União Estranha
1 Após o colapso
Notas iniciais
Era o dia seguinte da batalha que houvera no castelo do Rei do Pântano. Na Floresta Sombria, criaturas corriam de um lado para o outro, querendo saber o que aconteceria a seguir. Alguns haviam perecido no desmoronamento da corte, e suas famílias estavam em luto. Os mais velhos estavam indignados com a ousadia das fadinhas ao atacarem o castelo sem nem mesmo terem um bom motivo. Estes queriam guerra e vingança. Já os mais novos estavam aliviados, pois apesar dos acontecimentos desagradáveis, acreditavam que tudo logo melhoraria. Tinham esperanças de que um futuro com mais amor estava se aproximando. O Rei, seus guerreiros e outros antigos moradores do castelo estavam abrigados em uma pequena vila próxima, que por ora, seria o novo centro do poder. Os habitantes do lugar não pouparam generosidade: todos queriam uma oportunidade para agradar o rei e sua mãe, Griselda. Esperavam ser recompensados depois que tudo se estabilizasse. — Ah, Bog, não fique tão chateado. — Griselda falou para o filho, tentando animá-lo. Estavam na mais luxuosa pousada da Vila Musgo, cedida exclusivamente para eles. — Sei que foi tudo muito repentino, mas é uma boa oportunidade para recomeçar de uma maneira diferente. Uma mobília melhorzinha seria uma boa, não é? Seu pai nunca me ouvia, mas sei que você tem mais noção e vai considerar os conselhos de sua mãezinha, não é? — Sim, tá bom, mãe. — Bog resmungou sem empolgação, querendo que Griselda parasse de falar logo. O Rei do Pântano não havia falado muito desde o dia anterior. Estava mais pensativo do que normalmente. Griselda se aproximou e tocou o rosto do filho com carinho e delicadeza. — Qual é o problema, meu querido? Você não está assim por causa do castelo, está? É... alguma coisa com aquela princesa? Bog suspirou pesadamente. Sua mãe o conhecia melhor do que ninguém: não adiantava tentar esconder seus pensamentos dela. — É. Eu não sei o que fazer. Está tudo tão confuso. A situação dos reinos é complicada. Os meus súditos esperam que eu faça alguma coisa, que eu proponha uma aliança ou declare guerra. Guerra eu sei que não vou fazer, porque entendo que o que aconteceu foi uma armação do tal do Rolland, mas... também não estou muito seguro na outra opção. — Ora, mas qual é o problema? Você e a princesa estão bem agora. — Exato: "agora". Não sei o quanto isso vai durar. Depois de tanto tempo sendo hostil com o outro reino, baixar a guarda agora me dá a impressão de que estamos vulneráveis a qualquer coisa ruim que aconteça. Com o reino, eu quero dizer. — Oh, entendo... Mas acho que você deveria dar uma chance a eles. Coisas boas podem vir disso. Deixe que conquistem a sua confiança aos poucos. Também dê uma chance aos seus sentimentos. Você e aquela princesa roxinha dariam um bom casal, não é? — Isso de novo, não... — Bog estava ouvindo atentamente a sabedoria de sua mãe, mas ficou irritado ao ouvir sobre aquele mesmo assunto de sempre. Sentimentos e amor... — Por que você não pode deixar as coisas acontecerem com naturalidade? — Eu já te falei que quero estar viva e lúcida para o seu casamento. Você será um rei melhor com uma boa moça ao seu lado. — Ela parecia séria, mas logo começou a cantarolar. — Deixe o amor entraaaaar em seu coraçãaaaao! — Ah, eu vou pegar um ar fresco! Tenho assuntos importantes para resolver, até mais tarde. — Ele se afastou com impaciência e saiu do recinto, deixando a mãe para trás na pousada. Tinha muita gente na Vila Musgo que precisava falar com ele.
*
Marianne tinha sido praticamente forçada a sair do castelo das fadas. A pressão vindo por parte de todas as pessoas estava insuportável, então a jovem princesa decidiu esticar as asas. Seu pai, o Rei, estava mais exaltado do que nunca. Ele repetidamente alertava todos ao seu redor de que Rolland era um sujeito que não prestava e que seria punido severamente por seus atos contra a integridade do reino e da coroa — como se para compensar todo o tempo no qual havia tentado empurrar ele de volta para Marianne. Ela estava aliviada pelas verdadeiras intenções do ex-quase-marido estarem claras para quem quisesse ver, mas já estava cansada de ouvir falar sobre o maldito carinha de cabelos louros brilhantes. Queria que ele fosse para a prisão logo e que tudo em relação a ele fosse esquecido. A irmã de Marianne, Dawn, se encontrava em um estado completamente diferente. Por ser mais nova, ela sempre esteve menos envolvida nas questões do reino. Não era a herdeira do trono, então não precisava se preocupar com assuntos internacionais ou políticos. Além de tudo isso, agora ela e o elfo Sunny tinham declarado seus sentimentos um ao outro, então estavam nas nuvens, alheios a quase tudo que acontecia ao redor. O novo casal certamente seria um dos tópicos comentados nas reuniões que as fadas mais velhas costumavam fazer para espalhar as fofocas mais polêmicas. Isso, é claro, era mais um motivo para o Rei estar um pouco transtornado. Marianne nem sabia o que pensar sobre os ocorridos na Floresta Sombria. Apenas as fronteiras, as prímulas e as histórias de poções do amor já eram problemáticas o suficiente, mas agora, com uma perspectiva diferente, tudo parecia ainda mais complicado. Isso pelo simples fato de finalmente ter conhecido o misterioso Rei do Pântano. Ela sempre tinha imaginado o governante daquele lugar de uma maneira negativa. As trevas e as criaturas perigosas já causavam uma impressão negativa, mas foi a proibição da fabricação de poções de amor que a fez pensar que ele era cruel, insensível e idiota. Ela tinha nojo de tudo o que poderia se relacionar a ele, e aprendeu desde pequena com o seu pai que as fadas e seus companheiros eram as melhores criaturas de ambos os reinos. Entretanto, apesar dessa educação doutrinária, Marianne sempre acreditou que havia a esperança de todos conviverem livres e em paz, de alguma maneira que ela ainda não conhecia. Agora, a princesa havia se deparado com algo que realmente não esperava. O Rei do Pântano não era mal, não era tirano. Ele apenas havia feito o que pensava ser o melhor para todos. O Rei era assim como ela: um coração partido. Marianne sentia uma atração inexplicável, uma vontade de desvendar aquele ser que até pouco tempo atrás não passava de um desconhecido. Agora sabia que havia muito de bom ali. Ele era diferente de tudo que ela já tinha visto, absolutamente inédito. E ainda mais com todos os infortúnios com Rolland na Floresta Sombria, a jovem sentia uma grande simpatia por ele. Mais do que isso, se sentia endividada. Seu reino havia feito algo ruim a ele, então cabia a ela concertar esses erros. No desmoronamento, Bog havia arriscado a vida para garantir que todos estivessem em segurança antes dele, até mesmo as princesas fadas do reino rival. Quase mais do que querer conhecer Bog melhor, Marianne queria mostrar a ele tudo sobre ela mesma. Queria quebrar o estereótipo das criaturas sombrias do que seria uma princesa fada — isso se já não o tinha feito, assim como o Rei do Pântano havia feito com ela. E além de tudo, ainda havia o beijo que tinham compartilhado ontem. Havia parecido tão verdadeiro... diferente de qualquer coisa que teve com Rolland tempos atrás... Ela se amaldiçoou mentalmente por ter feito a sua linha de pensamento acabar no traidor quando nem deveria lembrar que ele existia. Uma união entre ela e Bog — mesmo que ainda não houvesse nada confirmado — causaria um grande impacto para ambos os reinos. Esse era um dos motivos que fizeram ela sair do castelo. Não estava nem um pouco a fim de ouvir o que o seu pai ou qualquer outra pessoa tinha a dizer sobre aquilo. Quando a fada deixou o castelo, não tinha nenhum destino em mente. Apenas deixou que o vento a levasse, e o resultado havia sido a fronteira entre o Reino das Fadas e o Reino do Pântano. Marianne pousou em uma pedra e só ficou parada ali por alguns instantes, observando o arredor. A diferença do ambiente era brutal. Do lado dela, haviam plantas não muito altas em tons vivos de verde e algumas flores coloridas — nenhuma prímula entre elas. Do outro, uma vegetação escura e úmida se erguia por vários metros. Os raios de sol vindos do lado das fadas pareciam se perder logo no começo do pântano, e bem na divisa, estavam os brotos de prímulas que continuavam ali dia após dia. Não havia nenhuma pétala, pois todas haviam sido cortadas. Uma das poucas certezas que a princesa tinha naquele momento era que precisava falar com Bog. Não fazia idéia do que diria, tampouco de como seria recebida, mas sabia que precisava pelo menos aparecer por lá. Determinada, ela alçou vôo sem olhar para trás e logo se tornou um único pontinho colorido na escuridão da floresta.
Notas finais
O que acharam? Aceito idéias, críticas e sugestões.
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