Notas iniciais
N.A.: Fanfic participante da World Conference IV. Sem mais delongas, essa história é um presente para a adorável WeirdLullaby (/u/361459) vulgo Natália vulgo Aquela-Fangirl-do-Noruega. Fiz meu possível para sair do seu agrado (apesar de estar ciente que desviei da proposta feliz ;_; e por essa falha inevitável eu peço sinceras desculpas, mas juro que tentei acabar numa nota o mais otimista possível) e espero sinceramente que goste dela. S2

Uma névoa tênue e branca cobria a terra com uma camada de silêncio e outra de dor, subindo aos olhos e deixando um rastro vaporoso e sujo na noite sem estrelas. Naquele mundo, o seu mundo – o velho e o novo também –, esperanças grandes e pequenas derretiam do mesmo jeito sob o branco que jamais acabava.

Ele olhou para trás, um gesto ao qual já se habituara nos últimos tempos, e por uma última vez, permitiu-se observar a verdade daquilo que estava abandonando. Por baixo de suas roupas, pelos recantos vazios de sua alma, o frio glacial escorria como lágrimas que jamais derramou.

O homem do casaco azul caminhava à sua frente, silencioso como um espectro.

Pousou os olhos no chão, no branco que alcançava o limite de sua vista, e procurou pelas correntes. Não haviam. Nunca houveram. Mesmo assim, num gesto vão, puxou seu braço, esperando ouvir o som delas. Decepcionou-se em alguma parte de si ao ouvir somente o som seco de seus passos, o vento murmurando palavras sem sentido.

Estava se libertando, mas não se sentia livre.

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Abriu os olhos, sentindo os resquícios de uma inconsciência preguiçosa enrolar-se nele como os braços de um amante.

Ouvia o som do vento uivando contra a janela, e percebeu que uma tempestade abatia-se ao redor de seu mundo. Sonhara com aquilo também, percebeu de pronto – com o branco que nunca acabava, não importava para onde tentasse olhar, com uma noite sem estrelas e um homem de casaco azul.

Ele gostaria de dizer que não era uma criatura que se prendia ao passado, mas estaria mentindo para si mesmo se o afirmasse.

A exuberância de abraçar a vida como aquilo – somente a vida – e de agradecer à oportunidade de se estar vivo era-lhe desconhecida. Como um fantasma, caminhava por entre os cantos de sua existência e contentava-se com as sombras e o silêncio de quem viu mais do que desejava lembrar.

Como o frio que jamais o abandonava, não importando o quanto aquecesse sua casa, a memória de um casaco azul sempre rastejava como um verme por entre suas memórias.

Houveram outras, antes daquela.

Memórias de olhos azuis como um lago parado.

Uma opressão carmesim como o pôr-do-sol. Correntes sem cor e sem forma que o prenderam mesmo quando já não podia mais ser tocado pelo medo.

Poderia rir de si mesmo – quantos anos já haviam vindo e ido embora com a mesma rapidez desde aquele dia? E, mesmo assim, ele não conseguia esquecer.

Não era como anko.

À menção daquela palavra, a memória daquele que era capaz de olhá-lo com gelo e com fogo ao mesmo tempo despertou-o do torpor melancólico da noite gelada.

Percebeu, só ali, com uma surpresa que não pode disfarçar de si mesmo, que esteve sendo embalado pelo som de uma respiração desde que acordou, como alguém que dorme abraçado a uma canção. À parte do vento arranhando sua janela, não percebeu como a casa estava silenciosa àquele ponto.

Uma ciência relaxada, como raios de sol acariciando seus dedos, fê-lo afundar a cabeça ao travesseiro outra vez.

Sabia quem estava ao seu lado. Esteve ali muito antes, horas atrás – os braços não estavam mais ao seu redor, e seu abraço não era mais uma prisão de confortável calor. Afastados pela distância de um mundo inteiro de inconsciência, apenas suas mãos ainda encostavam uma na outra.

Noruega olhou-o, escondido pelo anonimato do sono.

A juventude que sabia que aqueles que personificam países já não mais possuíam era palpável no rosto adormecido. Ele era tão naturalmente despreocupado, mas havia uma camada fina como a superfície de um lago congelado de uma melancolia que nunca foi estranha para o outro – mas mesmo aquela tristeza sem nome desaparecia quando anko estava daquele jeito. Respirando de um jeito suave como um sussurro, Dinamarca até mesmo parecia inofensivo.

Os dedos que se encostavam tão delicadamente quanto um beijo nos seus não pareciam ser deles. Eram mãos fortes, a do nórdico – Noruega as conhecia. Bem demais, temia dizer. Mesmo assim, elas nunca lhe foram direcionadas com a intenção de machucar. E, mesmo agora, elas lhe tocavam com a mais estranha das reverências.

Anko quis o perdão dele mais do que o de qualquer outro.

Mais do que o homem de casaco azul ou a pessoa que ele chamava de “esposa” ou mesmo Islândia.

Mesmo assim, o perdão de Noruega era o único que ele realmente não tinha conseguido. Não conseguiria concedê-lo tão facilmente.

Não quando memórias empilhavam-se como neve ao redor deles.

Dinamarca nunca pareceu desistir de tentar, mesmo assim.

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Uma noite sem lua ou estrelas, cantando uma música sobre frio e separação.

Às suas costas, todos dormiam. Como um ladrão, ele esgueirou-se para a liberdade no meio da noite, observando as sombras do resto de sua vida com nada mais do que uma surpresa amena.

Era muito pequena, sua prisão.

Uma pequena casa, com pequenos móveis, onde crepitava um pequeno fogo e por onde andava, às vezes apressadamente e às vezes tão calmo quanto uma manhã de primavera, um pequeno tirano. Dentro de tudo aquilo, em si mesmo, existindo sempre um pequeno medo. Nem mesmo tinha amarras, mesmo quando puxava seu pulso.

Tudo muito pequeno – e, mesmo assim, fez-lhe tão grandes estragos.

O homem de casaco azul que caminhava à sua frente o salvara, estendera sua mão e ofereceu apoio, mas Noruega perguntou-se do quê, exatamente.

Mesmo assim, ali estava ele; fugindo.

A verdade é que olhou para trás uma última vez para ter a certeza de que estava abandonando a coisa certa – queria olhar uma última vez, de verdade, nos olhos da coisa que o fez tão miserável –, mas agora, coberta por neve e silêncio, sentia que sequer tinha algo a abandonar.

O tirano acordaria naquela manhã e nunca mais veria Noruega de novo.

Pensou que seria tão grande, ser livre, mas descobriu que era um pecadilho insignificante e pequeno, como um floco de neve. Escorrendo por sua boca, como piche, o gosto amargo da derrota o acompanhou por toda a viagem até sua nova prisão.

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Mesmo ali, estava tentando de novo, aquele tolo.

Nos dedos que encostavam no mais delicado dos toques nos seus – aqueles dedos que horas antes acariciavam seu cabelo com uma gentileza que poderia ser comovente, na voz que lhe falou de tudo e de nada até desaparecer na escuridão dos sonhos. Mas, especialmente, no coração que batia calmo e constante.

Noruega ouvia-o palpitar; sentia-o no toque do outro.

Além daquele pequeno pedaço de mundo, de uma cama de lençóis anis como a liberdade e tristes como andar sozinho, nada parecia realmente existir. Presos em um esquife de gelo, em meio à tempestade, só existia aquele pequeno instante.

Sentira-se assim antes, como que parado em um ponto do mundo.

Há muito tempo atrás, caminhando junto a um homem de casaco azul.

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“Adeus”, ele disse.

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Segurou, protegido pela promessa que o loiro não se lembraria de nada daquilo pela manhã, e assegurando a si próprio que nada mudaria, a mão do outro, apertando-a na sua.

Era somente o passado.

Dias que existiram e já foram embora.

Não existia mais o tirano.

Ou melhor, ele sempre existiria – junto com uma Noruega amarga –, mas ele já não podia mais tocar aquele lugar.

Afinal, anko refugiava-se na negação.

Para ele, a redenção veio como um ato de vontade – uma resposta natural a uma solidão que desafiava sua capacidade racional. Não houve orgulho ou negociação, ele entregou-se à tarefa de reconquistar o que perdeu como uma alma entrega-se à morte em suas horas finais. O loiro tinha certeza que seu antigo superior abominava a insatisfação, e eliminou-a sistematicamente com seu medo.

Se uma parte de si – aquela parte que ficou para sempre em um quarto emprestado, sob a vigilância de um medo sem palavras – achava que era o que aquela pessoa merecia, a outra parte só podia achar triste. Lamentável, talvez.

Nunca lhe passou pela cabeça achar admirável – talvez apreciar o esforço que o outro empregou naquela tarefa.

Dentro de si, em algum lugar, o anko que conhecia tinha somente duas faces, como um desenho bidimensional num papel. E aquele homem sorridente vestido de vermelho que o saudou de novo, que saudou o homem do casaco azul, e que os acolheu todos de novo em sua gentileza não era-lhe uma delas.

Aquele anko que um dia o beijou tão delicadamente, enquanto murmurava qualquer coisa que poderia ter sido uma declaração, um pedido de desculpas, ou mesmo nada daquilo, que poderia ter achado ser um sonho também lhe era estranho.

Mesmo assim, ele abraçou aquela estranheza com uma melancolia alienígena, uma dor agressiva, que ameaçava transbordar como água demais em um recipiente.

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“De quem se despede?”, ele perguntou, o homem do casaco azul.

O eco de seus passos desvanecia-se na eternidade da noite quando o loiro virou-se para ele outra vez, com olhos contemplativos e vazios.

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Como se penetrasse por entranhas de uma entidade viva, atravessou aquela pequena distância que os separava com um espanto que se espalharia pelo resto da manhã seguinte, tinha certeza.

Num arremedo de passado que o faria sorrir pela coincidência se fosse outra pessoa, quando aproximou-se outra vez, os braços de Dinamarca fecharam-se ao seu redor do mesmo jeito que o fizeram há muito tempo, quando a neve acabou e o tirano já não era mais o rei daquele pedaço do globo. Ele suspirou, ainda embalado em um sono pesado, e Noruega podia ouvir com tanta clareza quanto estranheza, dessa vez, seu coração.

Tinha-o escutado com a neve lá fora por todo aquele tempo, sem exatamente prestar atenção no fato. Mas reconhecia-o agora, como se reconhece que o sol brilha sobre sua cabeça, ou que um inspirar o faz perceber que, afinal, se está vivo.

Disse a si mesmo que não haveria problemas – ninguém além dele saberia –, e consolou-se com aquela vã desculpa quando encostou a cabeça em seu ombro e aspirou o aroma natural que se misturava com o de banho. Um cheiro quente e nostálgico, lembrava-se. Triste. Associava muitas palavras àquele homem – de estúpido a irritante –, mas ‘triste’ não era uma delas.

Surpreendeu-se, apenas brevemente, com aquele pequeno fato.

Noruega nem mesmo lembrava-se agora quando eles começaram a dormir na mesma cama. Lembrava-se de fazer isso com Islândia, e lembrava-se ainda mais de apreciar, mas mesmo aquilo parou, e suas noites foram, por muito tempo, solitárias.

Talvez, ninguém mais fosse realmente perceber nada de especial em uma face adormecida – além do fato de que um rosto relaxado era naturalmente mais belo. Mas, para ele, era muito diferente. Como comparar a lua e o sol.

A forma como os lábios entreabriam-se como na mais pequena sugestão de um murmúrio, ou como as pálpebras moviam-se sob o peso de sonhos e fantasmas que o menor não compreenderia jamais. Era tudo muito diferente do Dinamarca que conheceu um dia – tanto o tirano quanto o outro, o mais antigo que isso. E muito diferente também daquele que conhecia agora, o homem de sorrisos fáceis.

Acima de tudo, entretanto, uma parte secreta de si gostava especialmente do jeito que ele apenas dormia, preguiçosamente abraçado ao corpo do menor, sem se preocupar com absolutamente nada.

Era um milagre por si só, aquele mero ato.

Afinal, o loiro não era estúpido às implicações.

Tinha absoluta certeza que anko nunca mais teve, exatamente, uma boa noite de sono em sua vida. Muito possivelmente, é provável que nunca conheceu uma.

Acordar para uma nação traidora e outra desaparecida podia ser um choque muito grande, especialmente para alguém que prezava tanto seus objetos de posse. Por mais que tentasse, não conseguia penetrar no choque que acometeu o tirano – mas sabia que foi tamanho que o fez reformar-se.

Mesmo assim, ele confiava em Noruega o suficiente para adormecer sem medo.

Parece fácil, mas é difícil demais confiar em alguém implicitamente ao ponto de entregar-se daquele jeito à perspectiva de, talvez, mais uma vez acordar sozinho – e somente poder esperar pelo melhor, que não, que acordaria com o outro em seus braços.

Noruega não conseguia fazer aquilo.

Confiar em anko daquela forma – nunca conseguiria.

Mas era um gesto do outro que, por mais que ignorasse, nunca exatamente lhe passou despercebido.

Correspondia-o, contra sua natureza, contra seu impulso de às vezes apenas fugir outra vez e deixar pegadas na neve como naquela noite, com seus lábios, com seus braços, com seu calor, somente nunca com suas palavras.

Mesmo ali, o correspondia mais uma vez.

E agradecia-o por aquele voto de confiança, mesmo que talvez não fosse exatamente certo fazê-lo.

Em verdade, há muito tempo já não sabia mais o que era exatamente certo.

Não sentia sono, apesar de ter em si uma tranquilidade que poderia muito bem passar-se por isso, mas desejava-o tão somente para escapar daquele processo penoso de memórias e amarguras. Já o tinha o suficiente pela manhã, e considerava aquelas pequenas horas entre um anoitecer e um novo amanhecer o único momento onde podia verdadeiramente encarar a si mesmo, aos dois, ao monstro que se tornou.

(Sempre iria achar risível como o tirano não se tornou um monstro, como Noruega achava piamente que o faria no passado.)

Fechou os olhos, escondendo o rosto no calor da curva do pescoço do outro – permitindo-se aquele gesto que passaria despercebido, escondido na escuridão do descanso –, desejando que os fantasmas desaparecessem, e que pudesse somente dormir como o outro dormia.

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“... De nada.”

Aprendera a olhar aquilo que tinha sido sua prisão com outros olhos tarde demais.

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Descobriu, quando mais uma vez sonhou com o branco e com um adeus que não se desvaneceria, que não conseguiu.

Mas o som do coração do outro permaneceu, sutil, persistente, até o fim.

Notas finais
N.A.: Juro que isso era maior e bem mais cheio de frufrus, mas enxuguei o máximo para não ficar cansativo ou imenso (VIU, NÃO NASCI PRA ONESHOTS. NÃO ME MATEM). E espero que tenham gostado, e principalmente, que a dona do presente tenha também. S2
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!