Edward


CRECK, foi o som que saiu do pescoço do homem que eu erguia do chão, suas pernas ficaram moles e finalmente pararam de me chutar, não que doesse no final das contas. Este foi o terceiro prédio de ‘transportadoras honestas’ das Tríades chinesas que atacávamos só esta tarde.


Tudo não passava de fachada para contrabando, desde eletrônicos, armas, drogas do sul da Ásia e até pessoas, julgando pelas mulheres acorrentadas na sala dos fundos.


“Eles tem uma van aqui, vamos carregar com o que pudermos e queimar o resto”. Frost gritou e corri até ela. A van já estava com as portas abertas e foi fácil jogar as caixas de armas lá dentro, a Intergang faria uso disso, bastava mandarmos uma mensagem com o local em que abandonaríamos tudo e pronto, um extra muito bem-vindo nesses tempos de dívidas.


“E quanto a elas?”. Perguntei apontando para as mulheres asiáticas trêmulas e encolhidas no canto. Elas choramingavam coisas em uma língua que eu sequer entendia.


Frost as olhou por apenas um instante antes jogar uma onda de gelo, elas morreram imediatamente. “É melhor assim para elas, certeza que parariam em um bordel do mesmo jeito”.


“Isso foi cruel, até mesmo para você”. Eu disse com o cenho franzido, os rostos cheios de terror dessas mulheres, agora estava eternizados no gelo dessa obra macabra.


“Sabe o que você devia fazer? Arrombar o maldito portão para sairmos antes que a polícia chegue, entendeu?”.


E eu fiz isso, soquei o portão de enrolar e o derrubei, um segundo depois Frost chegou com a Van e eu pulei para dentro enquanto acelerávamos, o som das sirenes da polícia bem distantes foi um alívio. Ninguém nos parou, a polícia estava ocupada demais com tantos ataques simultâneos, o toque recolher foi instalado e as aulas suspensas, o crime dominava Gotham em plena luz do dia.


Deixamos a van em um beco, algum garoto da Intergang viria pegá-la em algum momento. Quanto a Frost e eu, combinamos que era hora de reagrupar, deixar a poeira baixar e procurar um grande alvo de verdade, algo que realmente faça barulho, que deixe mais que um dedo dolorido nas famílias locais.


Sabe o que é interessante nessa cidade decadente? O subúrbio é tão degradado que literalmente achamos um complexo de lojas abandonado, totalmente vazio. Os bandidos podiam se esconder em qualquer lugar e ninguém notaria, não me admira que a polícia não prenda ninguém.


Dentro do que antes era uma loja de roupas, fizemos uma barricada na sala da equipe e nos sentamos nos sofás velhos para recuperar o fôlego. “Quanto temos nas malas?”. Perguntei a Frost enquanto ela acabava a contagem das notas em uma máquina automática que roubamos na transportadora.


“Temos pouco mais de 400 mil nessas três malas, fora o dinheiro de Mannheim nas contas”.


“É pouco, sete alvos e apenas 400 mil dólares. Esperava mais dos criminosos de Gotham”.


“Estamos atacando as cegas, sem planejamento, é claro que eles tem lugares com mais dinheiro que isso, e Mannheim está nos tirando de lá”. Frost disse enquanto alongava os braços atrás da cabeça, um grande estalo veio de seu pescoço.


“Tem ideia de onde estariam esses lugares?”. Perguntei me inclinando para frente, começando a massagear os ombros de Frost.


“Huuuu, bem aí”. Ela gemeu conforme eu massageava um ponto de tensão particularmente rígido em seu trapézio.


“Pode ser que esse lugar seja alguma coisa, veja isso”. Frost me disse ao passar uma espécie de agenda. “Achei nesse último lugar que visitamos”.


A letra era horrível mas tinha uma série de números e um endereço em uma folha, Frost me mostrou em seu computador que o endereço batia com a sede do Banco Maze.


“Esse banco lava dinheiro para a máfia?”. Perguntei, era uma opção viável para os mafiosos, guardar dinheiro vivo atraía ladrões. Que ironia.


“Provavelmente ele é um banco da máfia. Isso se os chineses realmente tiverem um acordo com o Máscara Negra, o que não é difícil já que ele é o atual chefão por aqui. Os mafiosos e sindicatos do crime se integram cada vez mais no sistema financeiro”.


“Podemos vigiar o lugar até o fim da tarde quando atacarmos, até lá já estaríamos bem descansados e o lugar vazio”.


“Sua vontade de grana é tão grande assim a ponto de comprar briga com o Máscara Negra? Porra, já atacamos muitos gangsteres em plena luz do dia, não é um pouco demais?”.


“Eu preciso do dinheiro, rápido”. Respondi de forma seca e com os lábios apertados.


“Para quê? E não me diga que é para comprar um carro legal, eu sei que tem coisa aí, entre você e o Black Fox!”. Frost rosnou para mim e se afastou. “Eu não vou arriscar minha vida por alguma loucura sua! Pelo menos, não contra alguém ligado a Sociedade como o Máscara Negra”.


Fiquei em silêncio por algum tempo, debatendo internamente o que dizer e Frost pacientemente me encarou de braços cruzados. “Meu tio, o Black Fox é meu tio”.


Seus olhos piscaram surpresos quando eu disse isso. “Bem… eu esperava que ele fosse, sei lá seu pai”.


“Não conheci meu pai, mas meu tio sempre ajudou, pode-se dizer que ele foi minha figura paterna. Na verdade ele também se apressou pela grana já que…”. Comecei a dizer mas não concluí.


“Já que?”. Frost me instigou.


“Bem foda-se”. Eu disse jogando meu rosto em minhas mãos. “Meu nome é Edward Miller, tenho 20 anos, moro com a minha mãe, a mesma mãe que está doente e precisa de uma cirurgia urgente que custa muito dinheiro, é isso”.


“Porra, que merda eu me meti… um pirralho vai para o crime salvar a mãe doente e seu nome é Edward? Isso é nome de mordomo, não de gente jovem”.


“Alfred seria um bom nome para mordomos, ou Winston. Agora foda-se, você sabe meu motivo e eu quero saber os seus”.


Frost suspirou e jogou seu peso no encosto do sofá. “Quer saber? Vamos jogar um caminhão de merda sentimental aqui, vamos? Louise Lincoln, tenho 24 anos e pode não acreditar, mas eu tenho um diploma universitário em Termodinâmica”.


“Louise? E ainda tem coragem de reclamar do meu nome”. Gargalhei e ela apenas revirou os olhos, provavelmente já acostumada.


“Como estava dizendo”. Frost disse me encarando. “Eu era aluna da Doutora Crystal Frost. Ela teve sucesso em um experimento e testou em si mesma assim ganhando poderes. Infelizmente o processo não estava pronto ainda, ela precisava consumir energia muito rápido e após uma batalha contra o maldito do Firestorm, Crystal morreu”.


“O Firestorm a matou? Nunca ouvi falar sobre isso!”.


“Foi pouco noticiado, quem se importa se uma ‘vilã’ morreu? Mas eu sabia bem o que ocorreu, como o Firestorm a matou, a energia atômica do Firestorm desestabilizou o corpo de Crystal. Rebalanceei o processo e testei em mim, foi assim que eu ganhei os meus poderes”.


“Esse ganho extra de energia externa não pode te matar da mesma forma que matou a Crystal?”.


“Não, na verdade eu roubo calor do ambiente agora, então atirar em mim com uma arma de calor, por exemplo, só me faz ficar mais forte, só me faz criar gelo mais rápido. É por isso que eu gosto de você sabia? Mesmo que eu roube seu calor, você parece não sentir muito”.


“Então você nem sempre foi azul e de coração de gelo?”.


“E você? Sempre foi um cara que esmagaria pessoas sem piscar os olhos? Sua vida parece bem normal para ter esse tipo de atitude”.


“Não… mas é complicado. Eu tenho um zumbido no ouvido, fica cada vez mais alto quanto mais tempo eu levo para usar meus poderes e quando eu uso, me sinto bem, bem pra caralho, a ponto de todas essas mortes não me incomodarem, eu sinto como se fosse natural, uma parte inevitável da minha existência”.


Frost levantou uma sobrancelha para mim e riu. “Sabe que isso foi profundo? Tem mania de ser filósofo barato?”.


“Não tinha como ir para a faculdade e trabalhar o tanto que eu precisava, mas eu gostaria de ir algum dia”.


“Sabe que sua mãe vai perceber onde você arrumou esse dinheiro, não é?”.


“Esse é um problema que eu lidarei quando ele chegar”. Respondi suspirando. “Sabe, você foi uma ouvinte melhor do que eu esperava Frost, acho que eu te devo uma”.


“Eu ainda estou levando a maior parte de nosso assalto a banco, não esqueça disso”.


“É claro que não esqueci, acha que eu quebraria minha palavra?”. Comentei e minha única resposta foi um levantar de sobrancelhas que dizia tudo.


“Certo, certo. Pelo menos você concordou em surrar o Máscara Negra, não é?”.


“Com você me ‘devendo uma’? Claro, e não pense que eu não vou cobrar quando tentar enfrentar o Firestorm outra vez”.


Trocamos nossas roupas e fomos até o centro, em direção a nosso último alvo da viagem. Para disfarçar compramos uns refrigerantes e cachorros quentes em uma carrocinha e nos sentamos na borda de concreto de uma árvore. Seria suspeito usar capuz, então Frost usou um boné, que na verdade não escondia muito bem seu cabelo azul, mas ajudava contra os olhares mais distraídos.


Ficamos ali, de olho no Banco Maze, vendo as pessoas entrando e saindo de uma torre de trinta andares na parte central da cidade. Não era o lugar mais impressionante, mas devia ser exatamente isso que a máfia procurava.


“A rua é bem movimenta, sem chance de sairmos daqui sem a polícia nos nossos calcanhares ou a máfia”. Eu disse enquanto mordia meu cachorro quente.


“A noite estará menos movimentado com o toque de recolher, mas chances de algum dos morcegos aparecerem é maior. E mesmo assim fugir de carro é impossível”.


“Alguma chance do Máscara Negra aparecer?”.


“Não, ele fica em esconderijos aleatórios dia após dia. Mas se dermos sorte, ou azar, ele pode aparecer. Qual seu interesse?”.


“Então se ele aparecer, eu mato ele e fim dos nossos problemas futuros”.


Frost bebeu um gole de seu refrigerante zero açúcar antes de me responder. “Vamos focar em como entrar e sair com a grana, mortes de chefes do crime vem depois”.


“Eu pensei em um plano… acho que pode funcionar”.


“E que plano seria?”. Frost me perguntou sorrindo com os olhos arregalados e eu sorri de volta antes de começar a contar o que pensei nesses últimos minutos.