazer comigo.
– Isso é mentira! – grita a garota, tremendo de raiva. – Eu amo você de verdade. Todos os caras me querem, então, por que você não me quer?
– Eu não sou todos os caras. – fala Austin, com frieza. – Você sempre tratou as pessoas da pior maneira possível, apenas porque queria que todos pensassem que você é superior. Está enganada, Brooke. O mundo não gira ao seu redor e você não é melhor que ninguém.
– Você ainda vai me amar, Austin. – diz a garota, começando a chorar.
– Não, isso não vai acontecer. – afirma Austin, abraçando a namorada. – Desista, Brooke. Essa sua loucura já passou dos limites.
– Não! – grita, mais uma vez. – Eu nunca vou desistir. Eu...
– Isso não é desculpa para se envolver com Gavin e Edgar. – grita Ally, assustando a todos, tanto por sua informação quanto pelo surto. Ela se solta de Austin e caminha até ficar frente a frente com Brooke. – Eu não me importo com seus desejos e caprichos, Brooke, mas, dessa vez, você passou dos limites.
– O que...
– Calada! – Ally interrompe Brooke, gritando novamente. – Você tem noção do que você fez? Você acabou de contribuir para o início de uma guerra! Será que, ao menos, uma vez em sua vida, poderia parar de olhar só para seu umbigo e pensar nas outras pessoas?
O silêncio reina, enquanto tentávamos absorver a fala de Ally. Eu sentia meu coração bater descompassado. Brooke estava ajudando Gavin e Edgar? Qual o problema dessa garota?
– Já chega! – falo, sentindo a raiva me motivar. Eu ia para cima de Brooke, mas sou impedida por Dez, que estava sério. – O que?
– Esse assunto não tem nada a ver conosco. – explica, olhando para Ally, Austin, Brooke e Emily. Os quatro pareciam não notar o que acontecia ao redor deles.
– O que quer dizer com isso? Estamos envolvidos nessa luta, também. – argumento, sem entender o que o ruivo queria dizer.
– Dez tem razão. – concorda Dallas, suspirando alto, em seguida. – Podemos estar lutando lado a lado de Ally e Austin, mas não podemos interferir em seus assuntos. Eles são os personagens principais e nós os secundários dessa história.
Analiso suas palavras e começo a entender o que eles estavam dizendo. Os garotos estão certos. Por mais que eu quisesse defendê-los, eu não posso fazer isso, porque essa história não é minha. Nunca foi e nem será. Eu sou só uma garota comum que teve a sorte de conhecer pessoas tão incríveis quanto Austin e Ally.
– Você... – começa Austin, descrente. – Você está ajudando Gavin e Edgar? Como pôde fazer isso, Brooke?
– Eu não ligo. – fala Brooke, voltando a sua expressão de deboche, após se recuperar do choque. – Eu terei minha vingança. Você, Austin, pagará por ter me rejeitado e você, Ally, aprenderá que ninguém desafia Brooke Clark. Eu não quero saber o que vai acontecer. Contanto que eu tenha minha vingança, eu não me importo com quem morra...
Ally se irritada e dá um tapa estralado na face de Brooke. Eu amei essa cena e juro que por muito pouco eu não gritei de felicidade. Brooke estava pronta para retribuir a ação de Ally, mas a mesma para ao ver o olhar que a garota lançava.
– Escute bem, Brooke. – a voz ameaçadora de Ally fazia com que Brooke fosse se afastando aos poucos, ao mesmo tempo em que arregalava os olhos a cada palavra dita. – Existem mais de cinco países envolvidos nessa guerra. Inúmeras pessoas vão morrer com isso. Jovens, adultos, idosos e crianças. Sua vida não é mais valiosa que a de ninguém. Aquelas pessoas não tem culpa de nada. Elas nem sabem que você existe. Você é só uma garotinha mimada que cresceu cercada de luxo em um castelinho de cristal com decoração cor de rosa. Você não sabe o que acontece em uma guerra e agradeça aos céus por isso. Não será você que verá sua família morrer na sua frente ou ver uma cidade inteira ser devastada. Você nunca viveu ao lado da fome, morte, destruição e todo aquele cenário melancólico que a guerra causa. As coisas já estão ruins o suficiente. Eu não preciso de uma patricinha egocêntrica para piorar ainda mais a situação. Então, se sabe o que é melhor para você, fique bem longe dessa guerra. Afaste-se dessa garota – Ally aponta para Emily, que continha um sorriso satisfeito no rosto. –, e não se envolva mais, porque, no final, você será a primeira a sofrer as consequências de participar de algo que não tem nada a ver com você!
Brooke encarava Ally com espanto, assim como Dez, Austin, Dallas e eu. A fúria que a garota emanava de si, deixava claro que ela não estava mentindo. Ally já havia passado por tudo o que havia dito.
Emily começa a ri e a bater palma, demonstrando toda a sua satisfação. Encaramos a loira, esperando alguma explicação de sua parte. Alguns segundos se passam e finalmente ela para de ri.
– Incrível Princesa Allycia. – elogia Emily, parecendo estar sendo sincera. – Finalmente, alguém para dá um choque de realidade nessa garotinha.
– O que quer dizer com isso, Emily? – pergunta Brooke, com a voz um pouco rouca.
– Deveria ouvir a princesa, Brooke. – adverte Emily. – Por mim, Gavin e Edgar jamais deveriam ter te colocado nessa história. Você é só uma garotinha mimada que acha que pode fazer qualquer coisa, mas você não pode. Você vive em um mundinho encantado, Brooke. Nunca conheceu a verdadeira dor nem sofrimento.
– Eu não vou desistir. – dita Brooke, apertando os punhos e fechando os olhos com força. – Eu não me importo com o que pensam!
– Inacreditável. – fala Emily, sem acreditar. – Ainda insistirá em se envolver em algo que você não tem, absolutamente, nada a ver?
– Não duvide de mim, Emily. Posso não ser uma assassina como você, mas isso não significa que eu não tenha forças suficientes para acabar com eles. – fala Brooke, lançando um olhar ameaçador para Emily, que não se sente intimidada.
– Tanto faz. Eu não me importo com o que você vai ou não fazer, contanto que não me atrapalhe e nem atrapalhe Gavin e Edgar. – após dizer isso, Emily pega a sua bolsa, lança um olhar significativo para Ally e sai do ginásio nos deixando sozinhos.
– Não vão se livrar de mim tão cedo. – alerta Brooke, pegando as suas coisas e passa por Ally e Austin, fazendo questão de esbarrar no casal e deixa o lugar sem olhar para trás.
– O que faremos agora? – questiona Austin para a namorada.
Antes que Ally tivesse a oportunidade de responder a pergunta do loiro, o celular da morena começa a tocar. Ela visualiza a tela do aparelho e suspira um pouco, atendendo em seguida.
– Oi Tyler. – fala. Ela permanece em silêncio por um momento e sua expressão muda drasticamente. – O que? – Ally escuta o homem por mais um tempo e depois volta a falar: — Tudo bem. Eu irei para QG com o Austin. Você e Manu devem ir para o galpão para esperar Trish, Dez, Dallas e Cassidy. Não. Eu acho melhor vocês se concentrarem no treinamento deles. – ela para de falar, mais uma vez. – Eu não tenho boas notícias também, mas prefiro conversar sobre isso pessoalmente. Você e Manu vão para o galpão e, mais tarde, Austin e eu nos encontraremos com vocês lá. Certo. Vejo você mais tarde. Tchau.
Ally desliga o celular e volta a guardar o mesmo em seu bolso da calça. Ela levanta seu olhar para nós, com preocupação estampada em seus olhos. Preparo-me para a bomba que, provavelmente, viria e tomo coragem para fazer a pergunta:
– O que aconteceu?
– Gavin e Edgar entraram em contato. – responde, nervosamente. – Tyler disse que não podia me contar por telefone sobre o que eles falaram, mas as coisas estão complicadas. Preciso ir para o QG. Vocês devem se preparar, pois com Brooke envolvida como estar, eu não sei do que ela é capaz de fazer. Encontraremos com vocês mais tarde e eu conto o que aconteceu por lá.
– Tudo bem. – concorda Dallas, em nome de Dez e eu.
– Vamos Austin. – apressa Ally, recebendo um aceno positivo do loiro.
Observo o casal partir, sentindo meu coração bater mais rápido. Olho para Dez e Dallas e vejo que, provavelmente, a preocupação deles é tão intensa quanto a minha.
– Tudo vai ficar bem. – digo, tentando me convencer.
– Espero que sim. – afirma Dez, tão pensativo quanto eu.
[...]
– Mais rápida, Trish. Seus movimentos estão muito lentos. – grita Manu, mais uma vez. – Chute esse saco de areia com mais força. Dez, Dallas, prestem atenção nos movimentos que estão fazendo com as espadas. Cassidy, você precisa tomar cuidado com a sua guarda.
Estamos no galpão de treinamento, Dez, Cassidy, Dallas e eu junto com a mulher e Tyler. Todos estavam tensos e preocupados. A verdade é que hoje estava sendo o pior dia de treinamento. Enquanto Ally, Austin e Prince não chegassem, não conseguiríamos nos concentrar.
– Muito bem. – fala Tyler, chamando a nossa atenção. – Vamos dar uma pausa. Do jeito que vocês estão, não conseguiremos nada.
Após dizer isso, ele vai ao encontro de sua prima e os dois começam a conversar discretamente. Aproximo-me de meus amigos e os três me encaram sem dizer nada.
– Precisamos nos concentrar. – diz Dallas, enquanto seca o rosto com uma toalha qualquer.
– Sabemos disso. – fala Dez, sentando no banco mais próximo. – Mas, eu não consigo fazer isso, enquanto não souber o que estar acontecendo em Krósvia.
– Eles estão demorando a chegar, não é mesmo? – comenta Cassidy, sentando no chão. Sento-me ao seu lado e concordo, balançando a cabeça, preocupada.
– Precisamos manter a calma. – digo, olhando para Tyler e Manu, que pareciam tão angustiados quanto nós. – Não podemos fazer muita coisa a não ser treinar e aprimorar nossas habilidades.
– Trish tem razão. – concorda Cassidy. – Se não podemos ajudá-los com os assuntos políticos, ao menos podemos servir de reforço físico. Eu prometi ajudar Austin e Ally e é isso que irei fazer. Treinarei até ser forte o suficiente para protegê-los.
Os garotos sorriem de maneira cúmplice e se levantam. Eles pegam suas espadas e nos estende outras duas que estavam próximas. Dou uma piscadela para Cassidy que sorri discretamente e pega sua espada. Levantamos e seguimos para o tatame onde treinamos o combate com espadas.
Manu e Tyler percebem a nossa movimentação e viram-se para nos encarar e entender o que estava acontecendo. Quando Cassidy começa a lutar com o namorado, viro-me para Dez e me coloco em posição de ataque, iniciando um combate entre nós dois.
Olho rapidamente para os primos e os dois estavam sorrindo satisfeitos por nossa atitude. Resolvo me concentrar no que fazia e tentar esquecer os problemas que rondavam a minha mente.
Ataco Dez com mais intensidade, surpreendendo o ruivo que sorri em resposta e começa a se defender. Vez ou outra o ruivo me atacava, mas eu percebia que ele não estava usando 100% de seu potencial.
– Qual é, ruivo? Vai ficar se segurando até quando? – pergunto, com sarcasmo.
– Não estou me segurando. – fala, desviando de um golpe que por pouco não acertou seu braço.
– Quer dizer que da noite para o dia eu me tornei uma espadachim e estou lutando de igual para igual com uma pessoa que treinou esgrima por doze anos? Uau, eu sou mesmo muito boa. – digo, com ironia, arrancando uma gargalhada do ruivo.
– Quer mesmo que eu lute com tudo que eu tenho contra você? – pergunta, batendo sua espada contra a minha, causando um alto barulho pelo chocar das espadas.
Forço minha espada contra a dele com mais força, obrigando o ruivo a se afastar. Ele me olha, impressionado por minha determinação e eu, em resposta, dou-lhe um sorriso convencido para Dez.
– O que você acha? – pergunto, ainda sustentando o mesmo sorriso. Ele ri, balançando a cabeça negativamente. – E então? Vai me dizer que você não é capaz de...
Antes que eu terminasse minha frase, o ruivo avança sobre mim, surpreendendo-me. Graças aos reflexos que venho adquirindo com o treinamento, consegui me defender com a espada.
– Muito bom. – sussurra Dez. – Mas, terá que fazer muito mais que isso.
Voltamos a chocar as espadas e as coisas começaram a ficar mais complicadas. Não era nada fácil atacar e me defender e Dez se aproveitava da minha dificuldade.
Passamos alguns minutos lutando de maneira intensa, até que em um movimento rápido feito por Dez, eu acabo me desequilibrando e quando estou prestes a cair, o ruivo me segura. O problema é que Dallas bate em Dez, sem querer, e nós dois acabamos caindo.
Para a nossa sorte, as espadas haviam caído longe, durante a nossa confusão. Quando já estávamos no chão, Dez e eu não aguentamos e começamos a ri.
O problema foi na hora que percebemos a nossa proximidade. O ruivo estava por cima de mim e nossos rostos estavam muito próximos. Olho em seus belos olhos azuis e sinto que tudo ao meu redor desapareceu sem que eu percebesse.
Ele foi se aproximando aos poucos, fazendo meu coração bater mais rápido e minha respiração ficar descontrolada. Nossos lábios se tocam em um rápido selo. Ele se levanta, rapidamente, um pouco atordoado e sai do galpão, sem me dar nenhuma explicação.
Continuo a encarar a saída do local, ainda deitada no tatame, sem saber o que fazer. Meus sentidos ainda estavam fora de controle. Percebo, então, que Tyler, Manu, Cassidy e Dallas haviam visto a cena e estavam tão surpresos quanto eu.
– Hãn... – tento dizer alguma coisa, mas minha cabeça estava tão conturbada que nem uma frase coerente eu consigo formar.
– Vai atrás dele, Trish. – incentiva Cassidy, sorrindo encantada.
– O que? – digo, sem acreditar no que a garota dizia.
– O que você ainda está fazendo aí, Trish? Vai logo atrás do ruivo. – fala o namorado da loira, sorrindo animado.
– Mas...
– Nada de “mas”. Vai logo. – após a interrupção de Cassidy, levanto-me rapidamente e vou atrás de Dez, sem saber ao certo o que fazer.
Procuro por Dez por um bom tempo e não o encontro em lugar algum. Sinto falta do carro do ruivo e vejo que o mesmo já havia ido embora. Suspiro frustrada e volto para o galpão, onde encontro quatro rostos ansiosos por respostas.
– Oi. – digo, tristemente, assim que retorno.
– O que houve? – pergunta Manu, preocupada.
– Ele já foi embora. – falo, arrancando suspiros tristes das meninas.
– Mas, como? As coisas dele ainda estão aqui. – diz Dallas, sem acreditar.
– Esqueceu que ele guarda a chave do “precioso” carro dele no bolso do short? – respondo, chateada.
– Não fica assim, Trish. – diz Cassidy, vindo ao meu encontro, abraçando-me logo em seguida. Após algum tempo, separo-me da garota e suspiro, tentando melhorar o meu humor.
– ‘Tá tudo bem, Cassidy. – digo, tristemente. Direciono o meu olhar para Manu e Tyler. – Se importam se eu for para casa?
– Não. Pode ir. – responde Tyler, sorrindo compreensível. – Quando Austin e Ally chegarem, avisamos que ocorreu um imprevisto e vocês tiveram que sair.
– Obrigada. – digo, indo em direção as minhas coisas.
Troquei de roupa e pego meu celular, observando o papel de parede onde havia uma foto minha com Austin, Dez e Ally. Foco meu olhar no ruivo e em seu belo sorriso. Sorrio ao lembrar do dia da foto. Foi no dia em que Austin e Ally haviam se entendido e nós haviamos firmado a nossa amizade. Suspiro cansada e resolvo que é melhor ir para casa e tentar pensar em alguma forma de resolver a minha situação.
– Você quer que eu vá com você? – pergunta Cassidy, assim que me ver.
– Não precisa. – respondo, sorrindo forçadamente. – Ally vai precisar de apoio quando chegar. Faça isso por mim, sim?
– Tudo bem. – concorda, meio contrariada. Sorrio por saber que posso contar com a loira, despeço-me de todos e vou em direção ao carro.
Naquele dia, todos resolveram ir dirigindo, por sorte. Dou partida no veículo e sigo viagem para casa. Eu estava tão distante que nem percebi quando cheguei em casa. O sol já estava se pondo, revelando que deveria ser quase seis horas da tarde.
Entro em casa e vejo que meu pai e meu irmão ainda não havia chegado. Ouço barulhos vindo da cozinha, local onde, provavelmente, minha mãe está.
– Trish? – diz minha mãe, assim que fecho a porta da casa.
– Oi mãe. – falo, indo até a cozinha.
– Está tudo bem, mi hija²? – pergunta, olhando para mim, com preocupação.
– Tudo. – digo, não revelando a confusão que está a minha cabeça. – O treinamento foi difícil.
– Ah, o treinamento... – sussurra, um pouco chateada, voltando a se concentrar no corte dos legumes.
Meus pais não aprovam nenhum pouco o meu envolvimento com os assuntos da guerra de Krósvia. Foi preciso haver uma grande discursão aqui em casa para que eles aceitassem a minha decisão.
– Até quando vai me tratar assim, mãe? – pergunto, cansada de vê-la agindo como se eu estivesse cometendo o maior erro da minha vida.
Ela para de cortar as coisas e coloca a faca sobre a tábua. Lava as mãos e as secam em seu avental. A mulher permanece olhando para a pia alguns instantes, como se refletisse sobre a minha pergunta. Por fim, minha mãe suspira e se vira para mim.
Ela se senta na mesa ao meu lado e balança a cabeça tristemente. Eu via o quanto minha mãe não estava satisfeita com as minhas escolhas. Ela olha em meus olhos e pega a minha mão.
– Hija, eu sou a sua mãe. Se existe alguém nesse mundo que deseja protegê-la, acima de tudo, esse alguém sou eu. Saber que a minha menina está se envolvendo em algo tão perigoso assim me assusta. Eu tenho medo que se machuque, Trish. – explica, sem nunca desviar seu olhar de mim.
– Mãe, eu não sou mais uma garotinha. – digo, contrariada. – Eu quero lutar ao lado dos meus amigos. Eu estou treinando para não me ferir.
– Não me peça para apoiar você em algo tão absurdo como isso, Trish. – repreende minha mãe, com frustração. – Já está sendo difícil o suficiente ter que aceitar suas escolhas.
– Eles são meus amigos, mãe. – argumento.
– E você é minha filha. – contrapõe, no mesmo tom que eu. – Você viu o que aconteceu a Elliot, Trish. Aquele garoto só tinha 18 anos. Ele morreu para proteger Ally. O sofrimento de uma mãe em perder seu filho é grande demais. Eu não quero perder você.
– Você não vai me perder, mãe. – digo, tentando convencê-la.
– Quem garante? – fala, elevando o tom. – Você é só uma menina, Trish. Nunca enfrentou nenhum perigo tão grandioso como agora. Ally e Austin foram criados para isso, assim como Tyler, Prince e Manu. Mas, você, hija... Você foi criada para ser uma garota normal, com um futuro brilhante.
– Você não entende, mãe... – sou interrompida pelo levantar inesperado de minha mãe.
– Você que não entende, Trish. – responde, alterada. – Mas, não se preocupe, não irei fazer como os pais de Dez. Não irei proibi-la, no entanto, não apoiarei essa sua atitude.
– Tudo bem. – digo, cansada de tentar persuadir minha mãe. – Eu vou dar uma volta.
– Não volte tarde. Pode ser perigoso. – recomenda, voltando a seus afazeres.
Saio de casa, com a cabeça a mil. Resolvo que o melhor a fazer era andar para colocar os pensamentos em ordem. Sigo o caminho para a casa de Austin e Ally. A casa fica a uns dez quarteirões de onde moro, mas eu precisava mesmo espairecer.
A noite já dava seus primeiros sinais, quando passo por uma parte mais deserta da cidade. Não havia nenhuma alma viva na rua a não ser eu mesma. Com tanta coisa na cabeça que acabei nem me importando com esse detalhe.
No entanto, a tranquilidade não durou por muito tempo. Sou surpreendida por cinco caras que sorriam com maldade. Vejo as mesmas tatuagens que estavam nos braços dos homens que nos atacaram no dia da morte de Elliot. O desespero toma conta de mim. Eles seguravam espadas e usavam roupas escuras, diferente daquele dia, eles não estavam usando máscaras.
– Com licença. – digo, tentando passar, mesmo sabendo que isso seria em vão.
– Você virá com a gente, garotinha. – afirma um dos homens, sorriso maldosamente.
– Não, eu não vou. – respondo, sentindo meu corpo se arrepiar em sinal de alerta.
– Você deveria colaborar conosco, menina. Seria bem melhor para você. – fala o outro, usando um falso tom de bondade.
Olho em volta a procura de ajuda, mas vejo que estou sozinha. O medo retorna e a vontade de sair correndo e me esconder é ainda maior. Penso em ligar para Dez, mas sei que qualquer movimento de minha parte pode me levar a morte.
De repente, um dos homens agarra meu braço com força. Tento me soltar, mas ele é forte demais. Começo a me debater, mas isso só desperta a fúria deles.
– Fique quieta, garota. – reclama um deles. Outros três haviam saído, provavelmente, para ir buscar o carro para me levar.
– Me solta! – grito, mas não adianta nada.
– Cale a boca da garota, idiota. Se ela chamar atenção, nós estaremos encrencados. – alerta o homem ao seu lado.
O cara que me segurava tampa a minha boca, mas eu não parava de me debater, o que dificultava as coisas. O outro, vendo a dificuldade do “amigo”, começa a tentar me acalmar, mas as coisas não estavam sendo fácil para a dupla.
– Garota, se você não quiser ser morta aqui, acho bom você ficar bem quietinha. – fala o homem, irritado, apontando a espada para meu pescoço.
Paro no mesmo instante, com medo do que poderia acontecer. Meu coração batia descompassado e meu corpo tremia. O homem ri satisfeito por sua ameaça ter dado certo.
– Muito bem. – diz o homem que me segurava.
– O carro já chegou. É melhor nós irmos antes que alguém apareça. – sugere o homem que segurava a espada perto do meu pescoço.
– Sim. – concorda o outro. Eles começam a me arrastar para dentro da van, assim que a mesma estacionou próxima de nós. Debato-me mais uma vez, mas não consigo me soltar. – Fique quieta, menina.
– Dez. – murmuro, ainda me debatendo, começando a chorar. Eu queria tanto que ele estivesse ali comigo.
Os homens tentavam me colocar dentro da van, mas eu não estava colaborando. Quando já estavam a ponto de me atacarem com uma espada, escutamos um grito ao longe. Logo reconheço o dono da voz e meu corpo estremece por saber que ele estava tão perto de mim.
– Soltem ela! – grita Dez, correndo em nossa direção com sua espada.
– O que aquele garoto quer? – questiona o motorista da van.
– Ele é um dos amiguinhos da princesa. – responde o homem ao seu lado. – Vamos aproveitar que ele veio ao nossos encontro e vamos acabar com isso.
Os homens sorriem de maneira cúmplice e o desespero desperta em mim. Eles não podem machucá-lo. Tento gritar para que Dez fosse embora, mas o grito era abafado pela mão do idiota que ainda me segurava.
Quando Dez chega ao local da van, os inimigos começam a descer da van e a lutar com o ruivo. Ele conseguia se virar muito bem, mas ainda recebia alguns golpes. Ele parecia motivado e a concentração que ele tinha para atacar aos capangas do mal era impressionante.
De alguma forma, ele consegue chegar até mim. Ele golpeia o pescoço do homem que me segurava e me puxa ao seu encontro. Olho assustada para o ruivo, mas não tenho tempo para raciocinar direito. Ele começa a correr, obrigando-me a fazer o mesmo, já que Dez segurava a minha mão.
– Corre. – diz, olhando para trás, rapidamente. – Não vou conseguir lutar com eles desse jeito.
Concordo, balançando a cabeça, já que estava tão assustada que não conseguia falar. Os homens iam nos seguindo com a van em alta velocidade. Nós conseguíamos desviar deles, indo por caminhos de difícil acesso para veículos. Logo percebemos que estávamos sendo seguidos por homens a pé, também.
Chegamos a uma rua movimentada e Dez faz sinal para um táxi, que, para a nossa sorte, para rapidamente. Entramos no mesmo e Dez pede para que o homem acelere.
– Para onde vocês vão? – pergunta o homem, estranhado as nossas expressões.
– Primeiro, nós precisamos que despiste aquela van preta que está nos seguindo. – responde Dez, respirando com dificuldade.
– Vocês por acaso estão fugindo da polícia? – pergunta o taxista, desconfiado.
– Não. – respondo, no mesmo estado que Dez.- Estamos fugindo de algo bem pior.
– Pior que a polícia? Bandidos? – questiona, arregalando os olhos. Vendo as nossas reações o homem logo percebe que era exatamente o que ele estava pensando, ou quase isso. – Por Deus, onde foi que eu resolvi me meter?!
– Moço, por favor, você precisa se livrar daqueles bandidos. – pede Dez, ainda falando com dificuldade.
O taxista balança a cabeça e logo começa a acelerar. Após alguns minutos de muita angustia, conseguimos despistar os inimigos de Krósvia.
– Para onde vocês vão agora? – pergunta o motorista, cortando o silêncio.
Dez passa as coordenadas do endereço próximo a casa de Austin. Descemos alguns metros antes da casa do loiro, agradecendo inúmeras vezes pela ajuda do bondoso homem.
Tomamos cuidado ao descermos do carro e passamos a observar, tentando encontrar qualquer sinal de ameaça inimiga. Percebendo que estávamos seguros, passamos a caminhar, ainda com cuidado, em direção a casa de Austin e Ally.
Dez estava estranho, respirava com dificuldade e segurava um lugar da sua barriga com força. A minha preocupação se torna ainda maior ao perceber que o ruivo suava e estava muito pálido.
– Dez? – chamo, desesperada. – Você está bem?
– Si... Sim. – responde, sem olhar para mim.
Forço o garoto a parar de andar e olho em seus olhos. Tento tirar sua mão do local onde ele apertava, mas o ruivo apenas se afasta. Aproximo-me mais uma vez, mas a ação anterior volta a se repetir.
– Qual o seu problema? – pergunto, irritada.
– Eu é que te pergunto isso. – fala o garoto, parecendo chateado.
– O que quer dizer com isso? – pergunto, confusa.
– Você é louca de estar andando em uma rua tão deserta quanto aquela a essa hora? – diz, mostrando um misto de preocupação e fúria.
– Eu estava apenas precisando pensar um pouco, por isso resolvi sair. – digo, chateada pelo tom de voz que ele usava comigo.
– Você viu o que aconteceu? Já imaginou se eu não tivesse aparecido? Você poderia ter se machucado. – grita, revoltado.
– Está com raiva por ter me salvado? Você não precisava ter aparecido. Eu ia conseguir me soltar daqueles canalhas. Eu não precisava da sua ajuda. Por que apareceu, então? – solto, e logo me arrependo. Dez me olha com descrença e volta a andar, pisando com força. – Dez, espera. – peço, sentindo-me culpada. Corro até o garoto e puxo seu braço, obrigando o mesmo a olhar para mim.
Dez parece irritado com minha atitude. Vejo uma expressão que jamais vi do mesmo. De repente, ele me joga na parede mais próxima e coloca seus braços ao lado de minha cabeça, impedindo-me de sair.
– Você quer saber o motivo? Quer saber o porquê que eu estava lá? – pergunta o ruivo, olhando em meus olhos. – Eu precisava falar com você. Precisava dizer o que estava entalado em minha garganta a tanto tempo.
– O que quer dizer com isso? – pergunto, respirando com dificuldade, devido a nossa aproximação.
– Eu te amo, Trish. – diz o ruivo. Antes que eu tivesse qualquer atitude sobre a declaração do garoto, ele me surpreende ao me beijar.
Meu corpo estremece com seu toque. Nosso beijo era urgente e necessitado. Algo esperado por tanto tempo. Mas, algo acontece e Dez cai sobre mim. Olho assustada para o mesmo e vejo que ele havia desmaiado.
– Dez?! – grito, em desespero. Analiso o garoto e vejo que o mesmo sangrava. Ele havia se machucado durante a luta. Olho em volta e vejo que não havia ninguém que pudesse me ajudar. Parece que o mundo tirou o dia para não aparecer na rua.
Suspiro desesperada e crio forças, que nem imaginei que tivesse, para levantar o garoto e começo a caminha com dificuldade, enquanto carregava o mesmo.
Consigo chegar a casa de Austin e Ally e começo a gritar do lado de fora da casa. Logo vejo a figura do loiro e da morena aparecendo da janela do quarto da garota. Eles, percebendo que havia algo de errado, correm para me ajudar.
– O que aconteceu? – pergunta Ally, desesperada.
– Ele se feriu enquanto lutava para me salvar. – digo, sentindo as lágrimas descerem com intensidade.
Austin pega o amigo e logo vejo as figuras dos pais do loiro e o irmão e cunhada de Ally aparecerem para ajudar o garoto. Ally me abraça com força e a única coisa que consigo fazer é chorar.
Quando entramos na casa do casal, vejo que Kira também está lá. Ela olha assustada para a cena e logo vem ao nosso encontro.
– Kira, você precisa cuidar desse ferimento de Dez, antes que ele perca mais sangue. – alerta Ally, com angustia em sua voz.
– Claro. – fala, correndo até o andar de cima. Não demora a voltar com uma maleta branca. Ela levanta a camisa de Dez e olha para o ferimento, assustada. – Eu não posso cuidar disso.
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Continua...
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