Notas iniciais
"Como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira" - Quase sem querer, Legião Urbana

Sexta: 2 de outubro de 2015:

Tive um dia comum. Fui até a escola, e no intervalo não quis ir ao jardim comer com Jason. Então comi com Lily no refeitório. Depois fui pra casa, jantei e assisti mais um episódio de Amor e Ódio. Esse seriado é tão bom que decidi que irei acompanha-lo.

Sábado, dia 3 de outubro de 2015:

Acordei cedo hoje. Agora são oito horas. Acho que é um pouco de ansiedade. Vou à casa da Lily hoje, vou almoçar lá e passar à tarde com ela e sua família. Acordei cedo porque eu queria me arrumar pra conhecer a família dela. Então depois de tomar café, lavei a louça e pintei as unhas de vermelho com uns desenhos de laços. Eu aprendi a pintar as unhas e tirar a cutícula sozinha. Depois fiz um curso há dois anos e desenvolvi melhor essa habilidade.

Depois que terminei de pintar, esperei secar e os dedos que estavam borrados com esmalte. Vi que o relógio já marcava dez horas e eu tinha que tomar banho. Tomei um banho e fui me trocar. Escolhi um vestido azul metálico que era tomara que caía e soltinho. Coloquei um cinto e sapatilhas do mesmo tom vermelho do esmalte em minha unha.

Depois fui arrumar meus cabelos. Passei creme neles e depois o prendi no alto, mas de maneira que os cachinhos nas pontas ficassem a mostra. Coloquei um brinco azul e passei um batom vermelho claro. Peguei uma bolsinha bege onde coloquei meu batom, um espelho, meu celular, meus documentos e o bilhete único.

Já eram onze horas quando fiquei pronta e era hora de sair. Nem vi que minha mãe já tinha ido trabalhar. Então saí de casa e caminhei em direção ao ponto de ônibus. Lily me disse pra ir até o ponto e pegar o ônibus pra Itaquera e descer no terminal que ela estaria me esperando lá. Ela me deu o número de Telefone dela e disse para mandar mensagem quando estivesse chegando.

O ônibus demorou 15 minutos pra passar no ponto. Ele não estava cheio por isso sentei na janela e olhei a paisagem. O ônibus fazia terminal no shopping metrô Itaquera, então não tinha como descer no lugar errado. E eu já havia ido lá com Daniel e sua família. Deu até saudade desse dia, foi muito divertido ir ao cinema e comer besteiras com Dan.

Quando estava quase chegando mandei mensagem avisando Lily. Antes de chegar peguei o espelho e retoquei o batom. Assim que desci no terminal Lily estava lá me esperando, com uma calça jeans apertada e uma blusa rosa Pink, seus cabelos estavam soltos. Ela me viu e caminhou até chegar a minha frente.

— Oi Nath.

— Oi Lily — eu disse e então nos abraçamos e beijamos a bochecha uma da outra.

— Tudo bem? Está bonita! — ela disse.

— Estou bem e você? Ah, e obrigado — respondi corando.

— Estou bem. Vamos indo? Temos que andar uns 20 minutos pra chegarmos a minha casa.

— Ok, então vamos.

Começamos a andar e eu a deixei ir à frente me guiando.

— Por que você foi estudar tão longe? — perguntei enquanto andávamos.

— Porque o colégio Objetivos Definidos tem um ótimo ensino e o melhor clube de teatro das escolas de São Paulo — ela disse .

— Você gosta de teatro? — perguntei pra ela.

— Sim.

— Ah, então você e seu irmão tem isso em comum.

— Sim, claro. E você gosta de teatro, música, alguma coisa do tipo?

— Olha eu gosto de ouvir música, mas não canto bem e não sei tocar nada. Eu acho que dançar é legal, mas não sei dançar muito bem. E Teatro nunca me interessou.

— Que pena que você não gosta de atuar. É muito bom atuar, uma sensação tão magnífica! — disse ela com convicção e um sorriso encantador — Mas você poderia aprender a dançar né? Talvez fazer um curso de dança ou entrar no clube de dança da escola, que também é muito bom, pode ser uma boa experiência. Eu gosto de dançar também.

— É uma boa ideia Lily, vou levar em conta sua sugestão.

— Que bom — ela disse e parou em frente a uma casa e apontou com o dedo — É aqui minha casa. Sinta-se à vontade.

— Pode deixar.

A frente da casa era fechada por um portão de alumínio. Quando Lily abriu o portão vi um jardim no lado esquerdo do quintal que estava cheio de rosas. Era muito lindo. No lado direito havia um corredor lateral que ia até a parte de trás da casa onde havia uma lavanderia. Mas andamos e logo no começo do corredor havia uma porta do lado esquerdo.

Emily abriu a porta e entrou, e eu fui entrei em seguida. A porta dava acesso a uma sala de estar, onde havia dois sofás, um ficava na parede de frente pra porta e o outro ficava recostado na parede do canto esquerdo. No meio da sala, entre os sofás, tinha uma mesinha de centro com um arranjo de rosas num vaso. E na parede da porta havia uma estante cheia de livros e uma TV.

— Com licença — eu disse olhando para uma mulher sentada no sofá que, aliás, era muito parecida com Emily, exceto pelos olhos.

— Entre querida, sinta-se em casa! Sou Zoey Steel, mãe da Emily. É um prazer conhecer-lhe — disse a mulher sorrindo. Retribui o sorriso a ela.

— O prazer é meu, senhora Steel — eu disse a ela.

— Pode chamar-me de Zoey — ela disse me olhando.

— Tudo bem Zoey.

— Nath, quero te mostrar o meu quarto, vamos lá? — disse Lily.

— Ok.

— Vão lá garotas que eu vou terminar de fazer o almoço — Zoey falou.

Dentro da casa também havia um corredor lateral no fim da sala. O corredor era longo e tinha uma janela que ficava embaixo da escada no fim dele. Lily me explicou que a primeira entrada no corredor era a cozinha. O segundo cômodo tinha uma porta e era o banheiro, e o terceiro cômodo era uma sala de som e de jogos.

— Os quartos ficam lá em cima. Temos que subir a escada no fim do corredor — Lily disse para mim.

— Sem problemas.

— Então vamos — disse ela abrindo a porta.

Em fração de segundos chegamos à escada que era em espiral que tinha um número considerável de degraus. A escada saia no começo do corredor do andar de cima.

— Meu quarto fica no fim do corredor à direita. Já vou te avisar que não é muito grande, pois fizeram 4 quartos aqui, e o quartinho de bagunças — Lily disse com um olhar sério.

— Sem problemas — respondi a ela com firmeza.

Passei pelos cômodos e a porta do terceiro cômodo estava entre aberta e era impossível não reconhecer que era o quartinho de bagunças, afinal dentro dele estava uma bagunça terrível. Assim como o corredor na parte de baixo da casa, tinha uma janela na parede do fim do corredor. Quando chegamos ao fim do corredor e Lily abriu a porta. Assim que ela abriu fitei o quarto. Suas paredes eram rosa claro com rosas bem escuras desenhadas. Tinha uma cama do lado direito e uma escrivaninha encostada na parede esquerda. Pude notar uns livros em cima da escrivaninha e lá também havia um notebook e uns cadernos. O guarda roupa de madeira marrom ficava encostado na parede de frente a porta. No teto havia um ventilador, assim como no meu quarto. A cama de Lily estava coberta com uma colcha branca de bolinhas rosa, roxas e vermelhas. E tinha uns bichinhos de pelúcia de urso, de coelho em cima da cama. Havia uma prateleira que ficava bem no alto em cima da escrivaninha com alguns troféus.

— Pode entrar e sentar na cama se quiser Nath — ela disse a mim.

— Tudo bem — respondi entrando e sentando na cama, seguida por ela que sentou ao meu lado na cama, me olhando — Do que são aqueles troféus Lily?

— São troféus de competições de dança e atuação.

— Sério? Que legal, parabéns.

— Obrigada. Quando você faz aniversário Nath? — Lily me perguntou.

— Em Janeiro, dia 27. E você?

— Sério? Que legal. Eu nasci no dia 7 de Janeiro, sou mais velha — ela disse e mostrou a língua.

— Vai ow velha coroca, muitos anos de experiência de vida a mais que eu — falei e nós duas rimos.

— Vai fazer festa no seu aniversário? — ela me perguntou.

— Não, não gosto de festas. Aliás, nem ligo pro meu aniversário, é só mais uma data, um dia qualquer — respondi friamente.

— Sério? Você é a primeira pessoa que me diz isso. Você não comemora nada nem com sua mãe?

— Não. Ela se importa com isso muito menos do que eu. Ela não liga nem pra mim, quem diria pra coisas como aniversário — eu disse sem pensar, não era pra falar disso agora com ela, não deveria confiar tanto em alguém que eu conheço há tão pouco tempo.

— Que pena. Por que você diz isso sobre sua mãe?

— Porque é a verdade. Ela mal olha na minha cara — dessa vez disse consciente de minhas palavras. Agora que eu comecei a falar sobre isso não tinha como voltar atrás.

— Eita, que triste isso Nath. Você sabe o porquê dela te tratar assim?

— Não faço ideia Lily.

— Sinto muito que você passe por isso. Eu também acho difícil de lidar com meu pai.

— Por quê? — perguntei como se Jason não tivesse me contado nada.

— Ele começou a ter um caso quando eu nasci, e quando eu tinha 1 mês ele saiu de casa porque a amante dele estava grávida. Ele nem pensou em me deixar, ou em meus irmãos — disse Lily tentando parecer forte, mas percebi que seus olhos queriam marejar.

— Caramba Lily. O filho dessa amante é o Jason, estou certa?

— Sim. A culpa não é dele, mas não consigo evitar odia-lo. E pra piorar ele não é uma flor que se cheire.

— Não? — perguntei espantada.

Como assim "Ele não é flor que se cheire?" Estou confusa. O Jason que eu conheço parece ser uma boa pessoa.

— Bom, assim como qualquer outra pessoa, ele comete erros. Mas ele já deu umas mancadas feias. Parece que agora ele mudou, mas nunca se sabe.

— Hum... Bom saber disso — respondi pensando no que tinha acabado de ouvir.

— É, tome cuidado Nath... Opa espera um pouco — disse ela olhando meus olhos — Você está se interessando por ele? — Lily disse me observando. Meu olhar era tão previsível assim? O que dizer a ela? Essa pergunta me deixou encabulada.