Under Moonlight
6 Capítulo 5
A casa era pequena, muito pequena. Tinha três quarto. No primeiro do corredor, à direita, ficava um quarto com um beliche sem colchão na parte de cima, era o quarto de Raymond. Logo na frente ficava outro quarto com uma cama de solteiro, era o quarto de Robert. E o terceiro, segundo à direita, tinha uma cama de casal, não muito grande, lá dormia Michael e Gerard, Frank não estranhou muito essa divisão, já que desde que ele conhecia os Way’s, Michael não dormia sem o irmão de forma alguma.
Por fim, havia um banheiro, muito limpo, no fim do corredor. Tinha uma banheira pequena e velha. Robert havia lhe contado que no último verão, ele e Gerard compraram por nada mais, nada menos, que 30 pratas aquela banheira. E eles mesmos haviam instalado.
“- Foi muito divertido. – disse o loiro sorrindo exageradamente.”
Robert foi à padaria compra pão, rosquinha, essas coisas gostosas que todo mundo gosta de comer quando esta em casa, ele queria passar essa certeza para Frank, estava em casa. Enquanto isso, Michael arrumava a mesa colocando suco, leite, manteiga, pratinhos e copos. Foi um grande choque saber que Moon havia morrido, e isso foi terrivelmente triste, mas não poderiam deixar de ficar feliz por Frank ter conseguido encontrá-los, portanto eles nem fizeram questão de saber os detalhes, para não estragar o momento.
Michael estava tão distraindo que nem percebeu a presença da ruiva na cozinha. Ela o observava com um olhar materno que, ao ser descoberto, causou certo constrangimento, fazendo-o corar e abaixar os olhos para a jarra que colocava na mesa.
- É suco de quê? – perguntou Luana a fim de puxar algum assunto.
- Acerola. – respondeu sem tirar os olhos do seu serviço, evitando o olhar da moça.
- É rico em vitaminas, sabe? – insistiu.
- E também um dos meus favoritos. Queria fazer o favorito do Frank, mas não me lembro qual é.
- É o de limão. Limonada suíça para ser mais especifica. – se gabou.
- Como? Pensei que vocês não se conhecessem. – Michael ficou confuso, tinha quase certeza que eles haviam dito isso.
- Ele sentiu a falta de vocês. – ela mudou drasticamente o assunto, o que fez Michael sentir seu cérebro dando nós e mais nós. Luana riu, se levantou e foi abrindo os armários. Agia como se não tivesse dito nada. – Não tem nada pra enfeitar essa mesa não? Ela está tão nua.
Ainda era de tarde, mas estava tão cansando que quando menos imaginou já estava deitado em uma cama macia, abraçado ao seu filho, e dormindo tranquilamente no quarto de Michael e Luana no quarto de Raymond.
E lá Frank teve as melhores quatro horas de sono da sua vida, só acordou ao se chocar contra o chão. Havia dado tanto espaço para Happy B-day que ficou na pontinha cama, o que deixou fácil para que ele o empurrasse, inconscientemente, com os pezinhos, para fora da cama. Restou-lhe então, ficar sentando no para-peito da janela.
De vez enquanto, o pai tirava os olhos de cima de seu filho e os voltavam para a janela. Estava na expectativa de rever os seus outros irmãos. Medo e excitação se misturavam. Será se haviam mudado muito?
O papaizinho pestanejou e, quando ele abriu os olhos, o sol já estava baixo, chegaram lá no começo da tarde e foram se recuperar da longa viagem, só não esperava que Happy B-day fosse dormir tanto.
Seus olhos, cor de alguma coisa indecifrável, passeavam por aquela paisagem, mirando a direção em que o antigo lar de adoção ficava. Norte. A única coisa que conseguia se lembrar era que ficava ao norte.
As lembranças da infância trouxeram uma alegria estranha à ele. Uma vontade de rir. E Frank riu um pouco mais alto que podia. Tampou a boca assim que se lembrou do dorminhoco ao seu lado. Mas foi tarde demais, Happy B-day já se espreguiçava.
Ele soltou um suspiro de satisfação e se ajeitou na cama, deitando como deveria ter feito antes para que seu pai também pudesse dormi.
- Ai papaizinho! — suspirou novamente.
- Ai filhotinho! — imitou o gesto do filho. O garotinho levantou a cabecinha com um sorriso e alisou o espaço vazio da cama, convidando ele a se deitar. E assim Frank o fez, sendo abraçado no momento exato que se acomodou na cama.
Happy B-day deitou a metade do seu corpo no colo de Frank. Em poucos minutos, os dois embarcaram na mais gostosa soneca do mundo.
Não passou dez minutos e Frank acordou sentindo ser cutucado no tórax. Happy B-day tinha acordado assustado, não se lembrava onde estava. Recebendo as devidas explicações, o garoto sentiu uma onda de alegria invadir o seu peito, e nem sabia por quê. Desde que se entendia por gente o pai lhe falava do dia em que eles iriam para junto de sua família. No fundo ele acreditava que nessa família ele poderia ter a sua mãe de volta, mas sabia que isso era impossível, Moon e Frank já haviam explicado para ele cuidadosamente que isso seria impossível, mas que ela estaria lá para ele, de todas as formas que podia, para tudo que precisasse.
Desde que eram pequenos, os cinco garotos viviam em um orfanato, o “Lar para meninos Sagrado Coração de Jesus”,que era sustentado pela prefeitura da cidade. Um lugar pequeno mais caloroso. Lá Frank, Michael, Robert, Gerard e Raymond passaram os cinco anos mais felizes de suas vidas. A senhora Nolan, diretora do orfanato, fazia o que era possível para deixar a casa com uma cara de lar e dar-lhes todo o amor que lhes fora negado. E eles sempre reconheceram isso, nunca iriam deixar de lado o carinho que sentiam pela boa mulher. Mas Monique que deu a eles a gostosa sensação de amor de mãe, mesmo sendo tão nova.
Eles a conheceram quando foram adotados pelo Dr.Ford, um excêntrico e sádico psiquiatra, homem de aparência bondosa, mas que se revelou mal como o inferno para os garotos. O doutor usou de seu nome e reputação para ter a guarda dos meninos, cinco ao mesmo tempo e mais uma menina, Monique, que era de algum orfanato de outro estado. A intenção do psiquiatra nem sequer foi questionada e, mesmo se fosse, ele só precisaria dar alguns telefonemas e tudo seria resolvido.
Os garotos nem cogitaram a possibilidade de culpar a senhora Nolan, ela era ingênua demais para enxergar toda a maldade nos olhos do doutor.
Gerard, o mais velho, tinha nove anos quando eles se mudaram para a mansão Ford. Quando ele pisou pela primeira vez no hall de entrada sentiu um calafrio correr-lhe a espinha, o que o fez agarrar a mão de seu irmão mais novo, Gerard estava amedrontado e não sabia o motivo.
Era um presságio. Um presságio que se mostrou válido após algumas horas.
Os cinco garotos tiveram o primeiro contato com Moon só alguns dias depois de terem chegado à mansão, pois já nas primeiras horas foram mandados para um quarto totalmente branco. No fundo do quarto, tinha um vaso e uma bica, no canto oposto a eles, uma câmera que tinha total visão do pequeno quarto. No centro, havia uma cama de metal com um colchão de casal fino em cima, forrado por um lençol bege de sujeira. A cama era bastante pequena para que cinco pessoas dormissem ali.
Suas roupas foram trocadas por pijamas. Eles não serviram muito bem em nenhum dos garotos, mas nenhum deles reclamou, eles estavam assustados o bastante para correr o risco de estarem fazendo algo de errado. Duas enfermeiras que andavam sempre perto de Dr. Ford e carregavam prancheta, deram a cada um uma pílula de cor diferente. Os pequenos não entenderam nada, mas para Raymond e Gerard estava tudo mais que claro, eles eram ratinhos de laboratório e não havia nada que eles pudessem fazem a respeito.
Frank chorava sem entender porque ninguém acordava, ele fora o único que ficou acordado após receber a medicação, e foi o primeiro a ver Monique. Ela vestia um pijama igual ao dele e a única coisa que o Frank pensou quando a viu era o quanto ela era bonita, mesmo com o cabelo bagunçado e com a pele levemente arroxeada pelo frio, tudo isso não diminuía a intensidade do verde de seus olhos e nem o seu ar bondoso.
Monique não se importou se as enfermeiras e o doutor ainda permaneciam no quarto, ou se quebrava alguma regra. Ela caminhou decidida até a cama e tomou a criança, de olhos e rosto vermelhos de tanto chorar e esfregar a face para secar as lágrimas, em seus braços, tomada por um instinto maternal que não sabia de onde brotava. Naquele momento, Frank se sentiu confortável como nunca, seu choro cessou e os “está tudo bem” que ela proferia, mesmo sem sentir, parecia tão verdadeiros que ele já podia sentir seus irmãos acordarem. Frank sentiu que podia confiar em Monique de imediato, era como se fosse óbvio demais a sinceridade dela. Ele sentia como se ela tivesse sido enviada por Deus, para poder protegê-los.
E ela nunca o traiu. Nenhum deles. Foi Monique a primeira a peitar o doutor, a defender os menores dos jogos sádicos daquele homem doente. Também foi a primeira a descobrir que, mesmo presos naquele quarto, a lua brilhava para eles, confortando-os mesmo com a sua pouca luz. Foi daí que surgiu o seu apelido.
Gerard, por sua natureza, sempre foi o mais sensível, entenda bem, sensível e não frágil. E toda essa sensibilidade digna de um poeta lhe permitiu o dom de perceber a essência das pessoas mais facilmente. Quando Monique contou a eles sobre a luz do luar, ele soube, ou pelo menos imaginou que ela se referia a si mesma. Logo ele passou a chamá-la de Moon e todos aderiram ao apelido. Com o passar do tempo, eles começaram a chamá-la de mãe também, não se sabe como, mas, ainda assim, parecia tão certo quanto à comparação com a lua.
Após quatro anos do inicio do projeto, Dr. Ford pareceu ter perdido a direção da pesquisa, e todo o seu tempo foi para fazer joguinhos sem sentido.
Percebendo a freqüência em que os relatórios chegavam a suas mãos e os resultados neles contidos diminuindo, os lideres do conselho regional de medicina psiquiátrica resolveram averiguar por eles mesmos o que estava acontecendo. A situação que encontraram não foi contrária a esperada, mas com certeza foi mais chocante do que imaginavam.
No fundo da mansão, havia dois cômodos e uma enfermaria entre eles. No primeiro, encontraram cinco crianças, entre nove e quatorze anos, amontoados em uma cama de metal, e higiene precária.
Elas pareciam com a saúde bastante debilitada. Sendo assim, foram levadas para a enfermaria da mansão e examinadas. Apresentavam diversos sinais de maus-tratos como hematomas, desnutrição, marcas de agulhas nos braços e pernas, além de estarem psicologicamente bastante abaladas. Mais tarde, um exame toxicológico revelou a presença em seus sangue e urina de diversos componentes químicos existentes em remédios psiquiátricos, todos experimentais.
No segundo quarto, que ficava bastante distanciado do outro e da própria enfermaria, encontraram mais uma criança, um menino de doze anos. O quarto onde ele estava parecia um cofre, sem janelas, totalmente lacrado, a não ser por uma pequena porta que trancava pelo lado de fora, por onde provavelmente ele recebia sua comida. Ele apresentava a mesma situação que os outros, além do diferencial de ter marcas escuras envolta dos olhos e mostrar-se confuso ao sair do cômodo. Esses dois fatores deixaram claro que o garoto passou bastante tempo trancado ali.
Ao serem indagados, tanto o menino solitário, identificado como Robert, quanto às outras crianças não conseguiram dizer ao certo o que estava acontecendo, só repetiam que queriam sair de lá.
O conselho, tendo em vista que seu nome estava diretamente ligado ao caso, por prover recursos para a pesquisa, decidiu não fazer nada a não ser cortar a ajuda financeira que davam ao ex-renomado Dr. Ford, eles acreditavam que assim ele pararia com essa loucura, por não ter recursos financeiros para manter a mansão e todos os seus funcionários. O psiquiatra, portanto, não perderia tão fácil a sua fonte de prazer. Ele vendeu a mansão, demitiu grande parte de seus funcionários e devolveu ao lar de adoção quatro das seis crianças. Ficou apenas com Monique e Frank, a mais velha e o mais novo, provavelmente por serem seus brinquedos favoritos, por motivos diferentes, tem que se dizer.
Era tudo que Michael sabia. Ele e Luana já estavam conversando há horas, e sem saber por que, Michael já confiava tanto naquela garota que lhe compartilhou o maior segredo de sua vida. Ele e os outros haviam combinado de uma forma muda que não contariam a ninguém sobre aquele assunto, mas ele sentia como se precisasse contar, afinal, fazia mais de doze anos que havia acontecido. Ele lembrava que tinha apenas seis anos quando chegou à mansão e tinha dez ao sair, era tempo demais para ainda sentir aquele frio na barriga ao se lembrar de tudo.
Luana escutou toda a explicação de uma maneira que surpreendeu Michael. Ela não parecia abalada com o fato, nem um pouco descrente do relato. Ela apenas enrolava uma mecha de cabelo em seu dedo alvo, fazendo uma combinação perfeita com a coloração vermelha de suas madeixas. Durante toda a conversa Michael procurou naqueles orbes castanhos alguma emoção que encaixasse com a situação, mas ela simplesmente parecia que já conhecia tudo que aconteceu. Isso o deixou um pouco incomodado, e quando pensou em fazer alguma pergunta um peso quente tomou o seu colo.
Lucas havia rastejado por debaixo da mesa com o seu lagarto e escalado o colo do tio feito um cachorrinho. Michael não pode deixar de sorri daquilo, ajudou H-B-Day e sentar direito e deu um beijo na testa do garoto. Ao levantar as vistas, ele viu que Frank estava parado na porta da cozinha, seu olhar voltado para o chão, comia a unha de seu dedão como se quisesse ter a atitude infantil de chupá-lo, mas se repreendia. O cabelo tampava os seus olhos, mas Michael tinha certeza que eles estavam úmidos, o que fez um nó em sua garganta se formar, se ele havia passado por bons bocados, imagine Frank e Moon que ficaram lá por mais tempo, e ele depois de um tempo, pior ainda, sozinho e com um filho para criar?
Filho, ainda duvidava daquilo. Como era possível? Frank tinha o que quando H-B-Day nasceu, onze anos?
Notou que ele permanecia parado na porta e decidiu parar de pensar naquilo. Michael não levantaria nenhuma questão e nem deixaria ninguém fazer, se Frank quisesse qualquer coisa ele poderia ter, o mundo devia isso a ele.
- Não quer sentar? – convidou de forma gentil; estava incomodado com aquele silencio quebrado apenas pela tosse ainda insistente do garoto em seu colo. Frank assentiu e obedeceu prontamente. À medida que ele caminhava até a cadeira Michael reparava em seu corpo. Ele estava tão diferente. Tão magro e tão pequeno. Lembrou que a primeira coisa que havia notado quando o vi na porta de sua casa era o quanto ele parecia abatido. Aquele era mesmo o seu Frank?
- Não sou um E.T – Frank riu da forma que Michael ficou sem graça ao ser pego olhando tão fixamente para o outro. Michael pigarreou e tentou dizer algo, mas ao sinal de que sua voz sairia vacilante, apenas lançou mais um sorriso para Frank, que sacudiu a cabeça em descrença, avançou mais em direção ao outro e segurando o seu rosto disse da forma mais séria que conseguiu. – Sou eu. Frankie, o mesmo de sempre, Mi. Não se preocupe com isso, nada muda quem você realmente é e de onde você veio.
E a única coisa que Mikey conseguia pensar naquele momento, era se aquele par de olhos tinha algum poder que lhe permitia ler mentes e confortar como ninguém.
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