Under Moonlight
3 Capítulo 2
O bar era um lugar fedorento, cheio de pessoas que juntas não valiam nem o vômito que estava pelo chão. Mas quando se está durante dias na estrada, com o estômago tão vazio — que quando fala fazia eco na barriga -, essas coisas não eram tão importantes.
Happy B-day não reclamava, bom garoto que era, mas o seu pai sabia que o pequeno já não agüentava mais de fraqueza. Ele estava um pouco desanimado também, o pai tinha medo de que ele estivesse doente. Se seu filhote adoecesse, não teria como pagar um médico. Sempre arranjava um jeito, mas temia que dessa vez a solução não fosse tão fácil.
- Fica. Aqui. Fora — o pai sentou Happy B-day em um caixote velho, olhando bem nos seus olhos e falando pausadamente para deixar a ordem bem clara.
- Eu não quero ficar aqui sozinho, paiêê. — fez o bico mais lindo do mundo.
Seu pai respirou fundo se concentrando para não cair nos encantos de seu filho. Era magnífico o modo que o rapazinho conseguia tudo com o seu pai, apenas com uma caretinha fofa.
Happy B-day era incrível, existiam poucas pessoas no mundo como ele. Para o pai, seu pequeno era tudo o que ele não era e nunca havia sido. Ah! Se tivesse pelo menos a metade da inteligência do seu menino.
- É perigoso, anjinho — disse carinhoso.
- Eu sou forte, pai! — mostrou os bracinhos finos.
- Então! Tem que ficar aqui fora. — mudou o tom de voz, para um tom de segredo. — Tem que ficar aqui, me dando cobertura. Você é a minha carta debaixo da manga. Saca? — piscou um olho.
- Ah! Entendi. — o pequeno também mantinha o tom de voz baixo. Os \'meliantes\' não podiam ouvir. Fez com a mãozinha uma arma, olhar sério. Tudo tirado de programas policiais que assistia nas lojas de eletrônicos. — Pode entrar AP [n/a:Agente Pai]. Eu te cubro daqui.
- Entendido, AF [n/a: Agente Filho]. Qualquer coisa grite o código 029. — sem nem ao menos perceber havia entrado na brincadeira. Juntas, as mentes desses dois iam longe. E isso amenizava a triste caminhada que era a vida dessa pequena família.
- Socorro, socorro, estou sendo abduzido?- indagou o pequenino ainda com a arma em punho.
- Não, AF. Esse é o código 026. O código 029 é: \"Socorro! Fogo, fogo -pequena pausa-, foooooooooooogooooooooo\"- dramatizou o pai acompanhado pelo seu pequeno.
- Positivo e operante, AP. Câmbio, desligo. — fez voz de rádio e o pai caiu em uma gargalhada gostosa. Adorava aquele garoto, seu garoto.
O pai entrou no bar, o sorriso que ainda brincava em seu rosto, desmanchou-se no exato momento que seus pés tocaram o chão do local.
Olhou para baixo, analisando a superfície asquerosa e tão detestada. Com o tempo, adquiriu uma espécie de trauma de lugares como aquele. As pessoas que o freqüentavam, não costumavam ser muito agradáveis. Humilhação, espancamentos, já fugiu, com sorte, de milhares de tentativas de estupro. Quem via por fora, consideraria até que ele procurava chifres em cabeça de cavalo, mas ele e seu filho dependiam do lucro que ele, ás vezes, tirava de lugares como aquele, e isso dependia do estado de moloidismo alcóolico, que era fácil de ser encontrado em lugares como aquele. Isso era colocado acima do trauma que tinha por lugares como aquele.
Suas mãos estavam trêmulas, o medo era evidente, mas não podia desistir. A fome — do seu filho, não a sua — falava mais alto. Seu olhar procurava por objetos de couro, recheados de papeis retangulares de muito valor. Seus ouvidos acompanhavam o tilintar de objetos metálicos, filtrando-os dentre tantos outros barulhos. Eram chaves. Elas seriam o passaporte para dias de descanso aos seus pés. Pés que já sabiam a direção que deveriam seguir agora. Verificou se ainda estava com o jornal em seu bolso, era uma adorável coincidência que eles estivessem na direção que seguia.
Sentou-se na última mesa do bar. O local estava envolvido em sombras, era perfeito para observar sem ser percebido.
Poucos minutos após ficar fingindo uma análise ao cardápio, já tinha sua vítima. Um beberrão, que sentava no balcão e já errava o caminho da boca, tinha uma carteira com dezenas de notas de cinqüenta, provavelmente tinha recebido seu salário naquela semana e já gastava no bar. Otário.
Com todo aquele dinheiro, passaria o próximo mês tranqüilo, e quem sabe poderia pagar umas diárias em alguma pousada. Fazia séculos que ele não dormia em uma cama macia. Poderia até tentar arranjar um emprego sem medo, seu filho estaria a salvo na pousada. Aquela carteira ajudaria bastante, seria como um oásis.
O otário também ostentava chaves de um Chevrolet. Deveria ser recente aquisição, já que exibia a todos os seus amigos com orgulho. Não era um chaveiro falsificado, seus olhos treinados sabiam reconhecer falsificações. A vitima parecia perfeita. Parecia.
Controlou a tremedeira que invadia o seu corpo, talvez devido à fome, ou talvez fosse o ambiente que estava frio demais para a sua jaqueta gasta, ou poderia ser simplesmente... O medo. Andou normalmente até o balcão, durante o percurso esbarrou de propósito no bêbado, pegando a carteira sem que ele percebesse. E sentou umas quatro cadeiras distante dele. Observava atento, na expectativa de que o homem acabasse sentido a falta da carteira, assim, aproveitaria de seu desespero para roubar as chaves do carro também.
O bêbado falava algo sobre alguma mulher gostosa, que ele obviamente nunca havia tido em sua cama, mas contava a todos que sim. Comentou sobre uma foto que havia em sua carteira. Era agora. Preparar, apontar e...
Braços fortes pararam os seus movimentos. Seu corpo foi arremessado contra um daqueles bancos acolchoados de lanchonetes. À sua esquerda estava sentado um brutamonte, à sua direita acabava de sentar, o dono dos braços que o tirou do seu objetivo e na sua frente um grupo de garotas ria de sua cara de assustado. Era claro o que eles queriam, e o rapaz não estava disposto a dar.
\"Bando de sádicos miseráveis\", pensou.
- Me deixe ir. — disse tentando, em vão, não transparecer o seu medo e levantar-se do assento.
- Ora! Tão cedo, benzinho? — disso o homem da esquerda, colocando os pés em cima do estofado e trazendo o jovem pai para entre as suas pernas, chocando as costas do rapaz contra o seu tórax ridiculamente musculoso.
A outra montanha de músculos abriu as pernas do paizinho de uma vez e com uma força, que o fez jurar ter ouvido um \'creck\' vindo delas. O homem se posicionou entre as pernas do rapaz, jogando todo o seu peso sobre o seu corpo mirradinho, ao mesmo tempo em que o de trás se empurrava contra ele. Faltava espaço para respirar, estavam fazendo um sanduíche de papai-de-Happy B-day.
-Vamos meu bem... — iniciou o de cima — ... quanto está a hora? Hein? — o homem falou provocante ao garoto, enfiando a língua no orifício do seu ouvido e friccionando o seu corpo contra o dele. O que lhe causou náuseas, ainda mais quando sentiu o membro de ambos os monstros duros. Parecia-lhe que havia uma escola de samba em seu peito, ou que o seu coração brigava para fugir do peito e sair correndo para longe daquela situação. Coração covarde.
- Sinto muito, eu não sou uma puta. Devem estar me confundindo. — talvez estivesse o confundido com alguém. Foi isso, eles o confundiram, o engano seria desfeito e ele poderia sair daquele bar, abraçar o seu filho e chorar até o outro dia, quando ele se levantaria e seguiria viagem, fingindo que nada aconteceu, mais uma vez. Todos riram dele. — Me solta, por favor. — sua voz saia embolada, não era engano, não o soltariam e não deixariam ele voltar para o seu filho até que eles desfrutassem de tudo aquilo que ele não queria dar.
- É claro que você não é uma puta, sweetheart. — debruçou-se sobre a mesa, uma menina loira de maquiagem escura borrada e hálito forte de bebida e maconha, aproximou-se bem perto do rosto do rapaz, despejando todo aquele hálito mal cheiroso sobre ele. — Longe de nós te julgarmos assim. — Cínica. — Só estamos propondo uma troca. Que tal? Sua bundinha por, hum, uma quentinha?
- Não estou com fome, obrigado. — respondeu por entre os dentes com raiva, ignorando o seu estômago, que só de mencionar comida, já pulava e gritava por algo que o alimentasse.
- Mas os nossos rapazes estão. Não é? – a garota disse passando a mão delicada no rosto do rapaz, e os dois concordaram. — E adivinha o que eles querem comer?
- ...
-Você! — o homem que estava por baixo disse. Empurrou o quadril do garoto para baixo, pressionando contra o seu próprio, ele já estava ofegante. — O que me diz, gostoso? Por bem ou por mal?
- Não precisa responder. Só fica quietinho. — ordenou o grandalhão de cima, lambendo os lábios trêmulos do garoto.
Nojo, nojo, nojo, medo.
Os seus olhos marejados percorriam o bar. Ninguém notava o ataque dos brutamontes, estavam distraídos pelo escândalo que o bêbado roubado fazia.
Seu olhar voou até a porta do estabelecimento, onde, uma coisinha pouca, o observava, os olhos espantados ao encontrar os de seu pai úmidos.
O paizinho recolheu as lágrimas, espalmou o peito do seu raptor, fechou os olhos e gritou , mas gritou o mais alto que a sua garganta conseguia, vencendo todos os outros sons e chamando a atenção para a mesa em que ocupava. Então, era só esperar que o bêbado lembrasse do esbarrão de um pouco mais cedo.
Não demorou muito para que acontecesse. Quando já sentia mãos ásperas adentrarem em seu jeans, o peso foi aliviado e algo o agarrou pelos cabelos o arremessando contra o chão. Agora ele iria levar só alguns, nada poucos, socos.
Sentiu o pesinho delicado de Happy B-day em seu colo. Abriu os olhos de imediato e abraçou o seu filhinho, mas tão rápido o abraçou, logo o soltou, empurrando-o para o lado, assim que viu um par de botas perto.
O bêbado o agarrou pelo colarinho e o levantou até tirar os seus pés do chão. Bufava perto do seu rosto, o seu hálito conseguia ser mais desagradável que o da garota loira.
- Cadê a minha carteira? — cuspiu em sua cara.
- Eu não sei senhor. — respondeu firme.
- É claro que sabe, viado. — bateu as costas do garoto no balcão, ouvindo um gemido de dor de sua parte. — Você a roubou.
- Não, senhor, nem vi a sua carteira. — mal pode completar a sua defesa e já recebeu um soco bem dado.
- Diga logo onde você enfiou a carteira, fí-de-corno. — a vermelhidão do rosto do bêbado aparentava que mais cedo ou mais tarde ele iria explodir. — Não tente me enganar.
- Eu juro. Juro pela a minha mãe mortinha e enterrada, que não sei. — a outra face do pai foi socada.
Quando o bêbado retrocedia o braço para socar o rapaz novamente, um projeto de gente voou no braço do homem e dava socos desconexos sem parar.
- Solta o meu pai. Solta o meu papaizinho, seu pança de égua. — socos e ponta-pés eram distribuídos em abundância pela criança.
- Que peste é essa? — perguntou o homem, sem soltar o colarinho do pai, e lançando um olhar de desprezo à criança. — Esse verme é seu pai?- estranhou o fato de que um rapaz tão novo já tivesse um filho.
- Ele não é um verme. Você é! — respondeu malcriado. — E é melhor o senhor soltar ele, nós somos da policia do bem. E, e o senhor está preso em nome de A.F. — colocou a sua arminha de dedos em punho novamente.
- Mas que pirralhinho atrevido. — o bêbado apoiou o pé no peito de Happy B-day e o empurrou. O corpo pequeno tombou com o impacto. Seu pai, por instinto, se moveu ao seu encontro, porém foi impedido pelo bêbado.
- Argh! Me solta, seu covarde, eu não te roubei, me larga. — que se dane o carro, que se dane o dinheiro, ele só queria sair de lá com o seu filho, e poupá-lo de mais um infortúnio.
- Revista ele! Aposto que escondeu a carteira na cueca. — gritou uma das amigas dos brutamontes.
- Isso mesmo, provavelmente ele enfiou. — ajudou outra. — Tira a roupa dele.
- Mentira! — gritou, já gaguejando, e merda, onde havia colocado a carteira? Queria devolvê-la, mas não a encontrava em bolso algum. Não queria nem pensar na possibilidade de tirarem a sua roupa, não tinha nada no mundo que ele se envergonhasse mais do que o próprio corpo. — Não tira a minha roupa, por favor. — suplicou — Sua carteira não está debaixo dela. — quando havia perdido a bendita?
- ‘Cê se acha muito esperto, não é mesmo? — Tirou a jaqueta, a sacudiu — Você quer desviar a minha atenção. — retirou a blusa, e desceu a mão para suas calças, apalpando, procurando por alguma saliência que não deveria estar ali. Demorou um pouco mais na bunda, aproveitando da situação. — Sei onde está a carteira. — desceu as calças do pai, voltando a mão para sua bunda. O bêbado olhou para lado, e quando os olhos do pai encontraram o mesmo alvo que o dele, conseguiu entender o que ele queria.
Happy B-day ainda estava sentado no chão, beirando às lagrimas, lançava um olhar bastante significativo para o pai. O bêbado o fitava com maldade. A garganta do pai estava seca, não sabia o que fazer, na verdade havia somente uma coisa para ser feita.
- Happy B-day. Sai daqui, agora. Anda. Sai. — gritava desesperado. Segurou forte a mão do homem, a mantendo onde estava, com medo de que ela se direcioná-se ao seu filho.
O garotinho ficou quieto, não entendia o porquê do seu pai estar com raiva dele, ele mesmo havia perdido que o cobrisse, e cobrir significava ajudar quando é necessário. Haveria situação mais necessária que aquela?
— É A.F., A. P, não se zangue, por favor. Eu vim te ajudar, A.P. O senhor pediu. — sua voz era melosa, e indicava que lágrimas e soluços estavam por vir. O garotinho juntou as peças de roupa do pai e ofereceu de volta a ele. — Vamos embora, Apêêê? Por favor?
- Vai na frente, A.F. — cravou suas unhas na mão do homem ensandecido, na tentativa de segurá-lo mais firme já que suas mãos começavam a ceder à força do seu agressor. — Corre A.F, corre, por Deus! — implorou ao filho. E o bêbado conseguiu se soltar, torcendo-lhe o braço e o empurrando contra o balcão, arrancando de sua garganta um gemido de dor.
Assim que Happy B-day levantou-se para iniciar a sua fuga, o bêbado o agarrou por uma perna, o levantou e sacudiu o seu corpinho, no intuito de fazer cair os objetos que havia em seus bolsos. Para a sua decepção, caiu somente um lagartinho gosmento, e uma escova de dente. Soltou o garoto no ar, deixando-o colidir bruscamente contra o chão. No mesmo instante, seu pai, se recuperou da pancada, e foi ao encontro de Happy B-day, o puxou para o seu colo acalentando em seu choro baixinho, choro de criança.
O bêbado irritado se sentia lesado. \"Justo por vermes como esses?\" pensava ele. Chutou o rosto do pai, derrubando-o no chão e pisando em sua cabeça logo em seguida.
- Vou perguntar só mais uma vez. Aonde, porra, você escondeu a minha carteira, moleque?- pressionou contra o chão viscoso, o rosto do rapaz, que nada dizia, sua cabeça girava e faltava-lhe ar. – Desembucha! — colocou mais força. E antes que repetisse o ato, uma moça de olhos esverdeados, aparentando um par de safiras, interveio.
- Pare com isso, Jorge! Deixe-os em paz, não vê que não te roubaram?- a moça puxou para longe o bêbado, e ajudou os dois a se levantarem. Catou as roupas do jovem pai e o lagartinho do garoto, devolvendo aos seus respectivos donos. — Saiam daqui agora mesmo. — ordenou severa.
- Obrigado, moça! — Happy B-day agradeceu, fazendo aspas com os dedinhos ao dizer ‘moça’ e piscou de um jeitinho malandro para ela.
O pai vestia as roupas vagarosamente, ao som de assovios dos fregueses do bar, não que ele preferisse assim, mas ainda estava tonto das pancadas. Antes que conseguisse abotoar a calça, foi impedido pelo bêbado Jorge.
- Como assim, vadia? — puxou o rapaz pelo cabelo, colocando o seu rosto perto de sua intercessora. — Não foi você mesmo quem disse que ele era o ladrão?
O rosto do pai, por poucos milímetros, não se encontrou com os da gentil moça. E com tamanha proximidade, foi impossível não reparar nos expressivos olhos que o encaravam sorridentes, a semelhança com os de Happy B-day era gritante. Eram os mesmo olhos.
- Me enganei. — sorriu docemente e pediu com carinho para que Jorge os deixasse em paz.
- Suma daqui, nunca mais quero ver a sua cara. Entendido, verme? — soltou o pai. Ele saiu apressado, vestindo o resto da roupa durante o trajeto e ignorando as vaias dos bêbados restantes. Happy B-day, antes de sair, mostrou a língua para Jorge e grunhiu um \' verme é você\', saindo correndo em seguida. Até que ficaria para xingar mais um pouquinho, porém o seu pai logo se zangou e gritou para que ele saísse imediatamente.
- Ai meu saquinho. — sussurrou o pequeno. — Lá vem bronca, meleca. — disse ao lagarto e apressou os passos para alcançar o seu pai.
Notas finais
Reviews são legais. Gosto de comer com farinha no almoço. Campanha: ME ALIMENTE hehehe '-'
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