Eu tinha 23 anos quando me mudei para o Paraíso. Era um bairro próximo ao centro da cidade em que eu morava, bem seguro, calmo e hospitaleiro. Eu estava extremamente feliz de ter conseguido comprar minha casa após alguns anos de trabalho assíduo. No primeiro dia de mudança conheci Débora. Ela morava num sobrado em frente ao meu, e me deu uma ótima recepção. Era linda. Simpática. Inteligente. Dócil. Angelical. O tipo de pessoa que você não consegue nem pensar em machucar. Ao menos é o que a maioria das pessoas deveria pensar.

Com o passar dos dias, eu e Débora fomos nos apegando cada vez mais. Nos divertíamos sempre, exceto quando ela estava abalada com as perseguições e paranoias do ex. Ele se chamava Otto. Era um caminhoneiro nove anos mais velho que ela, e extremamente psicótico. Não conseguia superar o fim do relacionamento, e nem queria deixá-la seguir a própria vida. Por vezes víamos o carro dele próximo aos lugares que frequentávamos, e eu sempre me incomodava com a vastidão em que os olhos dela se transformavam. Um abismo de tristeza e arrependimento.

Após alguns meses já estávamos namorando e muito felizes, mesmo com o “fator ex” sempre presente. Era nosso primeiro aniversário de namoro. Eu estava em casa me arrumando, e conversando com ela através de mensagens, que também estava se aprontando. Ouvi barulhos vindos da casa dela. Achei que fossem meus sogros voltando do mercado, e continuei o que estava fazendo. Já faziam alguns minutos que Débora não me respondia, então mandei mais uma mensagem perguntando se os pais dela já tinham chegado. Ela visualizou a mensagem, e então eu ouvi o grito de socorro.

Corri o mais rápido possível para a casa dela. Antes de chegar no portão, notei a caminhonete vermelha que já me era muito familiar. Corri ainda mais depressa. Ao tentar abrir o portão não obtive sucesso. Rodeei a casa, tentando janelas e porta de serviço, e nada. Tive que quebrar os vidros da porta dos fundos para conseguir entrar. A porta dava direto para a cozinha, o que fez me assegurar em pegar um facão que estava no escorredor. Subi as escadas de dois em dois degraus e avistem o vulto de Otto no quarto de Débora. Quando cheguei ele estava se vestindo, e ela despida, amordaçada e amarrada na cama. Não tive outra reação a não ser esfaqueá-lo no meio do peito.

Após minutos de briga, consegui apagá-lo. Ligamos para a polícia, que veio rapidamente. Ele foi detido e preso no mesmo momento. Poucos anos depois soubemos que ele havia cometido suicídio na prisão. Nunca uma notícia dessas tinha me feito tão bem.

Tempo se passou, eu e Débora nos casamos, e tivemos um lindo garotinho, chamado Miguel. Tudo seguia finalmente bem, e olhando hoje em dia, posso afirmar que foi a época mais tranquila e feliz da minha vida. Nosso filho crescia forte, estávamos em nossos empregos dos sonhos, e o casamento estava maravilhoso!

Certo dia estava no trabalho, e há horas Débora me reclamava por mensagens que a babá se atrasara novamente. Eu não tinha o que fazer se não tentar acalmá-la. Após uma pausa nas mensagens por cerca de 20 minutos, recebi então uma ligação dela:

– Por que você disse aquilo?

– Aquilo o que amor?

– Aquela frase? Você sabe o quanto ela me atormenta…

– Que frase Débora?

– UNIDOS PARA SEMPRE!! Era o que o Otto vivia me dizendo, antes e depois de terminarmos. Inclusive foi o que me disse naquela noite…

– Débora, eu não te disse isso!

– Lógico que disse. Agora mesmo quando foi para casa para ficar com o Miguel. Odeio quando não se lembra das coisas que fala.

– Débora, apenas volte para casa.

– O que foi?

– Eu estou no serviço, e não saí daqui!

E então eu ouvi o estrondo.

Chamei-a várias vezes, e não obtive resposta. Até que alguém disse “estamos unidos para sempre agora” e desligou o telefone. Débora havia morrido num acidente em trânsito. Um caminhão desgovernado acertou-a em cheio.

Nunca encontraram o motorista. Nem meu filho.

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