Undertale - True Reset
41 Mas Ninguém Veio
Notas iniciais
[Chara]
— O que te fez afundar tando no ódio? — Asriel me perguntou
— A pior fase da minha vida.
Invoquei novamente tal memória e ela rapidamente tomou forma daquele lugar. Mesmo que vez ou outra eu continuava a ver aquele vulto me rondando e podendo jurar que havia visto um sorriso, eu nunca tive medo de fantasmas e não ia ser agora que eu teria.
A tal mulher, que nunca me disse seu nome, me levou até o vilarejo onde meus tios viviam. Na época eu senti gratidão, pois teria uma família novamente, mas eu mal imaginava que ela tinha me levado para a pior fase da minha vida.
Eu me vi testemunhando aquilo novamente, sendo acolhida pelos meus tios. Lembro-me que minha tia era muito devota aos deuses, tão devota que as vezes ela parecia meio frustrada com seu marido e filho, que não compartilhavam dessa devoção. O primeiro ano foi maravilhoso: eu realmente me senti como parte da família, sendo tratada com respeito, o que me fazia sentir segura. Porém nos anos seguintes foram um pouco mais difíceis, já que eu não era mais tratada como um membro da família e sim como uma empregada. Todos os afazeres da casa se tornaram minha responsabilidade, até os de serviço pesado, como o corte da lenha e o carregamento dos grãos. Eu não me importava, fazia tudo com prazer, afinal eu queria pagar a minha estadia, mas eu nunca mais me senti como da família.
No entanto, as coisas começaram a fugir do controle. Minha tia passou a me espancar quando fazia alguma coisa errada e eu sequer sabia o porquê daquele desprezo repentino. Isso foi ficando insuportável, pois quanto mais dolorida eu ficava, mais desastrada e fraca eu ficava. Mas nem meu estado fragilizado impediu minha tia de me dar mais e mais surras, chegou ao ponto de ser espancada rotineiramente, de manhã e de noite. Os espancamentos eram até suportáveis, o que me deixava enojada eram as investidas do meu primo, que sempre estava tentando me beijar a força. O dia em que quebrei o silêncio foi o dia em que ele tentou colocar a mão por baixo da minha saia, eu fugi e assustada fui contar para a minha tia:
— Tia, preciso de ajuda, o Ajel tentou colocar a mão por baixo da minha saia enquanto eu juntava a lenha para trazer. Ele já tinha tentando me beijar, mas eu sempre tento evitar, mas eu estou com medo...
A reação que recebi me marcou profundamente, ela me deu um tapa na cara, sua face estava contorcida em ódio e nojo.
— Sabia que você tinha puxado a sua mãe. Você está seduzindo meu filho, fazendo com que ele perca o juízo, você deveria se envergonhar.
Eu comecei a chorar, ela estava me culpando pelo o que ele estava fazendo. Eu sabia que não era culpada, mas no dia seguinte eu estava usando roupas de moleque, usava bermudas compridas e camisetas largas, com uma faixa que escondia os seios que começavam a crescer com meus 10 anos.
Pouco tempo depois, em um jantar, minha tia relembrou o fato, contando para o meu tio.
— Amor, sabia que Chara andou seduzindo o Ajel, e depois veio se queixar para mim de que ele tentou colocar a mão por baixo da sua saia.
Meu tio deu uma risada, e me olhou.
— Bem o Ajel já tem 16 anos, ele já está na idade de se aliviar! Ela vai servir para isso até ele arrumar uma pretendente para casar.
Eu não acreditava no que eu estava ouvindo. Meu tio praticamente deu autorização, para que meu primo fizesse o que quisesse comigo. E isso me deu muito medo.
No mesmo dia eu estava no meu quarto, quando todos já estavam dormindo, eu escutei passos, eles foram ficando mais altos, eu sabia que estavam se aproximando, eu senti a pressão da morte, eu tinha que me preparar, ou então iria morrer.
Ele entrou em meu quarto, e neste momento passei a fingir que estava dormindo. Eu pretendia fingir até o momento certo, mas o nojo e o ódio que foram me preenchendo a tal ponto que chegaram a um nível insuportável quando ele tocou meu corpo mesmo por cima do cobertor. Nesse momento eu respondi imediatamente pegando a jarra de água que ficava ao lado da minha cama e acertando com toda a força em sua cabeça, ele cambaleou, me olhando com raiva.
— Vadia, agora eu vou te ter de qualquer jeito!
Ele se jogou para cima de mim, eu me debatia enquanto ele tentava me segurar e tirar a minha roupa. Eu gritava, mas sabia que meus tios ignorariam, e minha esperança era que alguém da vila escutasse os meus gritos e viesse em meu socorro.
Mas ninguém veio.
Depois de muito me debater, consegui chutá-lo e o arremessei em direção a porta. Eu nunca tinha me sentido tão forte, quando ele me olhou, o vi ficar pálido de medo.
— S-seus...olhos... são demoníacos...
Eu sabia que essa era a minha oportunidade de atacar, então eu fui pra cima dele, o chutei como sempre tive vontade até que em uma oportunidade fechei a porta em sua mão, eu pude escutar seus ossos quebrando, e eu gostei daquele som, gostei daquela sensação de poder.
— Sua vadia, você vai me pagar caro.
Ele saiu correndo, aproveitei e tranquei a minha porta, a partir desse dia, meus olhos nunca ais deixaram de ser vermelhos.
No dia seguinte eu estava pegando água do poço quando o líder do vilarejo, ele viu como eu estava sobressaltada.
— Calma! Tá tudo bem? — Ele deu um pequeno salto para trás quando eu o olhei. — Er... o que aconteceu com seus olhos?
— Não está tudo bem, essa noite o Ajel tentou abusar de mim, e meus tios não fizeram nada.
— Isso é uma acusação muito séria, leve essa água e depois vá para a minha casa, mais tarde estarei lá para resolver isso.
Eu realmente pensei que isso iria se resolver, que alguém iria me proteger. Eu segui para a casa do líder e fui recebida por sua mulher, que me deixou tomar banho, mas eu vi como ela olhava para meus olhos. Eu sentia o medo que ela sentia de mim.
Mais tarde o líder chegou em sua casa, acompanhado de meus tios e meu primo, que tinha uma tala em sua mão, não pude deixar de sorrir internamente por ver o sofrimento em seu rosto, o líder contou a eles sobre minhas acusações, e eles negaram, Ajel afirmou que eu o seduzi e quando ele recusou minhas investidas eu quebrei sua mão, o ódio começou a queimar em mim por ver suas mentiras, e o pior era que o líder parecia estar acreditando. Depois de muito debate, o líder me mandou voltar para a casa dos meus tios, alegando que minhas acusações não passavam de imaginação de criança, que não iam sujar a reputação de uma “família de bem” por conta de relatos de uma criança que até um tempo atrás nem vivia naquele lugar.
Ao chegar em casa a coisa mudou de figura. Minha tia me espancou, por ter tentado jogar sua família na lama, que eu não passava de um demônio que veio para destruir tudo. Naquele dia, eu apanhei tanto que fiquei jogada no chão sem conseguir me levantar.
Decidi acolher para mim o título que me deram, eu colocava pólvora na lenha, assim sempre que acendiam a madeira explodia, acho que umas 2 casas pegaram fogo com isso, ninguém tinha morrido... Ainda. Com o tempo todos me culpavam pelos acontecidos, me chamavam de demônio e que eu atraia má sorte para o vilarejo, mas eles não sabiam que eu realmente estava causando tudo isso.
Um dia acho que tudo passou de todos os limites. Minha tia chegou em casa transtornada dizendo que os deuses queriam que ela me purificasse. Nesse dia eu realmente pensei que iria morrer, pois eu fui espancada como nunca antes, minhas costas ficaram em carne viva, tinha cortes causados pela vara de bambu por todo o meu corpo, nem meu rosto escapou das escoriações. Depois de me deixar semimorta no chão, ela pegou, arrancou as minhas roupas, e me amarrou na minha cama, nua. E me deixou lá... Aproveitei as horas seguintes para recuperar as minhas forças, minha determinação, em seguida comecei a tentar me soltar, parecia impossível, uma vez que minha tia tinha amarrado as cordas muito firmes, depois de muito insistir e ferir meus pulsos as cordas começaram a ficar frouxas, eu só tinha que continuar tentando, que eu iria conseguir me soltar. Foi quando o meu terror realmente começou, se esgueirando como uma serpente, Ajel entrou no meu quarto, seu olhar demonstrava um instinto predatório doentio, ele trazia uma faca em sua mão, eu sabia que ele iria me matar. Ele colocou a faca em meu pescoço e disse:
— Então vadia... eu vou ter o que eu quero, e você não vai dar um pio, ou eu corto o seu pescoço.
— Eu nunca que vou deixar você fazer algo comigo... Você é nojento.
Ele apertou a faca em meu pescoço e eu senti a lâmina me machucar.
— Calada... Você não precisa deixar nada, você já está prontinha para mim... Você foi purificada pela vara de bambu da minha mãe, purificada para mim e eu vou me esbaldar... E amarrada dessa forma, ficará ainda mais gostoso...
Ele foi passando a sua mão imunda que estava livre pelo meu corpo, eu me senti nojenta. O único momento em que ele tirou a faca do meu pescoço foi quando ele começou a tirar as próprias roupas, e eu soube, que seria aquele momento, ou nunca. Eu com muito esforço e dor, consegui soltar minhas mãos, e quando ele veio para cima de mim novamente eu o ataquei. Consegui tirar a faca de sua mão e enfiar em sua virilha, o resto aconteceu tão rápido que mesmo revendo as memórias, não consigo acompanhar tudo o que aconteceu, sei que no segundo seguinte eu tinha cortado as cordas que prendiam meus pés, e estava montada em cima dele. Seguindo o impulso de meu ódio, eu cortei seu pênis e enfiei em sua boca, para que ele não gritasse, ele engasgava com seu próprio órgão enquanto eu o esfaqueava em suas pernas e seus braços, para que ele nunca me tocasse novamente. Eu esfaqueei seu peito tantas vezes que seu peitoral se transformou em uma poça de sangue que me banhava a cada nova facada. O barulho despertou meus tios, que foram até o quarto ver o que tinha acontecido.
Foi minha oportunidade.
Me escondi atrás da porta, e quando eles pararam em choque ao ver o filho morto, essa foi a minha oportunidade de matá-los, sem dar tempo para que eles reagissem. A última imagem que eles viram foram meus olhos vermelhos. Depois de ter dado cabo de suas vidas, eu tomei um banho e vesti a primeira troca de roupas que eu consegui encontrar, uma calça marrom e um suéter verde e amarelo.
Eu saí pela vila, peguei a lenha e espalhei pelas casas, e coloquei fogo em todas elas. Eu fui até a casa do líder que ficava bem no centro do vilarejo, e com minha faca o convenci a sair de casa. Eu amarrei em um poste que ficava no centro da vila e o fiz ver a vila arder em chamas, enquanto todas as “famílias de bem” queimavam no inferno, enquanto eu montava sua fogueira. Eu o fiz gritar, ele queimou gritando, ele não teve a bondade que os outros tiveram de morrer dormindo, ele viu tudo, ele gritou por ajuda...
Mas
Ninguém
Veio
Depois de ver tudo ruir, eu fugi. Eu queria ir para o vilarejo onde cresci, mas lá não era um lar mais para mim. Foi então em meio a meu ódio e minha dor, eu saí andando sem rumo, quando percebi estava no Monte Ebott.
Onde o destino me levou, onde eu achei que era um sinal dos deuses para que eu desse um fim em minha vida, onde eu pensei que seria o fim desse demônio que nasceu em uma humanidade podre.
Mas meu salto para a morte, foi na verdade um salto para uma nova vida. Eu encontrei um lar, uma família. Eu me compadeci da situação dos monstros, eu vi como eles mereciam a superfície mais do que a humanidade podre, e depois de um acidente, eu entendi o que eu faria. Eu me sacrifiquei, acho que minha única boa ação na vida, eu continuei comendo aquelas flores, me envenenando, até que cheguei à beira da morte. O mais difícil foi ver o olhar de Asriel, aquele que morava em meu coração, eu sabia que ele tomaria minha alma, então fiz meu último pedido a ele. Pedi que ele me levasse para ver as flores douradas que ficavam no vilarejo onde vivi com meus pais, seria um bom lugar para acabar com tudo. Quando eu morri, me mantive determinada, tentei manter o meu espírito o máximo com minha alma, eu vi Asriel chorar minha morte, eu vi Asgore e Toriel, se desesperarem com minha morte.
Então eu comecei a suspirar para que Asriel absorvesse a minha alma, e ele o fez. Ele o fez para que pudesse cumprir o meu último desejo, ele ultrapassou a barreira carregando o meu corpo, e me levou ao vilarejo, era tudo tão igual, eu via tudo por seus olhos. Quando ele estava depositando o meu corpo nas flores, os aldeões começaram a chegar, e movidos por sua natureza nojenta, nos atacaram. Achei que era a hora de colocar o meu plano em ação.
“Asriel, você tem o poder, acabe com eles, pegue as almas que precisa e leve para libertar os monstros.”
“Não posso! Eu não quero machucar ninguém... Eu nunca quis machucar nenhum humano.”
Os humanos nos atacaram com tudo, eu continuei incentivando que Asriel atacasse, mas ele se recusava. Ele agarrou o meu corpo e voltou para o Monte Ebott, mas seus ferimentos eram muitos, eu fiquei tentando mantê-lo consciente e determinado. Consegui fazê-lo chegar até os jardins do castelo.
“Eu não estou conseguindo aguentar...”
“Asriel, fique comigo! Asriel, logo nossos pais vão chegar e te curar, só aguente mais um pouco, se mantenha determinado. ”
Eu injetava minha determinação nele, para que ele se mantesse determinado e vivo, até que alguém pudesse curá-lo.
“Chara... me perdoa... seu plano... nosso plano... falhou...”
“ASRIEL NÃO! NÃO MORRA! PAPAI? MAMÃE? AJUDEM! ”
Mas ninguém veio.
Asriel morreu, eu senti minha alma ser expulsa enquanto a sua se quebrava. Eu mantive um pedaço de sua alma junto com a minha, o restante foi destruído, e seu corpo virou poeira, que caiu sobre as flores.
Tudo culpa dos humanos, eu não teria perdido Asriel se não fosse a humanidade, eu fui jogada o vácuo com o pequeno fragmento da alma de Asriel, onde eu realizei que tudo era culpa da humanidade. E por isso ela tinha que ser destruída.
A lembrança se desfez, eu estava de joelhos, sozinha, chorando, nem minha felicidade, nem minhas culpas, nem meu coração estavam me fazendo companhia, eu tinha voltado a ser eu mesma, um demônio, e isso eu sabia ser esplendorosamente.
Eu me decidi, ia convencer Frisk a me deixar acompanha-la, deixar que seguisse seu caminho, libertar os monstros, e depois usar o vácuo para fazer com que eles dizimassem a humanidade. Eu me recompus, para que pudesse sair daquele lugar. Novamente vi vultos me cercado, mas eu não tinha tempo para fantasmas. Mas quando estava deixando o vácuo, poderia jurar, que vi um sorriso, o sorriso de um esqueleto.
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