Unlike Cinderella...
2 Capítulo 1 - Charges...
Notas iniciais
POV Ally
As batidas na porta do quarto despertam-me de meus pensamentos, enquanto observo a paisagem pela minha janela, ciente de que essa seria a última vez que a veria antes da viagem.
— Entre — respondo.
— Com licença, princesa.
Kira, minha dama de companhia, entra no quarto e me encara com um sorriso contido.
— Sua Majestade deseja vê-la imediatamente.
— Certo. Avise que em breve eu estarei lá.
Suspiro, cansada.
A morena deixa o quarto após confirmar ter entendido o que eu havia dito.
Olho para o belo quarto bege e não consigo recordar de nenhuma experiência que realmente me marcou. Nada que fizesse eu me sentir triste por deixar o lugar que foi o meu lar por dezessete anos.
Abandono meus pensamentos e decido que já é hora de partir. Após terminar de arrumar a última mala, desço as escadas tão conhecidas por mim.
Assim que eu alcanço a sala do trono, encontro meus pais conversando em sussurros.
— Saudações, Majestades.
De frente para o casal, faço uma pequena reverência.
— Aproxime-se, Allycia — pede meu pai.
Sua voz ecoou tão autoritária quanto de costume.
Assinto e faço como ele ordenou.
Meus pais me encaram sem demonstrar emoção alguma. A ansiedade se torna mais presente ainda.
Eu não sei o que esperar e estou com medo do que acontecerá quando chegar em Miami.
— Onde Tyler está? — questiona minha mãe ao guarda que se encontra ao seu lado.
— Ele espera por sua ordem, Majestade.
— Mande-o entrar.
Com o pedido do meu pai, não demora muito para um homem que nunca havia visto em minha vida entrar na sala.
Ele era alto e robusto. Seus cabelos são negros assim como seus olhos. Sua pele bronzeada demonstrava que ele não era de Krósvia. Usava terno, gravata e um óculos de sol, que retira quando para diante dos reis de Krósvia.
— Bom dia, Rei Lester e Rainha Penny — cumprimenta com simpatia.
— Tyler, como estão as coisas? — indaga meu pai friamente.
— Tudo já se encontra preparado. Estamos esperando apenas a jovem princesa — responde.
Ele não parecia se importar com o tom de voz do rei.
— Muito bem. Guardas! Levem as malas de Allycia para o carro de Tyler.
A ordem do rei é realizada com agilidade.
— Pai? — chamo com receio.
— Já conversamos sobre como você deve nos chamar, Allycia.
Minha mãe me repreendeu com uma voz firme.
— Certo. Desculpe-me, Vossa Majestade.
Abaixo minha cabeça e aperto minhas mãos com força, sentindo-me frustrada.
Será que nem no dia em que irei viajar, eles poderiam demonstrar algum tipo de compaixão por mim?
— O que você quer, Allycia? — questiona meu pai, impaciente.
— Poderiam me informar quem seria o cavalheiro?
Encaro o homem ao meu lado, que em resposta apenas me lança um sorriso encorajador.
— Ele será responsável por levá-la à Miami. Antes de ir ao aeroporto, você deverá passar por uma breve transformação para proteger sua identidade — explica a rainha. — Lembre-se de que você não deve ser reconhecida por nenhum cidadão de Krósvia.
Ela parecia levemente irritada. Nada fora do normal.
— Agora o acompanhe e não estrague tudo.
Assinto e encaro meus pais pela última vez antes de acompanhar Tyler.
Caminho de leve e com postura, como uma princesa deve ser, mas não como eu gostaria de ser.
— Não precisa se comportar dessa forma perto de mim — comenta Tyler, olhando-me de canto.
— Desculpa?
— Não precisa agir 100% como uma princesa perto de mim. Imagino que seja bem cansativo fingir não ter sentimentos ou que nada pode lhe atingir.
O agente sorri de forma compreensiva.
— Eu estou bem dessa forma, obrigada — respondo com um sorriso simpático.
Apesar de ter gostado do belo homem, eu não confio nele. Todos esperam que a herdeira de Krósvia cometa erros para lhe importunar, mas isso não acontecerá hoje.
— Como desejar.
Tyler apenas ri com divertimento.
O resto do caminho até o carro foi silencioso. Kira estava ao lado do automóvel quando chegamos.
Ela sorri com tristeza e me dá um forte abraço.
Mesmo cercada de pessoas, Kira era a única que ainda demonstrava algum carinho por mim. Sou grata por ela não me abandonar em nenhum dos momentos em que precisei de um colo para chorar.
— Tenha cuidado, princesa — recomenda Kira, abraçando-me intensamente. — Pegue.
Assim que a dama de companhia se afasta, ela me entrega um livro de capa marrom sem muitos detalhes, mas que eu conhecia muito bem.
Aquele era o diário que meu irmão deixou para mim e que as pessoas nem imaginavam existir. Essa era a única lembrança que eu possuía do meu irmão, que é tratado como um traidor pelo reino.
Kira provavelmente havia retirado das minhas malas, temendo que algum dos homens dos meus pais revistassem minhas coisas e acabassem o encontrando.
— Sempre que precisar de uma confidente e não houver ninguém com quem contar, escreva seus sentimentos nesse diário e finja que sou eu.
— Obrigada, Kira — agradeço, controlando minhas emoções.
Eu sentia que poderia chorar a qualquer momento.
— Princesa? Está na hora de irmos — avisa Tyler.
— Claro.
Viro-me para a minha maior confidente nos últimos anos e a abraço pela última vez.
— Obrigada mais uma vez, Kira. Espero que possamos nos encontrar novamente.
— Até mais, Princesa Allycia.
Entro no carro e olho para cada um dos súditos e trabalhadores do castelo que estavam próximos ao carro de aparência simples.
Ninguém, além dos moradores e os servos do Castelo Crystal sabiam da minha viagem e como estou sempre presa no castelo, dificilmente os cidadãos de Krósvia desconfiaram da minha ausência pelo próximo ano.
Conforme nos distanciamos de meu lar, se é que eu poderia chamá-lo assim, mais a vontade de vomitar por causa do medo se tornava mais forte.
Eu sempre fui capaz de lidar com estratégias e táticas de guerras sem me intimidar pela pressão, mas diante de algo tão incerto quanto me tornar uma adolescente comum, eu me sentia vulnerável e apavorada.
Encaro o diário em meu colo e o aperto, pedindo forças e coragem a meu irmão. Eu esperava que ele pudesse me ajudar de alguma forma nesse novo desafio.
— Acredito que começamos com o pé esquerdo — comenta Tyler, atraindo minha atenção. — Eu me chamo Tyler Klin. Desculpe pela forma como fui apresentado a Vossa Alteza. Acredito que esteja curiosa a meu respeito.
Ele afrouxa a gravata que usava e parece bem mais confortável.
— Eu irei acompanhá-la até o aeroporto de Miami, onde encontrará sua nova família. Trabalho para a Agência de Proteção a Princesas ou, se preferir chamar, APP. Estamos a caminho de uma das bases da APP, onde será criado um disfarce para preservar sua identidade.
— É um imenso prazer conhecê-lo, sr. Klin. Agradeço desde já por toda ajuda. Acredito que não seja uma tarefa fácil me proteger e me levar de forma discreta para Miami — respondo com sinceridade. — Eu estou realmente grata pela ajuda que o senhor está me dando.
— Vamos lá, princesa?! Para que tanta formalidade? Pode me chamar de Tyler ou T, o meu preferido — responde Tyler, risonho. — E sobre a ajuda, eu estou apenas fazendo o meu trabalho, não há o que agradecer.
— Obrigada, T — respondo, um pouco mais relaxada.
Não demora muito para chegarmos no quartel general da APP. O imenso prédio é cercado por uma forte segurança, mesmo estando na região inabitável de Krósvia.
Os agentes arrumam com agilidade os disfarces e, em menos de duas horas, eu me tornei irreconhecível.
Com os documentos e roupas que preservariam a minha identidade como princesa de Krósvia, Tyler e eu saímos às pressas da Agência, rumo ao aeroporto.
Mesmo com a agilidade da equipe da APP, nós estávamos atrasados e, se não nos apressássemos, nós perderíamos o voo.
No restante do caminho seguimos com o clima tenso.
Mesmo conseguindo manter a postura de princesa de ferro, eu estava tremendo como uma garotinha assustada por dentro.
— Está pronta? — pergunta T, assim que nos sentamos em nossos assentos no avião.
Respiro fundo antes de lhe responder.
— Sim. Estou pronta para o que me espera em Miami.
A minha resposta com um sorriso nervoso sai muito menos confiante do que eu gostaria.
— Você vai conseguir. Lembre-se, você é a princesa de Krósvia e nada pode atingi-la.
Tyler me encoraja com um sorriso confiante.
— Nada pode me atingir — repito para mim mesma.
A viagem de Krósvia a Miami foi longa.
Com duração de 28 horas, tendo uma escala por Portugal, eu quase não conseguia acreditar que eu finalmente tinha chegado em Miami. Meu corpo implorava por uma cama confortável e um bom banho.
Antes de ir recolher as malas, vou ao banheiro do aeroporto, enquanto Tyler fica encarregado de pegar as bagagens.
Dentro do banheiro feminino, retiro todo o disfarce em que me encontrava.
Lavo meu rosto e me olho no espelho.
Aqui em Miami eu sou apenas Allycia Dawson, uma adolescente qualquer.
Observo minha imagem.
Meus cabelos, pela primeira vez em anos, encontravam-se soltos, ondulados e bagunçado, diferente dos penteados presos e milimetricamente perfeitos que eu era obrigada a usar.
Aproveito para retocar o batom em minha boca e pentear o cabelo emaranhado, tentando parecer o mais apresentável.
Eu não levo muito jeito para maquiagem, apesar de ser vaidosa em outros aspectos, então era o que eu conseguiria fazer naquele momento.
Resolvo que já está na hora de voltar para perto de T e encarar a minha nova realidade.
Encontro Tyler perto da esteira pegando uma mala.
Ao perceber minha presença, ele me olha rapidamente e volta ao seu afazer.
— Acredito que os Moon já estejam no aeroporto — comenta Tyler, enquanto pega minhas bagagens.
Olho em volta e vejo inúmeras pessoas à minha volta, mas nada realmente chama a minha atenção.
— Como eu saberei quem são?
— Eles estarão com um cartaz. A mulher, Michelle Moon, é loira e de olhos esverdeados. O homem, Mike Moon, possui cabelos e olhos castanhos escuros. Ambos são pais de seu noivo.
Tyler termina de colocar as malas no carrinho e me encara com um sorriso gentil.
— Pronto. Aqui estão todas as suas malas. Acompanharei você de longe, até encontrá-los.
— Obrigada mais uma vez, T — agradeço, sorrindo com sinceridade.
— Não precisa agradecer, princesa. Lembre-se de que sempre haverá guardas escondidos para protegê-la. E não se preocupe, eles só aparecerão em casos de necessidade. Agora, vá. Sua nova família a espera.
Assinto e me afasto, vendo Tyler acenar com uma expressão confiante.
Começo a procurar por algum cartaz com meu nome ou algo parecido.
Depois de alguns minutos, vejo um casal de características parecidas com as que Tyler havia descrito, junto com três adolescentes chamativos.
Um ruivo de roupas extravagantes, magro e alto. O rapaz, mesmo com as roupas escandalosas, é muito bonito.
Ao lado do ruivo, havia uma garota baixa de cabelos longos e encaracolados, que também era muito bonita.
A garota usa roupas com estampas de animais que poderiam ser consideradas demais, mas que estranhamente combinavam com ela.
Por último, havia um garoto loiro de belos olhos castanhos. Ele possuía um corpo atraente, se vestia como estilo e era incrivelmente charmoso. Eu nunca vi um garoto tão lindo como ele.
Ele parecia emburrado, mas isso não diminuía em nada a sua beleza.
Aproximo-me devagar.
A mulher segurava uma placa com as letras negras com os dizeres: ALLY DAWSON.
Supus que Ally seria abreviação de Allycia.
— Com licença.
Chamo a atenção do casal e dos três adolescentes, que me encaram. Cada um possuía uma expressão diferente e me analisam de forma que me deixa bastante envergonhada.
— Os senhores são Michelle e Mike Moon?
— Sim, somos nós — responde o homem, sorrindo. — E você deve ser Allycia, suponho.
— Sim, senhor — respondo. — É uma honra poder finalmente conhecê-los, sr. e sra. Moon. Eu me chamo Allycia Dawson.
Apresento-me formalmente e dou uma reverência breve com um sorriso mais contido.
Eu estava nervosa e não sabia exatamente como tratar aquelas pessoas que pelos próximos meses serão como minha família.
— Oh, querida, não há motivos para formalidades. Venha cá e me dê um forte abraço. Agora você faz parte de nossa família. Seja bem-vinda a Miami.
A mulher loira me puxa para um forte abraço e, por alguns segundos, eu permaneço completamente imóvel, sem saber como reagir.
Foi nesse momento que a ficha caiu de verdade.
Eu estou em Miami e acabo de conhecer a minha mais nova família.
Será que conseguirei me adaptar a todas as mudanças que estão prestes a acontecer?
Eu apenas torcia para que a resposta fosse positiva, pois é tarde demais para se voltar atrás.
✻
Continua...
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