Unbreathable
1 Capítulo 1
Aconteceu...
Um ar frio dentro do meu corpo foi me tomando e meu rosto ficou gélido. Todo o som à volta se abafou como se eu não estivesse naquela realidade. Todos os sinais, ou pelo menos, o mais obvio, o que eu tinha marcado como prova estava ali, diante de mim. Aos poucos, meus sentidos voltaram ao controle e a voz de Marcela se tornou aparente.
- Amor, Amor, o que aconteceu? Você esta branco. Sua mão puxava meu braço enquanto eu via, ainda meio desacordado da realidade, cada motorista da engarrafada Noronha Torrezão saindo de seus carros, curiosos com o acontecido, alguns rindo. Era questão de tempo até todos notarem algo estranho, até voltarem a suas casas, até constatarem algo aterrorizante, algo que eu já tinha me tocado. Como qualquer fã de filmes de ficção, apaixonado pelas varias teorias do fim. Meu celular não ligava. Gelei.
Olhei para Marcela e a única explicação que dei foi: “vem!”. Ela tinha que confiar em mim, explicaria tudo quando chegasse em casa. Comecei a andar passo atrás de passo assegurando que ela estava me acompanhando. Gostava do respeito dela quando eu batia o pé em algum assunto. Quase nunca aconteceu, talvez por isso ela tenha aceitado apenas uma palavra. Estrategista, iria arrancar de mim quando quisesse.
Tentei correr o mais rápido que pude puxando a mão dela. Marcela não sabia correr e eu sabia disso, mesmo assustando um pouco ela, tinha que ser daquele jeito. Minha namorada provavelmente iria começar um debate qualquer sobre o que tinha ocorrido e não podíamos perder esse tempo se eu explicasse agora. Adorávamos debater quaisquer assuntos e rir muito com nossas babaquices infantis e engraçadas. Talvez não houvesse tempo mais para aquilo.
Subimos a extensa subida do meu condomínio até chegar em casa, e talvez Marcela só tivesse me obedecido e não contestado minha rapidez e indelicadeza de como a puxava, pelas minhas feições sérias, as que ela nunca tinha visto. Cada muro daquele lugar, cada apartamento do extenso condomínio, quanta gente! Eu conhecia cada cantinho daquele lugar, cresci ali, vivi vinte e seis anos ali.
Entrei em casa bradando minha mãe.
- Mãe, mãe!!! Você tem algum dinheiro aí? Sem ser no banco... em casa mesmo, em papel...
Minha mãe assustada respondeu um não cauteloso e preocupado, parou o que estava fazendo enquanto cobrava explicações de como eu estava emergencialmente assustado.
- Aconteceu gente. Explosão eletromagnética, igual nos filmes. Está sem luz... Todos os carros na rua pararam de funcionar. Aconteceu!!! Tudo vai virar um caos! Podem olhar qualquer coisa eletrônica que vocês tenham, nada está funcionando. Michele, minha irmã, foi para o quarto. Soei como um paranoico, um convincente paranoico.
Marcela entendeu tudo. Qualquer jovem amante de qualquer das séries apocalípticas da TV entenderia. Por isso mesmo eu tinha que ser rápido!! Adultos pagariam caro pela falta de interesse nos nossos seriados malucos. Mas todos os jovens quando se dessem conta, tomariam as providencias necessárias para salvarem suas famílias, seja quais fossem elas. Me sentia bastante paranoico agora. Explicando isso soa meio paranoico. Mas não sei explicar... Eu sabia!
Pra minha surpresa, minha mãe também entendeu. Estava focada. Tantos documentários sobre preparação para o fim, abriram os olhos dela e a prepararam, como a mim, psicologicamente. É difícil cair em si numa situação dessas, mas eu me condicionei àquilo. Faziam anos que eu esperava o momento. Fui no quarto. Por sorte, tinha sacado boa parte do salario ainda naquela semana.
- Tenho dinheiro aqui! Preciso ir no supermercado AGORA!!! Quando começarem a se tocar, pensar, tudo vai virar um caos e dinheiro não vai valer mais nada. Eu iria gastar tudo.
Minha mãe sempre conseguia me fazer falar. Me preocupo demais com ela. E agora com Marcela. Sei que ela quis começar um debate sobre outra teoria do que tinha acontecido realmente, tentando manter o controle, a calma, algo menos dramático, mas como explicar todos os carros? Ela não disse uma palavra, mas sei que estava confusa, tentando acompanhar meus pensamentos.
- Meu laptop não esta ligando não! Exclamou minha irmã voltando do quarto. Marcela me olhou com preocupação e fitando-a me encaminhei para a porta.
Descemos até o portão do bloco dez. Nenhum som de motocicletas. Nenhuma daquelas perturbadoras motocicletas estava fazendo barulho. De certa forma, perturbador. Um silêncio perturbador. Tive que convence-la a ser carregada na minha bicicleta para o supermercado. Que garota difícil! Passamos com mais pressa pela Noronha Torrezão. Confiante de não haver nenhum outro carro funcionando, fui cortando as pessoas e rápido, indo para meu objetivo.
Chegamos ao Império da Banha e prendi minha bicicleta com atenção, parecia menos preocupado, com menos cara de pânico, porém só Deus sabe como eu estava por dentro. Entrei no supermercado como um bandido entra para assaltar um banco, olhei em volta com atenção, pessoas confusas em todo lugar. Alguns já esboçavam pânico. Não ia demorar muito. Marcela ainda sem entender bem o que fazer e seu lugar naquilo tudo, provavelmente a essa altura já estaria pensando na sua vó e no restante da família. Não havia como avisa-los. Mas se não tivesse caído em si ainda, eu tinha que saber o que fazer quando ela ficasse sem controle e afim de ir para Caxias, mesmo que sozinha.
Iamos pegando muitas coisas nas baias, mesmo agora é difícil de lembrar o que pegamos, mas sei que vimos no caixa um jovem com aquele típico estereótipo de Nerd, apavorado, comprando quantas coisas ele podia carregar. Ele me olhou e sabemos... tínhamos nos dado conta do que estava havendo. Provavelmente algum boicote, guerra, o que quer que tenha acontecido, muita gente, senão todo país estava assim. Ele era magro, mas alto, cabelo grande, um pouco de barba, provavelmente tinha muito mais conhecimento que eu para sobreviver.
Me desesperava pensar demais nisso. Eu morava do lado do morro, alias, qualquer pessoa nas redondezas morava perto de algum morro, onde traficantes andavam com armas em suas casas ou consigo mesmo. Fiquei pensando em como eles usariam essa força assim que não tivessem mais o que comer. Meus pensamentos me pregavam peças e eu tinha que me acalmar. Seria o único homem da casa nessa loucura toda. Meu Deus! E se tivéssemos que sair de lá... O que eu faria?
Saimos do supermercado, rua ainda sob controle. Não tinha como eu arriscar aqueles sacos de compra cheios de comida passando aos olhos de todos os incompreendidos atônitos do caminho pela Noronha até em casa. Não dava pra ir andando. Pus todos os sacos no guidão da bicicleta e Marcela segurou muitos outros em seu colo enquanto eu tentava me equilibrar e dar impulso para andar com aquela parafernália toda.
Fomos com certa lentidão e muito esforço das minhas pernas, as pessoas iam me vendo passar com aquelas compras todas, com aquele olhar aflito e sinto que percebiam aos poucos que algo não estava certo. Mas eu estava preocupado demais comigo mesmo, pra olhar para trás. Eu estaria rindo de como ela estava sem jeito sendo carregada por mim naquele momento, mas meu senso de humor tinha saído de cena de uma forma bem incomum. Parecia que ela iria cair a qualquer momento. Subimos o condomínio e chegamos em casa. Cansados, esbaforidos, Marcela tinha uma feição preocupada e desacreditada. Talvez tivesse se dado conta de que Caxias era longe demais pra partir.
- Amor, preciso ir pra casa agora! Agora que as pessoas estão calmas e confusas ainda.
Eu gelei. Olhei-a com atenção. Não podia obriga-la a ficar comigo e realmente agora era a hora de partir, se houvesse alguma hora. Mas pensando bem, demoraria mais que um dia pra se chegar a Caxias, mesmo que ela fosse com muita pressa. Imagino como estaria a Avenida Brasil com tanto carro parado e pessoas sem luz desesperadas sob a iminência de algo ruim acontecendo, sem noticia nenhuma, sem telefone, sem lei.
- Amor... comecei a intervir na decisão dela. Iria argumentar o quanto pudesse. Eu amava Marcela.
- Tudo bem, deixa... eu já pensei em outra coisa. Não dá...
Ela era inteligente e tinha raciocínio rápido, por vezes, bem mais rápido que o meu. Chegou a mesma conclusão que eu, provavelmente, com frequência isso acontecia. Fiquei aliviado e não contestei.
Minha mãe e minha irmã guardavam as compras enquanto minha tia-avó fazia piadas. Ela via a vida de formas que não entendíamos. Enquanto Marcela se encostava em mim buscando alguma segurança, as palavras da minha Tia-avó iam ecoando no ambiente e uma calma se apoderou de mim. Quando faltava luz era a oportunidade ideal pra ela conversar conosco, sempre ficávamos limitando e brigando quando ela falava no meio dos filmes e qualquer programação de TV. Nós estávamos sempre ocupados para conversar com minha Tia-avó, uma pessoa de coração formidável. O escuro ia tomando forma mas nenhum relógio em casa poderia nos dizer que horas de fato era.
As mulheres da casa foram dormir e Marcela, quase adormecendo no sofá, tentava me acompanhar enquanto eu ficava à porta tentando ouvir algo. Alguma coisa me dizia que algo não estava bem. Sempre confiei no meu coração. Minha mãe, alerta como um cão, me acompanhou nessa longa noite.
Não consegui pregar o olho, tirei dúzias de sonecas de 2 a 3 minutos. Sempre me parecia estar ouvindo algum barulho. Meu apartamento era, de certa forma, isolado da rua principal e com as barulhentas motos silenciadas, não tinha muito a se ouvir naquela primeira noite. Estranhamente, todos ao redor estavam em silêncio. Será que ficaram sabendo de algo?
O dia foi chegando aos poucos e eu decidi descer o condomínio, dando uma olhada na rua. O condomínio tinha grades que nos protegiam do mundo exterior, pelo menos psicologicamente. O caminho era transitável livremente. Abri a porta e, antes de descer mais, a voz da minha mãe disse o bordão que ouvi minha vida toda: “toma cuidado meu filho”. Ela estava orgulhosa da minha iniciativa de liderança.
Tudo estava quieto demais enquanto eu descia as escadas, isso me fez ser mais silencioso, afim de ouvir algo. Por Deus!! Que silêncio assustador! Eu não tinha o hábito de falar muito com os vizinhos, mas com certeza minha mãe o faria. Com certeza, minha facilidade em me comunicar com as pessoas, coisa que ela sabia fazer muito bem, não foi desenvolvida por mim. Pelo menos, não quando eu não me sentia à vontade, que era boa e grande parte do tempo. Cheguei ao portão do bloco, o abri com muita cautela e silêncio, e o deixei aberto, encostado. Algo me dizia que eu deveria ter um porto seguro rápido caso algo insinuasse perigo. O porteiro não estava lá em sua cabine entre os blocos...
Desci lentamente o condomínio até a entrada principal. Estava aberta, como de costume de manhã, mas o que aquilo significaria se tivesse sido feito a noite? Se bem que nenhuma daquelas frágeis grades de ferro iria segurar ninguém. Eu mesmo já tinha entrado lá de formas diversas na infância. Fui até a rua e não vi ninguém, absolutamente ninguém. Pelo menos não havia sinal algum de tumulto ou caos. Devia apenas ser cedo demais, as pessoas certamente tinham esperança de que a qualquer momento a luz fosse reestabelecida pela companhia elétrica. Conseguia até imaginar essas pessoas felizes em casa por poderem não ir ao trabalho e passar um tempo com a família sob pretexto de um desastre luminatório na cidade. Fiquei tentado a seguir adiante pela rua, mas não sem minha bicicleta, teria que voltar e pega-la. Passei pelos portões abertos da passagem para carros e senti o convite para entrar estampada como uma placa, o portão de pedestres não tinha tranca, mesmo que ficasse fechado o tempo todo, já era uma boa facilidade para trânsito. Para que um portão duplo de passagem para carros aberto se não tínhamos mais carros funcionando? De fato, eu não sabia como fecha-lo e ia descer com a bike ainda. Portanto, podíamos trabalhar nisso mais tarde.
- Não tem ninguém na rua, em nenhum lugar. Disse à minha mãe, que ainda estava à espera acordada.
- Vou pegar a bicicleta e ir para Icaraí. Preciso saber de alguma coisa, ver se há alguém na rua, alguma notícia disso tudo.
Marcela já estava acorda, em silêncio tomando um café quente. Minha mãe deu indícios de que iria dormir, talvez ela conseguisse. Tirei a bicicleta de casa e fui condomínio abaixo em direção a rua. “Toma cuidado meu filho”. Ouvi mais uma vez antes de sair. Marcela nada disse.
Atravessei o portão de carros e ganhei a rua. Os pneus estavam ligeiramente vazios, como não percebi isso ontem? Fui tão cegamente em direção ao plano de emergência, que nem me toquei. Eu não ganhei muita velocidade, isso me incomodava. Eu estava com medo.
Fui até o fim da rua, passando pelos prédios residenciais mórbidos de silencio. Dei uma checada no supermercado que fomos ontem e o vidro da porta principal estava quebrado. Ainda havia muita comida por ali, muitos mantimentos e ninguém à volta. Talvez eu desse uma passada ali para fazer umas “comprinhas”. Decidi ir por dentro dos bairros Santa Rosa e Jardim Icaraí, minha amiga Lilian morava nas redondezas. Andei uns 15 minutos com a bike, atento e medroso, e parei em frente ao prédio dela, daqueles de rua mesmo. Olhei para sua janela no primeiro andar e ao nível do olhar, protegido por grades e mais grades, e chamei seu nome.
- Lilian!! Lilian!! O som da minha voz pareceu ecoar por todas as ruas adjacentes, e um ar gélido tomou conta do pacato bairro de Niterói.
Vi um vulto masculino aparecer pela janela. Tio Márcio. Abriu a porta de casa, a grade do prédio e em seguida as grades que davam para a rua. Me pediu para entrar e, como se estivesse abrigando um procurado, olhou para todos os lados antes de trancar todas as grades atrás de mim enquanto eu entrava em sua casa. Senti um abraço apertado e afetuoso assim que entrei. Lilian, uma das minhas mais únicas, fiéis e melhores amigas.
- Nossa, que bom que você está bem! Mas não devia andar por aí de bobeira não Cecel..
- Eu sei. Mas eu tinha que saber o que estava acontecendo. Isso tá igual aos seriados de fim do mundo que a gente assiste..
- É! Exatamente isso que eu pensei. Viu pai!!! Respondeu ela, aliviada e esclarecida.
- Como estão as coisas por aqui? Está um silêncio absurdo lá por Santa Rosa e a Noronha não tem ninguém.
- Deve ser umas 7 da manhã Cecel, meu pai sempre acorda as seis todos os dias. O corpo dele já acostumou.
- Realmente, deve ser isso..
- Eu preciso te falar. Me interrompeu Lilian. Está muito estranho a noite por aqui, fui com meu pai ali na praia ontem assim que tudo ocorreu e no Rio aconteceu alguma coisa, vimos clarões, sons estranhos, como se fossem ecos..
- Nossa, era isso que eu temia. Sem a capital funcionando, isso aqui vai virar um caos logo, logo.
- Ouvimos sons estranhos à noite por aqui também. Pareciam... Ela relutou e olhou para o pai. Vi um certo indício de terror no seu olhar.
- A gente não sabe o que é. Completou Tio Marcio com voz imperativa. Não tem como fazer contato com ninguém. Você já fez compras para a sua família? Pode ficar complicado depois...
- Sim, sim... foi a primeira coisa que fiz.
- Cecel... acho melhor você ir pra casa.
- Ainda vou na praia, preciso achar alguma resposta. Estou de bike. Qualquer coisa eu corro igual um doido.
- Você pode passar aqui no caminho de volta? Não precisa entrar.. Só dizer se encontrar algo. Disse o sempre perspicaz Tio Marcio.
- Beleza. Fui me direcionando para a porta e acompanhado pela Lilian, seu pai logo atrás.
- Toma cuidado, tá Cecel? Disse com o carinho confortante que sempre tivera comigo, a Lilian.
Parti em direção a praia com a bicicleta. Fiz o caminho tradicional que sempre fazia quando ia para lá. Passando pelo lado do Campo de São Bento, na Lopes Trovão e indo por essa rua até a praia. O trânsito de pessoas e carros por esse caminho me agradava, sempre passava pela rua da Lilian e tomava o rumo, ou do Campo de São Bento, ou da Lopes Trovão. Hoje não era dia para me arriscar no Campo de São Bento.
Cheguei até a praia e o caos parecia maior, umas cinco pessoas com binóculos olhavam fixamente para a vista do Rio. Cada um isolado do outro, como que buscando sua própria solução individual. Vi dois amigos de cabeça branca conversando ao longe, uma conversa calorosa. Apontavam para a cidade do Rio de Janeiro com força, pareciam discutir mas sem raiva. Estavam debatendo. Niterói era a cidade no país com melhor vista para a cidade maravilhosa. Os moradores da praia deviam ter visto alguma coisa, seriam os primeiros atingidos por algo que viesse de lá. Duvido que qualquer exército usasse a Ponte Rio-Niterói para atravessar seus soldados. Usariam o mar, com certeza, usariam a Baía de Guanabara. Tinham muitos carros parados ali na praia, mas assim como na Noronha, postos ao lado da calçada para fazer um corredor livre no meio da rua, outros muitos carros em cima da calçada. Provavelmente os moradores endinheirados e preocupados com seus bens, de Icaraí, amontoaram seus carros todos juntos na calçada oposta a praia. Realmente não dava para rouba-los, ri comigo mesmo, estavam amontoados quase. E estranhamente bloqueavam a entrada para alguns edifícios.
Um eco grave e potente chegou à praia vindo do Rio. Dava pra sentir que vinha de lá. Olhei para todos ali e alguns correram de volta para algum lugar, os senhores foram se encaminhando para o prédio onde moravam logo em frente. Eu fiquei ainda assistindo atônito o nada que estava acontecendo diante do meu olhar, o som ecoava como um brado dos céus, até que...
Uma cinza pousou nas minhas mãos que não desgrudavam o guidão da bike. Olhei para o céu e o vi escurecendo, tingido de um cinza-médio. Era uma espécie de chuva de cinzas. Outro estrondo trazido pelo eco. Um som constante e ligeiramente agudo o acompanhou dessa vez, foi crescendo a volta, esse som agudo parecia vir de todos os lugares e o pânico me tomou. Eu não conseguia ver nada, nadinha, mas o horror em meu coração se tornou tão exato que não dava pra ignorar. Algo iria acontecer. Achei que ia demorar muito mais até que algum exercito atentasse contra meu país por causa de seus recursos naturais. Parece que alguém deu seu primeiro passo. Comecei a divagar sobre qualquer hipótese. Eu precisava daquilo, precisava me proteger de algo concreto. Nunca consegui não ter controle das coisas.
Disparei para casa, e no caminho de volta, mais pessoas na rua. Algumas já roubando peças de carro, muitas no supermercado saqueando silenciosamente. Eu tinha prometido a mim mesmo fazer umas comprinhas, mas enquanto eu relutava em parar a bicicleta, a própria velocidade dela me tirou o mercado da visão. A “chuva” ia chegar aqui, e eu não queria ser o que iria presenciar algum pânico começando. Pensei bem comigo, cheguei a conclusão que só uma explosão solar causaria tais incômodos, era o fim do mundo. Recomeçaríamos do zero. Meu Deus! Meu medo cresceu quando me dei conta de que estávamos acostumados a nos omitir sempre, nós, as pessoas boas. Nosso povo era assim... Só se levantava contra o mal quando sua própria vida diretamente estava em jogo. Eramos egoístas e medrosos, não iríamos sobreviver.
Em pleno dia, provavelmente umas nove da manha ainda, o céu já foi escurecendo como na praia. Não dava pra saber se o pessoal que morava ali no meu bairro tinha ouvido o estrondo. Se sim, as coisas começariam a parecer estranhas. Sim, seria o início do caos. Freei a bicicleta e parei. Precisava pensar em algo rápido! Talvez eu não pudesse me arriscar mais na rua tão livremente como hoje. Talvez aquele dia fosse decisivo na minha vida. Na vida de todos lá em casa, talvez até na dos vizinhos. Eu precisava pensar rápido. Tomar uma decisão. Foi ficando visivelmente mais escuro.
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