Unforgivable

14 Quem guerrear contra os Archiberz cairá


Notas iniciais
Desculpem pela demora xuxus (não achei um apelido mais carinhoso, sorry).

Rebekah está desesperada. O que Os Conselheiros acreditavam que era um terremoto, na verdade provou ser exatamente o que ela pensou que era: uma bomba.

Essa não havia atingido o palácio, por enquanto. Sua equipe disse que veio do noroeste. O que ficava à noroeste de Frömming? Hahle.

– Foi um aviso — seu Primeiro Conselheiro disse.

– O que eles querem de mim?

– Se eles quisessem alguma coisa, Majestade, teriam requisitado uma reunião logo após o ataque. Talvez o que eles queiram seja vingança.

– Vingança? Eu nunca fiz nada para os Hallaya.

– Exatamente. Katerina matou Jacques Hallaya diante dos seus olhos e nada foi feito para puni-la, pelo contrário, ela fugiu. Fleur e Heron não deixariam isso passar batido e bem sabemos que o sangue de Florence não nega a raça. Ela é uma selvagem e eles adoram uma guerra.

– E quais são as nossas armas agora?

– Armas de fogo? Não é a minha área — ele se afasta um pouco. — Os Conselheiros não estão nada contentes e se uma guerra eclodir, com certeza eles serão os primeiros a fugir.

– Eu espero que você seja uma exceção.

Ele sorri de uma forma que nem mesmo Rebekah consegue interpretar.

– Os Conselheiros vivem desde à Idade Média, recebendo várias denominações ao decorrer dos anos, mas não foi enfrentando guerras que nós sobrevivemos, Majestade.

Estava clara a posição dele. Apesar de tudo, Rebekah sempre seguiu aqueles homens e agora que na verdade eles causaram a guerra, ela que arcava com as consequências. Parecia que todos haviam pulado do navio em meio a uma tempestade.

Frömming é um navio e eu sou a capitã, ela pensa. Eu não vou deixá-lo naufragar.

+++

Katerina acorda sem dores e com um sorriso no rosto. Os únicos hematomas que haviam em seu corpo eram as marcas dos lábios de Francis em seu pescoço.

Ela desliza até o banheiro e lava os cabelos calmamente. Era muito bom poder ficar de pé novamente, sentir a água gelada batendo contra o seu corpo aquecido.

Ela caminha até o quarto novamente e coloca um vestido verde bandeira para comemorar a sua volta. Verde esperança. Não havia muito com quem comemorar, afinal, mas agora ela tinha um andar secreto.

Valentina a colocou em um lugar mais subterrâneo. Por ser secreto, era deserto. Como poucas pessoas sabem da localização de Cérebro, ela permitiu que Katerina passasse as tardes com ela.

A ruiva pegou um livro sobre a origem de Frömming escrito por Caine Archiberz, seu avô.

Um trecho em especial a chama a atenção.

"O último presidente dessa nação, antes de se tornar Frömming, Justin Carlisle Crick, preferiu se jogar da Torre Sangrenta do que enfrentar a ira da espada da justiça. Nossos inimigos o tomaram como exemplo de covardia e decidiram lutar pelas suas honras, fracassando. Ninguém sai ileso dos afiados caninos do leão selvagem. A fúria é nossa e quem guerrear contra os Archiberz cairá."

Era um incentivo e tanto. Embaixo desse parágrafo, estava escrito "discurso do rei Caine Thron Archiberz diante da Grande Guerra."

Katerina se lembra das histórias que Joffrey costumava contar para ela. Dos militares imponentes, das pessoas se reunindo em praças, esperando a morte.

– Os revolucionários foram cruéis — ele havia lhe contado -, mas o presidente Crick não queria se entregar. Então o Marechal Johann decidiu que iria matar dez pessoas no primeiro dia e vinte no segundo, então trinta no terceiro... de qualquer forma, o ser humano é egoísta. Quando se trata da sua própria sobrevivência, ele não costuma ligar para ninguém além de si mesmo.

– Mas ele tinha família — ela havia insistido apostar na humanidade do ex-presidente. — Ele deveria entender que muitas pessoas estavam perdendo seus queridos e... que poderia acontecer o mesmo com ele, que ele poderia impedir e... — cansada, ela bufa. — A guerra é tão injusta.

Joffrey sorri e toca a bochecha dela com a ponta dos dedos.

– Eu adoraria que as pessoas fossem tão humanas quanto você. Será uma boa rainha, Katerina. Eu espero estar aqui para vê-la sobreviver a guerra que irá se desencadear.

– O quê? — ela sussurra. — Mais uma guerra? Mas... estamos em paz há apenas cinquenta anos.

– E a guerra não espera. Ela é cruel e costuma arrastar tudo e todos ao seu redor. Ela não liga se estamos em paz por vinte, cinquenta ou oitocentos anos. Ela hiberna, nunca morre. Renasce das cinzas e acorda faminta.

Katerina sente seu corpo tremer. As palavras pareciam tão mais sombrias saindo dos lábios dele...

– E quando ela decide se alimentar, é completamente insaciável.

– E como nós podemos fazê-la dormir de novo?

– Um grande sacrifício. A morte de alguém importante. O símbolo da revolução.

Nos dias atuais, Katerina sente-se assombrada pela ideia. Valentina havia lhe dito que ela era o símbolo da revolução.

Então, se fosse o caso, apenas a sua morte poderia acabar com a guerra que já havia começado.

+++

Henry caminha calmamente até o jardim do Palácio Kionbach, parecendo desinteressado e com um óculos de sol no rosto.

– É muito bom não ser o herdeiro — ele diz a Jean-Pierre. — Posso ficar na piscina boa parte do dia. E essa semana eu descobri que temos uma sauna, você sabia disso? Depois de tantos anos...

Jean-Pierre é irmão mais velho de Henry, mas tem idade para ser pai dele. Um pai bem jovem, sim, lá pelos dezotio anos, mas ainda assim um pai.

E ele costumava agir como tal por isso muitas vezes Henry reconsiderou, mas algo dele estava desidratado, louco de sede de caos. Ele adora um espetáculo e em breve o circo pegaria fogo.

– Eu imagino o que seus filhos estão fazendo em Las Mees.

– Hector foi visitar a irmã. Ele merece umas férias.

– Claro, não estava preparado para o trono. Desde que Francis sumiu... — ele olha para o irmão — afinal, por que as buscas estão tão lentas?

– Francis não está perdido para ser encontrado.

– Bom, talvez ele seja o único dos seus.

– Como é?

– Ah — Henry se joga em uma espreguiçadeira -, você certamente já ouviu os boatos. O povo é maldoso. Aposto que quando essas mulheres da feira morrerem, deverão carregar um caixão para o corpo e outro para a língua.

– Que boatos?

– Do incesto de Alison e Hector.

Jean-Pierre fica em silêncio por alguns breves milésimos e depois corta o ar com uma risada estridente e debochada.

– Isso nunca aconteceria. Eu não... eles nunca...

– Tem certeza, irmão? Eles sempre se trataram com demasiado carinho...

– Não faça isso — Jean-Pierre pede. — Eu sei que você costuma manipular a cabeça das outras pessoas, mas não tente fazer isso comigo. Eu sou sangue do seu sangue e antes de você, vim eu. Eu sei exatamente tudo o que você pensa e como você age. Esses joguinhos não vão dar certo.

Vendo o ar perturbado do irmão, Henry se levantou, sorridente.

– Não?

+++

Melanie ficou chateada quando chegou em Cérebro e sua mãe avisou que estava fechado para reformas.

– Temos um ponto de observação provisório no terceiro andar — ela diz.

É estranho a contagem dos andares ali. Não era do mais baixo para o mais alto, mas sim ao contrário. Quando mais subterrâneo fosse, maior seria o número do andar. As estações são extremamente largas, ocupando toda a extensão de Meurer e boa parte de cidades pequenas ali perto, como Haase e Boerke. Por isso o número de andares não era tão abundante.

Ninguém nunca passou do décimo.

Ela ficou vagando entre o alojamento e o refeitório o dia todo. Quando já era sete horas, decidiu ir até a prisão ver como Josh estava se saindo. Ele estava o dia inteiro na cela da irmã e ela temia o que poderia ter acontecido lá dentro. Agressão, palavras afiadas... morte.

Era estranho ver Heather como uma traidora. Há pelo menos três anos que ela a conhecia e desde o começo ela sempre pareceu legal, leal aos Apátridas desde o fim do PMI, sempre focada na guerra e... tudo parecia tão distante agora, como uma realidade paralela.

A ficha ainda não havia caído. Para Josh então deveria ser ainda pior. A irmã dele... a garota que ele conheceu, protegeu e amou a vida toda traiu todos os princípios nos quais ele acreditava e jurava que ela fazia o mesmo, aquela que matou o símbolo da revolução, a única esperança deles de ganhar a guerra. Aquela que matou qualquer chance dos nortistas rebeldes.

Aquela que assinou a sentença de morte de todos eles.

Melanie não conseguia imaginar a dor que Josh sentiria quando percebesse que isso é real e não apenas um pesadelo. Desde o que Vincent fez uma troca com Melanie, Josh o odeia e quando descobriu o que ele fez para a população... ele queria matá-lo. Josh viveu os últimos três anos em função dos Apátridas, entrou para os Indomáveis, se entregou completamente e foi quem convenceu a todos a fazerem o juramento de fidelidade. Ele deu a sua alma e a sua vida para que os rebeldes vencessem a guerra e poderia imaginar que qualquer um o trairia, menos a sua irmã.

Isso parecia tão dolorosamente irreal.

Melanie pensou então no outro irmão de Josh, Andrew, em Hahle com Fleur. Se fosse verdade, ele estaria indo com ela para Frömming, mas em busca do quê? Fleur era a segunda herdeira de Hahle, mas não tinha nada a ver com Frömming. Ela ficou sabendo que os Hallaya haviam bombardeado o país de Rebekah, mas eles não podiam fazer nada além disso, podiam? O povo nunca aceitaria alguém que não fosse um herdeiro de verdade.

Pensar em Andrew lhe aperta o coração. A preocupação toma conta dela. Se o que Fleur havia dito era verdade, que Andrew estava apaixonado, então ele estava sendo completamente manipulado por ela.

Melanie aprendeu a nunca ignorar uma possível ameaça, por mais que não parecesse grande coisa. Vincent a disse uma vez que se quisesse vencer, não poderia deixar seus sentimentos no caminho. Ele sempre a disse que ela tinha uma tendência a ser forte, mas que suas emoções a tornavam fraca.

Pensar em Vincent a revira o estômago. E pensar que ela achava que ele gostava dela... sim, suas emoções a tornavam fraca. Com o passar do tempo, Melanie se acostumou e... admitia apenas para si mesma, havia até gostado.

Lembrar disso agora a fazia sentir ânsia. Vincent nunca mais tocaria nela.

Melanie, de repente, se sente mal e decide voltar para o alojamento. Josh é maduro o suficiente para lidar com isso e, bom, a irmã dele é uma traidora, ele deveria ficar sozinho com ela e discutir sobre.

+++

Fleur ajeita seu vestido azul marinho assim que desce do helicóptero. Andrew estende a mão e ela a aceita de bom grado com um sorriso no rosto.

Ela pensa em Alek, o protegido de sua família. Penas em como eles brincavam pelos jardins frios do Palácio Hallaya e de como seus pais gostavam do sobrinho distante. Lembra de como se sentiu arrasada quando seu pai o afastou dela, dando-lhe tudo o que precisava para conquistar Rebekah e ficar perto da Corte Frömmingense para passar informações.

A desgraça estava fadada a aquela família. Jacques agora está morto e Alek também estará em três horas.

Andrew a beija e ela percebe que deve corresponder quando é tarde demais.

– O que foi?

– Eu estou com a cabeça cheia demais. O retorno do meu irmão com aquela mulher, as mortes e a futura guerra, você...

– Eu?

Ela sorri.

– Vincent fez a bondade de nos apresentar, mas desde então meus sentimentos por você tem ocupado bastante espaço no meu tempo diário.

Andrew a puxa para um beijo e dessa vez ela corresponde. Apesar de tudo, ele era bom para ela e pensar que estava o usando a chateava.

– Nós já chegamos, Rebekah será deposta assim que anunciarmos que eu sou o herdeiro, seu irmão reinará em Hahle enquanto nós mandaremos em Frömming. A guerra já eclodiu, mas desde que decidiu mandar aquela bomba para cá só tornou tudo mais evidente. O povo nos apoiará, Fleur, não há com o que se preocupar.

Ela assente com a cabeça.

– Meu único receio é Katerina. Apesar de não ser uma legítima, ela e Michael podem dar problema. Ainda tem Hana e...

– Katerina está morta.

– Como? — Andrew se espanta.

Ela dá de ombros.

– Eu cuidei disso.

Revelar isso foi seu grande erro.

– Você... — ele se afasta. — Você mandou matá-la?

– Não fique tão surpreso. Você também já matou muitas pessoas e eu nunca o julguei por isso. A diferença entre nós é que eu pago para fazerem por mim.

Andrew não havia percebido esse lado escuro em Fleur até agora.

– Você... — então a ficha cai. — Você sempre soube, não é? Você e Vincent causaram o incêndio aquele dia no casamento, vocês sabiam que eu era o herdeiro e que eu faria de tudo para tirar uma tirana do poder... vocês me usaram.

– Nós trouxemos um sentido para a sua vida. Desde que Melanie escolheu seu irmão, você fica vagando por aí, buscando por migalhas... Andrew, você não precisa viver de pedaços. Eu te dei uma realidade. Eu sou inteira.

– Eu não...

– Sim, eu sabia que você era o herdeiro mesmo antes de te conhecer, mas ainda assim eu não teria aceitado me casar se eu não tivesse sentimentos por você.

– Eu não acredito.

– O que eu preciso fazer para provar isso?

– Nós vamos embora. Não iremos reivindicar trono algum.

– Mas você queria ajudar o povo...

– E eu irei. Vou lutar para que Rebekah seja deposta e depois ergueremos outra dinastia, mas eu não serei o sucessor. Esse é o único jeito de eu acreditar em você.

– Drew...

– Você me fez de idiota, Fleur. Todos sempre fizeram. Eu estou cansado de fazer papel de otário!

– Drew...

– Cala a sua boca! — ele grita, irritado, apontando o dedo na cara dela e depois respira fundo, caminhando até a porta às pressas.

– Aonde você vai?

– Não é óbvio? — Andrew questiona. — Vou sumir para não esbofetear a sua cara.

+++

Alguns minutos antes

Josh caminha de um lado para o outro daquela cela imunda. Ele não consegue tirar da cabeça o olhar surpreso que Heather lançou quando o viu entrar naquele lugar escuro.

– Então você é a traidora.

– Uma delas.

– Quem são os outros?

– Você acha mesmo que eu vou entregar o ouro?

– E eu que pensei que você tinha entrado nos Apátridas apenas porque eu e Drew tínhamos o feito... parece que eu me enganei a seu respeito.

– Você se enganou a respeito de muitas coisas.

– O que você quer dizer?

– Já pensou em fazer um teste de DNA? A garota pode ser sua filha ou de Andrew. Hum, ainda tem o Tyler. Ah, não vamos esquecer do Senhor de Meurer, certo? Aposto que Vincent não teria mantido a menina inteira se não fosse filha dele mesmo. Quem sabe com quantos outros Melanie dormiu?

Josh não consegue se segurar. A ira transborda e ele acerta um soco com os nós da mão no rosto da irmã. O soco a faz virar o rosto, bater a cabeça na parede e arfas, chacoalhando as algemas que prendem suas mãos. Ela cospe sangue no chão.

– Você lava a sua boca pra falar de Melanie. Ela não foi prostituta por escolha.

– Claro que ela tinha uma escolha. Ela poderia ter arranjado um emprego ou simplesmente ter se tornado uma mendiga. Primeiro de tudo: ela nem deveria ter saído de casa.

– Ela fez para sobreviver.

– Se você entende o lado dela dessa forma, com certeza entenderá o meu.

– Você acha que eu vou acreditar que você foi obrigada a isso?

– Eu fiz para sobreviver. Eu tenho a minha inteligência assim como Melanie tinha o seu corpo. Eu tive escolha e eu escolhi sobreviver. Cada um luta com as armas que tem.

Josh respira fundo, tentando controlar mais um acesso de raiva.

– Não é a mesma coisa.

– Quando eles vieram até mim para me recrutar, eu aceitei. Eu sabia que eles ganhariam a guerra. Eles são fortes demais para serem derrotados.

– Eles quem?

Ela sorri para o irmão, os dentes sempre brancos agora vermelhos pelo sangue.

– O Primeiro Exército.

Vincent. É claro. O Primeiro Exército é comandado por ele. É óbvio que só alguém como ele teria tecido tamanha teia, fios emaranhados, manipulando todos como se fossem marionetes...

– E o que Vincent a ofereceu em troca?

– A cabeça do nosso pai.

Josh se surpreende diante de palavras tão frias e absurdas. Até ontem Heather era só sua doce irmã mais nova que era a inocência em pessoa, que havia se recuperado de um terrível acidente e que ele tinha a obrigação e o dever de proteger e de repente ela se torna uma traidora, assassina sangue frio e agora diz que deseja a morte do homem que lhes deu tudo... ele não conseguia acreditar que havia sido enganado por tanto tempo.

– Por quê?

– Por quê? — ela repete, indignada. — Eu não acredito nisso. Sinceramente, Josh, eu pensei que você era o mais inteligente da nossa família, mas é muita sorte nós não termos o mesmo sangue.

– Herbert sempre me amou mesmo eu não sendo filho biológico dele.

– Amou... — ela ri, debochada. — Herbert só usou do benefício que você o traria.

– Como é?

Ela suspira.

– Herbert não pode ter filhos. Eu sou filha de nossa mãe com Frederick Whitmore.

Sua mãe havia traído o seu pai? Apesar de frieza de sempre e do afastamento constante dos dois, isso não parecia ser o tipo de coisa que ela faria.

– Ainda tem Andrew.

– Ele é o bebê perdido, o salvador da nação, o irmão desaparecido de Caine Archiberz. Vincent o sequestrou e falou para Herbert adotá-lo, algo parecido que ocorreu com você.

Tudo aquilo era surreal demais para ser verdade. Ele não confiava mais em Heather, mas ele viu tanta transparência no seu olhar azul e congelante naquele momento...

Se Heather sabe de tudo isso, ela também pode saber de mim, ele pensa.

– Eu?

– Você já ouviu falar no filho do meio de Florence e Jacques Hallaya que nasceu morto?

Não pode ser, ele diz a si mesmo.

Josh balança a cabeça negativamente. Heather sabe que ele sabe, os dois costumavam conversar sobre as alianças entre famílias, as mortes e as guerras.

– Ele nunca nasceu morto. Ele foi apenas afastado de sua casa por proteção. O Senhor de Meurer sempre tão amigável, se ofereceu para achar uma família ao bebê. Então ele o entregou ao nosso pai, assim como fez com Andrew.

Josh se recusa a aceitar aquilo.

– Eu não...

– Você pode não acreditar em mim, então vá até Cérebro e questione o nosso pai. Ele mentiu todos esses anos para vocês dois enquanto me maltratava.

– Te maltratava?

– Venha me ver amanhã nesse mesmo horário que você entenderá porquê eu quero ver a cabeça do nosso pai bem longe do pescoço.

+++

Rebekah está vestindo branco. Sim, como se fosse um dia de festa e não o dia de uma execução. Ela mal transparecia que o seu país havia sido bombardeado no dia anterior e que seu marido enfrentaria o pelotão de fuzilamento em minutos.

Os preparativos não estavam como ela queria, afinal o adiantamento da execução foi totalmente de última hora e Rebekah não teve tempo suficiente para planejar tudo como queria. Ela desejava que muitas pessoas estivessem presentes para mostrar que ninguém abalava o seu coração e que aconteceria a cada um deles a mesma coisa que acontecerá com Alek caso a traiam.

Quando chegou a hora, ela subiu até o tablado da praça cercada de militares. Um lugar de destaque para uma rainha. O povo se aglomerava embaixo dela e a rainha de cabelos tão negros quanto um manto em meio a escuridão pediu para que servissem comida a todos. Eles comemoraram.

Pão e circo, Rebekah se lembra que seu pai costumava fazer muito isso pra distrair o povo. Chegada a hora, ela decidiu não falar, assim poderia assistir e saborear a sua vitória. Ela pediu a um dos militares de confiança para assumir seu lugar. Rebekah se sentou no trono improvisado, de veludo vermelho e ornamentos em dourado, simbolizando o ouro do trono verdadeiro, e assistiu.

– Estamos todos aqui hoje reunidos para um dia muito... peculiar. Alek Richmanoff, rei de Frömming por casamento, herdeiro por direito da Campina em Hahle, do Castelo de Bayer em Ahnmach e da primeira Ilha Solitária em Frömming, marido da herdeira direta Rebekah Christina Scherminski Archiberz Richmanoff, VI do seu nome, rainha de Frömming, imperatriz das Ilhas Perdidas e princesa herdeira da Rússia, é acusado de falsidade ideológica, calúnia, injúria, difamação e traição contra o reino e, principalmente, contra a Sua Majestade. A pena para os demais crimes são dois anos em reclusão fechada, porém por conta conspiração de morte e alta traição contra um membro da família real, a pena é de morte por enforcamento ou pela guilhotina, o que o condenado preferir.

Rebekah o olha em sinal de advertência. Havia algo que deveria ser dito.

– Ah, sim, claro. A rainha Rebekah, a Piedosa, declarou que enfrentar o pelotão de fuzilamento traria menos sofrimento ao seu antigo cônjuge.

Porém todos sabiam que não era.

A questão é que uma corda ao redor do pescoço ou uma machadada na nuca não era suficiente para Rebekah. É algo rápido demais para a dor que ele a fez sentir. Ela queria vê-lo ser atingido várias e várias vezes. Queria vê-lo quebrado em pedaços, estraçalhado, completamente despedaçado e aos prantos, implorando pela morte, e então ela a concederia. Ela queria vê-lo se humilhar e sofrer até o último instante. Queria vê-lo delirar, ficar completamente insano. O queria morto, definitivamente.

Alek foi trazido para a praça e o povo o acertou com maçãs, tomates, pedras... tudo o que tinham nas mãos. Com as suas amarradas, ele caminhava de cabeça baixa, os hematomas expostos, os cachinhos tão admiráveis agora estavam emaranhados em um nó e sua cara estava suja de fuligem.

– Você se arrepende dos seus crimes, Lorde Alek?

Ele não responde ao militar.

– Você pelo menos os nega?

Ele concorda com a cabeça.

Então seus olhos encontram os de Rebekah e isso era tudo que ela temia, porque por apenas um segundo ela pensa em desistir.

É tarde demais.

O circo já está todo montado. Ele já está frente a frente ao pelotão e Rebekah se lembra da adolescência dos dois, dos beijos apaixonados e das juras de amor. Ela sempre se sentiu tão feliz por poder se casar com o homem que amava e então... ele a traia daquela forma. Ela não compartilhou somente a cama com ele, mas sim o seu país, o seu trono...

Isso a magoava tanto.

De que valeu tudo isso, afinal? Como ele conseguiu ser tão falso ao ponto de enganá-la durante anos? O conhecia desde que tinha doze e Alek sempre pareceu tão... completo.

O dia em que o ouviu conspirar com sabe-se lá quem veio em sua mente e a rainha a inundou novamente e de uma forma devastadora. Ela se levantou, caminhou até o soldado com a arma diante de Alek e sussurrou em seu ouvido. Ele entregou a escopeta para ela e os outros soldados se espantaram quando ela pediu para ser a única a tirar, mudando completamente os protocolos.

– Esse homem traiu não só a rainha, mas ao país — ela fala ao público com um ódio voraz. — Ele conspirou com rebeldes as nossas cabeças e comprometeu o futuro de toda uma nação. Um rei verdadeiro jamais deveria fazer isso com a sua pátria.

O povo começa a vaiar Alek. A rainha virou-se para ele, a escopeta em mãos.

– Suas últimas palavras? — ela sussurra.

Ele olha ao redor, como se esperasse que alguém viesse salvá-lo. Rebekah olhou para onde ele mantinha os olhos desesperados fixos. Não havia ninguém. Quando olhou para Alek novamente, os olhos dele estavam fixos nela.

– Ninguém virá te ajudar — ela murmura. — Vamos acabar logo com isso.

– Banco Nacional de Frömming. Cofre 315, usuário Alek Richmanoff, senha 2112.

– 21 12... — ela repete. — É o dia do solstício de inverno.

Ela leu sobre. É uma data muito importante e histórica, já que foi o dia em que a Grande Guerra foi finalizada. Bem no dia do solstício de inverno, por isso o povo sempre comemora.

– É o dia do nosso casamento — ele disse, mantendo os olhos nela.

Antes que pudesse ser acometida por um delírio de bondade, Rebekah olhou na lupa e mirou. Repórteres se acumulavam a sua volta, o povo urrava pelo sangue de Alek, flashes, gritos, seu coração pulando dentro do peito, os olhos grandes e desolados de Alek, seus cachos desgrenhados, sua pele pálida cheia de hematomas, uma história de amor de anos passando em sua cabeça, o momento da conspiração... toda a vida havia se esvaído dele há tempos. Alek Richmanoff já estava morto e parecia ter percebido isso antes dela.

Quem guerrear contra os Archiberz cairá.

E pela primeira vez em sua vida, Rebekah atirou em alguém.

Apenas uma vez. No peito.

Para matar.

Notas finais
Gostaram? Odiaram? O que acharam?