Unbreakable

7 Capítulo 6


Levo meu tempo apenas respirando e tentando me livrar das lágrimas, porque todos os amigos de meu irmão estão na sala e não quero que eles me vejam assim. Percebo que é uma batalha perdida, porque as lágrimas não vão parar de cair não importa o que eu faça. Porque Danny, o irmão que me acompanhou a vida toda e me manteve inteira quando meu pai se foi, jamais me abraçaria ou sorriria para mim novamente. E eu nunca mais reviraria os olhos para ele quando ele agisse como um idiota, porque ele não estaria mais aqui para agir como um idiota. E eu apenas não podia acreditar.

E então eu me viro, porque preciso chegar as escadas.

Todos me observam, a maioria curiosos, mas três dos olhares na sala parecem preocupados. Meus olhos fecham com os de EJ, e ele me lembra tanto do que acabei de perder que um soluço me escapa. Preciso subir as escadas antes que me atire de joelhos e fique aqui mesmo, mas não posso me mover. Porque enquanto encaro meu irmão de sangue, lembro de todos os momentos que passei com o único verdadeiro irmão que já tive.

–Annabelle?- Ele se levanta, caminhando para mim.- Anne, o que aconteceu?

Eu balanço a cabeça, as lágrimas pingando no chão aos meus pés, e corro escada acima. Ignoro quando ele continua a me chamar e explodo as portas abertas, puxando as malas para fora das prateleiras e jogando algumas roupas dentro. As lágrimas me atrapalham, molhando meu rosto e nublando minha visão, e quando finalmente consigo fechá-las, quase vinte minutos se passaram. Pergunto-me quanto tempo faz que Danny se foi. Meia hora, uma, duas? Talvez quatro ou cinco. Eu não tenho como saber.

Pego minha bolsa, checando se meus documentos estão todos aqui, e quando vejo que sim, arrasto a mala para fora do quarto. Descendo as escadas correndo, quase tropeçando nos degraus. Percebo que meu irmão mandou todos embora quando chego ao hall. Ele, Ethan e Seth ainda estão lá.

Eu paro quando os vejo e tenho certeza que pareço destruída.

–Hei, irmãzinha, o que aconteceu?- Eu sei que EJ está tentando ser delicado, mas a forma como ele me chama me irrita. Porque Danny me chamava assim também, e eu não quero lembrar que ele está morto.

–Não me chame assim- Vocifero, e ele me fita sem entender.

Ele abaixa o olhar, finalmente notando minha mala.

–Onde você pensa que está indo?- Seu tom sobe, e sei que ele está irritado, mas não me importo.

Não me importo com nada agora.

–Para o aeroporto, eu tenho um avião para pegar.

–Não, você não tem- Retruca.

Dirijo meu olhar irritado para Seth e Ethan, esperando que eles me deixem sozinha com meu irmão, não os quero aqui. Preferia que meu irmão tivesse os mandado embora. Arrastando as mãos pelo rosto, certifico-me de livrá-lo das lágrimas, preciso parecer séria e objetiva. E preciso me controlar. Eu sou uma Volturi, pelo amor de Deus, nós não demonstramos fraqueza. Nunca. Nós somos descendentes da realeza e me irmão é apenas alguém muito irritante. Poseidon está pulando em minhas pernas, mas o ignoro.

–Sim, eu tenho, e você vai sair do caminho antes que eu me irrite.- Ele não se move.- Estou falando sério, EJ, saia do caminho.

Seu queixo ergue e ele me encara com petulância.

–Ou o quê?- Provoca.- Você não vai fazer nada, Anne, eu te conheço.

O torpor dá lugar à raiva e eu largo minha mala no chão, errando por pouco meu cachorro, que se afasta de mim, magoado. Estou familiarizada com os estágios do luto, passei por eles menos de três meses atrás e aqui estão eles novamente, trazendo-me para baixo e ativando meu lado vadia.

Minha risada soa sádica em meus ouvidos e Ethan desvia o olhar.

–Você me conhece?– Ironizo, ainda rindo. Uma vez que começo, é quase impossível parar. Meu irmão parece desconfortável quando minhas palavras o atingem.- Sinto muito, mas você me conhece há pouco mais de dois meses, você não sabe nada sobre mim. Nada!

Eu respiro com dificuldade, a raiva fluindo por minhas veias.

–É bom ver que seu lado vadia já foi ativado- Uma voz conhecida proclama, e eu observo enquanto meu velho mordomo atravessa a soleira da porta, avaliando-me com o olhar.- Você está terrível.

Por alguns segundos, sou incapaz de encontrar minha voz.

–Grant.

Minha voz não passa de um sussurro angustiado e eu quero abraçá-lo, mas Grant odeia abraços. De qualquer forma, ele atravessa o hall e suas mãos descansam em meus ombros.

–Paolo me ligou, eu sinto muito pelo que aconteceu com o menino Marschall, Srta. Volturi.- Assinto, e pela primeira vez, ele me abraça. Dura apenas alguns segundos, mas era exatamente o que eu estava precisando.- Não se curve.- Ralha quando me solta e eu rapidamente endireito minha postura. Ele olha ao redor, lançando um olhar reprovativo para os três garotos.- Vejo que você estava dando um belo espetáculo para seu irmão.

EJ desperta de sua surpresa e franze a testa para o homem idoso que se mantém ao meu lado.

–E quem é você, velhote?

Os lábios de meu mordomo tremem e ele me lança um olhar.

–Suponho que este seja seu irmão, tão educado quanto eu esperava que fosse- Diz, porque Grant jamais resmunga. Seria inapropriado.- Estou aqui pela menina Volturi, Sr. Black. Não se preocupe, não haverão mais gritos.

Ele parece pronto para protestar, mas eu falo antes que ele possa irritar meu mordomo fanático por boas maneiras ainda mais.

–Você vai me levar para casa?

Grant sorri.

–Infelizmente, não, Srta. Volturi.- Responde.- Você e eu ainda não temos autorização para voltar para a Itália.

Meus ombros caem, mas com apenas um de seus olhares reprovativos, endireito-me.

–Espera, Srta. Volturi?– A testa de Seth está franzida.- Pensei que seu sobrenome fosse Marschall.

Meu mordomo sorri, provavelmente irritado com a interrupção de Seth.

–Certamente, meu Senhor.- Ironiza, mas os garotos não parecem perceber.- Erro meu.

Grant faz um sinal para que os garotos se retirem, e nós ficamos em silêncio até que a porta da frente se feche.

Eu suspiro, sentando-me em um dos degraus da escada enquanto Poseidon corre para meu colo. Sorrio tristemente para ele e coço suas orelhas.

–O que vamos fazer, Grant?

Meus olhos começam a se encher de água e ele me observa, há carinho em seu olhar, como se ele estivesse triste por me ver tão chateada. Claro, Grant conhecia Danny. Talvez quase tão bem quanto me conhecia, e por isso sabia o quanto sua morte me afetaria. Sua morte. Ah, Deus.

–Primeiramente, você vai limpar seu rosto e se recompor.- Sua voz soando autoritária.- E então nós vamos discutir política e economia até que se lembre quem você é. Depois disso, vou lembrar-lhe de suas obrigações e como é esperado que se comporte diante de uma situação como essa. E se ainda não estiver cansada depois disso, poderemos jogar xadrez.- Sorrio tristemente para ele, porque suas técnicas anti-luto nunca envolvem filmes, sorvetes e lágrimas. É sempre sobre me deixar o mais entediada possível e distraída o suficiente para que eu consiga dormir.

Assinto, mal conseguindo respirar quando me lembro das palavras de meu padrasto.

–Grant, Paolo disse que ele foi torturado.- As lágrimas escorrem novamente e eu escondo meu rosto contra o pelo de meu cachorro, que suspira com o contato. Acho que ele é capaz de perceber que estou triste, porque fica quietinho abaixo de mim. Deixo que veja minhas lágrimas quando volto a erguer a cabeça.- Meu irmão foi torturado até a morte, eu não vejo como a política ou a economia podem me fazer esquecer isso, Grant.

O olhar que ele me lança é altivo e reprovativo.

–Funcionou quando o helicóptero de seu pai explodiu- Retruca e eu me encolho, magoada. Com um suspiro, ele se senta ao meu lado.- Eu sei o que você quer fazer, Belle. Você provavelmente voltaria para a Itália, criaria uma fundação para vítimas da guerra e continuaria a sofrer em silêncio. Isso é o que você teria feito se não tivéssemos te trazido para Forks.- Ele escova meu cabelo para longe do meu rosto, tocando minha têmpora, como fazia quando eu era uma criança.- Mas você não pode salvar o mundo inteiro. Você não pode nem mesmo salvar a si mesma.

Balanço a cabeça.

–Não é justo, Grant. Só não é justo.- Resmungo, sentindo a desesperança infiltrar em minhas veias.- Por que alguém iria torturar Daniel?

–Ele era um soldado, menina Volturi, acredito que seja motivo suficiente.

Grant me faz seguir até meu quarto, onde permite que expresse minhas mágoas e chore até parecer que meus olhos explodirão. Quase adormeço diversas vezes, cansada e desesperada por um pouco de descanço, mas cada vez que uma memória surge em minha mente, o choro recomeça. Em alguns momentos, não consigo respirar e meu coração parece se partir em meu peito, e então Grant acaricia meu cabelo e me acalma, comentando vagamente sobre como está a produção dos vinhedos nessa época do ano. Da primeira vez, gritei para que ele calasse a boca até perder a voz, agora aceito suas palavras como distração, mesmo que elas não sejam muito eficientes em um primeiro momento.

É quase de manhã quando consigo me concentrar apenas em sua voz e deixo as lembranças para trás, Grant ainda está especulando sobra a colheita de uvas quando adormeço.

(...)

POV RENESMEE

Receber um telefonema de seu filho no meio da noite não é como eu esperava que minha noite romântica com Jacob terminasse. Para ser bem sincera, eu estava pronta para o segundo Round quando EJ ligou. Não que eu amasse meu filho menos, mas eu preferia que ele tivesse ligado meia hora mais tarde.

–Mãe, você precisa vir para casa.

Eu me sento na cama, ignorando o olhar quente que recebo de Jacob enquanto ele analisa meu torço nu.

–EJ, o que aconteceu?

–É Annabelle- Diz, e eu sinto sua respiração acelerada, o abrir e fechar de portas, como se ele estivesse correndo através dos cômodos da casa.- Ela recebeu uma ligação de um tal de Paolo e surtou, fez as malas e tudo. Mas aí um velho apareceu, acho que o nome dele é Grant, e a chamou de Srta. Volturi e disse que ela precisava ficar.- Ele faz uma pausa, suspirando.- Mãe, eu acho...acho que o irmão dela morreu.

Levanto-me em um pulo, o sentimento de culpa é tão forte que eu quase me curvo. Minha filha precisou de mim enquanto eu estava rolando na cama com Jacob, a mesma filha que eu venho ignorando por todos esses anos. Ela deveria me odiar. Jogo sua camisa na cara de meu marido, que parece entender o recado e começa a se arrumar.

–Onde ela está agora?- Há outra pausa.- Diga-me que ela não foi embora, EJ.- Imploro desesperada.

Um suspiro de alívio do outro lado da linha.

–Não, ela está aqui.- Sussurra.- Grant está com ela, Anne está dormindo.

É como se um peso fosse retirado de minhas costas, mas a urgência de chegar logo em casa ainda torce em meu estômago, o que quase me faz correr porta afora vestindo nada.

–Mantenha Grant aí, eu quero falar com ele.

E então desligo, vestindo-me rapidamente. Coloco minha camiseta virada e solto um gemido, o que faz com que Jacob se aproxime de mim, suas mãos grandes e fortes acariciando meus braços.

–Nessie, está tudo bem- Sussurra, daquela forma sexy e calmante que só ele consegue.- Annabelle vai ficar bem, eu tenho certeza que…

–Como você pode ter certeza de alguma coisa, Jake?- Sinto-me tão pequena que quero chorar e me esconder, mas minha filha precisa de mim. Jogo-me na cama, torcendo para que eu ainda consiga chegar em casa antes que ela acorde. Os olhos de meu marido ainda estão quentes quando ele me fita.- Eu não estava lá quando seu pai morreu e não estava lá agora.- Minha risada soa estranha em meus ouvidos.- Ela é minha filha, meu bebê, e eu a abandonei.- Lágrimas molham meu rosto.- E eu nem mesmo sei como consolar ela. Eu não sei do que ela gosta ou não gosta, eu não sei o que ela acha sobre a escola ou se ela está a fim de algum garoto. Eu não sei nada e eu...Ela nunca vai se aproximar de mim.

Ele senta ao meu lado, passando seus braços em minha volta e beijando meu cabelo. Seu calor me conforta, mas as lágrimas continuam a cair. Nada dói mais do que saber que eu não posso voltar atrás na decisão que tomei, sei que Annabelle está conosco agora e que eu finalmente tenho a chance de fazer tudo certo...mas não é real. Estou apenas brincando de casinha, fingindo que sou sua mãe até que o ano acabe, porque então ela voltará para a Itália e esquecerá de mim.

–Ela vai esquecer de mim quando voltar para a Itália- Sussurro e Jake me aperta em seus braços.

–Você não sabe disso- Responde, sua voz calma enquanto suas mãos acariciam meu cabelo.- Os próximos dias podem ser difíceis, mas Annabelle não parece o tipo de garota que deixa sua família para trás. E você é mãe dela, Ness. Eu tenho certeza que ela te ama e precisa de você agora mais do que nunca, então esteja lá para ela.

Eu sorrio, beijando-o logo em seguida.

–Você sempre sabe a coisa certa para dizer- Ele sorri para mim, suas covinhas aparecendo- Eu te amo.

Jacob puxa minha nuca e me beija, lenta e profundamente, adorando-me com seus lábios e eu sei que, não importa o que aconteça, sempre terei esse maravilhoso homem ao meu lado.