Undertaker [Hiato]
30 Controle Mental, Controle Físico
Notas iniciais
Raven não conseguia se concentrar nas aulas. Ela tinha com muito esforço e autocontrole empurrado para baixo de seu tapete mental toda e qualquer questão de cunho inexplicável: garotinha, fantasmas, corujas, sonhos, cachorros... ela mesma. Porque era difícil se considerar normal cada vez que olhava sua mão, perfurada das costas até a palma num rasgo de pele menos três centímetros, agora totalmente bem, sem nem mesmo uma cicatriz para contar a história.
Mas o problema era Keane. Ele fazia seu autocontrole sumir num piscar de olhos e no meio de uma explicação qualquer ela se via tentando desvendar aquele par de olhos azuis que tanto a fascinava.
Estudo não era só uma necessidade para a garota, mas sim uma questão de honra; seus pais se conheceram e se apaixonaram no melhor curso de Medicina do mundo, a mesma universidade na qual John estava – todos eles não faziam esforços para serem brilhantes, apenas o eram com a mesma naturalidade com a qual piscam ou respiram. Seu caso nunca foi tão afortunado e ela sempre teve que batalhar quatro vezes mais pra conseguir a metade das notas que seu irmão tinha com sua idade – mesmo nesse panorama ela não podia se permitir divagar em aula, ainda mais numa turma de exatas, seu eterno ponto fraco.
Todas as aulas podiam ser como as do grupo de desenho de observação que ela frequentava com Vlad nos fins de semana: fluídas, leves, expressivas. Assim talvez ela não se perdesse pensando em um garoto pelo qual podia ou não ter se apaixonado.
–Srta. Castle? Pode responder essa questão por favor? – perguntou o professor inesperadamente; em pensamento ela praguejou e fixou os olhos no quadro.
Professor Beeman, ao contrário do que seu nome poderia sugerir, dava aula da Química e justamente na semana em que ficou ausente ele adentrara o terreno turvo e complexo da Química Orgânica; ela sabia que aquilo devia ser algo bem básico, pois ele não era do tipo que maltratava os alunos, mas não fazia ideia de como responder – ele fazia parte do grupo que a paparicava porque gostavam de seu irmão e era perigoso demonstrar ignorância perto deles, ou podia perder suas graças o que complicaria e muito sua vida escolar.
Tudo isso lhe ocorreu em um milésimo de segundo. Antes mesmo de começar a pensar em uma resposta que apaziguasse os animamos de Beeman, sua boca se mexeu sozinha:
–Propanoato de Metila.- respondeu.
–Muito bem! Vejam o exemplo da Srta. Castle, estava hospitalizada e mesmo assim acompanha o ritmo da matéria melhor que muitos dos senhores! – alguns alunos resmungaram baixinho, um ou dois se virou pra encara-la e ela pode ouvir alguns “nerd” sussurrados pelas suas costas. A verdade é que nada daquilo importava.
Seu corpo estava rijo e seus pelos eriçados; ela tinha total certeza de que não sabia aquilo, John nunca mais teve muita chance de adiantar a matéria com ela nas férias desde que se tornou um universitário. O pior de tudo era o peso na boca do estômago ao se lembrar da sensação: sua boca agiu sozinha, suas cordas vocais fizeram o trabalho sem nenhuma ordem, ela não tinha nada no cérebro naquele momento, como e por que falou alguma coisa?
–Você não sabia, mas eu sim. – ela não precisava olhar para reconhecer o dono da voz, mas mesmo assim pegou as formas de Churchil ao seu lado olhando de soslaio.
A luz do dia e naquele ambiente cheio de pessoas vivas, ela conseguia ver as diferenças entre ele e alguém normal; suas formas eram esbranquiçadas e translúcidas, como se alguém tivesse desenhado o infeliz drogado em papel vegetal. Suas roupas eram as de sempre, mas seu semblante parecia mais... saudável. Era essa a palavra que Raven queria e demorou alguns instantes para encontra-la.
Você falou por mim? – perguntou ela em pensamentos, torcendo para que ele a entendesse.
Sim – respondeu simplesmente da mesma forma; tinha uma diferença clara entre o pensar e falar, já que agora a voz dele parecia abafada.
Desde quando pode fazer isso?
Não faço ideia.
Quando se deu conta de que podia fazer isso?
Agora – respondeu num tom sincero – era uma pergunta fácil pra mim e você não fazia ideia... aquilo foi me consumindo por dentro e tive um impulso de responder. Quando vi, estava falando por você.
Eu posso te impedir numa próxima?
Vai saber.
Aquela resposta não era a que ela queria e, mesmo preocupada com seu rendimento, a menina colou a testa suada pelo pânico na carteira e fechou os olhos. Nos últimos dias tinha passado por muita coisa, mas naquele momento se sentiu mais frágil e impotente que nunca.
Possessão era uma piada para Raven. Aquele tipo de coisa com demônios e espíritos que só servia para criar roteiros de filmes de terror – filmes no qual ela costumava rir. Mas agora não tinha graça alguma, porque essa era a única coisa que lhe ocorria quando tentava entender o que aconteceu, a única que parecia fazer algum sentido, por mais maldito que este fosse.
Ela ficou naquela posição pelo que pareceu uma eternidade; quando tomou coragem e ergueu a cabeça, olhou direto para a lousa em busca de algum sinal de desaprovação de seu professor e viu que ele ainda escrevia uma série de fórmulas ao lado daquela que ela respondeu. Propanato de Metila lembrou tristemente e se deu conta de que ela jamais esqueceria aquilo.
Achando estranho, cravou os olhos no relógio que ficava acima do quadro negro e tomou um susto: haviam se passado no máximo dois minutos.
Instantes antes ela se gabava de conseguir ter o sangue frio para ignorar seus últimos dias e manter o autocontrole — agora mal registrava a passagem de dois minutos sem surtar e não conseguia controlar nem o que dizia.
No meio daqueles jovens com uma grande tendência a serem maldosos, ela se segurou fortemente pra não chorar; aquele definitivamente era seu limite.
Me desculpe dizer isso mas... não é não; você está longe de seu limite.
Era como se seu sangue borbulhasse em raiva e frustração; ela queria levantar, esmurrar sua carteira e berrar que não era tão forte assim, mesmo que isso significasse berrar para o nada – mas se concentrando em sua respiração, se conteve; só então percebeu que tinha fechado as mãos em punhos com tanta força que suas palmas agora tinham cortes em forma de lua crescente, assim como suas unhas estavam tingidas com sangue.
Podiam atormentar seus sonhos, embaralhar sua vida, preencher suas horas com inquilinos desnecessários. Mas seu corpo era seu, só seu e de mais ninguém.
A informação inesperada da menininha acabou por lhe trazer alívio, pois se estava longe de seu limite, era mais forte do que supunha. Voltando a se distanciar ao máximo de si mesma e seus problemas, a garota se perguntou com uma curiosidade mórbida o quanto aguentaria, o que realmente a partiria em dois ou mais pedaços.
O sinal foi um alívio para seus ouvidos, ela não só tinha se mantido no colégio por um dia inteiro como a última aula restante era Educação Física e ela podia facilmente convencer de que não estava preparada para nada muito pesado e passar os próximos minutos num canto refletindo.
Susan a esperava no lado de fora da sala; antes era uma dádiva o fato de elas terem a aula juntas, mas naquela semana em especial nem tanto. Mas estava disposta a concertar a amizade que tinha com elas, a despeito da quebra na confiança, de modo que seguiu conversando normalmente com a menina pelo corredor em direção ao vestiário – acabou chegando à conclusão de que era até uma coisa boa; os assuntos banais, as piadas internas, o trajeto de sempre. Raven precisava daquela sensação de normalidade mais do que tudo naquele momento.
Quando pegaram suas coisas, Susan se posicionou para ficar de guarda sem precisar de um pedido; com um olhar de gratidão, ela entrou para a penosa tarefa de se trocar. Ela já não sentia dor, nem mesmo no banho, mas ainda assim não olhava pelo espelho, não tocava com a ponta dos dedos e não pedia uma opinião de ninguém sobre seu estado – já tinha tido um trauma e tanto quando viu suas costas raladas em praticamente toda sua extensão, não precisava reavivar a imagem em sua mente. Naqueles momentos era bom ter um seio tão pequeno que sutiã se tornava opcional.
No entanto, assim que tirou a blusa ela focou o olhar em sua mão. Com um tremor involuntário, ela não pode deixar de se perguntar: e se...; vencida pelo tormento da dúvida, ela se contorceu para conseguir ver o aspecto de suas feridas no espelho simples que todas as cabines do vestiário tinham.
Sua pele estava lisa.
Nenhuma cicatriz, marca, arranhado, casca, manja, ferida... nada. No fim de semana ela trocara seus curativos e lembrava nitidamente das caretas de sua mãe enquanto limpava os pontos mais críticos e procurava algum sinal de infecção, como pus.
Num primeiro momento, ela se sentiu feliz – mas logo em seguida a verdade a golpeou de tal forma que ela perdeu o fôlego: aquilo não era normal. Longe disso, aquilo era uma das coisas mais estranhas que ela já tinha visto; o impacto com o asfalto tinha destruído sua blusa e esfolado suas costas, disseram-lhe que mal havia pele quando lhe prestaram os primeiros socorros no meio da rua.
Tremendo, ela tateou sua nécessaire até achar o alicate que costumava usar para tirar as pelinhas soltas ao redor de suas unhas, pois tinha o terrível hábito de tirar com os dentes e se machucar. Engolindo em seco, ela mirou seu joelho e pressionou a ponto afiada nele, até ver o brilho do sangue, para então traçar um pequeno corte.
Sempre que perguntavam, ela dizia que se mutilar era uma coisa idiota e inconsequente, mas naquele momento a descarga de adrenalina pelo ato, bem como a dor aguda do novo machucado afastaram quaisquer questões de sua cabeça; pela primeira vez ela entendia o que levava alguém muito angustiado ou frustrado a se ferir e isso era assustador.
Um tímido filete carmesim escorreu um pouco e parou. Ela suspirou aliviada; o corte estava ali aberto, sem anormalidade alguma – rindo baixinho, ela abriu as mãos e fitou as palmas que machucou durante a aula anterior – estavam lisas e perfeitas.
Arfando, voltou sua atenção novamente para o joelho que, mesmo sujo de sangue, estava perfeito como se ela não tivesse se cortado.
Pouco tempo depois, ela saiu usando o uniforme esportivo. Susan a encarou por alguns instantes e perguntou:
–Você está bem Ray?
–Sim. – respondeu a menina mecanicamente.
–Você parece estar... em choque.
–Estou bem. – murmurou ela mantendo o tom.
–Raven Audrey. –replicou a garota, segurando seu rosto com ambas as mãos e fitando seus olhos intensamente. Preocupação irradiava dela.
–Eu... vou ficar bem. – a outra recuou como se a resposta a pegasse de surpresa, mas acenou de modo afirmativo e foi se trocar também.
Dez minutos depois de todas estarem prontas, elas descobriram que a turma que deveria estar na aula de Geografia se juntaria a eles naquele dia por um imprevisto: a professora passou mal e não fazia sentido buscar um professor pra cobrir o último tempo. Podiam apenas ter liberado eles mais cedo, mas então lembrou que alguns deles já tinham sido liberados antes naquela semana.
Os garotos se animaram e começaram e se provocar, dando soquinhos, empurrando e várias coisas tão infantis quanto. Do fundo da quadra, ambas avistaram Becky andando calmamente na direção delas – seu corpo esguio e curvilíneo humilhando a todas naquele uniforme. Foi só então que ela se lembrou que Becky estava na mesma turma de Geografia que Ramona Foster.
Raven fitou as próprias mãos, digerindo a ideia de que não ficava machucada por muito tempo por razões que lhe fugiam e se permitiu um sorriso discreto. Torcia por um esporte de contato como basquete ou algo tão brutal quanto; seria uma aula... interessante.
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