Unlike Cinderella...
40 Capítulo 39 - Chunking...
Notas iniciais
POV Manu
A chuva caia com intensidade, enquanto navegávamos pela madrugada. O clima de ansiedade era perceptível a qualquer um que entrasse na sala de reuniões em que estávamos.
Prince e Ally, desde que nos acomodamos no navio de Lawrence, não esperaram nem algumas horas para descansarem. Seguiram para a sala de reuniões provisória do nosso grupo e permaneceram em reunião apenas entre eles durante o dia todo, saindo apenas para comerem alguma coisa e voltavam a sala, trancando-a para não serem incomodados. Não foi dita nenhuma palavra a respeito da morte de Charles e muito menos do que aconteceria dali para frente.
O grandioso navio de Lawrence navegava pelo Oceano Atlântico com destino a Boise. Poucas pessoas do QG nos acompanhavam, mas todas eram de confiança. O único problema foi ter que convencer os pais de Dallas, Cassidy, Trish e Dez a permitirem que seus filhos nos acompanhassem. Por fim, Ally mostrou possuir uma oralidade invejável e convenceu a todos de sua decisão.
Estávamos viajando a mais de vinte horas e a única coisa que sabíamos fazer era treinar e nos preparar para a guerra. O grupo de pessoas que estão viajando conosco é pequeno e isso é preocupante. O número de homens de Edgar que cercam Krósvia é bem maior que o nosso e poderiam acabar conosco em poucos instantes.
Enquanto Tyler, Mimi, Mike, Nina, Lawrence, Cassidy, Dallas, Dez, Trish, Austin e eu aguardávamos a chegada de nossos lideres, o silêncio dominava o local. Todos perdidos em seus pensamentos, imaginando o que acontecerá quando chegarmos a Boise.
– Eles estão demorando. – comenta Mimi, angustiada.
– Prince e Ally devem estar se resolvendo. – sugere Mike. — Nos últimos tempos, os dois vêm brigando muito. Como poderemos vencer uma guerra se nossos lideres não estão de acordo com os planos?
Mike estava certo. Prince e Ally são completos opostos, mas, ao mesmo tempo, muito parecidos. A personalidade forte e a teimosia são as marcas registradas dos irmãos. Infelizmente, as brigas entre eles são inevitáveis.
– Eu não aguento mais esperar. – fala Austin, levantando da cadeira em que estava sentado. – Já estamos nessa sala a mais de vinte minutos e nenhum sinal deles.
– Fique calmo, garoto. Todos estamos ansiosos, mas perder a paciência não vai ajudar em nada. – fala Lawrence, chamando a atenção de Austin, enquanto acende um cigarro. Ele coloca o tabaco na boca e traga um pouco, antes de soltar a fumaça. – A princesa sabe o que está fazendo.
Austin, a contra gosto, volta a se sentar em sua cadeira e suspira frustrado. Dez coloca a mão no ombro do amigo e sorri confiante, dando consolo ao loiro.
Mais alguns minutos se passaram até a chegada do casal de irmãos. Prince parecia um pouco mais confiante e Ally mais séria. Os olhos da garota exalavam bravura e muita determinação. A aura ao redor de Ally projetava a perfeita imagem de uma líder e isso me fez sentir orgulho da garota.
Todos a observavam com deslumbre. Ally não havia feito nada, mas sentíamos que ela estava diferente. Ela se posicionou em frente a todos e deu um sorriso confiante.
Prince veio ao meu encontro e eu pude ver o alívio em seus olhos. Aproximo-me de meu namorado e o beijo rapidamente. Colamos nossas testas apenas por alguns segundos e voltamos a prestar atenção em Ally.
– Vocês estão bem? – sussurro, quando o mesmo me abraçou por trás e apoiou o queixo sobre minha cabeça.
– Melhor impossível. – afirma, suspirando. – Acredito que resolvemos todos os fios soltos.
– Fico feliz por isso. – digo aliviada, sorrindo satisfeita.
A verdade era que eu estava com medo. Ally e Prince nunca viveram juntos. Antes do atual reencontro, meu namorado viu a irmã apenas uma vez, um pouco antes de ir embora de Krósvia e nunca mais voltar. Tudo indicava que eles jamais se entenderiam. Um irmão mais velho, adulto e ausente não é algo muito desejado por adolescente, mas Ally me fez mudar de opinião. A garota nunca foi como os outros adolescentes. Sua doçura e bondade sempre foram os pontos mais fortes da morena. Ela jamais desiste. Não importando a situação, Ally continua a ter esperanças de que é possível seguir em frente e alcançar o que deseja.
– Desculpe a demora. – começa Ally, fazendo com que eu despertasse de meus devaneios. – Após uma longa conversa com Prince, todos os detalhes que faltavam foram acertados. No entanto, algo ainda me preocupa. Edgar e Gavin ainda possuem meu pai em suas mãos. Precisamos agir com cautela ou tudo estará acabado.
– O que foi decidido, Ally? – pergunta Mike.
– O primeiro passo é chegar a Boise sem sermos notado. Pretendo entrar em contado com o rei do país. Desconfio que Edgar saiba que saímos de Miami, então o melhor a fazermos é nos manter em alerta. Viajaremos de carro ou ônibus de Boise até Retrivia, onde encontraremos Joe, Vick, Richard e Cecília. – explica a garota.
– Por enquanto não mudaremos o plano inicial de Ally. Infelizmente, é impossível saber o que precisa ser feito, portanto, o melhor é seguirmos com o que já foi combinado. – complementa Prince.
– Saiba decisão. – concorda Nina, sorrindo satisfeita. – Podemos manter contato com Gregory e conseguir mais informações sobre o que está acontecendo por lá.
– Sobre isso... – começa Ally, cansada. – Não poderemos ter contato com nenhum de nossos aliados em Krósvia, até chegarmos a Retrivia.
– Por quê? – pergunta Mimi. – Dessa forma não saberemos se precisamos ou não mudar os planos. E se algo de muito ruim acontecer nesse meio tempo? Não conseguiremos nos preparar.
– Sabemos disso tudo, Mimi. – fala Prince. – Mas, esse é um risco que temos que correr.
– Por mais insano que pareça o plano, a escolha de não mantermos contato é para a nossa própria segurança. Existem pontos negativos, é claro, mas não conseguiremos fazer nada se formos capturados por Edgar e seus homens. – explica Ally. – Lembrem-se: Nós estamos em um número bem inferior ao de nossos inimigos. Atacá-los de frente não seria algo sensato a se fazer.
– Ally tem razão. – concordo. – Infelizmente, a nossa única chance de obter a vitória é manter a discrição.
Os últimos detalhes do plano foram passados. Surpreendentemente, Austin e os amigos tinham inúmeras ideias que ajudariam e muito com o que estava por vir.
No fim da reunião, Lawrence voltou para o comando do navio, que estava sendo guiado por seus homens. Segundo o loiro, os seus homens são de total confiança e que lutavam pela segurança da princesa tanto quanto ele.
Ally resolveu ir descansar, afinal, a garota não havia dormido nada havia dois dias. Com tantos acontecimentos, ela foi obrigada a se esquecer do descanso e precisou focar em planos e estratégias para lidar com as situações que estavam por vir.
Assim que a morena se retirou junto com Austin, como era de se esperar, os pais do loiro foram para o andar de cima para conversarem com Lawrence e seus homens.
– Eu preciso entrar em contato com Gregory. – informa Prince, sussurrando em meu ouvido. – Eu não disse nada a Ally, mas acredito que a situação está pior do que imaginávamos. Eu preciso saber sobre o estado de saúde de minha mãe. Sem governante, o país está entrando em crise. A população está passando fome.
– Ally precisa saber a verdade, Prince. – sussurro de volta, assustada com o que ele havia dito. – Já passamos por essa situação antes e sabemos que não será nada bom se ela for a última a descobrir a verdade.
– Eu não tenho opções, Manu. Ally está muito sobrecarregada. Com tantos problemas acontecendo, ela está tomando todas as responsabilidades para si. Não quero que minha irmã carregue tudo sozinha. – diz contrariado.
Tyler, percebendo que estávamos discutindo algo sério, aproxima-se de nós com Nina ao seu lado. Ao estar a nossa frente, a mulher entrega um envelope a Prince, contendo alguns dados recentes de Krósvia.
Observo meu namorado abrir o envelope e espero por alguma reação do mesmo. Ele permanecia sério, enquanto lia com cuidado cada dado escrito na carta. Por fim, ele levanta o olhar e me encara por algum tempo. Prince me entrega a carta e dá uma rápida olhada para os adolescentes que estavam na sala, conversando entre si sobre algo que não soube identificar.
Leio a carta e assusto-me com as informações. Reconheci a letra de Gregory e compreendo o desespero de Prince. Mais de 300 pessoas morreram na última semana, tentando proteger o reino das garras de Edgar e Gavin. Mas, o que mais assustava era que dentre essa quantidade grandiosa de pessoas, cerca de 100 pessoas eram crianças e adolescentes.
Além dos dados das mortes, a carta revelava a falta de medicamentos e aparelhos necessários para cuidar da população. Aparentemente, Edgar resolveu matar as pessoas lentamente, as impedido de ter acesso a cura de suas doenças.
A realidade era dura. Krósvia estava nas mãos dos inimigos e se não fizermos algo o mais depressa possível, a população se reduzirá a quase nula. Com a comida em escassez, falta de medicamentos e sobre tortura dos inimigos, os krosvianos não conseguirão aguentar por muito tempo.
– O que pretende fazer? – pergunto preocupada.
– Prince, Ally precisa saber desses dados. Você sabe que não conseguiremos lidar com essa situação sem a participação da sua irmã. – fala Tyler, colocando a mão no ombro de meu namorado.
– Eu sei. – diz Prince, relutantemente. – Eu detesto ter que contar a ela sobre o que está acontecendo em Krósvia, mas estou vendo que não há como evitar. Uma hora ou outra ela vai descobrir e é melhor o mais cedo possível.
– Você sabe que pode contar conosco, Prince. – fala Nina de maneira materna. – Ainda que seja difícil, Ally é uma garota incrível e entenderá o que está acontecendo. Ela achará uma solução para esses problemas. Você vai ver.
Tendo o apoio da mulher, Prince olha para mim, como se esperasse alguma confirmação por minha parte e sorri ao ver que eu estava ao seu lado.
Antes de sair da sala de reuniões do navio de Lawrence, junto com Nina e Tyler, Prince se aproxima de mim e me beija com carinho. Eu estava com saudades de aproveitar mais tempo com o moreno, mas eu sabia que isso teria que esperar por mais algum tempo.
– Eu amo você. – diz, beijando a minha testa, após nos separarmos.
– Eu também amo você. – digo, acariciando a nuca de Prince. – Se precisar de alguma coisa, basta apenas me falar. — Prince ri e me lança um olhar malicioso.
– Na verdade, eu estou precisando de um carinho mais especial. – fala dando um beijo em meu pescoço, fazendo eu me arrepiar. – Mas isso nós resolvemos mais tarde.
– Eu vou está esperando. – respondo rindo com malicia, mas logo mudo minha expressão. – Não exagere, Prince. Você fala da sua irmã está se sobrecarregando, mas você sabe que é igualzinho.
– Eu vou ficar bem. – diz Prince, pegando minha mão e a beijando em seguida. – Aproveite o resto da madrugada para descansar um pouco.
Após a saída de meus amigos da sala, volto minha atenção aos quatro adolescentes que continuavam a conversar em um tom baixo. Eles estavam sérios e pareciam não notar o que estava acontecendo ao redor deles.
– Vocês. – digo, apontando para os casais, que me olham assustados com a fala alta lançada a eles. –Descansem, pois amanhã, assim que chegarmos a Boise, vocês terão um treinamento especial comigo.
[...]
O dia já estava chegando ao fim quando conseguimos visualizar o litoral de Boise. O frio se manifestava com intensidade no local, lembrando-nos que já não estávamos mais em Miami.
Todos estavam bem agasalhados e sérios. Observavam com atenção cada detalhe do pequeno país. Ally estava a frente entre Austin e Prince, na beira da proa¹ do navio, conversando em um volume mais baixo.
Ao meu lado, Tyler, Dallas, Dez, Trish e Cassidy estavam tão ansiosos quanto eu. Essa não era a primeira guerra na qual eu participo, mas existe algo de diferente dessa vez.
Eu estou prestes a me vingar de Edgar e seus homens e pôr um fim a toda essa história que dura a mais de trinta anos. Minha família toda foi dizimada e a única maneira de seguir em frente é colocar um ponto final em meu passado.
– Você está bem, Manu? – pergunta Trish, preocupada. – Você não disse nada o dia todo.
– Trish tem razão. – concorda Cassidy. – Acho que a última vez que eu ouvi sua voz foi quando nos deu bom dia.
– Não se preocupe. Eu só estou um pouco ansiosa. – digo, sorrindo com sinceridade.
– Não é só você que está nervosa. – fala Dallas, suspirando frustrado. – A cada hora que passa, mais eu sinto a adrenalina tomar conta de mim. Eu nunca imaginei que seria tão angustiante esperar por uma batalha.
Rio de seu nervosismo. Olho para o trio que estava um pouco mais distante de nós e observo Prince sair de perto da irmã e caminhar em minha direção. Ele sorri e empurra meu ombro de leve. Olho para meu primo e vejo seu olhar apreensivo, como se precisasse me contar algo, mas o mesmo sorri, me incentivando a ir ao encontro de meu namorado. Afirmo com a cabeça e ele não demora a voltar para o interior da grande embarcação.
– Isso é normal, Dallas. Todos se sentem assim. Apenas tente relaxar e não entrar em desespero. – digo rindo. – Eu preciso conversar com o Prince. Vejo vocês depois.
Após dizer isso, começo a andar na direção em que meu primo havia seguido, mas paro ao ouvir o chamado de Dez. Estranho e viro-me para o ruivo que se aproximava com pressa.
– O que houve? – pergunto, confusa.
– Manu, se importaria de conversarmos mais tarde? – pergunta o ruivo, com seriedade.
– Claro. – concordo. – Algum problema?
– Conversaremos mais tarde e eu explicarei melhor a situação. – responde Dez, sem demonstrar qualquer emoção.
– Tudo bem. – digo, vendo o ruivo voltar ao encontro dos amigos.
Dou uma última olhada para o grupo e volto ao meu caminho. Ainda demoraria algumas horas para desembarcarmos no porto. Lawrence havia avisado que teríamos que ir por uma rota mais distante, caso quiséssemos manter a discrição.
Eu não estava tão preocupada com isso. Lawrence pode ter todos os defeitos do mundo, mas jamais colocaria a missão em perigo. Não é a toa que Ally confia tanto no homem. Então, se ele acha que isso é o melhor a fazer, ninguém contestaria seu plano.
Em poucos segundos eu já estava em frente a porta do quarto em que estava dividindo com Prince. Abro a porta do quarto e sou surpreendida, quando fui puxada com agilidade no quarto e empurrada contra a porta.
Encontro os olhos do meu namorado que me encaravam com divertimento, vendo que eu havia me assustado de verdade. No entanto, antes que eu tivesse a oportunidade de protestar da ação do moreno, Prince me beija com intensidade e paixão.
Ele coloca uma de suas mãos em meu pescoço e a outra em minha cintura, empurrando-me ainda mais na parede e aproximando-se mais de mim. Nossas bocas tinham um encaixe perfeito e era impossível não suspirar com as sensações que ele me fazia sentir.
Com destreza e maestria, Prince começa a me levar para a cama do quarto, jamais parando de me beijar. A necessidade que eu tinha de senti-lo era imensa e intensa.
Ele me coloca na cama e retira suas blusas, antes de voltar a me cobrir com seu corpo definido. Não havia palavras a serem ditas. Apenas o desejo e o amor.
Suas mãos percorriam meu corpo de maneira sugestiva e isso aumentava ainda mais a minha vontade de amá-lo. A paixão que sinto por meu moreno é inexplicável. Nunca fomos um casal muito convencional. O extremo sempre foi o que nos definia.
Em meio a tantas batalhas, tivemos que nos separar inúmeras vezes, mas sempre que nos víamos, os sentimentos voltavam a dominar e acabávamos em uma cama, tentando controlar a respiração e sorrindo feitos bobos.
A sintonia em que nos encontrávamos foi atrapalhada por batidas na porta. Prince para de me beija e suspira insatisfeito. A raiva era evidente em seus olhos e isso o deixou incrivelmente sexy.
E, surpreendentemente, ele resolveu esquecer as batidas na porta e voltou a me beijar, mais selvagem do que antes. No entanto, a pessoa do outro lado continuava a insistir.
– Prince. – digo, separando nossos lábios, a contra gosto, devo dizer. – É melhor vermos o que está acontecendo.
– Eles tem a Ally. Podem conversar com ela. – sussurra, enquanto beija meu pescoço, fazendo-me estremecer em seus braços.
– Prince, Manu, parem o que estão fazendo. Temos problemas. Depois vocês voltam a procriar. – grita meu primo do outro lado da porta. – O assunto é bem sério e acho que vocês não vão gostar nenhum pouco de saber.
Prince para de me beijar e suspira frustrado. Ele levanta da cama e pega suas blusas, as vestindo em seguida. Volto a colocar o meu casaco e sigo meu namorado.
Tyler esperava por nós do lado de fora. Sua expressão era preocupada e eu suspeitava que algo de muito ruim aconteceu. Em silêncio, caminhamos até a sala de reuniões provisória.
Quando chegamos a sala, todos já se encontravam lá. Ally estava abraçada com Austin, e tinha um olhar melancólico e sombrio. Mimi andava de um lado para outro, enquanto Mike passava a mão pelos cabelos de maneira nervosa. Os adolescentes estavam com expressões assustadas e Lawrence fumava um cigarro e carregava um ar sério, coisa não muito comum para ele.
– O que aconteceu? – pergunta Prince, começando a ficar nervoso.
Ally se afasta do noivo e olha para o irmão com seriedade. Ela respira fundo, parecendo tentar controlar suas emoções. A garota se aproxima de Prince e em seus olhos haviam ira.
– Quando iria me contar o que estava acontecendo em Krósvia? – pergunta Ally duramente. – Você prometeu, Prince. Não esconderia de mim a verdade. Pede para que eu confie em você, mas não foi homem o suficiente para manter sua palavra comigo.
– Eu iria te contar. – disse Prince, com seriedade.
– Quando? – grita Ally, furiosa. – Quando isso iria acontecer, Prince?
– Eu iria te contar quando conseguimos algum lugar para ficar em Boise. Muitas coisas estão acontecendo, Ally. Você está ficando sobrecarregada e... – Prince é interrompido pela irmã.
– Chega. – pede Ally, massageando as têmporas. – Isso não importa mais. Temos problemas muito mais graves que esse. Conversaremos melhor sobre isso depois.
– O que aconteceu? – pergunto preocupada.
– Nina conseguiu entrar em contato com alguns informantes de Krósvia. As notícias não são boas. – fala Austin.
– Nossa mãe, Prince, hoje de manhã, tentou cometer suicídio. – fala Ally, olhando nos olhos do irmão. – Gregory conseguiu impedi-la, mas não sabe se isso não voltará a acontecer.
– O que? – sussurra Prince, em estado de choque. – Por quê? Por que ela fez isso?
A magoa era visível nos olhos dos irmãos. Eles partilhavam da mesma dor e era impossível não se comover com a desolação que ambos carregavam.
– Ela não está suportando, Prince. – fala Ally, voltando a assumir a pose fria. A garota está sofrendo, mas como aprendeu desde cedo, não poderia demonstrar a ninguém. – Nós precisamos voltar o mais rápido possível para Krósvia. O reino não pode continuar da maneira que está. Eu vou voltar para meu país e assumirei o trono e não há ninguém que me impeça de fazer isso.
A determinação de Ally é surpreendente. Diferente de qualquer reação que pude esperar da garota, minha cunhada apenas respirou fundo, levantou a cabeça e declarou a sua decisão, demonstrando que, mesmo sendo cruel os treinos de Lester, a filha havia aprendido como ninguém a agir como líder tempos de crise.
– Muito bem. – concorda Prince – Nós ficaremos apenas o tempo necessário para nos encontrarmos com nossos aliados e, ao invés de irmos para Retrivia, partiremos em direção a Krósvia. Você assumirá o trono, Allycia, assim como está escrito em seu destino.
Lawrence levantou de sua cadeira e apagou o cigarro, deu um sorriso satisfeito e se ajoelhou em frente de Ally e abaixou a cabeça. Vendo a ação do loiro, Dez fez a mesma coisa, sendo seguido por Dallas, Trish e Cassidy. Tyler sorri para mim e se abaixa junto com Nina. Repito a ação e não demora muito para Mimi e Mike fazerem o mesmo. Por fim, Prince e Austin.
Quando todos estavam ajoelhados, com exceção de Ally, Lawrence sorri mais uma vez e levanta a cabeça. A garota nos observava com curiosidade, talvez, não sabendo o que fazer.
– E hoje volto a repetir meu juramento: "Eu juro por Deus, neste sagrado juramento, que renderei incondicional obediência a Rainha Allycia Dawson, líder do reino de Krósvia, que devo estar sempre preparado como um bravo soldado, a dar minha vida por este juramento. Eu juro a você, Allycia Dawson, lealdade e bravura. Eu voto a você e meus superiores designados por você, obediência até a morte."² — diz Lawrence.
A fala é repetida por todos de maneira surpreendente. Era como se as palavras do loiro tivessem grudado em nossas mentes, nos obrigando a repetir. Mais uma vez estávamos jurando lealdade, mas dessa vez, não era mais a nossa princesa e sim a rainha. A partir daquele momento, Ally não era mais uma princesa em treinamento. Ela se tornou a mulher que iria liderar um país e centenas de soldados, prontos para obedecer a ordem de sua rainha.
– Levantem-se. – diz Ally, respirando fundo em seguida. – Nós não temos muito tempo. Lawrence, ordene que seus homens acelerem a nossa chegada. Os outros, preparem suas coisas. Teremos um longo caminho a percorrer.
[...]
O navio ancorou na área mais desértica existente do litoral de Boise. Assim como havia ordenado, os homens de Lawrence aumentaram a velocidade e em menos de três horas nós já havíamos descido da embarcação e andavamos pela periferia do país.
O frio em Boise havia se intensificado e, para quem estava acostumado com o calor de Miami, foi um forte choque térmico. As nossas respirações estavam mais difíceis, mas eu sempre apreciei o clima mais gélido.
Ally estava séria e trocava poucas palavras com o noivo, que caminhava ao seu lado, segurando a mão da garota. O casal trocava algumas caricias, mas eram discretos. Encaro Dez e o mesmo estava calado e bem pensativo. Trish vez ou outra puxava assunto com o ruivo, mas recebia em resposta apenas monossílabas.
Assusto-me ao sentir a mão de Prince puxar a minha. Viro-me para meu moreno e o mesmo sorri, dando um beijo em minha testa. Entrelaçamos as nossas mãos e continuamos a seguir Ally.
– Ally, você sabe para onde estamos indo? – pergunta Cassy, estranhando a falta de movimento do local.
A noite já havia chegado a Boise e o local em que estávamos não parecia ser o mais seguro do mundo, no entanto, eu não me preocupava com bandidos ou pessoas do tipo. O que realmente em preocupava eram as chances de algum inimigo aparecer e revelar nossas coordenadas a Edgar e Gavin.
– Não se preocupe, Cassy. – fala Ally, sorrindo para a amiga. – Estamos mais seguros aqui do que em qualquer outro lugar.
–Você tem certeza disso? – pergunto Dallas. – Eu não acho que o subúrbio de um país desconhecido seja o lugar mais seguro do mundo.
– Não seja medroso, garoto. – fala Lawrence, dando um tapa na nuca de Dallas. – Você manuseia adaga, espadas, facas e armas de fogo e está com medo de andar por um lugar mais pobre?
– Eu queria não dizer isso, mas eu estou com Dallas. – fala Trish. – Esse lugar é muito estranho. É impossível não imaginar inúmeras tragédias.
– Confiem um pouco mais em Ally. – diz Austin. – Se ela diz que estamos seguros, eu não vejo motivos para não acreditar.
– E Lawrence tem razão. – complementa Mike. – Estamos preparados para qualquer problema que vier acontecer. Apenas mantenham a calma e tentem não chamar atenção.
Continuávamos a andar, seguindo Ally. De alguma forma, eu estava mais aliviada por estar em Boise. O país “acolheu” por um tempo Prince, Tyler e eu, quando saímos de Krósvia. Nós conhecíamos o pequeno país como a palma das nossas mãos. Tudo bem que haviam se passado anos, mas eu sentia que Boise não havia mudado tanto assim.
– Isso me traz algumas recordações. – fala Tyler, de maneira nostálgica, colocando-se ao nosso lado.
– Não só a você. – fala Prince. – Foram bons tempos aqueles em que vivemos aqui. Não me importaria de morar aqui novamente. – brinca.
– Boise foi um lugar marcante. O primeiro país que visitamos depois da liberdade de Prince. – relembro. – E foi aqui que encontramos Leon³ e Nina, não é mesmo?
– Havíamos nos casado recentemente. – fala Nina, sorrindo nostálgica. – Jamais imaginei que em apenas três meses de casada, eu acolheria três adolescentes em minha casa como meus filhos. – complementa, rindo, enquanto é abraçada por Tyler. – Posso não ter tido filhos de Leon, mas ganhei vocês. Acho que vivi bem nesses 50 anos.
Rio, balançando a cabeça negativamente. Quem olhasse para Nina Gibson, jamais desconfiaria de sua idade. Apesar de tudo que passou, a mulher sempre se manteve forte e cuidava de nós como se fossemos seus filhos. Ela e o marido nos acolheram quando ainda éramos adolescentes. Tyler e Prince tinham 16 anos e eu tinha 14 anos. Jamais nos esquecemos do carinho e cuidado que recebemos de Nina.
– Eu espero chegar aos 50 anos assim como você. – comento, arrancando uma doce risada da mulher.
Prince me abraça e beija o topo da minha cabeça, feliz por ver a mãe de coração um pouco mais feliz. Tyler aperta os ombros de Nina e encosta a cabeça na da mulher.
– Espero que consiga permanecer com esse humor quando nos aproximarmos daquele lugar. – diz Tyler, preocupado.
Tyler se referia ao local onde Nina e Leon moravam. Visitamos Boise uma vez, depois de termos ido para Miami. Resolvemos visitar a casa onde permanecemos por três anos e a mulher desabou em lágrimas ao se lembrar do amado marido. Nina sempre se fez de forte, mas nós, melhor do que ninguém, sabíamos o quanto ela sofria sem ter Leon a seu lado. Ela ainda o amava. Nunca mais se envolveu com ninguém depois que o homem faleceu.
– Não fique assim, querido. Eu sei o que está pensando, mas eu não vou fazer igual da última vez. Além do mais, estamos aqui por Ally e não pelo nosso passado. – responde Nina, suspirando cansada.
De repente, uma briga chamou a nossa atenção. Ally e Austin pararam de andar no mesmo instante, fazendo com que nós, que estávamos atrás deles, parássemos também.
– O que está acontecendo ali? – pergunta Trish, olhando para os caras que batiam em um jovem.
– Não sei, mas acho melhor não nos envolvermos. – fala Lawrence, olhando para a cena, sem dá muita atenção. – Vamos seguir em frente e fingir que nada está acontecendo.
– Não seja tão cruel, Lawrence. – repreende Ally.- Não vê a injustiça que está havendo ali? Cinco homens contra um.
Lawrence suspira, balançando a cabeça, não concordando com a fala de Ally. Eu não sabia se era uma boa ideia intervir em algo que não era da nossa conta, mas eu não conseguia ver uma injustiça tão grande ocorrendo tão próximo de mim e não fazer nada.
– Se vocês não vão fazer nada, eu vou. – digo, começando a andar, mas sou impedida de continuar por Prince, que puxa meu braço de volta.
– Você não vai fazer nada. – fala meu namorado. – Fique aqui com os outros que Tyler, Lawrence e eu iremos resolver isso.
– Eu vou com vocês. – fala Austin, deixando claro que não ficaria para trás.
– Tanto faz. – diz Lawrence, fazendo uma expressão de tédio. – Vamos resolver logo esse problema para podermos seguir em frente. Eu realmente quero ter uma boa noite de sono.
– Todos nós vamos. – fala Ally, colocando-se a andar. – Não quero o grupo separado.
A ordem final de Ally faz os homens bufarem irritados, mas eles sabiam que não adiantava contrariar a baixinha. Sem alternativa, começamos a nos aproximar da briga.
Os gritos e xingamentos direcionados ao rapaz eram ecoados por toda a rua deserta. Mesmo fazendo um imenso frio, o garoto que estava apanhando estava usando apenas uma calça e uma blusa fina. Assusto-me ainda mais ao ver seus ferimentos espalhados pelo corpo.
– Ei, vocês! Soltem o garoto. – fala Lawrence, chamando a atenção dos cinco homens que batiam no rapaz que estava de cabeça baixa.
– Quem você pensa que é, cara? Não se mete com o que não é da sua conta. – fala um dos caras que estavam batendo no rapaz.
– Cai fora. – fala o outro, sorrindo maldosamente.
– Se vocês não saírem, teremos o prazer de matar todos vocês. – diz um terceiro, com a mesma expressão de maldade que os outros quatro.
Algo chama a minha atenção nos homens. Eles estavam com uma faixa no braço esquerdo. Um pedaço da tatuagem de um dos homens estava aparecendo. Os traços que saiam debaixo da faixa não me eram estranhos, mas não consegui reconhecer por completo.
Lawrence sorri com o que tinha sido dito pelo rapaz. Não era de se surpreender. Um bando de jovens baderneiros jamais dariam conta de lutar com a nossa equipe.
– Eu acho que eles ainda não entenderam. – comenta Lawrence para Tyler e Prince, enquanto ri. No entanto, sua expressão de bom humor não demora a mudar. Com um olhar assassino, Lawrence pega a sua arma e aponta para o rapaz que havia nos ameaçado. – Deixem o garoto em paz e vão embora, ou “eu” terei o prazer de matar vocês. – fala o loiro, dando ênfase ao se referir a ele mesmo.
Vendo que não conseguiriam lutar contra nós, os cinco resolvem ir embora para o alivio de Ally. Ouço um suspiro vindo da morena e a mesma se aproxima do rapaz que estava estirado no chão.
– Olá. – fala Ally, agachando-se e balançando o rapaz de leve. – Você está acordado? Não vamos te machucar.
– Ally? – sussurra o garoto, levantando o olhar.
– Não pode ser. – diz Ally, colocando a mão na boca e se afastando do rapaz. – Elliot?
✻
Continua...
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