Unidas pela guerra
3 Aurora e a grande descoberta
No dia seguinte à sua chegada, Aurora já se sentia incrivelmente melhor. A ferida havia parado de doer e ela já tinha forças para andar sem ajuda. Decidiu então sair da cabana para ver como estavam as coisas lá fora. Ao sair viu algumas crianças correndo e brincando, seu filho estava entre elas. “Meu Deus! Todas as essas crianças devem ter tido seus lares invadidos.” Pensou Aurora. Depois de mais alguns passos avistou Filipe e Mulan conversando, eles acenaram e ela caminhou na direção deles.
– Ei, vocês me deixaram sozinha essa noite. Onde vocês dormiram? – Perguntou Aurora.
– Na verdade, a gente não dormiu, meu amor. Ficamos a noite toda trabalhando nas táticas de ataque com os outros. Como você está se recuperando achei melhor deixar Patrick com os criados. – Respondeu Filipe, que agora tinha um dos braços em volta da esposa.
– Vocês devem estar cansados. Por que não vão deitar um pouco, então?
– Você pode ir se quiser, Filipe. Eu preciso conversar com Robin novamente e resolver outras coisas. Eu vejo vocês depois. – Mulan virou-se e nem deu tempo para que discordassem o que ela havia dito.
– Aconteceu alguma coisa? Ela parece... Sei lá, distante. – Aurora questionou o marido.
– Acho que não. Mas você sabe como a Mulan é... Ela é distante. Agora vamos, eu realmente preciso descansar.
Os dois caminharam para a cabana, no caminho Patrick juntou-se a eles. Ao entrarem, Filipe tirou a armadura que, a espada e os sapatos. Ao se deitar na cama chamou Aurora para acompanhá-lo.
– Eu já estou bem descansada. Vou ver se precisam de alguma ajuda lá fora. – Respondeu Aurora dando um beijo na testa do príncipe.
– Mas você ainda não está totalmente recuperada, não pode fazer esforço! – Disse Filipe com um pouco de repreensão na voz.
– Calma, senhor preocupação. Eu já disse que estou bem e prometo não fazer nenhum esforço. Agora, durma! – Com isso, Aurora saiu da cabana levando seu filho.
– Mamãe, posso voltar a brincar? – Perguntou Patrick fazendo uma carinha de cachorro pidão.
– Claro que pode, meu bem! – Ela abaixou e o abraçou-o. Logo que o soltou o menino saiu correndo em direção às outras crianças.
Apesar de se sentir bem fisicamente, Aurora sabia que algo dentro dela estava errado. Desde que chegara vinha sentido uma angústia, como se tivesse algo para ser resolvido em sua vida. Sem contar que, a forma como Mulan havia a tratado poucos minutos antes a incomodara.
Uma mulher passou com uma grande panela cheia de algum tipo de caldo. Aurora abordou-a e perguntou:
– Vocês precisam de alguma ajuda na cozinha?
– Não, senhora! Muito obrigada, mas a princesa não precisa ajudar. – Respondeu a mulher de uma forma humilde e simpática.
– Você não precisa me chamar de senhora, muito menos de princesa, pode me chamar de Aurora. E eu quero ajudar, afinal nossos maridos estão trabalhando juntos, nós também deveremos trabalhar juntas. – Após dito isso, a mulher fez um gesto com a cabeça que Aurora deveria seguir com ela.
Aurora entrou na cabana distraída com a conversa que estava tendo com a mulher que acabara de conhecer. Por isso, só percebeu que mais duas pessoas estavam dentro da cabana quando colocaram a panela em cima da mesa.
– Mulan! O que está acontecendo aqui? – O espanto em sua voz fora causado pela cena que havia acabado de ver. Uma cena que não fazia sentido... Mulan beijando outra mulher.
– Aurora! Eu... Eu... – As palavras não conseguiam sair da boca de Mulan.
– Izabel! Eu disse para vocês duas que vocês deviam tomar mais cuidado! A cozinha não é um bom lugar para vocês fazerem isso! – A mulher repreendia as duas, como se já tivesse feito isso inúmeras vezes.
– Mãe, me desculpe, a gente... A gente não achou que alguém fosse entrar. – A feição da mulher exibia um pouco de arrependimento.
– Mas acontece que entrou! Por sorte fui eu e a princesa. Imagina se algum homem entra aqui... Imagina se o seu pai entra aqui!
– Espera... O que exatamente está acontecendo aqui? – Aurora ainda se sentia totalmente perdida nessa situação.
– Pode deixar que eu explico! – Agora a voz de Mulan exalava confiança. – Aurora, eu sei que pode parecer estranho para você, mas eu e Izabel... Nós estamos juntas. Nós estamos namorando.
Por um segundo Aurora sentiu seu mundo girar e depois desmoronar. Quando tentou retomar a consciência, desmaiou.
Quando acordou Mulan estava abanando-a.
– Eu... Eu estou bem! Você não precisa mais fazer isso! – Aurora levantou-se e empurrou Mulan para longe de si.
– Aurora, você não precisa surtar por causa disso. Eu continuo a mesma pessoa de antes. Continuo sendo sua amiga. O fato de eu estar apaixonada por outra mulher não muda quem eu sou.
“Apaixonada por outra mulher?” Aquilo atingiu Aurora de tal forma que tudo o que ela queria agora era gritar e pular no pescoço da Mulan. Mas por que ela estava reagindo assim? Ela sempre soube que o amor não devia ter restrições. Ela sempre foi defensora de todos os tipos de amor. Agora que sua melhor amiga precisava de seu apoio, ela não podia simplesmente sentir raiva dela.
– Eu não vou surtar. Eu só preciso de um tempo para absorver tudo isso. Eu vou tomar um ar fresco. Depois do almoço a gente conversa e você me explica melhor essa situação.
– Claro! Mas você pode me fazer um favor? Não conte isso para ninguém! Nem mesmo para o Filipe. Se o pai da Izabel descobre ele vai querer me matar. – Mulan tinha um olhar de súplica que Aurora nunca vira antes.
– Pode deixar! Não vou falar pra ninguém. – Aurora saiu em disparada da cabana. Caminhou por mais dois ou três minutos. Finalmente parou, quando chegou à beira de um rio.
Os pensamentos de Aurora estavam a mil. Aquilo tudo era muito novo para ela. Duas mulheres se beijando. Duas mulheres apaixonadas uma pela outra. A situação toda a incomodava, mas algo a incomodava mais ainda, o fato de Mulan estar apaixonada. As duas haviam passado por tantas coisas, tinham se aproximado tanto. Aurora queria com todas as suas forças que Mulan fosse feliz. Porém, nunca havia pensado que ela viria a se apaixonar algum dia. “Como eu sou boba!” Pensou Aurora. “É claro que Mulan se apaixonaria algum dia.” “Todos se apaixonam algum dia.”.
Aurora deitou-se na grama. Deixou o barulho do rio embalar seus pensamentos e começou a se lembrar de todos os momentos bons que havia passado com Mulan. Quando voltou à realidade, percebeu que o sol estava tão alto que já devia ser hora do almoço.
Chegando ao acampamento, Aurora viu todos se preparando para a refeição. Quando avistou Filipe com o filho no colo, caminhou até eles e se juntou para o almoço.
– Faz uma hora que eu acordei e estou te procurando desde então! Onde você estava? – Filipe parecia preocupado com o sumiço repentino de Aurora.
– Eu me senti meio tonta e caminhei até o rio pra tomar um ar mais fresco.
– Sozinha? Você podia ter passado mal! Se não queria me acordar, devia ter leva a Mulan com você.
– Filipe, eu estou bem! Já disse, não preciso de babá andando comigo pra cima e pra baixo. Só fui tomar. Não se preocupe! – Com isso Aurora cortou de vez o assunto.
Filipe e Patrick terminaram antes de Aurora, então saíram para fazer uma caminhada deixando-a um pouco sozinha. A mulher que ela havia conhecido mais cedo caminhou até ela e começou a falar:
– Eu também demorei um pouco para entender o que estava acontecendo com elas. Mas você vai se acostumar.
– Desculpe, eu ainda não sei seu nome! – Disse Aurora ao se lembrar de que não havia perguntado o nome da mulher.
– Cristal! E como você deve ter percebido eu sou a mãe da Izabel.
– É, eu ouvi quando ela falou. Bom, Cristal, eu nunca imaginei uma situação dessas. Por isso, fiquei em choque. Mas a Mulan é minha amiga e eu vou apoia-la sempre. Se ela está feliz com a sua filha, eu fico feliz pelas duas.
Mulan chegou e sentou-se do lado de Aurora.
– A gente pode conversar agora? Só quero te explicar o que realmente está acontecendo e como eu me sinto.
– Claro, pode falar. – Respondeu Aurora com um pequeno sorriso simpático no rosto.
– Vou deixa-las a sós. – Disse Cristal levantando-se e saindo para dar privacidade às amigas.
– Primeiro eu quero saber se você está bem. Você desmaiou e depois saiu andando sem nem olhar para trás.
– Eu estou bem, Mulan. De verdade. Eu só fiquei um pouco em choque com a novidade.
– Que bom! Então, para começar, eu e Izabel estamos realmente juntas. O que você viu foi um beijo de verdade. A gente começou a namorar há alguns meses. – Afirmou Mulan com a voz calma, como se desse uma notícia ruim a alguém.
– Como vocês se conheceram? – Questionou Aurora rapidamente.
– Aqui no acampamento. A família dela ficou sem nada depois de uma forte chuva e eles acabaram se juntando ao bando. – Respondeu Mulan com a mesma calma de antes.
– Como você descobriu que gostava dela desse jeito? – Aurora nem deu tempo para Mulan pensar depois de ter respondido à outra pergunta.
– Eu não sei. Não sei como a gente descobre quando se apaixona por alguém. Mas depois de um tempo eu simplesmente não conseguia parar de pensar nela.
– Quem se declarou para quem primeiro? Quem beijou quem primeiro? Quem mais sabe sobre vocês duas? – Aurora parecia uma máquina de interrogar nesse momento.
– Ei! Vai com calma aí, Senhora perguntas! Respira e me deixa respirar. – Mulan realmente respirou profundamente e voltou a responder às questões de Aurora. – Eu me declarei primeiro. Certa noite nós estávamos sentadas sozinhas vendo as estrelas, ela estava tão linda... Eu simplesmente disse. Foi então que ela me beijou primeiro, respondendo à sua segunda pergunta. E ninguém além da Cristal sabe. Na verdade, nossa intenção era que ninguém soubesse, mas a Cristal descobriu do mesmo jeito que você.
– Mais uma última pergunta... Você a ama? – Aurora se arrependeu no segundo seguinte após ter feito essa pergunta.
– Aurora, eu preciso ser sincera com você. Eu a amo sim. Mas não tanto quanto eu já te amei. – Respondeu Mulan segurando as mãos de Aurora, que solto-se logo em seguida.
– Você está dizendo que me amou do mesmo jeito que você a ama? – Aurora estava mais surpresa agora do que quando viu Izabel e Mulan se beijando.
– Sim. Eu te amei do mesmo jeito, como mulher, não somente como amiga. Por Deus, Aurora! Como você não percebeu? – Os olhos de Mulan começaram a se encher de lágrimas.
– Eu sempre tive você como minha melhor amiga, achei que eu significasse o mesmo para você. – O tom da voz de Aurora tinha passado de surpresa para consolo.
– Por um tempo sim. Mas quando eu coloquei seu coração de volta em você... Eu senti uma ligação tão forte! Como se naquele momento nós duas fossemos uma só. – As lágrimas agora corriam pelo rosto de Mulan – Aquele dia que eu fui me despedir... Eu ia me declarar pra você, se você me quisesse eu não teria partido.
– Por que você não se declarou? – Indagou Aurora com um tom de indignação.
– Porque você disse que estava grávida! Você parecia tão feliz! Eu não poderia destruir essa felicidade jogando uma bomba dessas pra você. E ainda tinha o Filipe, ele é meu amigo. Eu não queria destruir a família dele.
– Mulan, eu não sei o que te dizer. Eu realmente te amo, mas tenho certeza que é só como amiga e sempre foi assim. Na verdade, me sinto até aliviada em saber que você está amando novamente. Eu não quero que você sofra por mim.
– Não se preocupe. Eu realmente já superei isso. Eu amo a Izabel e estou feliz com ela. O que eu preciso de você agora é sua amizade, nada mais. – Aurora então abraçou Mulan e disse em seu ouvido.
– Não se preocupe. Continuo sendo sua melhor amiga.
Mulan levantou-se e caminhou até Izabel. Aurora ficou sozinha novamente com seus pensamentos e com o frio na barriga que sentia toda vez que chegava perto demais da Mulan.
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