Notas iniciais
" As pequenas coisas às vezes tem um valor imensurável. Um gesto, uma palavra apenas pode mudar todo o curso de uma história e para sempre o destino de uma vida."

Toc toc toc.

Alguém estava batendo em minha janela. Meu quarto ficava no fundo da casa. Não era muito difícil chegar à janela do meu quarto que ficava de frente pra casa de Daniel.

— Bom dia Nath, vamos ao parque de diversões hoje? — disse Daniel, empolgado.

— Ah Dan me deixe voltar a dormir — eu disse implorando.

— Ah paraaaa! Eu prometo que você não vai se arrepender. Te pago um sorvete se você for — ele insistiu.

— Mesmo? Tá bom, eu vou — eu disse, pois sabia que ele iria insistir até eu aceitar — Daqui 1 hora nos encontramos na frente de minha casa.

— Ok.

Esperei minha mãe sair para me levantar. Se ela soubesse que eu saí de casa sozinha com Daniel ela me mataria. Então fui tomar café e depois tomei banho e fui me arrumar. Decidi usar meu vestido novo. Ele era vaze (justo até a cintura, mas depois rodado) e de alças bem finas. Sua cor era bege e tinha umas flores rosa e roxas desenhadas, e elas davam vida ao vestido. O vestido ficou perfeito em mim. Coloquei meu All Star, uns brincos e colares e então saí.

— Uau! — disse Daniel — Você está linda Nath! — Seu olhar dizia que ele estava sendo sincero, isso me fez corar.

—Obrigada. Você está bem Dan? — respondi tentando mudar de assunto.

— Sim e você Nath? Podemos ir agora? Ou vamos perder o ônibus.

— Estou bem. Podemos sim, vamos logo então — eu disse concluindo aquela conversa.

Ele pediu para que entrelaçasse meu braço ao dele. E andamos até o ponto com o braço entrelaçado. Às vezes eu sentia como se Daniel fosse meu irmão. Ou às vezes sentia como se ele fosse mais do que isso. Era difícil dizer. Mas eu era muito nova e só tinha certeza de que de alguma forma ele era importante.

— Essa é a primeira vez que vou ao parque — diz Daniel — Mas acho que você já sabia disso — ele disse dando risada.

— E você também sabe que essa também é a primeira vez que vou a um parque de diversões — eu disse sorrindo.

— Ahan, e acho que vai ser uma boa experiência para nós dois. Está ansiosa?

— Sim, claro que estou!

Em seguida ouvi um barulho de motor e me virei para o lado procurando pelo veículo que fez o barulho, mas não encontrei nada. Então me virei para frente e vi o veículo que havia soltado o barulho: um ônibus.

— Acho que você percebeu que o ônibus chegou! — disse ele apontando para frente — As damas primeiro.

Nós dois trocamos olhares e rimos nesse momento. No fim das contas ele subiu primeiro. Nós nos sentamos no fundo do ônibus e ficamos em silêncio. Eu observava a paisagem. O parque ficava no Centro-Oeste da cidade e nós morávamos no leste. Levou uma hora para chegarmos lá. Descemos do ônibus e paramos em frente ao parque.

O parque era enorme! Na entrada havia uma placa, onde estava escrito: Bem vindo ao Cesar Park !
De longe dava pra ver que bem na entrada havia uma montanha russa cheia de curvas e descidas, e uma torre bem alta.

— Feche a boca pra não babar — disse Daniel rindo — Vamos entrar?

— Seu bobo, vamos sim! Em qual você quer ir primeiro? — perguntei.

— Num brinquedo chamado Barco Viking, pode ser?

— Claro — respondi e sorri.

Depois de andar um pouco, chegamos ao tal barco viking. Era um barco grande com fileiras de bancos de ponta a ponta. Esperamos apenas cinco minutos na fila e sentamos na penúltima fileira do lado direito.

"Se passarem mal ou quiserem descer cruzem os braços formando um x" — disse uma voz no alto falante.

E o barco começou a se movimentar, indo para frente e para trás, e ia cada vez mais alto. Logo o barco estava indo muito alto e eu estava com medo. Eu sempre tive medo de altura. Daniel sabia desse meu medo e segurou minha mão. Como o tempo me acostumei com aquela sensação. Sentia medo quando o barco chegava ao alto, mas logo passava quando o barco descia e ia para o outro lado, me trazendo alívio. A adrenalina tomava conta de todo meu corpo. E toda vez que isso acontecia eu apertava a mão de Daniel. Em 5 minutos o barco parou e todos desceram.

— Gostou Nath? — ele perguntou.

— Sim. Apesar do medo foi muito bom. Agora eu escolho o brinquedo, e eu quero ir naquela montanha russa — eu disse apontando para a montanha russa.

Fomos nela e nos divertimos muito. Depois fomos num brinquedo chamado Cataclisma, no qual você sentava com alguém do seu lado e o brinquedo começava a se mexer, girava e te deixava de cabeça para baixo. Também fomos numa Torre bem alta onde subíamos até o fim e depois o brinquedo soltava e caia até o chão. E para finalizar fomos ao Splach, onde um barco descia uma rampa íngreme e caia na água, e fazia um Splach nos molhando. Foi bom porque naquele dia estava muito quente, e aquele splach refrescou muito.

— Está gostando do passeio Nath? — ele perguntou.

— Sim — eu digo e olho pra meu relógio- Mas já são 17 horas e vai demorar um pouco para chegarmos a minha casa. E eu tenho que chegar antes de minha mãe.

— As horas passaram muito rápido! Concordo que devemos ir pra casa, mas antes vou pagar seu sorvete e há algo que quero contar pra você! — disse ele com certa tristeza na voz.

Achei estranho, mas preferi não dizer nada.

— Ok — respondi.

Fomos até uma sorveteria que havia em frente ao parque. Eu pedi sorvete de pistache que era o meu preferido, e ele pediu de sensação. Sentamos-nos numa mesinha que havia na sorveteria, e ela ficava bem de frente pro parque.

— Huuum que delícia, eu amo sorvete de pistache — disse a ele — Muito obrigada pelo passeio Dan, me diverti muito. E muito obrigada pelo sorvete. Quer provar?

— Não obrigado, estou feliz com meu sorvete de sensação. E eu que agradeço Nath, foi muito bom passar esse dia com você. Nunca vou esquecer este dia. Tenho algo a lhe contar — ele disse e começou a me olhar nos olhos — Vou me mudar daqui. Não irei mais voltar. Eu quis passar meu último dia aqui com você... Eu viajo na madrugada de amanhã.

Não acreditei quando ouvi aquilo. Meus olhos começaram a marejar.

— O quê? Por quê? Para onde? Não posso aceitar isso.

— Sinto muito. Isso tem a ver com problemas familiares. Mas um dia eu te conto! Se eu te ver novamente neh....

— Não faz sentido. E não diga uma coisa dessas. Seremos amigos para sempre tá? — Sequei as lágrimas nos olhos e continuei a falar — Promessa de dedinho?

— Promessa — disse ele e então fizemos nossa promessa — Quero ter uma recordação desse dia, tem alguma ideia do que podemos fazer?

— Hummm me deixa pensar um pouco... — olhei para a esquerda e não vi nada, nem na direita, mas ao olhar no parque vi que uma pessoa estava ali vendendo chaveiros e gravava nomes neles — Já sei! Que tal um chaveiro para cada um com nossos nomes gravados?

— Você é muito inteligente pirralha — ele disse rindo — Vamos lá pitoko.

— Pode ir parando, você é apenas três meses mais velho que eu Dan! — eu disse e saí andando — Quem chegar por último é um bobo. Em 1, 2, 3 e já!

Apostamos corrida até o parque.

— Cheguei primeiro, sua boba, toma essa- ele disse.

— Fica quieto Dan! — eu disse e dei risada — Vamos logo.

Lá compramos um chaveiro que na frente ia uma foto nossa no formato de uma flor, e atrás iam nossos nomes. Tivemos que tirar uma foto juntos, uma das poucas que eu tinha com ele. A foto ficou muito bonita e também ficou ótima no chaveiro. Cada um pegou um chaveiro para si. Embaixo de nossos nomes estava escrito: Melhores amigos para sempre.

Depois seguimos conversando como se
aquele não fosse um adeus. Quando chegamos, ele me levou até minha casa, mas antes que eu entrasse, ele me puxou e disse:

— Adeus Nath, vou sentir sua falta — percebi na sua voz que ele iria chorar — Continue sendo você mesma. Seja forte. As coisas entre você e sua mãe vão se ajeitar um dia. Não é isso que vai nos separar, minha melhor amiga para sempre.

— Também sentirei saudades, e que você seja muito feliz aonde quer que você vá! Agradeço-lhe por tudo, meu melhor amigo pra sempre — respondi a ele e contive minhas lágrimas.

Ficamos abraçados por alguns minutos. Esse era meu primeiro abraço. Naquele abraço, me senti protegida. Senti-me querida, amada, como se eu realmente fosse importante. Ele foi o único que me fez sentir importante. Também senti como se aquilo não fosse o fim, como se nós fôssemos nos rever. Por isso eu sorri e depois de um tempo ele se retirou e foi para sua casa. Eu corri para meu quarto e me tranquei lá. Dan era meu único amigo, o único com quem eu havia falado sobre meus sentimentos com relação a minha mãe e meu pai. O único que esteve ao meu lado quando eu não tinha mais ninguém. Aquele que aprontou comigo, que me fazia rir, que passava a maior parte do tempo comigo, e agora ele ia embora. Eu não teria nem ao menos mais tempo para descobrir o que realmente sentia por ele. Não podia aceitar aquilo. Simplesmente fiquei no meu quarto chorando.

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Quarta, dia 26 de novembro de 2015:

Trin trin trin .

O telefone de casa toca e eu acordo. Vejo no relógio e já são novas horas. Perdi a hora de ir pra escola.

— Que droga — resmunguei — Tenho que entregar o trabalho de Filosofia hoje!

Mas ao menos tinha sonhado com o último dia de Dan aqui. Revivi cada minuto daquele dia. Foi bom sonhar com ele. Esse sonho me fez sentir saudade do meu único amigo verdadeiro. Eu já havia esquecido aquele chaveiro. Decidi que iria achar o chaveiro, nem que tivesse que revirar minha casa inteira. Precisava olhar aquela foto e matar a saudade daquela época. E a partir de hoje esse chaveiro andaria sempre comigo na minha chave de casa.